Acabei o último post dizendo que não havia instabooks. A verdade é que não me dei ao trabalho de procurar, esperei simplesmente (e esperançosamente) que eles não existissem – porque, hoje em dia, existe tudo o que é passível de ser “instagramável”, que é como quem diz “tudo o que fica bem na fotografias”. O que tem tanto de bonito como de fútil.

Pensei muito nisto no Brasil, onde o meu primeiro momento de “pânico” na viagem foi quando achei que ia integrar uma comitiva de instagramers, bloggers e influencers. Percebi que o hotel estava pejado delas logo no primeiro pequeno-almoço, quando uma rapariga passou cerca de vinte minutos a tirar fotos aos seus pratos e a fazer instastories de todo o material comestível disponível no buffet. Quando eu digo vinte minutos, foram mesmo vinte minutos: ao ponto de nem sequer chegar a vê-la comer! Mexia um prato, trocava outro, tirava a foto de 47 ângulos diferentes, fazia zoom in e zoom out… e nisto o café já devia estar frio. Notei também devido à presença constante de câmaras e de telemóveis e, claro, pela forma como elas se vestiam só para ir comer, demonstrando que não eram pessoas da mesma “classe” que todas as outras presentes na sala. Entre maquilhagens e vestidos esvoaçantes, tenho a certeza que passavam mais tempo a arranjar-se para ir comer antes de ir para a praia do que eu costumo demorar antes de ir para um qualquer evento de maior importância – o que é indiferente, desde que elas gostem… mas que não deixa de ser uma prisão para elas, porque Deus-me-livre de ir tomar o pequeno-almoço com o cabelo apanhado e as olheiras de quem acabou de acordar! Não vá alguém pedir uma foto, claro! 😉 E foi por isso com o maior alívio que eu percebi que não ia andar com elas no evento. Se me senti desintegrada com os três jornalistas que me acompanharam nesta viagem, se tivesse de andar com elas sentir-me-ia pior que o patinho feio durante quatro dias. 

A situação mais caricata que vivi durante aqueles dias foi numa das minhas manhãs na praia. Estava deitada a ler o meu livro na areia e surge um grupo destas raparigas, em conjunto com um fotógrafo, prontas para uma sessão fotográfica. Uma vem educadamente falar comigo e diz: “olá, desculpe incomodar! Posso pedir um favor a você?”. Respondi que sim. “Pode emprestar o seu livro, para tirar uma foto?”. Eu não sei precisar a minha cara naquele momento, mas deve ter sido engraçada. “S… sim.” E entreguei o livro de João Pinto Coelho à brasileira, que prontamente se deitou na espreguiçadeira, abriu a obra em parte incerta e fingiu ler com muito afinco. Uma série de disparos depois, vem entregar-mo, rematando: “ao menos o livro é bom?”. “Muito bom”, disse-lhe, esperando que ao menos fizesse boa publicidade ao livro de um autor português. (Poupo-vos a pergunta: apesar dos meus esforços em encontrar a blogger em questão e a foto em particular, as minhas pesquisas foram infrutíferas).

Toda esta necessidade de tirar fotos para ficar bem e parecer melhor mexe-me um bocadinho com as entranhas. Não é só tornar a realidade mais bonita do que aquilo que ela é: trata-se de mentir mesmo. Eu tenho noção de como é que tudo isto funciona e estava lá nesta situação em particular – e em todas as outras, enquanto comiam os seus próprios cabelos esvoaçantes à medida que andavam sensualmente pela praia, quando o mar lhes dava chicotadas nas costas e elas pareciam estar a saborear o cheiro a maresia ou em puros momentos de narcisismo ou mesmo má-educação, enquanto tiravam selfies a meio dos desfiles. Mas a verdade é que muita gente não sabe disto – principalmente as miúdas mais novas, que acham que os pequenos-almoços são sempre incríveis, que aquelas pessoas que seguem têm tempo para ser lindas, bonitas e cultas ao ponto de até lerem na praia, pensando que tudo é um mar de rosas.

A verdade é que hoje em dia é tudo para o Instagram. Eu vejo aqueles fatos de banho com 59 fitas espalhadas pelo corpo e sei que nenhuma influencer que se preze quer ficar com aquelas 59 marcas no corpo; sei que são fatos-de-banho para a foto. Vejo aquelas agendas com frases inspiradoras e percebo que são apenas para “flatlays” perfeitas. Reparo naqueles saltos assustadoramente finos e sei que a foto deve compensar a dor nos pés ao final do dia. E vi muitas, muitas vezes todos aqueles sorrisos momentâneos, enquanto a câmara se apontava para elas, e que se desvaneciam imediatamente quando olhavam para o ecrã, já com o dedo pronto para retocar e esconder qualquer imperfeição.

Esta rede social ganhou uma dimensão ainda mais irreal do que o facebook, na medida em que tudo tem de ser bonito e perfeito; em que não só as fotos são 100% cuidadas como o próprio feed é mexido com muito carinho e amor, qual bonequinho de porcelana. Acho incrível – no bom e no mau sentido – como é que alguém tem paciência para prever o seu feed antes de publicar uma foto, só para perceber se o “conjunto” fica bonito e coerente. Porque, aparentemente, a vida para estas pessoas é isto: a beleza de tudo, em tudo. E eu não acho mal que se veja o bright side of life. No meio das minhas pesquisas para encontrar a blogger-do-livro, deparei-me com fotos incríveis da praia e do resort onde estive e pensei “bolas, aquilo era assim tão bonito?”. De facto elas tornam o banal em algo incrível, transformam o bonito em tendência. Mas, pelo meio, espelham uma vida irreal que (mesmo inconscientemente) todos acabamos por ter como referência: porque queremos aquele pequeno-almoço completo e de aspeto delicioso, queremos um rabo sem estrias, queremos os biquinis mais giros do mercado, queremos aquela maquilhagem perfeita, queremos as viagens, queremos aquele carro XPTO, queremos o relógio em promoção, queremos um fotógrafo que nos tire aquelas fotos bonitas. Só nos esquecemos que a vida é também tudo o resto. Tudo o que não é instagram. Se calhar, tudo o que é de mais real. Basta pensar num cozido à portuguesa: pouco bonito e fotogénico, mas delicioso e autêntico. E a verdade é que há um mar de coisas estilo cozido à portuguesa espalhadas por aí.


15 respostas a “Hoje em dia é tudo instagram”

  1. Avatar de Bruxa Mimi

    Gostei de ler este post e pensar: “Acho que vou continuar sem Instagram. Não iria acrescentar nada à minha vida.”

  2. Avatar de D.
    D.

    Pode parecer um exagero elas comportarem-se assim mas é o trabalho delas. É dali que ganham dinheiro, elas estão a ser pagas para publicar essas fotos todas.
    Achei a questão do livro um absurdo, se ela queria uma foto com um livro podia ter levado. Mas pronto. Esquecendo o facto de pedir um livro propositadamente, é normal que elas tirem fotos para chamar à atenção. É o trabalho delas, precisam de ganhar seguidores e gostos.

    Em relação à tua frase:
    tenho a certeza que passavam mais tempo a arranjar-se para ir comer antes de ir para a praia do que eu costumo demorar antes de ir para um qualquer evento de maior importância”
    Espero que não seja o caso mas só um pormenor engraçado… Já fui a uns quantos eventos de alta importância e alguns jornalistas estavam vestidos de igual forma como se estivessem no café ao final da tarde, alguns mesmo com banhos por tomar…
    Prefiro partilhar sala com pessoas que demoram horas para se arranjarem para irem tomar o pequeno-almoço do que com pessoas que preferem não tomar banho durante dias (alguns pareciam que não tomavam à uma semana, na outra ponta sentia-se o cheiro!) para poupar água.

  3. Avatar de Os bloggers

    Com a massificação destas novas redes sociais, surgiram novos empregos, só temos que nos habituar a vê-los dessa forma. 
    Os operadores turísticos estão a usar muito este tipo de promoção de destinos, pagam a viagem e estadia a várias “influencers” e elas só têm que retratar o lado mais belo dos locais, para nos convencer que aquilo é o paraíso na terra. Basta dares uma vista de olhos nos principais operadores, Abreu, Sólférias e Soltrópico. As redes deles estão cheias de fotos desse género. 

  4. Avatar de P. P.
    P. P.

    Eu gosto muito do Instagram e ao ler… até senti alguma vergonha.
    Curiosamente, as stories não me dizem nada. Gosto de ver uma fotografia “a sério”. Só que, de preferência, de pessoas amadoras, a plantas, monumentos, preciosos pretos & brancos… Nada nesse contexto.
    Acredito que por cá já se passa algo do que relatas pois tenho alunos, sobretudo os de artes, mas não só, cujas stories por dia são imensas. Só que… eu pensava que era forma de as fotos não ficarem no feed, por forma a esconder eventuais amizades e orientação sexual dos pais Estou a sentir-me tão douto! 

  5. Avatar de Maria Araújo

    Gostei do que li, de facto mostra-se uma vida que não corresponde à realidade, mas  algumas são  pagas para o fazer, provavelmente é o seu trabalho.
    Gostei de mais disto, e pode ter a certeza, e com todo o prazer,  fotografava e publicaria no Instagram a deliciosa  gastronomia portuguesa.
    “Basta pensar num cozido à portuguesa: pouco bonito e fotogénico, mas delicioso e autêntico. E a verdade é que há um mar de coisas estilo cozido à portuguesa espalhadas por aí.”

  6. Avatar de Carlos Completo

    ALem de instagrams tb não tenho paciência para blogs. Tanto assim é que nem li o que está escrito aqui.

  7. Avatar de Sofia
    Sofia

    Vou ali cortar os pulsos e já volto! Que vida deprimente…Tenho instagram mas em doses reduzidas, já não tenho paciência!

  8. Avatar de MariaLi

    Obrigada! Obrigada por toda a informação. Não é que não soubesse… 
    Insistem tanto comigo para ter instagram… Tenho blogue e facebook e já  me sinto tão exposta. Também, é verdade, que há um tempo para tudo.
    Parabéns pelo texto.

  9. Avatar de A rapariga do autocarro

     eu como não sigo ninguém dessa gente “influencres, bloggers, ou coisa que o pareça”, no meu insta é gente normal, com fotos perfeitas e imperfeitas, vivendo vidas normais!

  10. Avatar de Psicogata

    Gosto muito do instagram e não acho que haja grande diferença entre o trabalho de uma modelo ou de uma atriz e de uma influencer. É um trabalho como outro qualquer e entre estar a forçar um sorriso numa praia paradisíaca e num escritório, acho que a escolha é fácil.
    O que é pena é que as pessoas não percebam a diferença entre o que é manipulado e o real, mas isso é um problema cultural, agora são as influencers antigamente eram as celebridades que supostamente teriam uma vida de sonho.
    No entanto, a vida não é um instagram e tenho de concordar que um delicioso cozido à portuguesa tal como outros pratos da nossa gastronomia nada fotogénicos são das melhores coisas que podemos oferecer ao nosso palato.

  11. Avatar de O ultimo fecha a porta

    O Instagram é a rede social da moda agora. Daqui a um ano ou dois, vai surgir outra. Há exageros, claro, mas tb rende muito dinheiro e sobretudo egos.

  12. Avatar de MB

    Boa noite gostava que me ajudasses, sou nova aqui também adoro escrever mas nao percebo muito quero publicar um texto meu e nao consigo. E em relação à tua publicação tens toda a razao hoje em dia esta tudo depende das redes socias. 

  13. Avatar de Jess
    Jess

    No que toca a redes sociais o Instagram é das minhas preferidas por se partilhar algo que gosto, fotografia. 
    Porém já me deparei com essa questão que apontas… sigo algumas bloggers que já senti vontade de deixar de seguir por chegar à conclusão que a vida de algumas delas é um autêntico faz de conta. Não parece haver um único momento normal na vida delas…

    Há fotografias tão giras que se vêm ser naturais, e depois há aquelas também muito giras, mas que se vê serem encenadas.
  14. Avatar de moimeme

    Concordo. Quer queiramos quer não, é um sinal dos tempos. São novos tipos de emprego criados pelas novidades tecnológicas. É chato para quem trabalha das 9 às 6? É!
    A verdade é que a grande maioria das pessoas utiliza redes sociais. Cada um faz delas o que quer e dá-lhe a importância que quer.

  15. Avatar de Os bloggers

    Se calhar até é mais chato para as “influencers” ou para quem faz a gestão das redes, as pessoas têm sede de novos conteúdos e isso quase que obriga a um trabalho 24/24. 

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