Ir a um campo de concentração não era uma questão, a única pergunta que se colocava era quando. Quando comecei a ver coisas para visitar em Munique, apercebi-me de que o Campo de Concentração de Dachau ficava a mais ao menos 45 minutos do centro, por isso era uma oportunidade que não podia perder.

Eu sempre tive imensa curiosidade no que diz respeito ao período fascista na Europa, em particular o regime Nazi – e, mais do que gostar de saber as factos, sempre tive imensa curiosidade em perceber como é que os alemães lidam com esse período da sua história neste momento. Nunca me dei bem suficiente com um alemão para lhe fazer uma pergunta dessas, que pode ser algo íntima, mas foi algo que sempre me questionei. 

E, por incrível que pareça. foi esta vertente (a de ver os outros) que mais me impressionou quando visitei Dachau – mas já vos explico. O caminho para lá, desde o centro da cidade, é feito de metro e autocarro; é fácil, não tem muito que saber. A entrada é livre, paga-se apenas pelas visitas guiadas ou pelos audio-guides (3,50€ para adultos) – eu optei pela segunda opção, que a meu ver foi errada, porque não usufrui de metade. Aquilo funciona com números e mapas e eu não estava particularmente inspirada para perceber o esquema, pelo que cheguei a um ponto em que desisti e só mais tarde voltei a pegar naquilo. Penso que numa visita guiada uma pessoa tem uma visão mais abrangente e detalhada de tudo, até porque há partes realmente chatas no museu; há demasiada informação, quadros demasiado grandes. Uma pessoa ouve muito melhor do que lê e eu posso ter perdido partes cruciais do campo por não me aperceber da sua importância (espero que não, mas nunca fiando).

Em Dachau não há um grande choque com aquela realidade que conhecemos nos livros. É um sítio especial e com uma aura pesada, porque todos sabemos aquilo que lá se passou: senão, podia ser só mais um conjunto de edifícios. Não há, como em Auschwitz, cabelo dos judeus, dentes, óculos e objetos pessoais. Há somente alguns objetos, mas nada que seja chocante ao ponto de nos deixar aterrados com o que paira à frente dos nossos olhos. Na parte do museu há muita informação, muitas fotos, mas é algo muito massudo e eu duvido seriamente que alguém leia aquilo de uma ponta à outra. Para além do mais, e ao contrário do que estava à espera, grande parte dos edifícios foram reconstruidos – a maioria nem sequer se reergueu, na verdade – e muito pouco do que lá havia era da época, são quase tudo réplicas. Neste sentido, fiquei muito dececionada.

O frio que se fazia sentir também não ajudou. A temperatura era de -1º, mas a sensação térmica era de -6º e, também por isto, não aguentei muito tempo por lá. Por ser um descampado, o frio ainda parecia sentir-se mais e eu cheguei a um ponto em que mal conseguia respirar. Ainda assim, o frio foi útil, porque pensei o que seria sentir isto apenas com uma peça de roupa no corpo, magra como um cão maltratado, doente (muita gente morreu em Dachau com tifo), como a maioria das pessoas que lá passaram. Em jeito de breve contextualização, Dachau foi o primeiro campo de concentração alemão, e há registo oficial de cerca de 32 mil mortes, embora a contagem não oficial passe por muito mais de centenas de milhar. Os 34 pavilhões que lá havia para além do edifício principal, construídos pelos prisioneiros, serviam de muita coisa, incluindo para as tão faladas experiências médicas, salas de tortura, celas minúsculas, salas de execução e etc.

Há também um crematório, cujo o edifício está intacto – aliás, há dois, o mais antigo e o mais recente. Cada forno dava para cremar três pessoas de uma vez. Apesar de ter lido algures que não havia câmaras de gás em Dachau, elas estão lá também, portanto essa realidade está presente e latente. Para além disso, há também vários monumentos e memoriais no campo, representativos das diferentes religiões. No museu dá-se particular destaque às diferentes religiões, raças e culturas que estavam no campo, mostrando fotos e exemplos de pessoas que contam o seu testemunho.

Há também um filme, que não vi, porque estava uma turma prestes a entrar e eu não estive para me chatear. Aliás, esta foi a pior parte da minha visita a Dachau, aquilo que me realmente chocou. Apesar de ter ido cedo e o campo estar deserto (no exterior, aquilo é enorme), havia muitas visitas de grupo e visitas de estudo, de alunos alemães entre os 15 e os 17 anos, diria. Numa primeira fase chateou-me, porque não conseguia ler as placas informativas, por os guias se colocarem sempre em frente delas e por ter de andar a fugir por entre os grupos; depois, chateou-me pela leviandade com que eles levavam aquilo. Riam-se, chamavam-se uns aos outros para ver alguns objetos pessoais dos prisioneiros, como se de um macaquinho a fazer graçolas de tratasse; andavam por lá com a menor das preocupações e consternações e eu só pensava que, provavelmente, os avôs e bisavôs deles tinham andado por aquelas bandas a chacinar pessoas e eles não estão nem ali.

Percebo que sejam novos, que estejam na idade da parvalheira, mas isto em grande parte respondeu àquela minha pergunta que há tantos anos me perseguia: como é que eles, enquanto povo, lidam com aquilo. Para uma faixa etária próxima da minha, aquilo é claramente uma fase posta atrás das costas; percebi pela maioria das reações que eles não têm qualquer tipo de ligação com aquilo, não lhes diz simplesmente nada. Estão livres de responsabilidades, peso na consciência ou qualquer tipo de legados. Estão a marimbar-se. Aquilo foi só mais uma saída da escola e bora’ lá gozar o tempo livre. E isso chocou-me imensamente, mais do que qualquer outra coisa que ali tenha visto, porque eu sabia ao que ia. Aqueles putos, se aparecesse outro Hitler, faziam igual. Numa parede central do campo, está uma inscrição em várias línguas que diz: “Que o exemplo daqueles que aqui foram exterminados entre os anos 1933 – 1945, porque eles resistiram ao nazismo, ajude a unir os vivos pela defesa da paz e liberdade e respeito por todos os outros homens”. E eu sinto que isto, estar ou não estar lá escrito, é igual. Infelizmente, talvez seja uma questão de tempo, uma questão de vontade, uma questão de aparecer um louco e tantos outros que lhe sigam as ordens. E isto faz-me estremecer.

Optei por não tirar muitas fotos, a não ser para registar e partilhar convosco. Aquele não é propriamente um local para selfies. Para mim, acima de tudo, foi um sítio de contemplação e reflexão, importante nos tempos em que vivemos agora. Acho que o campo em si, por ter pouco de chocante, não mexe suficiente com as pessoas; não está tão trabalhado como de Auschwitz, por exemplo (nunca lá fui, mas já vi muitas reportagens, sei mais ao menos o que tem e não tem), e faltou-me também ouvir alguém que me tangibilizasse aquilo que lá se passou, mais ao pormenor. Era capaz de voltar, só para fazer uma visita guiada em termos e sorver a totalidade do que ali está patente, embora pouco visível.

Ainda assim, aquilo que trouxe comigo foi um frio, não só no corpo, mas também na alma. É um sítio com um silêncio aterrador, apesar das pessoas e dos estudantes parvinhos que lá passavam. Enquanto me arrastava de frio por aquele descampado, onde sei que morreram milhares de pessoas, pensava na minha sorte e, embora não saiba sequer rezar, sinto que me aproximei algo que espiritualmente daquela realidade e daquelas pessoas que lá ficaram. Não me perguntem porquê, mas ao contrário daqueles estudantes, eu sinto que tenho uma responsabilidade – senão no passado, pelo menos no futuro, para não deixar acontecer igual. 

 

DSC_0241.JPG

 A típica frase “o trabalho liberta”, que abre sempre os campos de concentração. Em Dachau não tem grande destaque, mas também está presente.

 

DSC_0228.JPG

O campo – como se nota, algo de perder de vista. Os retângulos com pedras eram pavilhões, os tais construídos pelos prisioneiros que tinham diferentes funções.

 

DSC_0210.JPG

Uma casa de banho, replicada.

 

DSC_0232.JPG

Os fornos.

 

DSC_0208.JPG

 Réplicas das camas, que tinham três níveis de altura. 

 

DSC_0214.JPG

Edifício principal, agora com um memorial.

 

DSC_0216.JPG

 Vista geral e central. Neste caminho faziam-se execuções e caminhadas dolorosas para uma morte certa.


4 comentários a “Campo de concentração de Dachau”

  1. Avatar de Nuvem

    Carolina..ainda esta semana falei deste tema. e, ao contrário desses meninos que parece não terem nocão do que o campo representa, por muito que eu gostasse de visitar um, não sei se tenho coragem. pela grandiosidade das calamidades ali feitas, de cada vez que vejo fotos ou reportagens, fico com um aperto no coração tão grande, que não consigo controlar. ao  vivo, não sei mesmo como reagiria. é terrível pensar. é algo com o qual não sei mesmo lidar, mesmo depois de já ter lido tantos livros e visto tantos filmes (“o rapaz do pijama às riscas”…meu deus.) Mas também acredito que seja um sítio de reflexão. que nos mostra de onde vimos.. e par aonde não deveríamos querer voltar!
    beijinhos*

  2. Avatar de Carolina

    Não é um local fácil, mas eu achei que ia ser pior. Talvez por ser na Alemanha, os vestígios foram todos apagados. Eu acho que eles têm muita vergonha do que fizeram e pouco restou daqueles campos de extermínio. Nós arrepiamo-nos porque sabemos o que lá aconteceu – senão, como disse, podia ser um conjunto de edifícios para outros fins e passar-nos-ia ao lado.
    Penso que Auschwitz, a nível de choque emocional, é capaz de ser o pior.
    Beijinhos!

  3. Avatar de Jess
    Jess

    Outra coisa que adorava um dia fazer, visitar um campo de concentração. Também sempre fui fascinada por esta horrível página da História, e continuo a não perceber como é que algo desta dimensão aconteceu. 

  4. Avatar de Dylan

    É aterrador mas é necessário mostrar isto para que a história não se apague e jamais volte a acontecer.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *