Isto tem sido uma viagem e tanto – muito mais emocional do que propriamente de passeio. Tem sido duro e tão bom ao mesmo tempo. Por um lado é a prova de que já sou adulta, que não preciso de álcool para me sentir crescida (desculpem, foi uma private joke para o post anterior); por outro também foi a evidência de que embora já sobreviva sozinha, estou melhor no colo dos que me querem, porque é o único sítio do mundo onde me sinto querida e amada.
Esta viagem é pura e simplesmente uma daquelas experiências a que chamamos “crescer”. Às vezes dói como o caraças, outras sabe a liberdade pura. Passei por estes dois extremos tantas vezes ao longo destes dias, em que lutava contra o cansaço, o medo, o desconhecido, que dei por mim a procurar muitas vezes o conforto na única coisa que aqui me era conhecida e confortável, porque vivo com ela há anos: a solidão. Nos momentos de aperto – e não só – escondia-me nos arrumos atrás do computador, com o trabalho como pano de fundo, e limitava-me a relaxar e a racionalizar.
Não devia e acho que esse é um dos meus grandes problemas – mas também uma das minhas virtudes, quando é feita no momento certo. Não consigo não racionalizar aquilo que sinto e que penso, o que por vezes torna as coisas mais confusas do que já são. No meio de tudo isto, foi o factor social que mais mexeu comigo: a quantidade de pessoas que tive de me relacionar, falar, privar, deu-me cabo do sistema. E, chegada ao fim da feira, mal pus os pés do metro já a caminho do hotel, dei por mim com uma necessidade imensa de escrever, com as lágrimas a quererem escorregar-me pela cara a abaixo e com uma vontade louca de ouvir as músicas que me aquecem a alma, porque só assim é que iria conseguir despir-me de tudo isto que me invadiu nos últimos dias. Adorava, a partir daquele momento, viver esta cidade, descobri-la e arquivar esta experiência e estuda-la mais tarde: mas há coisas que nos ultrapassam, que nos passam a ferro, que nos deixam sem folga para respirar. E, naquela carruagem, o que senti não era saudade, não era tristeza, não era medo: foi descompressão, foi aceitação, foi alívio e foi dor, por ter andado a remexer – ainda que de forma despropositada – em partes de mim que me doem particularmente.
Um dia alguém me deixou aqui um comentário que me fez chorar as pedras da calçada. Não por ser um hater; pelo contrário, foi por ser alguém que, só por me ler, pareceu conhecer-me melhor do que eu própria e dizer coisas que eu não queria admitir. Um dos meus filmes preferidos é o “The perks of being a wallflower”, que fala basicamente de alguém que não se integra por problemas interiores e acaba por se meter num grupo, que viria a ser o dos seus amigos, mas que aos olhos dos outros é completamente louco. Numa das frases do filme, proferida por Emma Watson, ela diz “we accept the love we think we deserve”. E no fim desse segmento, eu chorei que me matei, porque isso foi como uma flecha que me atingiu no sítio certo. E doeu muito.
Digo muitas vezes que sou anti-social e muitos vêm dizer-me que não é verdade. Tudo bem, pode não ser: mas os problemas de socialização existem, de facto, em mim, e sempre foram o ponto fraco da minha vida. Sofri muito, com muita gente, e isso mantém-se até hoje. Sinto-me incapaz de confiar ou me entregar a alguém, mesmo que seja uma pessoa em que ache que deva investir. O medo de não sair de poços demasiado profundos como os que já caí fala demasiado alto e acabo sempre por perder quem gosto, de uma forma ou de outra.
Isto custa a escrever, mas já estou para o dizer há muito – e foi, aliás, aquilo que me deixaram um dia na minha caixa de comentários: sinto que não sei amar nem ser amada para além daqueles com quem já nasci. Num misto de falta de confiança em mim própria e também na confiança dos outros, acho sempre – e sempre, é sempre – que as pessoas não gostam de mim, não gostam da minha companhia ou de estar comigo. E sinto que aos 21 anos desisti de esperar outra coisa por parte delas; mas, de forma igualmente proporcional, faço o máximo para que gostem. É estranho, algo contraditório, mas que não consigo explicar na sua plenitude. E acima de tudo é triste.
Nesta semana que tive fora, esta realidade embateu contra mim como se de um camião se tratasse. O contacto com pessoas novas, as exigências, as diferentes formas de ser e, acima de tudo, a necessidade de me agarrar a alguém para não me sentir abandonada, fez-me perceber que tenho uma série de barreiras na minha vida que me causam imensa dor, mas que eu vivo com elas há tantos anos que já nem noto. Tenho pensado muito, colocado muitas das minhas teorias à prova e tantas outras coisas em perspetiva.
Esta não foi uma viagem de lazer, e por muitos mais dias que ficasse, nunca seria. E para além de ter sido de muito trabalho, muito cansaço e muitas olheiras, esta foi acima de tudo uma viagem de auto-descoberta, tão dolorosa como produtiva. Por um lado sei que foi valiosa, mas por outro só quero voltar ao ninho, e reorganizar todas estas gavetas dolorosas que abri e tornar a fecha-las a sete chaves durante tempo indeterminado. Porque este exercício, apesar de bom, cansa-me a alma.

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