Há certas normas na sociedade que já estão mais que formadas, implementadas, concretizadas e especificadas. E depois há outras deixadas um bocadinho ao Deus dará (ou o chamado senso comum), que por vezes causam certas dúvidas a quem se dedica um bocadinho a pensar sobre elas. Para mim, uma dessas normas pouco definidas é a cultura das gorjetas – pelo menos aqui, porque nos Estados Unidos (e, calculo, noutros locais) está bem padronizado e, calculo até, previsto na lei.

Apesar de ao longo de toda a minha vida me ter confrontado com este “problema” e opinado frequentemente sobre se ou o que deixar, só nos Açores (mais uma vez) é que me caiu a ficha. Estava sozinha, não podia deixar a decisão de dar ou não gorjetas para cima dos meus pais, como fiz quase sempre durante a minha vida. A situação era específica: depois de duas tours – que, importa dizer, correram bem, embora tivesse gostado mais de uma que de outra – perguntei-me a mim mesma se devia dar alguma coisa aos meus guias.

Este é o tipo de situação em que tipicamente se dá qualquer coisa assim de forma muito discreta – algo que eu também nunca percebi. Num restaurante deixamos o dinheiro em cima da mesa, no cabeleireiro metemos-lhes a moeda ao bolso de forma nada discreta, num cruzeiro deixam-se envelopes a dizer “GORJETA” em cima da mesa, mas ali faz-se a coisa pela calada. Porquê?

Há ainda o problema da quantidade a deixar. Num restaurante dos Estados Unidos deixa-se o equivalente a 10 ou 15% da conta total… mas e aqui? Num tour que, em princípio, eu nem saberia o preço, uma vez que estava incluída num pacote comprado previamente?

Acho que o que tende a acontecer em países como o nosso, que não têm nenhuma norma estabelecida para este tipo de casos, é cada um estabelecer a sua própria norma. Eu própria estou a construir a minha – e confesso que nem sempre a sei explicar. Se sou mal servida, em qualquer tipo de sítio ou serviço, nunca deixo nada – isso é certo. Mas se for a um restaurante ou café costumo deixar alguma coisa; o mesmo não se passa no cabeleireiro, onde vejo muitas pessoas a darem moedas a quem lhes fez a manicure ou pintou o cabelo, por exemplo, algo que nunca faço; também não dou àqueles rapazes que nos hotéis transportam as malas para os quartos. Porquê? Não sei bem e depende de caso para caso. Se às manicures, pensando bem, até podia dar – porque me tratam sempre bem, já sabem como gosto das unhas -, ao camareiro – que tem um serviço rápido – já não me faz tanto sentido. O que levanta outra questão: porquê que há profissões em que se dá “gorjas” e outras que não? Porque é que não damos umas moeditas a um médico ou enfermeiro que nos tratou de forma impecável e hiper humana? Porque é que não damos um extra à senhora do IKEA que nos ajudou a escolher o móvel? Porque é que não damos gorjeta à senhora da frutaria por debaixo da nossa casa?

Enfim, são questões que me assolam de vez em quando. A verdade é que acabei por dar gorjeta a cada um dos meus guias, tentando dar-lhes o dinheiro de forma discreta mas sem arranjar todo um esquema para o fazer. Vi que as pessoas que estavam comigo não deram nada, o que gera ainda outro problema: o confronto de normas dentro do mesmo grupo, que faz cada um dos indivíduos sentir-se mal, ora porque deu, ora porque não deu.

E se por um lado o rapaz recebeu bem o presente extra que eu lhe dei, a rapariga disse-me logo que não era preciso. Para mim, que não sou muito boa a interpretar este tipo de coisas, foi um momento um bocado chato: era óbvio que eu não ia retirar o dinheiro que já lhe tinha dado, mas por momentos até achei que a podia ter ofendido. Depois a situação rolou normalmente, ela aceitou e eu lá suspirei de alívio, mas naquele momento pensei em tudinho que está aqui neste post e amaldiçoei o facto de não existir um livro com este tipo de regras, para não andarmos todos aqui meio perdidos.

Mais tarde perguntei a uma prima minha, também ela guia, qual era a relação dela com gorjetas e se de alguma forma o dinheiro extra podia ser mal interpretado. Ela quase se riu na minha cara. Mas eu sei lá – as coisas mudam tanto, há pessoas com filosofias de vida tão distintas, que é difícil o mesmo comportamento agradar a gregos e a troianos. Embora eu perceba que, metendo dinheiro extra no bolso, poucos se possam queixar.

E por aí, dão gorjetas? Só a alguns, a todos ou são os sovinas?

 


7 respostas a “Gorjetas: dar ou não dar, eis a questão”

  1. Avatar de Nuno
    Nuno

    Por norma dou gorjeta acho que a única regra é mesmo a da satisfação com o serviço prestado. Se foram simpáticos afáveis solicitos e o serviço é bom dou gorjeta se pelo contrário sou tratado com 7 pedras na mão o dinheiro fica contadinho 

  2. Avatar de vanita

    Não dou gorjetas a não ser em casos mesmo muito excepcionais, quase inexistentes, de serviços muito bem desempenhados. Considero que os preços estabelecidos pagam os serviços e que qualquer valor para lá disso promove a economia lateral e a fuga aos impostos. 

  3. Avatar de Tri

    É um tema com o qual me debato e muito.
    Eu sou contra as gorjetas e tenho muitos amigos da área da restauração e hotelaria, pelo que isso dá sempre azo a discussão.

    Creio que o preço que nos estão a cobrar pelo serviço, seja ele qual for, é o justo para o mesmo e a pessoa que o está a executar recebe um salário para isso mesmo. Por isso, não percebo as gorjetas.

    Ninguém me dá um gorjeta no meu escritório se eu executar bem o meu trabalho, simplesmente é a minha obrigação, pagam-me para isso mesmo.
    Portanto, porque deveria deixar num restaurante ou cabeleireiro.
    É uma daquelas  “tradições” que eu não entendo mesmo…

  4. Avatar de Pedro

    Olá Carolina,
    Acho que ainda não visitei nenhum sítio onde a gratificação seja obrigatória, mas também me habituei com os meus pais a reconhecer a qualidade do serviço que nos é prestado e a gratificar em igual medida. Depois há aquelas situações que fica impossível não gratificar: a pessoa que sobe 6 lanços de escada para entregar uma bilha de gás ou o miúdo que atravessa a cidade numa motoreta para entregar uma pizza (desde que li a reportagem sobre os perigos a que se sujeitam os entregadores de pizza que passei a dar gorjeta). No caso dos guias que referes, penso que provavelmente não teria dado gorjeta, mas se mereceram a distinção, acho que a gorjeta foi bem dada. É o tipo de coisa em que “you can’t go wrong”, mesmo que seja uma quantia muito simbólica. Excelente post, como sempre!

  5. Avatar de And

    Tenho a mesma relação com este assunto 🙂 parece que é preciso um estímulo para que o trabalho seja bem feito, quando, na realidade, só é obrigação..

  6. Avatar de blackened

    Olá 🙂
    Bom, levantaste aqui umas boas questões! Eu costumo de ser empregada de mesa nas pausas lectivas, portanto, sou um bocado suspeita 😂 Já me chegaram a dar 20 euros na mão e a elogiar o meu serviço, como também já chegaram a despejar as moedas todas de 1 cêntimo que tinham na carteira, e dizer “é para si, menina”, alguns a gozar, outros a acreditarem mesmo que eu precisava de caridade. Seja como for, é muito gratificante receber gorjeta e ver que realmente foi dada com a intenção de mostrar que gostaram de serviço, lá isso é verdade. Quando sou eu a usar os serviços dos outros, lembro-me sempre desse aspecto e, dentro das minhas possibilidades, mostro a minha satisfação. Também já me aconteceu, um taxista, pouco mais velho que eu (e muito giro!), recusar o meu pedido para arredondar a conta, “Tem juízo! És estudante e estás a dar-me gorjeta? Faz falta a todos, guarda isso”. Na altura fiquei muito constrangida, eu até estava a tentar facilitar trocos, não foi minha intenção ofender  ninguém, e falhei redondamente ao tentar explicar-me, acabando por sair do taxi um bocado à toa xD Mas depois de pensar no assunto… gostei da atitude do moço. Acho que foi sensato, pronto xD Noutras profissões como médicos, enfermeiros, funcionários das finanças… existem as chamadas cartas de elogio ou agradecimento. Não sei se isso é mesmo usado, mas já ouvi falar nisso xD Gorjetas nalguns destes casos, se forem cargos públicos, levantariam algumas questões… Mesmo assim, um elogio por escrito, ou até mesmo dito à própria pessoa, acho que tem bastante impacto, o suficiente para mudar completamente o dia de alguém 🙂 Por muito complexa e sem sentido que pareça esta história das gorjetas, acho que é importante apreciar a dedicação dos outros. Envolvendo ou não dinheiro, um agradecimento, um sorriso, um elogio, um “continuação de bom trabalho”, um gesto… não custa nada… Mas significa imenso 🙂

  7. Avatar de Tri

    Concordo completamente que um gesto faz toda a diferença e que devemos incentivar ao ‘uso’ do elogio como gratificação pelo trabalhado prestado.

    No entanto, isso em nada se compara com as gorjetas..um elogio não é monetário (o que não significa que não seja melhor).
    Por exemplo, tenho amigos na área da restauração que, por vezes, ao dia 15 de cada mês recebem 200/300 euros limpos! Nada disso é a sua remuneração, é sim o repartir das gorjetas entre todos (WHAT?!)
    Gostava que me dessem gorjetas aqui na empresa ..nem que fossem 10 centimos por cada papel bem impresso ou assim eheh

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