E eis que esta semana caiu uma bomba no mundo blogosférico: a blogger mais badalada do país anunciou, por meias palavras, o divórcio de um casamento que todos acompanhávamos há anos. Quando li a notícia, enquanto passeava descontraidamente no meu feedly e via as horas passar enquanto devia estar a fazer alguma coisa de útil, caiu-me tudo. E, nesse momento, senti pena. Naqueles segundos precisamente a seguir foi como se uma amiga com quem já não falava há muito me tivesse dito que o casamento – que na minha cabeça achava ser perfeito – tinha acabado. E fiquei triste por ela.

Só depois é que me caiu a ficha. Eu não a conheço, não o conheço a ele, não me dizem nada e nem sequer sou particularmente fã de nenhum deles: a única relação que mantemos – e que é unilateral – é a de eu ler as coisas que escrevem há uns sete anos. Nada mais. Mas, de facto, a nossa [dos leitores] perceção é de que estamos “dentro” da vida daquelas pessoas, qual livro aberto, que está a ser escrito em direto enquanto a vida se desenrola. Esquecemo-nos é que, ao contrário de um livro, o narrador não nos conta tudo, não está dentro da cabeça das personagens, não sabe – ainda que secretamente – o fim da história. 

Já vi muitas fases da blogosfera e estou pacientemente à espera que esta que vivemos agora passe de moda: estou cansada de todos os blogs de celebridades, sem grande conteúdo; das marcas nos verem simplesmente como portadores de mensagens e produtos, como se não quiséssemos mais nada para além de fama e dinheiro; de todo este conteúdo falso, hipócrita, que passa a ideia de vidas perfeitas, quais revistas de moda. Por tudo isto, neste momento, o mundo dos blogs está completamente descredibilizado para mim: e foi com espanto que olhei para aquele post e senti qualquer coisa. Algo verdadeiro, um sentimento que vai para além do dinheiro, patrocínios e interesses. Algo que sentia no início, quando lia blogs que gostava, de gente genuína e sem agendas. Essa coisa de que falava antes, essa sensação de conhecer a pessoa de algum lado e me doer por ela.

Foi estranho, porque era algo que já não sentia há muito tempo e que só podia ser despoletado por algo de grande dimensão, mas também esperançoso e nostálgico; um abanão da vida, como quem diz “ainda é possível”! Às vezes este tipo de coisas fazem-nos descer um pouco à terra: por vezes recebo mensagens que acho serem estranhas, de pessoas que aparentemente quase “vivem” a minha vida tanto como eu… que me saúdam pelas vitórias, que ficam tristes pelas derrotas, que me querem conhecer. Às vezes há coisas que me comovem, outras que nem sequer sei como reagir, mas em grande parte aquilo que hoje percebo é que normalmente me esqueço do poder que a blogosfera tem; do calor humano que consegue transportar, mesmo sendo meramente virtual.

Nós – bloggers – somos personagens de livros abertos que algumas pessoas gostam de acompanhar; não sei se há quem escreva a nossa história ou o nosso destino, papel dos escritores nas obras comuns, mas o que é certo é que mesmo nos livros em papel não são poucas as vezes em que nos emocionamos em nome das nossas personagens favoritas, choramos ou sorrimos com elas. E acho que, no fundo, aqui se passa precisamente a mesma coisa – as personagens são pessoas da vida real, mas o que queremos é o mesmo: que o final seja feliz. 


11 respostas a “Blogs, os livros da vida real”

  1. Avatar de Sofia Sequeira

    Também fiquei um pouco “em choque” com a notícia por essa mesma razão: tenho aquela sensação de que os conheço. 
    A mesma coisa aconteceu quando a Cocó na Fralda engravidou do 4º filho (não estava nada à espera!): senti-me feliz como se fosse alguém próximo da família.
    É parvo e uma sensação estranha, mas é mesmo assim!

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  2. Avatar de amaria
    amaria

    O mundo virtual vive-se hoje tão ou mais intensamente que o “real”.  “Falámos” diariamente, desabafamos magoas, partilhamos as nossas alegrias com uma facilidade enorme e dificilmente concretizavel na vida real, porque aí temos que dar e mostrar a cara, temos de mostrar o que dizem os nossos olhos, espelhos da alma. Gostaria de estudar até que ponto esses  sentimentos se equiparam.

  3. Avatar de Filipa Bae
    Filipa Bae

    Também fiquei em choque, porque é uma das minhas bloggers favoritas que acompanho desde mais ou menos 2010, altura em que comprei o primeiro livro da Pipoca, e ela mo autografou na feira do livro em Lisboa.
    Nem tudo é rosas, como se costuma dizer, mas é curioso como muitas pessoas, apesar de não a conhecerem de perto, sentem que a conhecem como uma amiga de longa data, acompanham as suas aventuras e comentem e desejam tudo de melhor.
    Eu gosto de bloggers genuínos, gosto de bloggers que escrevem os seus posts, como um livro aberto, e por vezes sem flitros. Gosto disso.

  4. Avatar de Maria das Palavras

    Percebo perfeitamente o sentimento. Sentimos que de alguma forma as conhecemos e estamos a par da sua vida (mesmo que seja uma parte pequena). Às tantas, porque a escrita diz muita coisa, ficamos a conhecer melhor alguns bloggers que alguns amigos (consoante o que dão de si no blog). Também fiquei num momento de parvoíce ao ler e tive de me lembrar que na verdade não a conheço (mas é que sou do tempo – como muitas nós – em que ela o conheceu por alturas do Santo António).

  5. Avatar de Maria

    Talvez por já andar por cá há muitos anos. E talvez (muito) por ter um blog há quase oito anos sinta essas tuas palavras. Quem vê o blog por quem está lá dentro e não pelo que publicita ou passa apenas a palavra, sente, mais que qualquer outro o que lá vai dentro. E eu gosto de blogs com gente dentro. Há poucos. E é preciso senti-los.

  6. Avatar de Purpurina

    Às vezes também tenho esse sentimento mas acho-o um pouco assustador (para além de espantoso). 
    Sinto-o sobretudo em relação a pessoas que acompanho no youtube todos os dias. Chego a sentir-me ansiosa quando vão fazer ecografias ou quando vão passar por alguma coisa especial. Que estranho, não é? Chego a sentir que conheço melhor aquelas pessoas que algumas pessoas da minha própria família.
    Bom… creio que o mundo está a mudar e, dentro de poucos anos, nºao existirá estranheza nenhuma em relação a isso. Eu, que ainda encontrei o mundo sem Internet, é que ainda me espanto come stas coisas. 😉

  7. Avatar de D.

    Já desconfiava que se isso ainda não tinha acontecido à Pipoca estava para acontecer. Já estava a achar estranho não porem nem um nem outro fotografias de ambos. Mas lá está, fui ao blog dela e não vi nada, nem comentários acerca disso nem nada e reparei que tanto um como o outro ponham muitas fotos do miúdo, achei que tivesse sido alguma decisão deles.

  8. Avatar de Rute Justino

    Oh meu Deus fui apanhada desprevenida, apesar de gostar muito do blog na verdade agora não o tenho acompanhado!!

  9. Avatar de Paulo Vasco Pereira

    Excelente e clara reflexão: “Já vi muitas fases da blogosfera e estou pacientemente à espera que esta que vivemos agora passe de moda: estou cansada de todos os blogs de celebridades, sem grande conteúdo; das marcas nos verem simplesmente como portadores de mensagens e produtos, como se não quiséssemos mais nada para além de fama e dinheiro; de todo este conteúdo falso, hipócrita, que passa a ideia de vidas perfeitas, quais revistas de moda. Por tudo isto, neste momento, o mundo dos blogs está completamente descredibilizado para mim”.

  10. Avatar de B.lieve
    B.lieve

    Adorei o post e é exactamente o que penso 🙂 

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