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Fico sempre um bocadinho “chateada” quando percebo que a minha opinião não se enquadra com a da maioria – não na vida em geral (aí, estou-me a borrifar) mas nos livros o caso é diferente. Quando uma massa grande de pessoas diz uma coisa e uma ou outra ovelhas ronhosas entendem dizer o contrário, a probabilidade é que sejam as ovelhinhas que estão erradas.

Neste caso, a esmagadora maioria das reviews que li era positivas – muito positivas. Já me haviam falado do livro, vi-o à venda, gostei muito da capa chamativa e, ainda por cima, era assinado por uma escritora portuguesa. Tinha tudo para correr bem.

Mas a verdade é que eu não sou uma rapariga como as “Raparigas como Nós”. Acho que o segredo do sucesso da obra foi o facto dos leitores se identificarem, de reviverem na Isabel (a personagem principal) e nas suas experiências a sua própria adolescência. Amores, desamores, drogas, amigos, outros que deixam de o ser, grupinhos, os populares e os “feios”… enfim, o normal. Talvez por eu ter tido uma adolescência muito pacífica e um tanto anormal (muito fora dos círculos comuns, com muito poucos amigos – e em particular sem uma melhor amiga, tal como a Isabel tem a Alice -, e com opiniões demasiado fortes que não me permitiam “entrar” em grupos), este livro disse-me pouco.

Tem 420 páginas e sinto que a história podia ser contada, com a mesma riqueza e informação, em 350. A parte II do livro, com cerca de 70 páginas, foi para mim altamente maçadora – aquelas descrições sem fim de um amor platónico e parvo de miúdos tirou-me a paciência e li muitas das páginas na diagonal, retendo apenas o que me pareceu útil. Confesso que a personagem principal também não me apaixonou inicialmente, mas fui gradualmente gostando dela – e, acima de tudo, do facto de se manter firme nas suas convicções (confesso que achei que ia vacilar). Foi subindo, à medida que as páginas iam passando, na minha consideração. E isso, para mim, é o melhor do livro -a par do lado moral que transporta consigo e que nos pode ensinar algo, principalmente se formos mais novos.

Também por ter lido algumas reviews consegui antever com facilidade o fim do livro – e, talvez por si, fiquei longe de me sentir despedaçada, como muita gente diz ter-se sentido. Sinto que conheço aquela história, é uma realidade algo próxima, e o final pareceu-me óbvio. Triste, mas feliz ao mesmo tempo.

Do livro retenho duas lições importantes: 1) projetamos muitas vezes os nossos sonhos e fantasias nas pessoas com quem estamos quando elas não correspondem necessariamente à realidade, acabando com relações que até podiam dar certo se não houvesse essa dose de expectativas; 2) há o primeiro amor e depois há o amor de uma vida – e eles não são necessariamente coincidentes.

Não adorei o livro – longe disso – mas acho que Helena Magalhães pode vir a dar cartas. Continuarei atenta.


4 respostas a “Chávena de Letras: “Raparigas como Nós””

  1. Avatar de
    Anónimo

    Boa tarde.
    Não dou sugestões de leitura de livros, a quem quer que seja, nem as aceito de ninguém, pela simples razão de que a escolha de um livro, é algo de muito pessoal, intimo, que cada leitor gosta de descobrir e quer  guardar para si. Afinal, ler um novo livro é um novo amor que se descobre, coisa que não é para apregoar e partilhar com pessoas que não conhecemos. De resto, os gostos são muito discutiveis. Falar de livros também é uma forma de percebermos quanto as pessoas gostam de ler livros.
    Boa Páscoa.
     Cumprts de:

    nos tempos livres – ler é o melhor remédio
    https://lereomelhorremedio.blogs.sapo.pt/
  2. Avatar de M.

    Concordo contigo! Para mim foi um livro que deixou muito a desejar e não me cativou. Não desgosto da escrita da Helena, o “problema” foi mesmo a história e os personagens com quem também não me identifiquei de todo. Ainda bem que não fui a única! 🙂 

  3. Avatar de Paulo L

    Boa tarde,
    Não li o livro e não o vou comentar. O comentário é ao comentário.  Em relação às actividades culturais em geral e não só à literatura em particular tem havido uma cultura de massa e de moda. Não é infrequente tentar perceber a génese de alguns gostos colectivos e da exaltação da qualidade de manifestações “culturais” de diversas ordens. Por vezes parece bonito e fica bem gostar ou dizer bem de algo, dentro ou fora da caixa, para a preservação de um certo status quo moderno,  intelectual ou intelectualizado ou mesmo pseudo-intelectual. Quando falo de algum livro, tendo  normalmente de falar de livros que tenha gostado. Ocasionalmente comento um livro ou um autor que,  apesar de bem acolhido pela critica ou pela opinião publica, a minha apreciação não segue o mesmo entendimento. Fi-lo, por exemplo, com O Nervo Ótico de Maria Gainza ou com o primeiro livro de Isabel Rio Novo, por motivos diferentes. Muitas vezes não são as ovelhinhas que estão erradas mas a “manada” que está a caminhar no sentido errado. 
    Continue a ler e a divertir-se.

  4. Avatar de Por detrás das palavras

    Olá,
    Eu também sou uma ovelha ronhosa relativamente a este livro. Cheguei mesmo a duvidar do meu espírito crítico dado que toda a gente o adora. 
    Eu não me identifiquei com nenhuma personagem, não me senti emocionada com o final e, tal como tu, também cortava algumas partes.
    É claro que gostas de um livro tem muito de subjetivo. Contudo, este livro apresenta lacunas na construção da narrativa. Talvez a ovelha ronhosa que vive dentro de mim, não deixou que isto passasse ao lado… Mas faz-me uma certa impressão a forma como idolatram o livro quando ele não está ao nível de livros de outros jovens escritores portugueses.
    Mas é como dizes, ele está escrito para chegar a um certo tipo de pessoas. A narrativa vai ao encontro das memórias de muita gente. Quem vive uma adolescência pacata, nada daquilo faz muito sentido.
    Gostei de ler a tua opinião. É bom encontrar alguém que percebe o nosso desvio da manada .
    Boas leituras.

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