No dia do meet&greet do Jamie Cullum éramos uns oito, numa proporção ligeiramente desequilibrada entre homens e mulheres. Quando nos mandaram entrar para o backstage informaram-nos de que ele ainda estava atrasado e íamos ter de esperar. Só havia uma forma de ir matando tempo: conversando.
Não fui eu que lancei a conversa – não tenho grande à vontade para isso. Mas a partir do momento em que a “bola” saltou entre todos, tenho para mim que fui a que mais falou – tinha ido ao concerto anterior, era do Porto, já era o quinto espetáculo que via do Jamie… acabou por ser tópico de conversa. E fluiu tudo tão bem, as pessoas eram (no seu geral) tão simpáticas e eu – apesar de estar prestes a fazer algo que até podia ser potencialmente stressante – estava na boa, como se fizesse aquilo todos os dias. Estive a falar com várias pessoas sobre a minha cidade, a trocar impressões sobre música e foi sinceramente bom.

E depois de sair de lá, de ter falado tão bem com tanta gente diferente, pensei: “como é que eu me tornei nisto, como é que eu vim parar a este ponto?”. Acabo por não saber quem é que eu sou realmente – aquela que fala tão bem com toda a gente, de conversa fácil e sorriso ligeiro, ou aquela que não tem ninguém para ir com ela a um concerto ou ao cinema numa noite qualquer. Aquela que, de cada vez que diz que é anti-social, toda a gente revira os olhos por achar que é impossível ou aquela que faz scroll down no facebook e só vê gente cujas relações falharam. Aquela que às vezes sente saudades de companhia ou aquela que já se resignou a ficar sozinha. Aquela que tanta gente diz que é tão simpática no primeiro contacto, de conversa fiada e fácil, ou aquela que é intransigente, que não aceita as diferenças, menina do seu nariz, que acha que tem sempre razão, ocasionalmente rude e demasiadas vezes mal-disposta.

Não sei quem mostro ser, mas na minha cabeça sou quase sempre “aquela” miúda da segunda opção. Quando debato este assunto com quem me é próximo, e tendo em conta a que não se chega a nenhuma conclusão, só uma coisa é certa: ou eu tenho uma ideia muito errada de mim ou os outros não me vêem como realmente sou. Porque não me parece que as duas versões possam ser compatíveis.

Ainda assim, há algo indiscutível: acho que cada vez estou mais sozinha. Sim, conheci mais pessoas desde que fui trabalhar, mas perdi outras tantas de antigos círculos de amigos que tinha. Não creio que o balanço seja positivo. E, para além disso, sinto-me preenchida por uma avalanche de críticas, “dicas” e indiretas que não sei digerir – e não sei se sou eu que, num período mais sensível, tenho mais aptência para as ouvir ou se estão simplesmente a acontecer com cada vez mais frequência. Porque eu mudei ou porque eu tenho de mudar, porque trato mal as pessoas, porque não ligo, porque não respondo, porque não vou, porque não faço, porque não avanço, porque não saio da zona de conforto, porque sou chata, porque sou quadrada, porque sou mentalmente velha, porque quero tratar de tudo, porque sou pouco democrática, porque sou uma control freak.

E, no final do dia, quando tudo mói cá dentro, só há espaço para perguntar: sou assim tão má pessoa?


7 respostas a “Às vezes não sabemos bem quem somos”

  1. Avatar de Margarida

    Somos das melhores más pessoas que eu conheço! 🙂 
    Ainda ontem escrevi exatamente sobre isto!

  2. Avatar de Uma Indecisa Qualquer

    Sinto-me exatamente como tu neste momento e chega a ser sufocante! Espero que encontremos a resposta… E que não seja má!

  3. Avatar de amaria
    amaria

    Conseguiria escrever um texto maior do que o teu sobre o assunto deste post.
    És como és. Porquê tanta avaliação? Alguém te questiona para além de tu mesmo? 
    Não martirizes a vida. Sorri. E avança, tens tudo para isso.

  4. Avatar de Tri

    Percebo-te…Mas não sejas tão dura contigo mesma…haverá sempre alguém disposto a criticar.
    Mas tu és como és e só tens que ser feliz assim, as pessoas que te dão o devido valor estarão ao teu lado…por vezes só andamos distraídos e não reparamos, achamos que estamos sós…
    Sorri! E vive a vida! =)
    Um bjnho

  5. Avatar de Ana Silva
    Ana Silva

    Não , não é má pessoa. 
    Só não é como as outras pessoas querem que seja. 
    E ainda bem assim é. 

  6. Avatar de Cátia
    Cátia

    Viver mais e pensar menos. Esse é o mote. Bjs

  7. Avatar de Babs

    Percebo o que dizes. Penso serem normais essas contradições aparentes: estares à vontade numa situação em que te sentes confortável (e em “vantagem”), não teres companhia ou não teres paciência para a companhia noutras situações. Pelo contrário, à primeira vista parecem ser sinais de teres uma personalidade forte e de não quereres moldar-te a ti própria para agradar. (Ups que isto parece frase saída do horóscopo)
    Isto dito, esse conjunto críticas de que falas não parecem ser muito simpáticas nem vir de um lugar “construtivo”. De vez em quando também recebo alguns comentários desse género: o da zona de conforto é repetido ad nauseam pelo meu manager, o de ser mentalmente velha por variadas pessoas porque não me apetece sair para determinados sítios, porque não me apetece beber no almoço de trabalho, porque não gosto de determinado tipo de piadas e por aí fora. Uma possível solução: deixares de te tentar justificar ou de alimentar a conversa, porque não havendo nada de errado contigo, não tens de te defender.
    Mais uma coisa: o estares sozinha, ou sentires-te sozinha, não significa que és má pessoa. De certeza que conheces montes de pessoas pouco íntegras que têm vidas sociais mega preenchidas. Portanto, quem te perde é que fica a perder.
    E sorry pelo comentário longo e mal amanhado.

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