Hoje acordei a pensar em como gostava de ter um supermercado ou um salão de unhas de gel. No primeiro caso, dentro deste cenário meio apocalíptico em que vivemos, era minha obrigação continuar a trabalhar; no segundo, era obrigada a fechar. Tudo isto por indicações superiores, lavando as minhas mãos de culpas futuras que vão – garanto – cair sobre todos dentro de pouco tempo.

No meio disto tudo, não somos todos heróis. Eu não fico em casa. Mas eu também não sou médica, não sou operadora de caixa, não sou polícia, não faço parte da proteção civil, não sou bombeira, não sou padeira, não sou talhante, não sou peixeira, não sou enfermeira, não limpo hospitais, não sou condutora de autocarros e não desinfeto espaços públicos. Sou, como se dizia antigamente, “industrial”. E os industriais – e todos os operários que trabalham nessa mesma indústria – caem num limbo problemático no meio deste caos todo. Têm nas suas costas, segundo o primeiro-ministro, o dever de fazer com que o país não pare; mas têm na sua consciência, ouvindo todos os outros que dizem ser extremamente necessário o recolher obrigatório para conter a propagação deste vírus, e tendo a plena noção de que sendo a indústria uma coisa pouco apta para o teletrabalho, que se estão a pôr a eles, às suas famílias e os seus funcionários em risco (ainda que relativo) para que tudo continue a andar. Devemos proporcionar-lhes todas as condições de higiene necessárias, diz o ministro. Se eles as tomam ou não, já não é minha responsabilidade.

Mas são as minhas costas que me doem. É o meu sistema nervoso. São as mãos que me tremem e a pálpebra que teima em não parar quieta. É o sono que não me dá descanso. É o peso da responsabilidade que é posta em cima de mim: porque por um lado tenho o dever de fazer a economia andar (e felizmente tenho encomendas para satisfazer, compromissos para manter), mas por outro tenho o dever cívico de proteger os meus (família, amigos e funcionários). E neste caso não posso lavar as mãos desta responsabilidade: os decretos não dizem se devo continuar ou parar de laborar. Há um buraco na lei, como quem diz: “decide tu”.

Tenho de decidir se quero deixar de honrar os meus compromissos e deixar na mão os meus clientes fiéis, que se assim for provavelmente não voltarão a colocar encomendas depois de tudo isto passar, levando-me à falência. Tenho de decidir se me quero pôr em risco, a mim e aos meus, aos meus funcionários e às famílias deles, em prol de continuar a ter dinheiro para lhes pagar o salário ao fim do mês. Tenho de decidir se quero endividar a minha empresa, com uma taxa de juro baixa mas que mesmo assim vai dar lucro aos bancos, de forma a tentar salva-la no futuro – sem saber se, mesmo assim, continuarei à tona da água. Tenho de decidir se sou forte o suficiente para ouvir opiniões contrárias – de quem, curiosamente, não tem este peso em cima dos ombros. 

Eu não sou heroína de nada – porque ninguém decide por mim. Mas gostava. Porque medo todos temos. O peso da responsabilidade é que não.


8 respostas a “O desabafo de uma não-heroína”

  1. Avatar de imsilva

    Como te entendo. Tendo fechado o restaurante há 10 dias, como se dorme sabendo que 7 funcionários dependem do ordenado que nós lhes pagamos para a pagar a renda das suas casas? Não os vamos deixar na mão, mas as preocupações e visões catastróficas do futuro são cada vez maiores. Se continuam a laborar com encomendas, é porque vocês são necessários. Mas, quem disse que tomar decisões é fácil? Cuidemo-nos 

  2. Avatar de Maria Oliveira

    somos milhões de não heróis, que iremos sempre viver em consequência de decisões nossas e de outros … vamos indo no barco remado não sabemos bem por quem , nem quem comanda, … 

  3. Avatar de Cecília

    até que enfim alguém que fala da indústria… 
    não se sinta culpada: está a fazer o que está certo! está a manter o motor a funcionar! alguém tem que o fazer, e para além dos grupos sempre falados na comunicação social, quem está ligado à industria está a fazer muito pelo país, também, sim! 
    mas sem medo, está bem?! conscientes, respeitando regras, mas seguindo e percebendo que o vírus veio para ficar. ninguém julgue que ficou em casa para ele desaparecer: foi apenas para controlar melhor o impacto… (parece-me que só agora muitos percebem isto). 
    uma vez mais, parabéns pelo seu post: haja alguém que saiba o que é produção e indústria num país de turismo e serviços! 

  4. Avatar de belitaarainhadoscouratos

    Todos são precisos (até aqueles que ficam apenas em casa porque ao fazê-lo estão a conter a propagação).
    Não sou da industria e tenho a sorte de poder estar a fazer teletrabalho mas vivo a cerca de 1 km de uma enorme zona industrial, tenho muitos familiares e amigos que lá trabalham e sei que é muito importante para a zona e para o país. Agradeço a todos aqueles que para lá têm que se deslocar diariamente, em turnos, quando se calhar o que queriam agora era estar em casa como a maioria das pessoas (já para não falar do que todos queríamos mesmo que era que nada disto estivesse a acontecer…).
    Infelizmente, não há soluções excelentes para todos 

  5. Avatar de Carolina

    É muito duro. Boa sorte e tudo de bom! 

  6. Avatar de Carolina

    Obrigada Cecília pelo alento… Beijinhos!

  7. Avatar de Carolina

    Não há mesmo. Queremos sempre o que o outro tem: ou uma razão para ficar em casa… ou uma razão para sair. Enfim.. só agora percebemos que o que queríamos mesmo era a vida que antes tínhamos, e de que nos estávamos sempre a queixar. Somos humanos, é assim que funciona…!

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