Desabafos de uma autodidata

Desde muito miúda que me lembro que um dos elogios que a minha irmã mais me tecia era de eu ser autodidata. Não me recordo sobre o quê que ela se referia na altura, mas a verdade é que com o passar os anos essa foi uma característica que de facto eu fui apurando e gostando mais e mais em mim. E, acima de tudo, penso que ela é movida por uma outra característica: eu detesto pedir ajuda. Posso estar perdida numa vila qualquer, posso não encontrar o fermento no supermercado, posso não saber de onde veio uma t-shirt que encontrei numa loja e que quero num tamanho acima: mas antes de pedir ajuda utilizo todos os recursos à minha disposição para tentar encontrar as minhas respostas.

E eu percebo que nem toda a gente seja como eu. Penso que também já nasci numa geração onde é fácil encontrar as respostas à maioria das nossas dúvidas – saco do telemóvel, vou ao google e encontro o que procuro; ou vou ao maps, ao Youtube, ao TripAdvisor ou o que quer que seja. Vivemos numa era em que só é inculto quem quer, porque quase todos temos acesso a esta cena incrível que é a internet. Ainda assim, desculpo as pessoas mais velhas, que não nasceram com um telemóvel no bolso e com a certeza de que aquilo não serve só para fazer chamadas, mas sim que todo o mundo cabe ali dentro. Mas a preguiça é algo que eu tenho mais dificuldade em aceitar – e acho que muitas das “dificuldades” que muita gente tem não passam disso mesmo. Porque é mais fácil perguntar a quem sabe.

Mas como é que eu sei dar uns toques em html e css? Como é que eu sei trabalhar em photoshop, premiere e lightroom? Olhando para os programas, tentando, errando, pesquisando, querendo fazer sempre mais que o básico. São raras as vezes em que trabalho nestas ferramentas e que não faça uma pausa para ir ao youtube e pesquisar qualquer coisa que comece com “how to…”. Porque é assim que hoje em dia se faz: não é em livros, não é em enciclopédias, não é com CD’s que vêm em revistas especializadas. As coisas evoluem tão rápido que não dá sequer tempo para escrevermos e lermos sobre elas. É fazer e aprender; e aprender mais depois disso.

Por isso aflige-me que as pessoas tenham medo de clicar, de fazer asneiras, não tendo sempre em mente que nos programas quase tudo é reversível; aflige-me que estejam sempre a perguntar se “é aqui?” sem ler aquilo que está escrito, sem tentarem fazer um raciocínio lógico; aflige-me que o seu primeiro recurso aquando de qualquer dúvida é chamar o nome de alguém que acham ser entendido em vez de o fazerem pelos seus próprios meios; e aflige-me que me digam “um dia destes tens de me ensinar a trabalhar com este programa”.

Porque a verdade é esta: as coisas aparecem feitas, eu na prática sei funcionar com os programas, mas não sei ensinar ninguém a trabalhar com o que quer que seja para além do básico. Eu aprendo à medida que trabalho: eu faço asneiras, volto atrás, tento de novo; eu pesquiso depois de não conseguir, tento, não consigo, pesquiso de novo, tento de novo; às vezes decoro os truques, outras vezes tenho de procurar de novo aquilo que outrora já soube; não tenho manuais, não tenho coisas escritas. Aquilo que eu tenho é prática, são horas de trabalho, é a capacidade de não desistir aos primeiros erros nem com a frustração. É capacidade de pesquisa, de encontrar respostas. Porque eu ajudo, mas não sou o Google: e muito menos um manual de instruções.

Se querem fazer, é porque acham que conseguem. E se eu consegui aprender, os outros também podem. Por isso mexam-se. Os tempos mudam – tentem mudar também.


3 respostas a “Desabafos de uma autodidata”

  1. Avatar de Phocaontas
    Phocaontas

    Bom dia.. Penso que se nao houver um esforço  da parte das pessoas nunca evoluem. 
    Ainda ha muitas pessoas que vivem nos tempos antigos. 
    Enfim. 
     Gostei do teu post beijinhos

  2. Avatar de Carolina

    É mesmo… obrigada! Beijinhos

  3. Avatar de Uma Indecisa Qualquer

    Identifiquei-me tanto contigo! Tudo o que sei sobre este mundo dos blogs/edição/fotografia foi aprendido sozinha e tal como tu custo a saber ensinar, porque aprendi por tentativa-erro… Hoje em dia só não aprende quem não quer!

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