O verão é o meu período oficial de FOMO (“fear of missing out” para os mais distraídos ou, em português, algo como “medo de perder alguma coisa importante”). Sempre foi – mas agora, com uma ideia muito mais clara da finitude da vida, está muito pior. Sempre me questionei sobre o conceito de “aproveitar a vida” – uma expressão que o meu pai usa muito e que me atormenta até aos dias de hoje porque… o que é aproveitar a vida? (Achava que já tinha escrito sobre isto aqui mas, se escrevi, não encontro o post). Sei o que é que nós, enquanto sociedade, achamos desse conceito – é partilhar a vida com família e amigos, comer bem, ir beber uns copos, ver espetáculos, viajar. Mas e se não nos enquadrarmos nisto? Será que ficar a ver Netflix encostada ao meu marido não é aproveitar a vida? E ficar em casa durante as férias, também não é aproveitar – ou só estando fora é que aproveitamos verdadeiramente?

A questão é que o verão, com os seus dias mais longos e soalheiros, é propícia para que tudo isto seja levado ao expoente máximo. A certa altura, em meados de Julho, dei por mim exausta: já não jantava em casa há não sei quantos dias, saía do trabalho e ia para a praia porque o dia tinha estado extraordinário e queria aproveitar nem que fosse um bocadinho, fui a todas as festas da cidade da periferia e, claro, roubei o descapotável do meu pai um sem fim de dias para poder aproveitar as noites de verão. Essas, sim, são o epíteto da estação e do meu FOMO. O meu pai sempre me disse que as noites quentes e sem vento são raras no norte do país; sempre que estava assim, íamos passear, jantar fora ou, no limite, jantávamos no alpendre de nossa casa. Porque verdadeiras noites de verão não se desperdiçam (mas, lá está, que conceito é este de “desperdiçar noites”?). Mas este ano, felizmente, houve muitas. Houves noites verdadeiramente extraordinárias, para serem vividas de manga curta, calções e chinelo de meter o dedo. Este ano não foram raras – e cheguei a um ponto em que só queria ir para casa, aninhar e estar no meu ninho sossegada. Mas e se na noite seguinte já não estivesse assim? E se aquela fosse a última noite boa deste verão? E lá ia eu, “aproveitar”.

E a verdade é que esta coisa de querer espremer o sumo da vida a toda a força tem muito que se lhe diga. Eu não sei o que é aproveitar – mas sei que o meu conceito não bate com o de muita gente. Não me encontram em jantares cheios de amigos, porque não os tenho; não me vão ver num bar ou discoteca, porque não os frequento; hoje em dia dificilmente vou a concertos, porque parece que me desabituei de tal coisa. E tenho fome de viver, medo de não ter tempo de desfrutar, mas tudo culmina num misto de cansaço, de frustração e de expectativas defraudadas com o qual não estou a saber lidar muito bem. 

É igual com as férias: namoramo-las durante tanto tempo, desejamo-las ardentemente – mas e depois? Quando chega o momento parece que não consigo vivê-las como era suposto. Não me sinto descansada como queria, não me sinto feliz como devia ou satisfeita como seria de esperar. Traço objetivos e não os concretizo. Peço paz e não a tenho. Quero descanso e a minha mente não me deixa tê-la. Penso demais, como sempre. 

E agora a rádio diz que o regresso às aulas já começou, que os jantares longos com a família já acabaram e que o verão terminou. E mesmo que eu faça ouvidos moucos, basta olhar para o calendário: hoje é dia 1 de Setembro e, mesmo que o verão só chegue ao fim oficialmente daqui a vinte dias, a promessa daquilo que seria a minha estação preferida já caiu por terra. Agora só para o ano. (E o medo estúpido de não chegar até para o ano?).

Ate lá, vou ruminando sobre o que vivi e tentar transformar aquilo que agora já são memórias em algo melhor do que foi. E agora, com tempo até ao ano que vem, pode ser que eu consiga aprender o que é “aproveitar a vida”. Ou, quiçá, a ter expectativas ajustadas sobre aquilo que gosto e a forma como gosto de desfrutar os meus dias. E, no limite, a aprender a viver em paz com isso.

 

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6 comentários a “No verão aproveita-se a vida”

  1. Avatar de Inês

    Tão bom voltar a ler um post neste blog 🙂 Acho que “aproveitar a vida” varia muito de pessoa para pessoa, mas para mim, é cada vez mais gastar tempo a fazer as coisas que gosto, seja passar tempo com quem gosto, ler um livro, viajar, enfim, encaixar coisas boas no dia a dia corrido da vida 

  2. Avatar de Isabel P.
    Isabel P.

    Acho que “aproveitar a vida” também pode ser ficar no sofá a ver Netflix, sim. E estar em casa também. Eu tenho alturas em que me sinto bastante social e tento aproveitar o tempo a sair e a estar com pessoas e outras em que o meu maior prazer é estar comigo em casa a ler ou simplesmente a existir.  

  3. Avatar de
    Anónimo

    Belo post. Um conceito que vai variar consoante cada pessoa.
    Para mim aproveitar a vida também é uma coisa tão simples como ir tomar um café na aldeia e ler o jornal logo pela manhã! apenas possível em tempo de férias.
    Abraço.
    https://rabiscosdestorias.blogspot.com

  4. Avatar de Laura
    Laura

    Tive precisamente essa conversa em julho com umas amigas. Uma delas está a passar um mau bocado com algumas situações (leves) de saúde + crise de idade e etc. E eu levei a questão para cima da mesa de porque é que “aproveitar a vida” tem de ser estar com a adrenalina no máximo? Eu não estou a aproveitar a vida quando estou no sofá? Na minha opinião, sim, se eu estiver em paz com aquela “atividade”, naquele momento. Acho que quando temos essa vontade de extrema socialização e agitação e não a temas, isso causa desconforto e a sensação de não aproveitar. Agora, para mim, aproveitar a vida é também ter o luxo de me poder deitar às 22h porque tenho sono e não tenho mais tarefas pendentes. Há quem não possa e queira muito. Enfim, acho que o FOMO é real e é muito imposto. Aproveitemos como queremos, na medidade do que nos faz sentir bem com a nossa realidade.

  5. Avatar de Carolina

    Obrigada Inês, sempre tão querida  a parte boa das férias é que tenho uns seis posts prontos! Yey! 

  6. Avatar de Joao
    Joao

    Não. Aproveita se a vida absorvendo o devir e dando lhe um cunho de consciência e imutabilidade no carácter. Toda a estação tem o sem charme. Existir nelas é aceitar que cada gota de chuva, cada raio de sol e cada brisa teem uma função. Alberto Caeiro está aqui. 

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