Mentia se dissesse que foi o Harry Potter que me iniciou na leitura – esse galardão vai para o Triângulo Jota, que me ensinou a gostar de ler. Também não estaria a ser correta se afirmasse que essa série foi o maior amor literário da minha vida: nunca, nada nem ninguém, vai alguma vez destronar aquilo que o Twilight representou para mim. Mas a verdade é que essa saga teve muito que ver com a fase da vida em que eu estava, porque a apanhei no início e vivi quase de uma ponta à outra com os sentimentos à flor da pele.

Mas quando, algures em 2010 – já os livros estavam cá fora, assim como metade dos filmes -, li o Harry Potter, soube que era para a vida, um amor diferente. Não é uma história de amor para corações eternamente românticos, não é um policial que se devore e se esqueça no dia seguinte. É uma lição de vida sobre a diferença, sobre a coragem, sobre a amizade, sobre a força, sobre a união mas também sobre a solidão. E, acima de tudo, sobre a magia – e o poder da imaginação. O Harry Potter mora em nós a partir do momento em que o conhecemos, os corredores de Hogwarts passam a ser os nossos corredores, a Hermione e o Ron os nossos confidentes. 

Para mim, todos os livros que tenham a capacidade de tele-transportar os seus leitores para outros mundos merecem ser lidos – sejam maus ou bons aos olhos da crítica. Já o escrevi aqui e repito quantas vezes forem necessárias: qualquer obra que inicie alguém na literatura já fez o seu papel; aquele livro passou a valer a pena, mesmo que seja uma desgraça. E, mesmo que o Harry Potter não tivesse tantas – tantas! – outras qualidades, teve a capacidade de mostrar a milhões de crianças, jovens e adultos que temos todos a possibilidade de viver num mundo paralelo, com ou sem magia, durante muito ou pouco tempo: basta abrir um livro. 

Acho que não há maior prova disso do que aquilo que se viu hoje nas redes sociais. Ao invés de uma desgraça, de um vídeo parvo e viral ou de discussões políticas, o meu feed encheu-se de magia, de saudade, de agradecimentos profundos; de óculos arredondados, de raios na testa e de trechos inesquecíveis. A minha geração – a “inculta”, a “geração à rasca”, “aqueles que estão a deixar o papel morrer” – parou, pensou, partilhou e escreveu massivamente sobre uma saga que toldou os seus tempos, que lançou um dos seus maiores ídolos e inspirações. Sei que a maioria das pessoas que leu estes livros se sente agradecido à J. K. Rowling por aquelas horas passadas a ler, num mundo tão mágico e tão especial como é Hogwarts, como é a Londres dos Muggles ou Privet Drive. 

Faz hoje 20 anos que foi publicado o Harry Potter e a Pedra Filosofal. Só há uns sete é que eu entrei, tal e qual na plataforma 9 3/4, neste mundo – mas a entrada foi tão rápida e tão drástica que sei que, por muito que faça, nunca mais vou de lá sair. Harry Potter, para mim, são momentos muito especiais (como o da foto em baixo, o ano passado, na livraria Lello); é Natal, é conforto, é um porto seguro. É o sinónimo de que a magia acontece, dentro e fora de páginas. E representou um dos grandes alentos que me fez ler mais e, acima de tudo, tentar escrever ainda melhor. Saber que alguém que aqui viveu teve a capacidade e a inspiração para construiu todo este mundo, torna tudo muito mais real, quase como se a possibilidade de isto acontecer a algum de nós – ou a mim – possa estar ao virar da esquina. E por isso, para além de tudo o resto, a J. K. deu-me – e dá-me – também esperança. Porque a magia acontece. E tal como nos provou o Harry Potter… ela sozinha não basta, mas com força de vontade… até o impossível se consegue.

 

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Uma resposta a “Harry Potter: 20 anos a espalhar magia”

  1. Avatar de The Daily Miacis

    Eu comecei a ler para aí em 2010, inicio de 2011. E…. adorei. Era uma cachopa e li o livro todos os dias daquela semana religiosamente. E fique… hiponitizada. E foi com esta série de livros que me fez vergar e ler em inglês. Não quis que me spoilassem no último livro e comprei a versão em ingles que saia uns meses antes.

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