Já há algum tempo que percebi que de cada vez que conheço alguém novo posso ser, também eu, uma pessoa diferente. E a liberdade de estar solta de preconceitos, de ideias predefinidas que os outros podem ter de nós é maravilhosa, porque podemos optar por sermos quem quisermos, a melhor versão de nós próprios. 

Tenho noção de que este talvez seja um conceito difícil de perceber, mas eu vou tentar explicar. Acho que todos interpretamos papéis na sociedade e eles são todos diferentes consoante quem nos rodeia: eu não sou com os meus pais a mesma pessoa que sou com os meus amigos, nem estou no trabalho como estou no ginásio. São posturas diferentes, personagens construídas ao longo do tempo – e que, como tudo o que é construído, tem de ter a sua coerência. O que quero dizer é que, por exemplo, eu não danço em frente dos meus amigos – porque eles passaram comigo a fase em que eu tive aulas de dança, em que esse era o meu momento mais embaraçoso da semana, e presenciaram a altura em que eu disse “nunca mais na vida danço!”. Assim como não bebo uma Somersby, nem que me apeteça, em frente aos meus colegas de trabalho, porque já afirmei, veementemente, que não toco em álcool. Também não saio à noite, mesmo que esteja num mood especial, porque já habituei os outros a que esse não é um hábito meu. E o mesmo se pode dizer em relação a tantos, tantos outros comportamentos a que habituamos os outros e que chega a um ponto em que não é fácil contrariar.

Eu acho que esse tipo de “regras” se criam porque, de facto, nós as impomos a nós próprios: eu, de facto, não danço, não bebo álcool, não saio à noite. Mas pode haver uma noite em que me apetece fazer tudo isso, mas não o faço, porque me custa sair daquele padrão que criei para mim; porque sei que quem me conhece vai olhar e pensar que eu não estou bem.

Não se tratam só de atitudes ou atividades: passa também por humores, estados de espírito, traços de personalidade. Lembro-me perfeitamente de estar na fisioterapia, numa das piores fases da minha vida, e o fisioterapeuta me dizer “lá vem a miúda sorridente”. E, no entanto, eu estava a cozinhar uma depressão. Aquela era a minha personagem na fisioterapia: feliz, comunicativa, faladora, esperançosa. O choro deixava-o para as viagens de carro e antes de adormecer. E foi aí que eu percebi que, em circunstâncias diferentes, podia ser quem eu quisesse, apenas com uma condição: tinha de ser coerente, porque há que manter um comportamento constante. E é assim que se constroem facetas.

Os meus pais são as pessoas que me conhecem melhor. É aqui em casa que eu me deixo ser a versão mais pura de mim mesma – que, por acaso, é das versões que menos gosto, porque carrega sempre uma carga demasiado negativa. Apesar de achar sempre que os outros têm uma ideia errada de mim – penso que amigos e restante família me acham severa e sisuda, quando na realidade até consigo ser bem divertida – tenho a noção de que no dia-a-dia, tal como acontecia na fisioterapia, não tenho uma aura assim tão negra. Posso ter dias piores – e eles distinguem-se à distância – mas, de uma forma geral, sou uma miúda bem disposta pelos lugares por onde circulo: no trabalho, no ginásio, no piano.

Não sei porquê que no final do dia me cai tudo em cima. Acho que é um problema de núcleo: o pessimismo, a negatividade e a depressão fazem parte do meu íntimo, daquilo que sou. Mas viver um dia-a-dia positivo ajuda. E não sei até que ponto é que as facetas que vamos encarando não se tornam, de facto, em nós próprios. É lógico que todas as personagens que interpretamos ao longo do dia (e da vida) também fazem parte de nós, mas é difícil distinguir qual é a mais pura delas todas, aquela que se aproxima mais da versão menos trabalhada de nós próprios. Não seremos um mix delas todas?

Eu, por vezes, gostava de mudar a ideia que as pessoas que me conhecem há muito tempo têm de mim. Porque acredito que no meio de tantas facetas e mudanças (que as há, inevitavelmente, ainda que não acredite em transformações profundas), mudei para melhor: mas chego a um ponto em que não me sinto à vontade para o demonstrar, acho que ninguém se pode acreditar que aquela “outra” pessoa também sou eu.

É por isso que agora aproveito as oportunidades que tenho para deixar a Carolina antiga em casa e tentar construir uma nova imagem à volta de mim própria, de forma consciente, ponderada e coerente. O estúdio de piano tem sido uma lufada de ar fresco e o local ideal para pôr isto em prática. Lá, todos temos pelo menos um denominador comum: gostamos de música. Mas a experiência tem sido ainda mais enriquecedora porque, de facto, não é só a música que nos une. O grupo de alunos é super eclético: homens e mulheres, dos 14 aos 60, passando de médicos a arquitetos, jornalistas a professores, estudantes a políticos. Não faltam tópicos de conversa – e se não gostamos de um, não faltam outros tantos possíveis de abordar. Ajuda o facto de já sermos todos adultos, estarmos ali por vontade própria, sem fretes ou obrigações (como acontece com a maioria das crianças que aprendem piano, como já foi o meu caso) e de querermos usufruir ao máximo de todas as experiências, incluindo o convívio uns com os outros.

E tem sido bom perceber que eu posso, de facto, ser descontraída. Que posso não ser uma control freak. Que não tenho sempre de marcar posições vincadas, de não gritar ao mundo a minha personalidade acentuada e feitio difícil. Que posso até ser desinibida, ser a primeira a tocar ao piano, falar com os outros sem problemas. É bom perceber que podemos e conseguimos ser uma versão simplificada de nós próprios – nem que seja só de vez em quando. Nem que seja na esperança de que esse de vez em quando passe a estado permanente.


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