Este ano voltei à faculdade. Toda esta reentré foi diferente do normal, por muitos motivos, mas em particular por estar a direcionar a minha vida para aquilo que, calculo, será o meu futuro profissional – trabalhar nos negócios de família. Achei que tirar algo relacionado com gestão – já que não o fiz na licenciatura, em que divergi completamente desta área – era essencial, pelo menos para ter uma ideia daquilo que precisarei de saber no futuro.
Escolhi um curso executivo – não queria nada teórico, nem que me obrigasse a teses ou a encher mais chouriços do que já enchi na minha anterior vida académica. A ideia é ser prático, intensivo, incisivo; ir direto à questão, abordar os temas de caras e não andar às voltas.
Isto seria o sonho de qualquer um que tem no seus tempos académicos recordações incríveis; mas não para mim. Custou-me dar este passo, porque tenho bem vivas as memórias dos meus tempos de faculdade. E embora não seja um bicho-papão de sete cabeças, não é algo que eu quisesse reviver. Fi-lo por necessidade, por saber que era algo que me podia fazer falta no futuro (todos sobrevivemos sem um curso, mas conseguimos viver melhor com as ferramentas que ele nos dá). E por isso inscrevi-me.
“E estás a gostar?”, pergunta-me toda a gente. Sinto que todos me fazem esta pergunta e tiram logo as devidas conclusões quando olham para a minha cara, que não mente. Mas a verdade é que a minha cara de “quase não” não presta as devidas explicações que devem ser dadas neste caso. Eu estou a ser guiada por um objetivo futuro, a médio-longo prazo; e faz parte da existência humana querer a satisfação imediata das coisas, algo que me é impossível neste momento. Portanto é preciso decompor esta pergunta “simples” em várias partes para poder ter uma ideia real daquilo que eu sinto. “Está a dar-te gozo tirar este curso?” Não. “Estás a gostar de voltar aos estudos, de ter aulas, exames e trabalhos por fazer?” Nem pensar! Ao longo dos anos fui-me apercebendo de que apesar de adorar aprender, não tiro o menor prazer em ter aulas no seu formato clássico – e muito menos estudar para exames ou fazer trabalhos de grupo. Tenho sentido muitas dificuldades em ter força de vontade para organizar as aulas e estudar. “Mas achas que este curso terá utilidade futura e que te pode trazer algum tipo de vantagem?” Claro que sim. E é esse o meu foco.
Não tem sido fácil voltar a um sítio (ainda que figurativo) onde não fui feliz. Reencontrei-me com a frustração de não perceber as coisas, bati outra vez de cabeça com algumas matemáticas e com aquele sentimento que já me tinha esquecido de querer muito entender algo e não conseguir; voltar a ter o ritual de pegar nos livros, ter hábitos de estudo, está a ser duro (lembro-me que no meu último ano de faculdade já foi uma agonia fazer resumos e passar horas infinitas agarrada a um determinado tema); e, claro, há dias em que nem sempre é fácil estar atenta durante as três horas de uma aula.
Mas a verdade é que, dentro do que já conhecia, houve muito de novo para mim: pessoas diferentes daquelas que conheci no passado (o grupo – com quem simpatizei à partida – é muito heterogéneo, quer em termos de formação, ramos de trabalho ou idades); umas instalações incríveis (passar de um polo que nem um café tinha para um local com salas de aula com fichas elétricas em cada lugar, dois projetores e cadeiras almofadadas e de rodinhas é quase um sonho); disciplinas que sempre me assustaram mas que não me fazem pensar “para que é que eu estou a gastar o meu tempo nisto?”; e num horário que não me é simpático (chego tarde a casa, privo-me de jantar com os meus pais e chego ao final da noite com demasiada energia). Mas aquilo que mudou, acima de tudo, fui eu: já não sou uma caloira assustada com o desconhecido. Não houve dramas com a praxe, não houve a necessidade imediata de me integrar; não há dúvidas, não me pergunto diariamente “porque é que estou aqui?” e não ponho em cima da mesa desistir a qualquer momento.
A modos que é isto. A minha nova passagem pela faculdade é como este texto: uma mixórdia complicada de sim’s, não’s, talvez, depende’s. E esperança. Apesar de tudo, acho que esta nova aventura tem conseguido fazer com que eu limpe a má imagem que, ao longo dos anos, fui construindo sobre o mundo universitário – o que, só por si, já vale a pena.
(agora vou estudar – escrever este texto foi só uma desculpa para me escapar ao cálculo financeiro pela enésima vez. já vos disse que estudar tem sido muito difícil?!)

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