Detesto ter de fazer o meu currículo. Detestei da primeira vez que o fiz e detesto de cada vez que tenho de o atualizar (algo que acontece frequentemente, para efeitos formais, mesmo estando a trabalhar). É ingrato termos de resumir todo o nosso percurso num papel, em pequenas frases, que podem estar recheadas de mentiras ou que podem não chegar aos calcanhares daquilo que somos na realidade. Mas enfim, tem de ser, sei que não há muitas formas melhores que sirvam para o efeito.

Mas no meio de todo este processo de escrita e concepção deste documento sou sempre invadida por imensas dúvidas: devo fazer um currículo vitae normal, estilo europass, insosso e desenxabido, ou devo fazer uma coisa mais visual, mais dinâmica e bonita? Devo incluir hobbies e um breve resumo de mim própria ou restrinjo-me ao percurso profissional e académico?

No meio disto tudo, surge-me sempre uma pergunta: incluo ou não incluo os blogs que tenho e tive? É que isto pode ser interpretado de várias formas e tem muitos pontos de vista. Antes de mais, o mais óbvio: só com aquele ponto estamos a dar muitas informações sobre nós próprios, basta alguém aceder ao dito site. Nem todos os blogs são diários abertos, mas todos têm muito de quem os escreve, nem que sejam opiniões – o que, só por si, já revela muito do que cada um é. E essa exposição à partida pode ser tão boa como má.

Depois há o risco da pessoa que lê o currículo não saber o trabalho que dá ter um blog. Ou ser preconceituosa e pensar “olha, esta já teve um blog sobre Twilight, deve mesmo ser uma pessoa hiper adulta, ah ah ah”. E, como sempre, há o outro lado da moeda: podemos sempre apanhar alguém que se apercebe e sabe que para se manter um blog durante anos a fio é preciso ter paciência, perseverança e empenho.

Penso muito nisto. Sempre que chego à parte de referir “outras experiências” fico sempre bloqueada. Digo, não digo. Digo, não digo. Sou da opinião de que devemos adequar o nosso currículo perante o objetivo que temos ou diferentes propostas de trabalho – evidenciando umas coisas ou tirando outras que, para aquela situação, não sejam relevantes. Mas, neste caso (e no meu em particular), os blogs são uma parte essencial da minha vida há muito tempo.

Escrevo neste blog há sete anos, tenho blogs há nove. Durante cerca de quatro anos levantei-me todos os dias às sete da manhã, antes de ir para as aulas, para deixar posts programados para o dia inteiro; organizei eventos e falei para vários meios de comunicação social quando a maioridade não estava sequer à vista; fiz parte (e fiz por!) de um blog que estava no top 5 dos mais visitados do país, numa altura em que os blogs eram, por um lado muito mais genuínos e movimentados, mas por outro tinham muito menos “nome”; o primeiro dinheiro que eu ganhei foi um cheque da Google, devido a esse mesmo blog. Já este, ainda que mais pequeno em termos de escala e número de posts, está no ar vai fazer sete anos: viu-me cheia de medo, a trocar as ciências pelas letras; viu-me a entrar na faculdade, a detestar a faculdade, a sair da faculdade; viu-me a estagiar, a fazer as minhas últimas férias grandes, a arranjar o meu primeiro trabalho. E tudo o que se passou no meio disso. Já me “vê” há muitos anos, basicamente.

E isto, tudo isto, é de valor. Eu sei que é e não tenho vergonha de o mostrar. Só tenho medo que não o entendam – porque, lá está, o currículo é curto, o tempo para olhar para ele é pouco e a hipótese de nos explicarmos é menor ainda. Pôr ou não pôr, eis a questão.


13 respostas a “Devemos incluir os blogs no nosso currículo?”

  1. Avatar de Fatia Mor

    De alguém que já teve a sua quota parte a ler currículos para processos de selecção… O currículo é uma forma de nos apresentarmos a possíveis empregadores. De acordo com as características do emprego que queremos, do tipo de profissão que desempenhamos, do género de empresa a que concorremos, poderemos ter que optar por cv mais tradicionais ou mais actuais. 
    Acho que essa questão nunca terá uma resposta directa. Há pessoas que podem valorizar o blog, compreender que qualquer actividade destas consome tempo, envolve dedicação, capacidade de escrita, criatividade, etc. Por outro lado, há empregos e empregadores que podem ver isto como um consumo de tempo que poderias estar a dedicar às tuas funções, que podem considerar a dispersão de interesses como um ponto negativo no teu perfil, etc.
    A solução é ter vários cv, do mais insonso ao mais dinâmico e usá-los de acordo com a necessidade.
    Se for informação que está online, tipo linkedin, então sou da opinião que devemos ter o máximo de informação possível, por considerar que o risco de perder uma proposta por falta de informação é mais prejudicial do que perder uma por excesso da mesma.
    Espero ter ajudado!

  2. Avatar de Triptofano!

    Depende do tipo de blog que tiveres e do emprego que quiseres obter.
    No meu caso, nunca iria concorrer a um trabalho numa área científica e escarrapachar o meu blog no cv, porque simplesmente não joga uma coisa com a outra.
    Agora se tiver um blog foodie e quiser trabalhar numa revista sobre alimentação aí faz mais que sentido.
    No fim de tudo é uma questão de bom senso!

  3. Avatar de Manuel Pereira de Sousa

    Ter um blogue é um trabalho difícil, árduo, que exige dedicação e foco nos objetivos que se pretendem. Este trabalho não é apreciado pela grande maioria das pessoas, nos tempos atuais muito menos porque comparam um blogue a uns meros comentários nas redes sociais – na realidade, um bom blogue é mais que isso.
    Fazer referência o blogue num CV é sempre uma indecisão que vai ter de ser ultrapassada com a seleção e adaptação do CV que pretende enviar para o emprego que pretende concorrer – há empregos em que a referência ao blogue não é notável e é uma informação a mais, para outros é fundamental.
    Independentemente de tudo isso, continue. 

  4. Avatar de Maribel Maia

    Nem sempre as pessoas valorizam, por falta de conhecimento… Bolgs e muitas outras coisas…
    Bom texto! 

  5. Avatar de Just_Smile

    Acho que depende do trabalho a que te candidatas e realmente se queres dar tanto de ti. Eu nunca colocaria o meu blog no currículo (já uma criança de 10 anos), mas porque tem demasiado de mim. Falo de empregos, de entrevistas e de tanta coisa que é minha que nunca seria capaz de pôr no currículo…

  6. Avatar de Sofia

    Eu refiro que tenho dois blogues quando falo das minhas capacidades de comunicação escrita, mas não dou nomes nem links. Em entrevistas, só falo deles quando me perguntam pelos meus hobbies.

  7. Avatar de D.
    D.

    Na minha opinião, só se o blog acrescentar alguma coisa a nível profissional ou for sobre esse tema

  8. Avatar de A.
    A.

    Como hobby talvez falava das minhas capacidades de comunicação e escrita através dos blogues e social media, mas nunca iria colocar o meu blogue no currículo. Não faz sentido, pois é algo pessoal e por vezes não é visto com bons olhos (penso eu ).

  9. Avatar de José da Xã

    Boa tarde,

    a questão que levantas faz todo o sentido. Da mesma maneira se fores voluntária também se deve colocar no curriculum?
    Pelo que sei na Europa dá-se mais valor ao relacionamento de alguém com a restante sociedade do que às estrondosas notas académicas.
    Mas obviamente que a indicação dos blogues só fará sentido se alguém estiver a concorrer, p.e. para um gabinete de informação de uma entidade ou para um jornal.
    Numa área de economia ou de engenharia ter um blogue não interessará nada.
    Resumindo a indicação de blogues depende da valência da entidade empregadora.

  10. Avatar de Marta

    Adorei este post e não poderia identificar-me mais. É sempre uma luta, uma das mais chatas que conheço! Foi bom saber que essa é uma dúvida que não me calha só a mim! 
    Não conhecia o teu blog e gostei muito. Já subscrevi! Um beijinho 🙂

  11. Avatar de Maria

    Também sou da opinião que depende muito do tipo de blog que tens e ao emprego a que te candidatas.
    Eu era impensável, se nem nas minhas redes sociais o menciono, não seria num curriculum com toda a certeza. 
    Mesmo sendo sinal disso tudo que dizes, ter um blog, no meu caso com nove anos dá muito trabalho. Por muito insignificante que ele seja.

  12. Avatar de Graça Torre

    Olá Carolina!
    Eu amo os blogs, já tive montes deles, e agora tenho um https://navidabloggandoando.wordpress.com e se me permites, também tenho essa dúvida, por isso arranjei uma táctica de pôr o meu blog no link que pedem um site. 
    Esse é o meu site, pelo menos aquele que eu adoro. 
    Beijinhos, espero ter ajudado. 
    Graça. 

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