Não escrevo

Estava a pensar porque é que não tenho escrito. Disse a mim mesma que precisava de contrariar isto, tomar a iniciativa e que ia escrever naquela mesma altura. E, subitamente, veio-me ao cérebro uma vontade súbita de procurar (e instalar) um jogo no telemóvel. E eu nem sequer sou de jogos.

Nesse momento percebi que não escrevo porque não quero pensar. Escrever é uma consequência de um dos meus piores defeitos: o overthinking. Racionalizo tanto as coisas que preciso de as explicar de alguma forma; não fazem ideia da quantidade de teorias que tenho sobre tudo e todos e muito menos das ficções que crio na minha cabeça, nomeadamente sobre as relações dos outros para comigo. A minha cabeça é um poço sem fundo. E escrever é uma espécie de escadinha – nunca me traz à tona, mas obriga-me a ir subindo. Principalmente na racionalização de emoções, escrever é algo que me ajuda muito. No fundo, é um pau de dois bicos: escrevo porque me desanuvia a cabeça, mas também porque me ajuda a desembaraçar os meus próprios pensamentos (embora, como qualquer bom novelo, às vezes o resultado seja ainda pior).

Mas a vontade de instalar o jogo não veio só. Virei-me para as séries, toco piano, voltei a instalar o Sims e até vou tomar café! Tirando o piano, não me lembro de uma fase em que fizesse tanto de inútil. Não que eu não adore séries ou não tenha achado piada a reviver o Sims, mas não é algo que me preencha a não ser que seja acessório e “consumido” de forma muito regrada.

Percebo agora que estou a fugir de pensar. De racionalizar. Que estou a encher a minha vida de tralha para não pensar no que vem aí. Para não enfrentar já os desafios, os medos, as vitórias e as derrotas que vão chegar. Para não sofrer por antecipação. Para não dizer aquilo que não quero exteriorizar. Para esperar que passe.

Não escrevo porque estou a fugir de mim própria.


8 respostas a “Não escrevo”

  1. Avatar de Ana Silva
    Ana Silva

    Ó Carolina, isso não se faz… tanto tempo sem um post …. eu bem cá vinha todos os dias e dava sempre com nariz na porta… até hoje…
    E soube-me tão bem…

  2. Avatar de Carolina

    Olá Ana,
    Bem sei que é uma sensação terrível, desculpe.
    Vou lembrar-me de si quando não me apetecer escrever e tentarei contrariar-me.
    Beijinho e obrigada pela força que, mesmo sem saber, me deu! 😉

  3. Avatar de David Marinho
    David Marinho

    Se sabes que é pior, porque foges? Dói agora mas tem tudo para melhorar daqui para a frente.

  4. Avatar de Ana Silva
    Ana Silva

    Sabe Carolina, acho que estou a ficar viciada na sua escrita.
    Assim, é um bem que faz às duas. 🙂 🙂
    Beijinho 

  5. Avatar de sweet

    À moda dos Nirvana diria “take your time…hurry up!”
    Agora a sério, leva o tempo que quiseres afastada do blog, mas nós vamos sempre gostar da tua escrita (e esperar ansiosamente pelos posts). 
    (E o inútil por vezes é bom!)

    PS: Não sabia que tocavas piano, que fixe!

  6. Avatar de Catarina Correia
    Catarina Correia

    Olá!
    Gosto muito de ler todos os teus posts, identifico-me com muitos dos teus pensamentos e divirto-me sempre muito com a tua apreciação das situações em teu redor! Quanto ao post de hoje, passei somente para dizer que me vejo e revejo em todas as tuas palavras! 
    Bom fim-de-semana,
    Catarina!

  7. Avatar de Catarina Correia
    Catarina Correia

    Olá!
    Gosto muito de ler todos os teus posts, identifico-me com muitos dos teus pensamentos e divirto-me sempre muito com a tua apreciação das situações em teu redor! Quanto ao post de hoje, passei somente para dizer que me vejo e revejo em todas as tuas palavras! 
    Bom fim-de-semana,
    Catarina!

  8. Avatar de Carolina Helena
    Carolina Helena

    Comigo passa-se algo similar e tende a ser cíclico: ora experimento, ora matuto sobre isso, isto é, escrevo.

    Já aprendi que não vale a pena forçar-me a escrever; é penoso e o resultado insípido. É pena que seja tão difícil desencadear o processo de “subir a escadinha”; mesmo assim vou mantendo uma espécie de diário e a vontade de registar o dia-a-dia vai-me garantindo alguma regularidade. 

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