Acreditar em mim

Olhei de relance ao espelho enquanto lavava os dentes e se ouvia no meu telemóvel a “Talvez de Eu Dançasse”, do Miguel Araújo. Estava a pensar numa série de coisas que me tinham acontecido nos últimos dias. E a rever mentalmente conversas que tive. E, do nada, caiu-me a ficha. Percebi o que era “acreditar em mim”.

O assunto colocou-se devido à minha necessidade de, neste ano, perder peso. Se bem se lembram foi este o primeiro objetivo que escrevi na minha lista para 2020 e estou a levar a questão muito a sério, sem dietas malucas ou princípios infundados. Fui ao nutricionista, pedi ajuda naquilo que acho que são as minhas fraquezas, procurei alternativas – e o resto compete-me a mim. Não sou ignorante na matéria e já sabia o que ia ouvir: faltam-me legumes sólidos na alimentação, em substituição dos hidratos, e fazer exercício. Sobre isto, também sei o que me dizem sempre: “tens de encontrar um desporto que gostes”. E eu encolho os ombros, sabendo bem que não vale a pena responder a algo que do outro lado não querem ouvir ou aceitar. Rematei apenas: “é mais fácil passar a gostar de legumes”. E, acreditem: eu odeio legumes.

Não há nenhum desporto que eu goste e eu não preciso de os experimentar a todos. Porque isto vai muito para além de uma modalidade ou das suas características e idiossincrasias. Sou eu. Eu e os meus demónios. Cada pessoa tem a sua história e é muito fácil dizer que “toda a gente tem de gostar minimamente de desporto, nem que seja uma só modalidadezinha!” quando não estamos na pele do outro. É muito fácil dizer o que quer que seja (sobre qualquer assunto) quando não sabemos as razões, as vivências, as histórias e os fantasmas de quem está à nossa frente.

Não se trata de ser natação, ginástica, futebol, basquetebol, corrida ou andebol. Posso saber as regras de todos mas continuarão a ser, para mim, bichos de sete cabeças. Porque cresci a ouvir que não os sabia fazer. Já escrevi várias vezes sobre o impacto que teve sobre mim, e a minha auto-estima, o facto de ter sido sempre – durante a minha vida escolar – a última a ser escolhida para as equipas em educação física. Não esqueço o olhar de tédio – ou, por outro lado, de divertimento – quando os meus colegas me esperavam na meta da pista de atletismo do estádio, quando eu finalmente conseguia completar um quilómetro de corrida, terminando a prova uns dois minutos depois deles. Não se apaga da minha memória um momento em que, algures no quinto ano, uma professora diz “aí vem o desastre” enquanto eu entro para fazer uma prestação individual de uma modalidade qualquer. E também me recordo bem do olhar de “nhé” da minha professora de dança sempre que apreciava as minhas coreografias, encomendadas por ela nessa mesma aula. Nota para quem não me conhece (mas que, por esta altura, já deve estar a desconfiar do que aí vem): eu hoje em dia não danço.

Há coisas que têm um impacto inigualável e muito pouco expectável na nossa vida. Coisas que às vezes só percebemos mais tarde, quando escavamos até à raiz. Coisas que se disfarçam, com que se vive, mas que não desaparecem. E que vêm ao de cima em momentos de fragilidade. No meu caso apareciam quando ia a aulas de grupo (circuito, GAP ou localizada) e tinha uma vontade tremenda de chorar a meio dos exercícios, que se tornavam em ataques de choro mal punha um pé fora do ginásio; apareciam quando tive a infeliz ideia de contratar um PT e, antes das aulas, tinha vómitos de tão nervosa que ficava. E aparecem agora, quando se toca na ferida, e os outros tratam o assunto como alguém que simplesmente não gosta de exercício. Porque é muito mais que isso.

Ontem, a este propósito, o meu namorado disse-me que acreditava em mim. E perguntou-me: “porque é que tu não acreditas em ti?”. E eu levei sempre este cliché, o “acreditarmos em nós mesmos”, como um sinónimo de acharmos que somos capazes de algo. Do género: “eu sei perfeitamente que sou capaz de emagrecer, acredito em mim”. Mas hoje, ao lavar os dentes, lembrei-me de outra coisa que ele me disse: “porque é que sempre acreditaste nas coisas que os outros te disseram e hoje não acreditas em mim?”. E eu percebi que fiz da verdade dos outros, a minha verdade. Não se trata de saber que consigo, que sou capaz. Trata-se de saber aquilo que sou. E não, não é a mesma coisa. 

É saber que tenho duas pernas e dois braços, que não tenho aquela aptidão que muita gente tem para o desporto – que não chuto naturalmente uma bola, que não atiro direito para o cesto e que sou um tanto ao quanto desconchavada a correr – mas que consigo fazer as coisas. É saber que sou chatinha. Que sou organizada. Que cozinho bem. Que não gosto de aspirar. Que devia limpar o carro e não limpo.

É conhecer-me. E saber que posso fazer as coisas, independentemente de gostar ou não, de ser melhor ou pior. E que as opiniões dos outros não têm de ser as minhas. Que é inevitável ouvi-las, porque não controlamos as ações dos outros, mas que é uma escolha (mesmo que isso implique trabalho, racional e emocional) absorvê-las e fazer com que passem a ser as nossas opiniões.

Tenho quase 25 anos e, apesar de ser toda independente e nariz arrebitado, não sabia o que era acreditar em mim. Que bela idade para mudar. Talvez se eu dançasse….

 


9 respostas a “Acreditar em mim”

  1. Avatar de Ana

    Carolina, eu odeio desporto. Mas odeio mesmo. Foi na hidroginástica e no pilates que encontrei esse entusiasmo pela atividade física. Espero que encontres o teu entusiasmo! Força 😉

  2. Avatar de
    Anónimo

    Não vou dizer que sei como te sentes em relação ao desporto porque, ao contrário de ti, eu tenho desde cedo uma enorme paixão pelo desporto. Terei mais aptidão para umas modalidades do que outras mas a paixão pelo desporto em geral, está cá. Tenho outro “se” para resolver nos últimos tempos, a desmotivação mas isso são outros quinhentos. 
    Porém, quanto ao facto de não te sentires à vontade para aulas de grupo e/ou treinar com outras pessoas a modalidade que escolheres, podes sempre treinar em casa onde te sentes mais à vontade. Hoje em dia encontras um sem fim de exercícios por esta Internet fora que podes fazer em casa, onde podes fazer ao teu ritmo, com a tua coordenação (ou falta dela) com a roupa que bem te apetecer.

  3. Avatar de Vera

    Também ando um pouco neste dilema há anos. No meu caso, preciso de ganhar peso. E sei que o consigo no ginásio, com musculação. Também sempre fui má a desporto, sempre fui a última a ser escolhida, sempre fui gozada por tal. Nunca tentei sequer ir para um ginásio, para aulas de grupo, para onde fosse. Sei que mesmo que tivesse dinheiro e tempo, ia-me sentir horrível com toda a exposição. E apesar de andar há anos a tentar ir para o ginásio, só agora é que começo a perceber que nunca me sentiria confortável num, e que aquilo não é para mim.
    Por cá, vou tentar começar em casa, mesmo não tendo os mesmos recursos. Sugiro o mesmo, para começar!

  4. Avatar de Maria Mendes
    Maria Mendes

    Para emagracer com facilidade e saúde, corte radicalmente com o açúcar. E tiro e queda 

  5. Avatar de Nala

    Que encontres razões para dançar sem te preocupares com a verdade dos outros. Adorei este teu post. Arrepiei-me de tão sentido que ele está. 
    Um grande beijinho!

  6. Avatar de
    Anónimo

    Eu acredito (sei…porque tenho poderes de adivinhação.) que um dia vais dançar e deixar a opinião dos outros no sitio onde devem estar. 

    Amaria

  7. Avatar de marttokas

    Esquece o desporto. O que tu precisas (na minha humilde opinião de pessoa-que-leu-um-post-e-tem-de-mandar-bitaites) é de incorporar mais movimento no teu dia-a-dia, de uma forma que não seja traumática.
    Isto pode fazer-se de muitas maneiras completamente não desportivas, por exemplo ter uma secretaria que permita trabalhar em pé, andar mais a pé (deixar o carro estacionado mais longe, geocaching, passear o cão), fazer limpezas de forma vigorosa, fazer jardinagem, subir escadas em vez de ir pelo elevador/escadas rolantes, etc.

    Um dia, se fizer sentido, podes começar a curar o essa ferida, mas até lá vai-te mexendo

  8. Avatar de Triptofano!

    É uma grandesissima merda quando as nossas feridas são causadas por outros, quando ouvimos a mesma porcaria anos e anos e interiorizamos isso como verdade, quando achamos que não somos capazes de mais e não merecemos melhor.
    Não há uma solução fácil, não há pensos rápidos que curtem esses arranhões de alma, mas há sempre a possibilidade de todos os dias deixarmos um pouco mais a opinião dos outros para sermos um pouco mais nós!
    Força, 💪 eu acredito em ti!

  9. Avatar de Sofiazita
    Sofiazita

    A única coisa que te posso desejar é muita força e muita dedicação para perderes peso!! Eu adoro dar boas caminhadas,normalmente,dou uma caminhada diária de uma hora por dia,quando está a chover torna-se complicado sair para a rua,por isso,tenho cá uma bicicleta daquelas paradas onde dou algumas pedaladas quando está a chover lá fora!! De comida,ui,isso é que é pior,sou um pouco esquisita em termos de culinária,contudo,não abuso dos fritos e não abuso dos doces!! Desejo tudo de bom para ti,feliz resto de mês de Janeiro para ti,muitos beijinhos e até breve!! Essa música do Miguel Araújo chamada “se eu dançasse” é muito bonita,gosto imenso dela!!

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