Há dias uma antiga blogger – agora influencer das redes digitais que rendem alguma coisa – respondeu à pergunta de uma leitora que questionava o porquê de já não escrever mais no seu blog, um dos mais famosos do passado. Ela foi simples e perentória: os blogs estavam mortos, não fazia sentido cá continuar.

E eu pensei: se é verdade que muito pouca gente ainda cá anda, também o é que não existe nenhuma plataforma que ofereça aquilo que esta oferece. Se aquilo que nos motiva é escrever, não há mais nenhum sítio onde o possamos fazer tão livremente como aqui. E se por um lado percebo que as influencers se tenham ajustado ao modelo de negócio que lhes rendia, obrigando-as a cingirem-se às imagens e vídeos, de preferência curtos, para corresponderem à expectativa dos cérebros com concentração de peixe que estão do outro lado do ecrã – por outro não percebo como é que partindo de uma narrativa de “gosto de escrever e é aqui que o posso fazer com liberdade” passamos todos para os instagrams e facebooks desta vida, onde o número de caracteres são contados (e a exposição que temos é inversamente proporcional ao número de palavras que escrevemos). Já nem falo do Twitter – ou X – onde nos obrigam a resumir tudo numa frase curta. Não é para mim.

Não que tenha dificuldade em resumir as coisas – sou capaz de o fazer, e é o que acontece no dia a dia, onde não tenho vontade, tempo ou espaço para escrever e explicar as coisas conforme me apetece. Mas quando tenho um tema e reúno todas as condições para o desenvolver, sinto-me feliz por ter uma plataforma que agrega e aceita tudo aquilo que tenho para dizer. Onde não tenho de dividir os meus textos por cinco comentários ou onde, por ter letras a mais, os meus posts não são desvalorizados em relação aos restantes, feitos só com imagens. Gosto de escrever e gosto de ler o que escrevi – e a pessoa que fui – passado uns anos; gosto de ler sobre os sítios onde passei, de reviver o que já vivi. Posso não ter as visitas ou os comentários do passado, posso não ter a disponibilidade que tinha para escrever diária ou semanalmente, mas conheço o sitio onde a minha forma de estar se encaixa. Que é aqui. Mais ou menos morta, com mais ou menos afluência, mas é aqui.

Este post foi motivado por um texto – que achava ser pequeno – que escrevi para o instagram, no dia 1 de Dezembro, acompanhando um vídeo da Christmas Band que integrei em 2023. O Instagram não só não me permitia publicar o texto todo como me obrigou a parti-lo em três (descrição mais dois comentários), mostrando-me claramente que não é o sítio certo para mim. Deixo, por isso, o texto e o vídeo aqui: 

 

Há dias o meu pai mostrava-se feliz por a festa de Natal não ser este ano em nossa casa. “Assim têm menos trabalho”, argumentou. E eu, abanando a cabeça – num misto de pena, tristeza e frustração, disse-lhe simplesmente: “não percebes nada”.

Porque aquilo que o meu pai chama de “trabalho” é o meu sinónimo de Natal. O meu Natal é um caminho, não é um dia. O Natal é fazer a árvore de três metros da minha mãe, suar enquanto subo e desço as escadas e ficar feliz ao fim de cinco horas quando dou a missão por terminada; o Natal é abrir um documento nas notas do telemóvel, algures em Setembro, com uma ideia de prenda, após uma inspiração qualquer dada por uma montra algures; o Natal é ir comprando uma bolina por semana durante o mês de Dezembro; o Natal é ter a agilidade mental de perceber como sentar trinta e tal pessoas em duas mesas; o Natal é acordar às 7h da manhã para ir fazer doces; o Natal é obrigar-me a pensar como se veste determinada pessoa, os seus gostos e personalidade de forma a arranjar-lhe um presente que lhe aqueça a alma; o Natal é babar-me a pensar que vou ter mais uma oportunidade de ouro para comer o cabrito da minha mãe; o Natal é luz quente e lareira a crepitar, casacos aconchegantes e feirinhas de rua; o Natal é ir racionando durante o mês os presentes para embrulhar, garantindo que consigo embrulhar prendas durante o maior número de dias possível; o Natal é ansiar pelas rabanadas e bolo-rei, pondo-lhes o dente por antecipação, e chegar ao dia 25 e não comer nenhum deles.

Escrevo isto porque hoje, dia 1, é por excelência, aquele em desempacotamos tudo o que é Natal dos nossos arrumos. (Eu andei durante anos a tentar contrariar esta tendência e fui quase sempre mal sucedida – agora decoro tudo quando me apetece, uma autêntica vitória da vida adulta!) É o arranque oficial das festividades e, por isso, achei a data certa para partilhar algo que ainda não tinha visto a luz do dia: um vídeo da primeira e única atuação da nossa Christmas Band, nascida e cessada em 2023, altura em que alguns dos músicos da família se decidiram juntar e fazer uma surpresa musical aos restantes – por acaso, toda a banda era do meu núcleo familiar, o que tornou tudo isto ainda mais especial. O contexto já não era famoso – o ano estava a acabar e 2024 já nos cheirava a esturro, muito embora ainda não soubéssemos o quanto. Mas, ainda assim, juntamo-nos; mesmo quando as notícias más se iam adensando, nós mantínhamos os ensaios (afinal de contas, the show must go on).

Aquele mês de Dezembro foi, de longe e desde que vivemos em casas separadas, aquele em que mais vezes me juntei com os meus irmãos – eram ensaios de fim de semana, ensaios de fim de dia, jantares, lanches e uma casa (a minha) sempre virada do avesso. Colunas em cima da pesa, pautas espalhadas no piano, cabos, amplificados e microfones; barulho, às vezes, a ultrapassar o limite das 22 horas – mas, ao menos, dávamos música aos vizinhos. Foi um mês atarefado, cheio, duro. Mas feliz.
O concerto correu bem, a família não esperava e adorou cada momento, tal como nós. E, alinhando-se perfeitamente com o espírito natalício, aquilo que mais me recordo e que mais gostei não foi do concerto – foi do caminho. Tal e qual como no Natal, em que nunca dou por mim a ansiar pelo dia 25, que tantas e tantas vezes me defrauda. O fim não é aquilo que mais desfruto ou que mais almejo: aquilo de que realmente usufruo é do processo.

Por isso, sabendo que o Natal é uma época delicada e que todas as razões para gostar ou não gostar dele são válidas, relembro que restam 23 dias para conseguirem usufruir deste caminho numa atmosfera que, queiramos ou não, é única no ano. O dia 25 não é o objectivo; é só um fim para viver o meio. E aproveitem o meio – nunca sabem quando é o vosso último concerto (ou de qualquer membro que faça tocar o vosso coração).

 


7 comentários a “O limite de caracteres não é coisa que me assiste”

  1. Avatar de José da Xã

    Boa tarde,

    assino por baixo este postal. Os blogues podem estar moribundos mas ainda existem.
    Não imagino por quanto tempo.
    Eu teimo e teimarei até que tudo deixe de existir. à custa da blogosfera já editei três livros, já para não falar dos desafios de Natal como pode ver aqui https://ladosab.blogs.sapo.pt/os-contos-de-natal-de-2025-2038179´
    Gosto de gente teimosa. Borá lá continuar a escrever…
    Ehehehehehehe!

  2. Avatar de Inês

    Que saudades de ler os teus posts. É verdade, não há nada que substitua os blogs.

  3. Avatar de
    Anónimo

    Este foi o Natal dos Natais. Impossível repetir. 

    Amaria

  4. Avatar de Daniel Marques

    Revejo-me em cada vírgula deste texto. Há uma certa paz em saber que não estamos sozinhos nesta “clandestinidade” digital.

    Mantenho um blogue (A Minha Honda) onde escrevo sobre as minhas voltas de scooter pela cidade de Braga e, curiosamente, sinto que o blogue é para a escrita o que a mota é para o trânsito: um espaço de liberdade onde o ritmo é definido por mim, e não pelo fluxo imposto pelos outros.

    As redes sociais transformaram a escrita num exercício de “fast food”, onde tudo tem de ser mastigado em segundos. Mas há coisas — sensações, curvas, luzes de fim de tarde ou reflexões mais densas — que não cabem na legenda de uma foto ou num vídeo de 15 segundos. Escrever num blogue em 2025 é quase um ato político; é dizer que o nosso pensamento não tem de ser cortado para caber no molde de um “cérebro de peixe”.

    Tal como dizes, talvez os blogues estejam “mortos” para o mercado e para o negócio, mas continuam bem vivos para a memória e para a identidade. Prefiro mil vezes ser lido por cinco pessoas que procuram o detalhe do que por mil que apenas fazem “scroll” sem ver nada.

    Continua a escrever. O limite de caracteres é uma gaiola, e este espaço é o nosso horizonte aberto.

  5. Avatar de Mia Ressu **

    Gostei do que li, e com  o qual compactuo a 100%.  Essas “supostas” influencers”  deixam muito a desejar, inclusive expondo videos de crianças, filhos ou família não interessa, mas que nem sequer puderam dar opinião, sobre se querem ou não ser expostas, por interesses financeiros.
    A única “rede” social que tenho é esta, se tenho ou não comentários não é relevante, embora seja
    grata a quem faz o favor de os fazer. O mais importante é que aqui posso ser eu, quando expresso,
    o que gosto e sinto. Cumprimentos e Votos de um 2026 pleno de momentos bons e saudáveis. 

  6. Avatar de s o s
    s o s

    portanto, é o blog o lugar com profundidade, diferente da superficialidade de outras moradas. 
    Ri com o “comer o cabrito da mae”, mas ” o esturro ” apesar de alinhado com os cozinhados soou bue estranho. 
    Perfeitamente compreensivel a narrativa do “caminho”, valida tambem para mais iniciativas.  Ainda assim revela uma tempestade ( pois boa ) de afazeres. 
    Boas festas.

  7. Avatar de Sofia

    Amém!

    Posso quanto muito mudar de plataforma, mas podem arrancar o meu blogue das minhas mãos frias e putrefactas. 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *