Há dias

Há dias em que gostava de ser igual a todos os outros, em que queria despir esta pele de diferença que sinto que vesti desde que me conheço. Há dias em que queria seguir a carneirada e não ter opinião própria, não ter personalidade, não ter de me impor perante os outros.

Há dias em que gostava de gostar de crianças, em que me apetecia já ter meia-dúzia de namorados na lista, que queria ter planos para casar e ter filhos – em vez de todos os dias perceber, cada vez mais, que não consigo estar com crianças durante muito tempo e que não há nenhum casamento ou relação que veja que me encha as medidas e eu diga “é isto que quero para mim”.

Há dias em que eu queria saber fingir que adoro shots de tequila, em que gostava de ter um grupo de amigos sólido, passar a gostar de dançar em frente a uma pequena multidão e de drum&base a altos berros – em vez de optar e não gostar de beber álcool, de ficar sozinha em noites que me apetece ir sair ou de não conseguir esquecer o trauma que tenho desde as aulas de dança que tive no básico.

Há dias em que preferia adorar falar ao telemóvel, ter paleio para os mais e menos simpáticos, de dizer que sou jornalista com toda a pujança e força de vontade – mas continuo a rever as minhas conversas internamente antes de clicar no botão verde e a torcer para que a pessoa do lado de lá da linha esteja a ter um bom dia e não decida descarregar as suas frustrações para cima de mim.

Há dias em que queria deixar de ter medo de fazer tudo e arriscar, de deixar de ser uma control freak, de escrever tudo na agenda, de relembrar tudo para escrever neste blog, de deixar de ser chata, mandona, nariz empinado, de deixar o espírito de liderança na gaveta, de me deixar ir e fazer o que os outros mandam sem sequer pestanejar.

Há dias em que eu gostava de deixar de ser anti-droga, anti-erva, anti-marijuana ou lá o que lhe queiram chamar, deixar de ser anti-praxe, deixar de ser defensora dos gays, dos bis e dos desiguais.

Há dias em que me sinto na Lua, numa realidade e com uma forma de vida completamente fora do normal, que ninguém entende. E há dias em que eu gostava muito de vir à terra, nem que fosse por uns momentos, porque na Lua está-se bem, a vida é boa, a vista é bonita e o silêncio apaziguador – mas há dias que, de tão sozinha, até o próprio silêncio se torna ensurdecedor.


9 comentários a “Há dias”

  1. Avatar de David Marinho
    David Marinho

    Que tenhas esses dias porque sem eles somos uma…merda.

    Beijinhos

  2. Avatar de Catarina

    Também há dias em que me identifico tanto, mas tanto com o que escreves que sinto que podia ter sido eu a dizer as mesmas palavras!

  3. Avatar de Sweetener

    Carolina, apesar de te seguir há imenso tempo creio nunca me ter identificado tanto com um texto teu como este. Ao ler as tuas palavras sinto que me estás a descrever a mim, onde as diferenças são apenas o facto de eu gostar de crianças e de não ser jornalista.
    Tal como aquilo que escreves, também eu sempre me senti diferente, com convicções diferentes, com ideais diferentes… E por me sentir tão tocada, peço desculpa, mas não consigo dizer muito mais… Agradeço, só. Obrigada

  4. Avatar de Isabel P.
    Isabel P.

    Compreendo perfeitamente. Revejo-me em muito do que tu dizes, mas principalmente em não gostar de crianças. O que para alguém que está num relacionamento estável como eu e não quer ter filhos é visto como um sacrilégio. Por agora, à pergunta “e bebés?” ainda me safo com um “ainda sou nova”. Mas quando não for? É… por isso sei bem como te sentes. É muito difícil não sermos ovelhas e não seguirmos o rebanho. Mas também é isso que faz de nós especiais e que faz muitas vezes darmos valor a coisas que “o rebanho” não dá. E isso é “badass” como o catano! 😉

  5. Avatar de Nuvem

    Há dias assim 😉 força Carolina! Se não fosses assim, não eras a Carolina que conhecemos e tanto gostamos!

  6. Avatar de Uma Indecisa Qualquer

    Há dias em que também eu gostava que olhassem para mim como “mais uma” e não como a que tem a mania que é diferente. Mas sabes uma coisa? Ser diferente é o que está na nossa essência e que se lixe o que os outros pensam.

  7. Avatar de mami

    o bom é ter a consciência de que “há dias” e que as coisas boas ou más não são eternas

  8. Avatar de Margarida

    Quando te sentires na “Lua”, pensa que tens por lá muitos “vizinhos”. Acho que somos cada vez mais, a meu ver…

  9. Avatar de Babs

    Identifico-me com muitos aspectos e admiro a coragem de expores estes teus desabafos, pela importância que tem chegares a outras miúdas que sentem o mesmo e acham que são as únicas (*aponta para si própria*).

    Em relação ao post abaixo, também partilho de um excesso de medos – do medo de soar ridícula, de parecer parva, de conduzir para sítios desconhecidos. E depois os medos que não estão sob o meu controlo e que me paralisam às vezes – imagino guerras, assaltos, doenças terminais, acidentes de viação, tenho um stock de cenários. Uma amiga sugeriu-me fazer coisas fora da zona de conforto (por mais cliché que soe), do tipo viajar sozinha ou fazer uma atividade qualquer, para sentir que tenho controlo. Não sei, mas essa sugestão pode ser útil para o teu caso também.

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