Penso muitas vezes em como é engraçado algumas ruas terem quase uma cultura própria. Por exemplo, na minha cidade há uma mini avenida onde se tornou hábito toda a gente estacionar em segunda fila; mal passa um carro pelo meio, mas quase ninguém reclama, porque já faz parte. Aliás, chega ao ponto de muitos já nem estacionarem nos lugares assinalados mas sim em segunda fila, porque sabem que mais cedo ou mais tarde vai ficar entalados por outros iguais a eles. E podia dar este como outros exemplos, porque isto acontece em todo o lado: há hábitos que se criam por repetição e que ficam, mesmo que saiam da norma e toda a gente veja que está errado.
Isto é a prova de que tudo tem uma cultura própria, mesmo as coisas mais insignificantes. E uma das coisas que mais me irrita na cultura portuguesa é a do álcool: porque se tu não bebes álcool, não és adulta. E eu estou a sentir isso tanto na pele, agora que preciso – e tenho – de me integrar em grupos com pessoas mais velhas… quando almoçamos em qualquer lado, o vinho é um habitué. E, para mim…: água, por favor. E a resposta é sempre um olhar julgador, a maior parte das vezes acompanhados por comentários desnecessários – porque, para umas coisas, temos de ter tento na língua, noutras não. Um dos clássicos é a do “ah, ainda és miúda, isso passa-te!”.
Desculpem-me, mas fodasse! Porquê que eu estou a ser julgada e muitas vezes menosprezada por não ter um hábito que comprovadamente faz mal, engorda, nos tira capacidades e nos coloca num estado fora do natural? Porquê que não é aceite que uma pessoa “crescida” não queira tocar em álcool, independentemente das suas razões?
E sim, eu tenho-as, mas não sou obrigada a partilha-las com o mundo. Na verdade são muitas, um conjunto de racionais com emocionais, mas as pessoas esquecem-se inclusivamente que o álcool pode ser uma doença, tratada com extremo tabu, e que pode haver traumas e razões associadas que nos levam a tomar certas posições. Há uma série de coisas que nunca se perguntam, que nunca se põem em causa, principalmente em assuntos relacionados com morte, doenças, sexo, sei lá… mas em relação ao álcool, tenho sempre que frisar nos meus primeiros encontros que não bebo. “Mas prefere branco a tinto?”; “uma cervejinha então?”; “e só vai beber mesmo água?!”. Lá está, são estas micro-culturas que vivem dentro de nós sem sequer darmos conta.
Porque eu não bebo álcool, independentemente do tipo ou da ocasião. Nunca bebo, não gosto de ver os outros beber – e sim, vinho inclui-se – e ponho praticamente as minhas mãos no fogo em como não vou consumir álcool até ao fim da minha vida. Até porque acho que estou a ir no sentido contrário ao normal: em vez de amenizar a minha posição em relação a este tipo de tópicos, estou a tender a piorar. Por isso, a única coisa que peço é respeito. Porque se até as ruas têm as suas próprias manhas e culturas, nós temos muito mais – e não há que buzinar só por alguém fazer diferente e gostar de estar sempre na total posse das suas capacidades.
16 respostas a “O álcool e a sua micro cultura do demónio”
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Odeio que tentem impor. Eu bebo, mas bebo o que me apetece e só quando apetece (não é muitas vezes) e nunca cedi à pressão, que existe, sobretudo em alguns contextos. Beijocas
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Estou 100% de acordo. Raramente bebo alcóol, não gosto e faz-me um pouco de confusão como é que há pessoas (amigos meus incluídos) que gostam de beber quase até cair para o lado e de no dia seguinte estarem a ressacar depois de uma “enorme” diversão. Eu consigo divertir-me com amigos meus que também não ligam a alcóol e se calhar divertimo-nos mais assim do que pessoas que andam sempre de copo na mão.
Há pessoas que também me costumam perguntar porque é que não bebo. Parece que não sabem respeitar as nossas decisões… Parece que quem não segue as “normas” da sociedade é um estranho ou algo assim, como se não tivéssemos opção de escolha. Enfim… É a sociedade que temos…
Desculpa o comentário um pouco grande…
Beijinho* -
CAROLINA!!!!!
https://www.youtube.com/watch?v=Qc4ahnZzVM4 VÊ ESTE VIDEO POR FAVOR!!! VAIS AMAR OMG *ROBSTEN*
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Se tiveres numa de “trollar” os que não respeitam a tua vontade de não beber álcool.
Podes sempre olhar para eles e “esfregar a barriga” (dando ideia que podes estar grávida) se perguntarem algo a cerca da possível gravidez (insistes no trollanço) e dizes, – tem sido um mês muito agitada, nunca fiando! 🙂 -
Há uns 6/7 anos tornei-me vegetariana.Nos primeiros 2/3 anos resolvi não dizer nada a ninguém e acreditem k nunca ninguém deu por isso. Comia sempre os acompanhamentos como estava toda a gente na conversa ninguém dava por nada. Até que fiz a asneira de contar. Acabou-se o meu sossego. Eu já sabia k ia ser complicado mas nunca imaginei… Sempre os mesmos comentários e perguntas. ” Mas só comes alface?”, “Afinal o que tu comes?”, “Nem frango comes?” “Come só um bocadinho de carne que não te vai fazer mal nenhum” ” Olha as proteinas.”Dah. Hoje já me vou habituando mas quando saio com pessoas pela a primeira vez nem menciono o facto. Pela minha saúde mental. Ainda temos muito que evoluir.
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É a grande contradição do álcool: toda a gente conhece de trás para a frente os seus malefícios mas, se uma pessoa não quer beber, é logo olhada de lado…
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Foda-se*
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É como dizes esta instituído o álcool e (acrescento eu) a estupidez de quem decide que temos de gostar todos do mesmo!
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Eu também não cedo, mas o facto de não ceder já me levou a algumas zangas – ou às vezes nem isso. O simples facto das pessoas não respeitarem a tua vontade significa que se calhar não merecem a tua companhia. Às vezes são simples ações como essas que me fazem repensar tudo.
Ninguém tem a ver com as nossas decisões, principalmente se não afetam a vida dos outros. Pelo contrário, quando os outros se embebedam, afetam muitas vezes a minha – quando se metem nos carros e têm acidentes, quando caem para o lado e os temos de levar até à cama.
Não percebo o estigma para com as pessoas que não bebem, quando devia ser precisamente o contrário. -
Comentário grande? Olha para os meus textos! :p Comparado com isto, são autênticos testamentos!
Sim, é incrível como é que com uma decisão tão simples há tanta discórdia. Se não gostares de Guaraná está tudo ok; mas se não souberes beber um copo, do que quer que seja, que inclua álcool é porque algo de errado se passa contigo. Arg, é do pior! -
Ahahah! Com chefias, é melhor não. Ainda pensam “ainda agora a contratei e já vai de licença de parto” :p
De qualquer das formas, a minha luta não é no sentido de trollar ninguém – é simplesmente de ser respeitada em algo que não afeta absolutamente ninguém. -
Verdade!
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É mesmo…
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Tomar decisões que vão contra o rumo da “carneirada” é sempre um drama, não vale a pena dizer que não. Há que ser forte e andar para a frente 🙂
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Tens toda a razão, Carolina. É uma tremenda falta de respeito não respeitarem a vontade e decisão.
beijinhos -
Até podem ser testamentos, mas são muito bons! 😀
Verdade! De acordo com a sociedade nós, enquanto jovens, deveríamos andar em tudo quanto é festa sempre de copo na mão e a apanhar bebedeiras todas as semanas… Enquanto trabalhador deve-se sempre gostar de uma boa bebida com álcool -.- como se não tivéssemos opção de escolha, enfim. Tal como disseste num outro comentário, se não seguimos a “carneirada” é o drama. Às vezes só falta quase crucificarem-nos em praça pública.

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