Na terça-feira fui ver o Desconcerto, com a Luísa Sobral, o Miguel Araújo, o António Zambujo e o César Mourão. Não sabia ao que ia – acho que ninguém sabia. Na verdade, com estes quatros nomes em palco, uma pessoa nem precisa de saber para o que vai – sabe simplesmente que vai ser bom. E foi.

O espetáculo consistia num conjunto de momentos, pré-pensados, que davam origem a músicas, compostas e feitas completamente de improviso (ou com apenas pouquíssimos minutos para pensar no assunto). O primeiro “número” consistiu, por exemplo, em fazer uma canção sobre a mala de uma das senhoras da plateia – o César Mourão (que era, no fundo, o cicerone de todo o espetáculo) vasculhou a mala em causa e foi sacando algumas informações acerca da vida pessoa, enquanto a Luísa e o Miguel iam compondo uma música com aquilo que iam ouvindo e o Zambujo pensava na melodia. 

Esta ideia é espetacular se não houver erros de casting na escolha das pessoas da plateia; o espetáculo passa a viver muito daquilo que elas dizem, do à vontade que têm, do seu sentido de humor e disponibilidade. E, infelizmente, houve alguns… chegou a apetecer-me gritar coisas como “inventa qualquer coisa, mulher” ou “sorri, estás no palco com a nata da música portuguesa neste preciso momento!”. Mas contive-me (com esforço…).

Acima de tudo, aquilo que senti – e que me fez adorar aquelas duas horinhas – foi que a grande diferença deste para um concerto normal era a proximidade artista-publico. Nós estávamos lá dentro, era como se fôssemos da família. Já tinha ido a espetáculos de todos eles (exceto do Mourão, porque comédia não é propriamente a minha praia, embora lhe ache graça) e sempre senti a inevitável distância do artista para com a sua plateia, ainda que que eles sejam calorosos, queridos e interativos com quem está à frente deles. Mas aqui era diferente – também pode ter ajudado o facto de eu estar na primeira fila e sentir tudo ali a acontecer – porque eles agiam de uma forma natural e pouco programada… levantavam-se para ir ao computador escrever a letra, iam buscar a folha à impressora enquanto os outros tocavam, paravam as musicas para rir um bocadinho e trocar uma piada e acho que o Zambujo até foi à casa de banho enquanto se esperava por uma letra. Pareciam mesmo simples pessoas, sabem? Nós tendemos a esquecermo-nos disto quando os artistas estão em palco.

Mas depois percebemos que eles não são simples pessoas (e refiro-me maioritariamente à Luísa e ao Miguel). Podem ser pessoas como nós (que o são, obviamente, mas percebem a ideia) mas têm um dom que as pessoas simples não têm. Improvisar musicas e letras é uma coisa – o Mourão é mestre nisso, como todos sabem. Mas compor coisas incríveis em cinco minutos é outra. Não se trata de escrever – isso até eu faço com uma perna às costas – mas sim de criar um poema, bonito, musical e às vezes até com simbolismo por detrás, com coisas corriqueiras ou até parvas ouvidas há um par de minutos. É incrível.

Eu sempre achei estranho o processo de construção de uma música e, por ser uma realidade que me é alheia, pensei que era algo difícil. Mas depois disto, ao ouvir músicas feitas em dez minutos e que eu compraria e consumiria, sem problemas, no caminho para casa em plena rádio, percebi que quem é bom nisto o faz com uma perna às costas. É um dom, ponto final. E apesar dos outros dois serem muito bons, caraças!, a Luísa e o Miguel são do melhor! Já era fã deles, mas saí de lá completa e totalmente rendida – só tenho pena de não ter podido repetir a dose, porque este é o género de espetáculo que se pode ir quatro vezes seguidas e ser sempre diferente.

Não sei de onde é que, de um momento para o outro, apareceram tantos músicos portugueses tão bons. Há dez anos “música portuguesa” era sinónimo de pimba, fado ou algo com um toque meio revolucionário. E depois veio isto. Um misto perfeito: pessoas simples (mas com dons), simpáticas e com reis fora da barriga, que constroem cenas lindas, tão profundas como leves, bonitas e incríveis. E o melhor é que a tendência se está a reproduzir e nascem em Portugal cada vez mais artistas incríveis. E toda a gente que gosta de música sabe que há poucas sensações tão boas como a inspiração profunda que se sente durante e depois de um bom concerto, não é verdade?

 

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Uma resposta a “Desconcerto… desconcertante”

  1. Avatar de CR

    Talvez sempre tenha havido artistas muito talentosos em Portugal, mas só agora começámos a dar-lhes o devido valor, a apreciar e a querer presenciar o seu trabalho. 
    Por exemplo, eu não sou fã de novelas, quando era mais nova até via e era certinho que a Alexandra Lencastre lá estaria. Nunca lhe liguei muito até que há uns anos (credo, o tempo passa mesmo rápido, parece que foi ontem) fui ver uma peça de teatro em que ela era protagonista, fiquei rendida.

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