• Viver não é sempre uma escolha

    Há dias entrei num hipermercado e, à procura de umas canetas específicas, passei pela zona de livros e estacionário. Em destaque estava o livro de Joana Cruz, chamado “Escolhi Viver”. Não peguei nele, não li a contracapa, não vi o preço – percebi logo que se tratava de um resumo da passagem e vivência da radialista pelo (e com o) cancro. Este tipo de situações são o pior do luto – são triggers invisíveis que nos esmurram, esbofeteiam e pontapeiam do nada, numa situação completamente normal e corriqueira do dia-a-dia, mas que do nada se torna num autêntico ringue e em que temos de nos segurar para não ficarmos KO.

    Apesar de estar sem a minha irmã há quase ano e meio este tipo de situações ainda acontecem com frequência. Há coisas que vejo e que ouço que me deixam triste, outras mais sensível e ainda outras, como é o caso, que me deixam profundamente magoada e irritada. A culpa não é da Joana Cruz, que certamente só quis fazer o melhor possível para as pessoas que estão a passar por uma situação semelhante; mas chateia-me que ninguém que esteja numa situação como a minha nunca tenha dito “ah, espera, este título se calhar não é o melhor”. Sabem porquê?

    Porque a minha irmã escolheu viver. Escolheu viver até nos momentos em que estávamos a negociar a sua inevitável morte – em que pensámos a fundo como íamos gerir as coisas, até onde podíamos e devíamos ir. A minha irmã esticou a corda até ao limite – limites esses que alguns médicos nem sequer quiseram acompanhar. A minha irmã teve das atitudes mais positivas de sempre ao longo do seu tratamento e, mesmo nos paliativos, dizia sempre que só queria continuar viva.

    Escolher viver só é válido quando temos escolha. Admito que se escolha viver quando alguém que está desesperado, prestes a atirar-se de uma ponte, volte para trás; admito que se escolha viver quando se tem o último destino traçado e apareça um tratamento inovador que está disponível em cima da mesa, mesmo que implique medo e incerteza. Admito que se escolha viver todos os dias quando se acorda e se tente fazer o melhor por aquele dia. Mas não se escolhe viver quando o corpo não deixa que a vida continue. Não é uma escolha. Porque a minha irmã escolheu viver e morreu na mesma.

    Percebo a ideia que o livro quer provavelmente transmitir: que a positividade faz parte de um processo de cura, que contribuir positivamente para o tratamento – através de exercício, alimentação e outras directrizes saudáveis – ajuda muito a combater aquele pequeno demónio em forma de células que habita tantos corpos. Mas não é tudo. Há situações em que se luta, luta, luta e perde-se na mesma. Há situações em que se quer muito, muito, muito viver e morre-se na mesma. Há situações em se tenta tudo, tudo, tudo e o destino é aquele que mais se teme.

    Aquele título é injusto e mexe comigo porque faz acreditar que ficar curado do cancro é uma escolha – e isso é mentira. Porque se fosse verdade eu não estaria a escrever este texto e a minha irmã estaria aqui ao meu lado.

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  • Adeus 2025

    Vou começar este texto de balanço com a frase mais óbvia de sempre: 2025 foi a continuação de 2024. Parece linear – e é -, mas eu não queria que fosse. Queria rotura – queria o sol em vez da chuva, a luz em vez da escuridão, o bom em vez do mal. Aquilo que às vezes nos esquecemos quando o ano vira é que, na verdade, isto é somente uma continuação – não há quebras, não há paragens, não há interrupções. 

    É difícil imaginar um ano pior que o meu 2024 – e temos de ser justo: 2025 não o foi certamente! Mas foi uma continuação daquilo que vivi no ano anterior, como se fossem os dois misturados num só, numa espécie de novelo indissociável. Foi, verdadeiramente, um ano de luto. De introspeção profunda, de muita solidão, de gestão e pensamento, de reorganização – não daquelas que sabem bem porque renovam o ar e tornam o nosso mundo diferente, mas das que doem porque implicam mexer em partes internas que não estão só em ferida, mas que ainda sangram ativamente. Se em 2024 a dor advinha mais daquilo que via do que daquilo que sentia, este ano foi o contrário; o ano passado eu sentia que podia ser mais ativa e prática com a minha dor – podia ajudar, podia tratar, podia estar com a minha irmã em todos os momentos possíveis. Este ano só restei eu, o meu luto, e todas as pessoas em luto à minha volta – todos num processo com o mesmo nome mas que se revela de formas diferentes, todos eles difíceis de gerir, e ainda mais complicados de acudir quando nós próprios estamos a tentar manter-nos à tona da água. Eu mantive-me, mas não fui feliz. E, caraças, queria tanto!

    Sei, hoje, que carrego o peso de um trauma vivido na linha da frente e que não me abandona nunca. E se, por um lado, esta bagagem me dá perspetiva em relação à vida e à morte e ao modo como estas devem ser vividas, por outro persegue-me – em particular à noite, em sonhos temíveis e pesadelos terríveis. Raramente sei o que é acordar leve. E, na verdade, houve poucos dias deste ano em me deitei sem pesos na alma – a pressão diária que sinto e me imponho empurra-me para uma depressão a que fujo a sete pés e que trato o melhor que sei. Há dias em que, entre o acordar e o deitar, venço; outros em que simplesmente perco. E volto a tentar no dia seguinte. E a verdade é que tento ultrapassar os dias com um sorriso e um espírito positivo, tentando emanar calma e esperança para com o futuro; acho, até, que o consigo na maioria das vezes. Mas quando olho para trás percebo o esforço que faço e o peso que carrego, e sei que é demasiado; carrego comigo tudo o que vou acumulando e não consigo fazer um balanço feliz do que vivi.

    Vou entrar em 2026 sem vontade nenhuma de festejar o que quer que seja. Por mim, à meia noite, estaria a dormir – aquilo que o meu corpo pede e a mente precisa. De nada me adianta “matar” 2025 quando tenho plena consciência que o ano que vem a seguir é só mais uma continuação; que isto não é um gráfico que começa do zero, mas sim uma linha que já vem lá de trás e que mora no eixo negativo há demasiado tempo. Mas, enfim, o calendário – e a tradição, os costumes e os hábitos – assim nos obrigam. Por isso, para dois mil e vinte seis, só quero uma coisa: que a linha continue, a seu ritmo, a seguir em modo ascendente. E, idealmente, que bata no positivo em algum momento (gostava que rápido, qual gráfico em modo Speedy Gonzalez, mas sei que é pedir demasiado e que não se coaduna com o processo que estou a viver). Porque gostava de não me sentir com um peso de um elefante ao final do dia; porque gostava de só gerir uma fábrica e não ter de o fazer com tudo o resto à minha volta. No fundo, gostava de viver mais e de sobreviver menos. 

    Feliz 2026, queridos leitores. 

     

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  • O limite de caracteres não é coisa que me assiste

    Há dias uma antiga blogger – agora influencer das redes digitais que rendem alguma coisa – respondeu à pergunta de uma leitora que questionava o porquê de já não escrever mais no seu blog, um dos mais famosos do passado. Ela foi simples e perentória: os blogs estavam mortos, não fazia sentido cá continuar.

    E eu pensei: se é verdade que muito pouca gente ainda cá anda, também o é que não existe nenhuma plataforma que ofereça aquilo que esta oferece. Se aquilo que nos motiva é escrever, não há mais nenhum sítio onde o possamos fazer tão livremente como aqui. E se por um lado percebo que as influencers se tenham ajustado ao modelo de negócio que lhes rendia, obrigando-as a cingirem-se às imagens e vídeos, de preferência curtos, para corresponderem à expectativa dos cérebros com concentração de peixe que estão do outro lado do ecrã – por outro não percebo como é que partindo de uma narrativa de “gosto de escrever e é aqui que o posso fazer com liberdade” passamos todos para os instagrams e facebooks desta vida, onde o número de caracteres são contados (e a exposição que temos é inversamente proporcional ao número de palavras que escrevemos). Já nem falo do Twitter – ou X – onde nos obrigam a resumir tudo numa frase curta. Não é para mim.

    Não que tenha dificuldade em resumir as coisas – sou capaz de o fazer, e é o que acontece no dia a dia, onde não tenho vontade, tempo ou espaço para escrever e explicar as coisas conforme me apetece. Mas quando tenho um tema e reúno todas as condições para o desenvolver, sinto-me feliz por ter uma plataforma que agrega e aceita tudo aquilo que tenho para dizer. Onde não tenho de dividir os meus textos por cinco comentários ou onde, por ter letras a mais, os meus posts não são desvalorizados em relação aos restantes, feitos só com imagens. Gosto de escrever e gosto de ler o que escrevi – e a pessoa que fui – passado uns anos; gosto de ler sobre os sítios onde passei, de reviver o que já vivi. Posso não ter as visitas ou os comentários do passado, posso não ter a disponibilidade que tinha para escrever diária ou semanalmente, mas conheço o sitio onde a minha forma de estar se encaixa. Que é aqui. Mais ou menos morta, com mais ou menos afluência, mas é aqui.

    Este post foi motivado por um texto – que achava ser pequeno – que escrevi para o instagram, no dia 1 de Dezembro, acompanhando um vídeo da Christmas Band que integrei em 2023. O Instagram não só não me permitia publicar o texto todo como me obrigou a parti-lo em três (descrição mais dois comentários), mostrando-me claramente que não é o sítio certo para mim. Deixo, por isso, o texto e o vídeo aqui: 

     

    Há dias o meu pai mostrava-se feliz por a festa de Natal não ser este ano em nossa casa. “Assim têm menos trabalho”, argumentou. E eu, abanando a cabeça – num misto de pena, tristeza e frustração, disse-lhe simplesmente: “não percebes nada”.

    Porque aquilo que o meu pai chama de “trabalho” é o meu sinónimo de Natal. O meu Natal é um caminho, não é um dia. O Natal é fazer a árvore de três metros da minha mãe, suar enquanto subo e desço as escadas e ficar feliz ao fim de cinco horas quando dou a missão por terminada; o Natal é abrir um documento nas notas do telemóvel, algures em Setembro, com uma ideia de prenda, após uma inspiração qualquer dada por uma montra algures; o Natal é ir comprando uma bolina por semana durante o mês de Dezembro; o Natal é ter a agilidade mental de perceber como sentar trinta e tal pessoas em duas mesas; o Natal é acordar às 7h da manhã para ir fazer doces; o Natal é obrigar-me a pensar como se veste determinada pessoa, os seus gostos e personalidade de forma a arranjar-lhe um presente que lhe aqueça a alma; o Natal é babar-me a pensar que vou ter mais uma oportunidade de ouro para comer o cabrito da minha mãe; o Natal é luz quente e lareira a crepitar, casacos aconchegantes e feirinhas de rua; o Natal é ir racionando durante o mês os presentes para embrulhar, garantindo que consigo embrulhar prendas durante o maior número de dias possível; o Natal é ansiar pelas rabanadas e bolo-rei, pondo-lhes o dente por antecipação, e chegar ao dia 25 e não comer nenhum deles.

    Escrevo isto porque hoje, dia 1, é por excelência, aquele em desempacotamos tudo o que é Natal dos nossos arrumos. (Eu andei durante anos a tentar contrariar esta tendência e fui quase sempre mal sucedida – agora decoro tudo quando me apetece, uma autêntica vitória da vida adulta!) É o arranque oficial das festividades e, por isso, achei a data certa para partilhar algo que ainda não tinha visto a luz do dia: um vídeo da primeira e única atuação da nossa Christmas Band, nascida e cessada em 2023, altura em que alguns dos músicos da família se decidiram juntar e fazer uma surpresa musical aos restantes – por acaso, toda a banda era do meu núcleo familiar, o que tornou tudo isto ainda mais especial. O contexto já não era famoso – o ano estava a acabar e 2024 já nos cheirava a esturro, muito embora ainda não soubéssemos o quanto. Mas, ainda assim, juntamo-nos; mesmo quando as notícias más se iam adensando, nós mantínhamos os ensaios (afinal de contas, the show must go on).

    Aquele mês de Dezembro foi, de longe e desde que vivemos em casas separadas, aquele em que mais vezes me juntei com os meus irmãos – eram ensaios de fim de semana, ensaios de fim de dia, jantares, lanches e uma casa (a minha) sempre virada do avesso. Colunas em cima da pesa, pautas espalhadas no piano, cabos, amplificados e microfones; barulho, às vezes, a ultrapassar o limite das 22 horas – mas, ao menos, dávamos música aos vizinhos. Foi um mês atarefado, cheio, duro. Mas feliz.
    O concerto correu bem, a família não esperava e adorou cada momento, tal como nós. E, alinhando-se perfeitamente com o espírito natalício, aquilo que mais me recordo e que mais gostei não foi do concerto – foi do caminho. Tal e qual como no Natal, em que nunca dou por mim a ansiar pelo dia 25, que tantas e tantas vezes me defrauda. O fim não é aquilo que mais desfruto ou que mais almejo: aquilo de que realmente usufruo é do processo.

    Por isso, sabendo que o Natal é uma época delicada e que todas as razões para gostar ou não gostar dele são válidas, relembro que restam 23 dias para conseguirem usufruir deste caminho numa atmosfera que, queiramos ou não, é única no ano. O dia 25 não é o objectivo; é só um fim para viver o meio. E aproveitem o meio – nunca sabem quando é o vosso último concerto (ou de qualquer membro que faça tocar o vosso coração).

     

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  • Um ano depois

    O que mais me choca na morte é a vida que vem depois. Porque continua. Como é que continua? Como é que acordamos quando um dos nossos amores maiores falece? Como é que se continua a respirar, a trabalhar, a sorrir? Como é que se vive? Como é que tudo não pára naquele momento, se a nossa terra, aparentemente, parou de girar? Como é que os telejornais não comunicam aquele terramoto das nossas vidas, como é que não é visível a destruição à nossa volta, se a dor arrebentou na escala de Richter e não há nenhuma das nossas paredes que continue intacta?

    É um sentimento estranho porque, por um lado, queremos de facto que tudo pare – é isso que faz sentido. Mas, por outro, agarramo-nos à vida como uma uma tábua que flutua num mar de dor. Algo dentro de nós sabe que o sol vai nascer no dia seguinte e que temos de continuar. É um paradoxo que passa a viver dentro de nós: a vontade de parar com tudo isto, que deixou de fazer sentido; e a obrigação de viver, de saborear, de compensarmos com a nossa própria vivência a vida que o outro perdeu precocemente.

    Nem sequer sei bem como amanheceu no dia seguinte à morte da minha irmã e agora dou por mim, aqui e agora, 365 amanheceres depois. Como é que se passou um ano… eu não sei. Suponho que pelo segredo mais mal guardado da vida: ela continua. Independentemente de tudo. Nunca vai ser igual, nunca vai ser completa, mas continua. E não é por nos faltar uma peça do puzzle que vamos parar de o montar. Peça por peça, continuamos.  

    Continuamos, ignorando o óbvio. Continuamos, apesar do número de telefone não atribuído. Apesar da ausência no Natal. Apesar da foto no cemitério. Continuamos, porque a vida não pode morrer para todos. Aprendemos a abraçar os gatilhos invisíveis que a vida põem à nossa frente e que nos lembram os maus momentos, passamos a ouvir a voz de quem partiu e seus conselhos na nossa cabeça em vez de fazermos uma chamada telefónica e aceitamos o buraco negro que passou a viver no nosso coração mas que não pode, de forma nenhuma, absorver toda a luz que nos rodeia. O luto é uma pedra pesada, cuja massa e volume não se alteram: nós é que crescemos à sua volta e nos habituamos a ele.

    Passou um ano e a vida mudou. Com a morte da minha irmã acabou a instabilidade total dos dias, mas veio toda uma adaptação que ainda não está concluída. Sonho com a minha irmã dia-sim, dia-não – e penso nela todos os dias, a quase todas as horas; assim como penso na morte, na doença e no medo da vida com dor. Perdi receios, mas o trauma trouxe-me medos. Falo muito sobre ela e frequentemente sobre o que aconteceu o ano passado, mas há ainda muito por processar – talvez por isso tenha pedaços daquilo que um-dia-poderá-ser-um-livro já escrito sobre o processo de acompanhar alguém doente, sobre o luto e sobre o ponto de vista libertador de ver a morte como o último reduto. Mas o assunto é tão pesado e a tentação de o evitar é tão grande que duvido que alguém o queira sequer ler.

    Lamento muito que a viagem que fizemos naqueles oito meses tenha culminado assim. Tenho pena por ela, que não merecia e que sofreu demasiado, e por nós… que vimos a desgraça a acontecer, sem nada poder fazer. Há momentos em que não acredito que ela morreu, em que uma qualquer memória triste me atinge como um murro vindo do vazio. Esses são os dias piores. Porque no meu dia-a-dia está bem presente que não posso falar com ela, mas parece simplesmente que ela foi para um destino paradisíaco qualquer e se esqueceu do telemóvel. Talvez essa seja uma boa definição de céu. Espero que assim seja, e que ela esteja num dos seus incríveis bikinis, a apanhar sol em cima de uma espreguiçadeira, como tanto gostava; que esteja numa praia com o mar calmo e clarinho – e que espere por nós, um dia. 

    Tenho saudades, mana. Espero que estejas orgulhosa de mim.

     

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  • O meu carro AliExpressiano

    Há dias, enquanto estava nos meus serviços de Uber ao serviço de uma das minhas sobrinhas, ela liga-me pelo caminho e pergunta: “Tili, por acaso não tens desodorizante contigo?!”. E eu, já meio irritada – porque estava no carro e ela em casa, onde devia ter isso tipo de coisas – respondo: “Porque raio havia de ter desodorizante no carro?!”. Ao que ela responde: “Sei lá, Tili, tu tens tudo no carro…”. Não contra-argumentei. Não tenho tudo, tudo, tudo, pois preciso de espaço para pôr algumas coisas que possa ter de transportar – mas tenho de lhe dar crédito, pois tenho quase tudo.

    O meu próprio pai, o criador da narrativa de que “um carro deve ter tudo o que é essencial”, a pessoa que mais me influenciou e me ensinou que devemos sempre prevenir e antecipar tudo e mais um par de botas, teve no outro dia o desplante de me dizer que o meu carro parecia o de um “vendedor ambulante”. Lá no fundo, eu percebo: viu a aprendiz a superar o seu mestre – e isso dói. 

    Mas porquê este comentário, perguntam vós.  Porque o meu pai abriu a mala do meu carro – num dia particularmente mal organizado, devo dizer – e percebeu que eu não só tenho uma panóplia de artigos de sobrevivência como os tenho bem organizados. E como? Com as tralhas que compro no AliExpress. Eu tenho para mim que os chineses acham que eu sou a Marie Kondo portuguesa. Porque não é só para os carros. 80% das coisas que compro na plataforma deles são colmeias, organizadores, caixas e tudo o que possam imaginar para organizar a casa. E no meu carro não é diferente: tenho um saquinho para cada carregador elétrico, com velcro para se colar às paredes da mala; tenho uma rede, com velcro também, para que tudo o que está encostado aos lados da mala não caia; tenho todo um aparato organizacional preso nos bancos de trás que me proporciona uma quantidade infinita de bolsos e compartimentos para guardar tudo o que preciso; tenho um apoio para guardar os óculos de sol na paleta do pára-brisas. Enfim, tudo coisas úteis!

    Mas eu sei o que se estão a perguntar: o que raio é que tu guardas para precisares de tanta arrumação? Ora bem, por onde começar..? Talvez pela secção “acidentes-do-dia-a-dia”: temos papel higiénico, kit de costura, cuecas, meias, uma t-shirt e sapatilhas, assim como tampões e pensos e, claro, casaco, hoodie e cachecol quando o frio nos apanha desprevenidos. Seguindo para a secção “problemas-na-estrada”: kit de reparação de pneus, canivete suíço, lanterna para a cabeça, fita cola extra-forte. Na zona canina temos trelas, muito úteis quando vejo cães fugidos (nomeadamente quando são os meus). Depois passamos para a parte de saúde: temos kit de picada de abelhas e kit de primeiros socorros, com pequenos pensos e outras coisas que tais. Sazonalmente, existe também o saco da praia, que inclui duas toalhas finas, um bikini e pó de talco para tirar as areias antes de entrar no carro (este kit só entrou a uso este ano e ainda necessita de retoques, nomeadamente chinelos e uns calções para o meu marido). Falar ainda de alguns itens avulso, úteis em várias circunstâncias: sacos de plástico, tripé de fotografia, boné, guarda-chuva e toalhitas.

    Posto isto, já sei o que me vão dizer, naquela vozinha irritante e julgadora: ai, tanta coisa, mas ainda tens espaço sequer para entrares no carro?! Tenho, e muito, graças à minha organização de excelência e capacidade de descobrir tralhas inacreditáveis no Ali Express. E a vossa sorte é não precisarem de andar comigo, pois quem ataca os conteúdos da minha mala-preventiva fica logo sem direito de usufruir das suas capacidades. Os miúdos já sabem – gozam e, na próxima saída em que não trouxerem casaco (que são, basicamente, todas), ficam ao frio, sem poderem tocar num dos meus itens do kit de problemas do dia-a-dia. Os meus pais sempre me disseram: mulher prevenida vale por duas. E eu levei aquilo a sério e prefiro estar prevenida para uma família inteira.  

     

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  • Pôr termo ao scroll

    Não sei quanto a vós, mas eu debato-me diariamente com o scroll nas redes sociais. Sei e sinto que não me faz bem e pouco me acrescenta. Podia valer a pena pelas gargalhas que às vezes traz – mas, honestamente, são cada vez menos. Pelo contrário, parece que só vejo e oiço coisas que pouco que me acrescentam: estou cansada de ver animais abandonados e pedidos de adoção, cansada de ver notícias trágicas e a sua exploração até ao osso, cansada de publicidade e cremes milagrosos, cansada de vidas felizes e perfeitas e magras e equilibradas. O problema não é quem eu sigo nas redes sociais: é tudo aquilo que as redes me oferecem e que eu não peço. 

    E, como tal, tento encontrar mecanismos para fugir desse mar de coisas não pedidas. No trabalho tendo a fugir do computador e do telemóvel quando a concentração fica reduzida, passando de tarefas de secretária/computador para coisas que impliquem trabalhar com o corpo. E em casa refugio-me em tudo aquilo que tenho para fazer – embora, claro, seja inevitável pegar na alternativa mais fácil e tentadora que é o telemóvel.

    Isto era especialmente pior à noite, antes de dormir, em que “dava uma voltinha” antes de me recostar na almofada e começar a ler um livro. Essa voltinha podia ser curta, mas também podia demorar uma hora, tirar-me o sono e implantar-me na cabeça ideias que não me proporcionavam depois um sono reparador. Por isso, mais uma vez, arranjei uma forma para fugir a isto: a minha rotina de noite, quando chego à cama e antes de ligar o Kobo, é fazer uma série de joguinhos rápidos que encerram oficialmente o funcionamento do meu cérebro para o dia. Os meus preferidos do momento são o Strands, o Pips e o Termo (os dois primeiros são do New York Times (NYT), em inglês, e o último em português) – mas vou oscilando com outros também do jornal americano, que tem uma série de outros passatempos que gosto muito.

    O Strands consiste numa sopa de letras relativa a um tema, com o twist de não conhecermos as palavras que temos de procurar; o Pips, que é o jogo mais recente do NYT, obriga à gestão de peças de dominó consoante o número de pintinhas que o jogo pede numa determinada secção. Também gosto do Tiles, um jogo de semelhanças diferente do habitual mas igualmente visual e do Connections, em que nos são oferecidas 16 palavras e temos de perceber as quatro invíseis linhas condutoras (ou o tema, ou o filme, ou a música) que ligam quatro daquelas palavras. Este último, para mim, é o mais difícil – como o inglês não é a minha língua nativa tenho muitas vezes de procurar os significados das palavras, até porque, muitas vezes, tratam-se de palavras de uma qualquer gíria, tornando-se duplamente difícil; só o jogo quando tenho tempo e paciência. Até agora também ia jogando o Letter Boxed (um jogo de formação de palavras com 16 letras mas muitas limitações) mas, tal como as palavras cruzadas, passou a ser pago. Também podem jogar o Sudoku em três níveis distintos de dificuldade. Ainda têm outros dois jogos que não gosto tanto.

    O Termo, o meu jogo preferido, que faço muitas vezes em modo competição com o meu marido, é construído à luz do jogo mais popular do NYT – o Wordle. Mais uma vez, por não ser expert em inglês, evito jogar – mas adoro o Termo, que é uma perfeita versão portuguesa deste jogo. Consiste em descobrir palavras de cinco letras através de tentativa-erro numa fase inicial – mas que depois, com a informação de que letras fazem parte da palavra e percebendo o seu posicionamento, conseguimos chegar à palavra pretendida. Como bónus têm também o Dueto (descobrir duas palavras em simultâneo) e o Quarteto (quatro palavras ao mesmo tempo). 

    E, assim, sinto que consigo gastar os últimos cartuchos de energia da minha cabeça e fechar o dia sossegada, sem estímulos, comparações ou tragédias a vaguearem a minha mente. Experimentem!

     

    (não sei se, agora que leram o post até ao fim, perceberam o trocadilho do título – mas eu fiquei orgulhosa de mim própria!)

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  • No verão aproveita-se a vida

    O verão é o meu período oficial de FOMO (“fear of missing out” para os mais distraídos ou, em português, algo como “medo de perder alguma coisa importante”). Sempre foi – mas agora, com uma ideia muito mais clara da finitude da vida, está muito pior. Sempre me questionei sobre o conceito de “aproveitar a vida” – uma expressão que o meu pai usa muito e que me atormenta até aos dias de hoje porque… o que é aproveitar a vida? (Achava que já tinha escrito sobre isto aqui mas, se escrevi, não encontro o post). Sei o que é que nós, enquanto sociedade, achamos desse conceito – é partilhar a vida com família e amigos, comer bem, ir beber uns copos, ver espetáculos, viajar. Mas e se não nos enquadrarmos nisto? Será que ficar a ver Netflix encostada ao meu marido não é aproveitar a vida? E ficar em casa durante as férias, também não é aproveitar – ou só estando fora é que aproveitamos verdadeiramente?

    A questão é que o verão, com os seus dias mais longos e soalheiros, é propícia para que tudo isto seja levado ao expoente máximo. A certa altura, em meados de Julho, dei por mim exausta: já não jantava em casa há não sei quantos dias, saía do trabalho e ia para a praia porque o dia tinha estado extraordinário e queria aproveitar nem que fosse um bocadinho, fui a todas as festas da cidade da periferia e, claro, roubei o descapotável do meu pai um sem fim de dias para poder aproveitar as noites de verão. Essas, sim, são o epíteto da estação e do meu FOMO. O meu pai sempre me disse que as noites quentes e sem vento são raras no norte do país; sempre que estava assim, íamos passear, jantar fora ou, no limite, jantávamos no alpendre de nossa casa. Porque verdadeiras noites de verão não se desperdiçam (mas, lá está, que conceito é este de “desperdiçar noites”?). Mas este ano, felizmente, houve muitas. Houves noites verdadeiramente extraordinárias, para serem vividas de manga curta, calções e chinelo de meter o dedo. Este ano não foram raras – e cheguei a um ponto em que só queria ir para casa, aninhar e estar no meu ninho sossegada. Mas e se na noite seguinte já não estivesse assim? E se aquela fosse a última noite boa deste verão? E lá ia eu, “aproveitar”.

    E a verdade é que esta coisa de querer espremer o sumo da vida a toda a força tem muito que se lhe diga. Eu não sei o que é aproveitar – mas sei que o meu conceito não bate com o de muita gente. Não me encontram em jantares cheios de amigos, porque não os tenho; não me vão ver num bar ou discoteca, porque não os frequento; hoje em dia dificilmente vou a concertos, porque parece que me desabituei de tal coisa. E tenho fome de viver, medo de não ter tempo de desfrutar, mas tudo culmina num misto de cansaço, de frustração e de expectativas defraudadas com o qual não estou a saber lidar muito bem. 

    É igual com as férias: namoramo-las durante tanto tempo, desejamo-las ardentemente – mas e depois? Quando chega o momento parece que não consigo vivê-las como era suposto. Não me sinto descansada como queria, não me sinto feliz como devia ou satisfeita como seria de esperar. Traço objetivos e não os concretizo. Peço paz e não a tenho. Quero descanso e a minha mente não me deixa tê-la. Penso demais, como sempre. 

    E agora a rádio diz que o regresso às aulas já começou, que os jantares longos com a família já acabaram e que o verão terminou. E mesmo que eu faça ouvidos moucos, basta olhar para o calendário: hoje é dia 1 de Setembro e, mesmo que o verão só chegue ao fim oficialmente daqui a vinte dias, a promessa daquilo que seria a minha estação preferida já caiu por terra. Agora só para o ano. (E o medo estúpido de não chegar até para o ano?).

    Ate lá, vou ruminando sobre o que vivi e tentar transformar aquilo que agora já são memórias em algo melhor do que foi. E agora, com tempo até ao ano que vem, pode ser que eu consiga aprender o que é “aproveitar a vida”. Ou, quiçá, a ter expectativas ajustadas sobre aquilo que gosto e a forma como gosto de desfrutar os meus dias. E, no limite, a aprender a viver em paz com isso.

     

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  • Ser tia

    Ser tia/o é dos graus de parentesco com mais amplitude no que diz respeito à proximidade da relação. Sabemos o que esperar dos pais, dos irmãos e dos avós… Mas os tios são uma incógnita definida, provavelmente, pela ligação dos irmãos, da cultura de cada família e da personalidade de cada um. Há aqueles que são família chegada, outros que são conhecidos, outros até meros estranhos de quem só sabemos o nome e vemos em casamentos e funerais. A relação com os meus tios é muito boa – mas, com os meus sobrinhos, sempre ambicionei subir um degrau na escada do relacionamento hierárquico e ser mais para eles. Mais do que a minha vontade, ajuda muito a relação muito próxima com os meus irmãos e, claro, a parca diferença de idades entre mim e os miúdos – 10 anos para o mais velho, 20 anos para o mais novo.

    Hoje já são todos crescidos, já não tenho bebés para cuidar. Mas lembro-me de todos bem pequeninos, de os agarrar no colo e de os sentir como meus. Principalmente os da minha irmã, por culpa da relação tão próxima que tínhamos. Quando a Clara e o Afonso estavam para nascer, chorei durante uma hora, numa espécie de luto com a relação com a minha irmã; achei que, naquele momento, a nossa relação como eu a conhecia iria acabar. A junção de dois bebés na equação assustava-me, mas a verdade é que, sim, deixamos de ser só as duas – mas passamos a ser quatro, naquela bolha tão nossa de um amor tão próprio e profundo. Fui a primeira a dar o biberão à Clara, com menos de uma hora de vida e perdi a conta às vezes que embalei o Afonso nos meus braços, ao som da minha voz enquanto lhe cantava o “elefante trombilante”. Os gêmeos saíram da barriga da minha irmã, mas eram meus também.

    Há dois anos vi um dos meus sobrinhos a acabar o secundário e chorei de alegria. Há dias, a ver estes dois na cerimónia de graduação, as lágrimas também correram – de alegria, saudade, de tudo. As circunstâncias não são aquelas que queríamos – e são duras, muito duras. Ninguém substitui ninguém, mas estou aqui para lhes dar a mão, tal como quando deram os primeiros passos e precisavam de auxílio. Não diria que a tragédia nos uniu mais: simplesmente demos as mãos com mais força.

    Sei que, normalmente, a expressão “ficar para tia” é usada com algum desprezo, como um reflexo de quem não teve filhos e ficou com o que havia. Pois que o que havia era, e é, maravilhoso; e eu, a tia, só quero ser mais do que “uma tia”. Quero ser a melhor da minha liga. Não quero ser tia – quero ser lembrada como a que foi tia, mãe, irmã, amiga, bombeira, enfermeira, polícia e conselheira. Não sou só tia – sou Tili. Uma Tili orgulhosa dos seus rebentos já-não-tão-pequeninos.

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