Carolina. 20 de Março 1995. Porto.

 

Começando pelo início: nascer a 20 de Março definiu-me, bem para lá daquilo que os signos possam dizer. Este é o dia em que ora o Inverno tem fim, ora a Primavera se inicia. A minha vida oscila assim, entre estas duas estações do ano quase antagónicas; uns dias frios e tristes, outros de céu limpo, cor e a esperança do que há para vir. O local do meu nascimento também diz alguma coisa sobre mim: nasci na freguesia mais antiga do Porto, o que faz de mim uma portuense de gema – e diria que tenho a garra típica dos nortenhos. Tenho muito orgulho em ser tripeira – e, já agora, portista de alma e coração.

Sou a caçoula da minha família e crescer no meio de três irmãos e pais muito mais velhos fez com que sempre fosse mais madura e responsável do que aquilo que a minha idade representava. Que outra forma teria de participar ativamente nas conversas e não ser desconsiderada!? Tornei-me numa esponja que absorvia tudo para, pouco depois, achar que já tinha direito a uma opinião. E a minha sorte é que, muitas vezes, me deixavam dá-la – e até me ouviam! Os almoços de família eram a base da nossa educação moral e depósito de cultura geral, com muitos e diversos apontamentos de opiniões divergentes em todos os temas fracturantes da sociedade – o que me deu um arcaboiço argumentativo para o resto da vida.

Fiz da fábrica do meu pai o meu ATL durante toda a minha escola primária. Cresci no meio de panos, amostras, máquinas muito grandes e barulhentas e sempre disse que esse seria o meu destino. O cheiro a óleo e a produtos químicos confundia-se com o meu, ao ponto de achar que era esse o meu perfume de eleição. Entretanto, mais crescida, decidi que queria ser engenheira informática.

Nunca tive muitos amigos. Nunca fui popular, nunca fui fixe, nunca fui concorrida – era sempre a que ficava para último para ser escolhida para as equipas de educação física, a que fazia par com o professor por sermos número ímpar ou que ia sozinha no autocarro, aquando de uma visita de estudo. Habituei-me a ser um loner desde pequena, a jogar monopólio sozinha e a aprender que nos livros também se arranja companhia.

Em 2009 começo a escrever em blogs e em 2011 nasce o Entre Parêntesis, numa altura da vida em que eu e os números estávamos de costas voltadas. Percebi que escrever era das coisas mais terapêuticas da minha vida e por isso pus a informática (e as ciências) para trás das costas e parti para as humanidades. Para além do espaço cibernético que ganhei, conheci muitas pessoas que me fizeram companhia durante horas a fio ao longo dos anos, acabando por me tornar muito menos solitária. Algumas dessas pessoas são, ainda hoje, minhas amigas.

Formei-me em Ciências da Comunicação, fugi do jornalismo a sete pés e especializei-me em Assessoria de Comunicação. Acabei o curso em 2016, tendo logo começado a trabalhar… num jornal. Ah, a ironia da vida! Este era especializado na área da têxtil e da moda e, nesse momento, percebi que a vida – para além de irónica – era uma pescadinha de rabo na boca.

Em 2018 decidi voltar às raízes e ajudar o meu pai nas fábricas, após a morte do meu avô. Deixei de ser só a menina dos trapos: agora era a menina das malhas. E, por lá, serei sempre menina, uma vez que trabalho com pessoas que me viram crescer desde que praticamente nasci. Reapaixonei-me por toda a área têxtil e percebi que ser industrial está no meu ADN – muito mais do que empresária, aquilo que gosto é da transformação dos materiais, das máquinas e da magia que é ver alguma coisa diferente a nascer.

Nesse mesmo ano, numa pós-graduação em Gestão de Empresas, conheci aquele que viria a ser o meu marido. Em 2019 saio de casa e em 2021 caso-me – e estou seriamente comprometida em ir passando pelas diferentes bodas de mãos dadas com o meu marido.

Em 2024 tornei-me cuidadora da minha irmã, tendo-a perdido em Outubro desse ano. Esse acontecimento, para além de ter sido o mais marcante e dramático da minha vida, fez com que mudasse profundamente a minha forma de estar e de viver a vida – e alterou também a minha maneira de encarar a morte. Medito e escrevo muito sobre o luto e a forma como lidamos com a doença, enquanto cuidadores – é algo a que não consigo fugir.

Tenho uma qualidade que é, simultaneamente, um defeito: sou boa a muita coisa mas não sou óptima a nada. Gosto de muita coisa, tenho jeito para algumas, mas não consigo entregar-me totalmente a uma só. Adoro receber correio (mas fico triste quando são contas para pagar), gosto de tirar fotografias (mas chateia-me editá-las e selecioná-las), gosto de ter o cabelo curto (mas só o tenho assim quando estou mais magrinha). Amo estar com os meus cães – sem “mas”. Tenho uma relação de yo-yo com o piano: aprendi a tocar com sete anos e deixei cerca de um ano depois; voltei a tocar aos 22 anos, tendo mesmo dando aulas, mas parei em 2024, quando no meu espaço mental já não sobrava espaço para teclas ou pautas.

No início dos meus “vintes” achei que o trabalho seria a minha vida: tinha nas mãos o desafio da minha vida – uma fábrica envelhecida mas linda – e sabia que seria feliz a tentar dar a volta ao negócio. Nunca, desde que nasci, planeei constituir família: não sonhava com um marido e muito menos com filhos. Até ao dia em que apareceu o Miguel.

A família sempre foi um dos meus principais pilares – para além de laços muito estreitos com os meus pais, irmãos e cunhados, já conto com seis sobrinhos – mas a adição de um marido na equação fez com que isto não fosse só um pilar. É “o” pilar – aquele que mais importa. Adoro a indústria, mas adoro mais ouvir a porta da entrada a abrir-se e saber que o meu marido está do outro lado.

Amo viajar – e adoro escrever sobre viagens. Adoro escrever de uma maneira geral. Adoro dias de sol, fazer praia e dar um mergulho no mar. Adoro feiras – semanais, medievais, tudo! Adoro doces, uma bolinha de berlim na praia, um pão com chouriço numa feira ou farturas numa romaria. Adoro costurar, procurar panos e fazer nascer aquilo que estou a visionar. Amo casacos! Gosto de ler. Gosto de trabalhar. Gosto de cozinhar.

Sou um bocadinho obcecada com os meus valores de moral e de ética. Tenho uns laivos de velho do restelo e a minha forma de estar e pensar faz com que muitos me gozem e digam que tenho uma velhinha de 78 anos a viver dentro de mim. Eu não me importo: sempre soube que tenho uma alma velha.

Passei tanto tempo a apreciar a minha própria companhia que, por vezes, ainda estranho ter muita gente à minha volta. Em miúda diziam que era bicho do buraco – e hoje talvez ainda o seja. Talvez um bicho do buraco já mais aprimorado, com as arestas limadas, simpático, que escreve e que tenta ocasionalmente sair da toca e ver aquilo que de bom a vida tem… mas que não deixa de ser, efetivamente, um bicho do buraco.