Sou sócia do FCPorto há 20 anos. A minha avó, vendo-me a crescer portista ferrenha, decidiu inscrever-me junto do senhor que passava à porta de casa dela a recolher as quotas do meu avô. Foi uma prenda muito feliz. Porque eu era, de facto, adepta fervorosa do Porto e guardo memórias incríveis dos meus tempos de miúda e adolescente, enquanto tentava a todo o custo arrastar alguém comigo para o estádio (e consegui – foi com a minha irmã e o seu namorado que fui ao Dragão pela primeira vez, e ao longo dos anos consegui convencer o meu pai a acompanhar-me umas quantas vezes – ainda que contra a sua vontade – o meu irmão mais velho e até amigos). Mas desde há uns anos que a minha paixão esmoreceu – a podridão do futebol começava a ser cada vez mais evidente aos olhos que já não era da miúda meramente portista mas sim de uma adulta com valores e moral que não concordava com aquilo que via. Nem o Miguel, tripeiro ferrenho e detentor de lugar anual, me demoveu deste desamor – pelo contrário, muitas foram as vezes que fiquei chateada com o clube por me roubar o marido de umas noitadas no quentinho do sofá.

Por isso fez-me sentido deixar de pagar as quotas durante uns largos meses: não me apetecia alimentar aquele negócio de mafiosos. Mas, no início deste ano, o Villas-Boas candidata-se oficialmente e eu decidi voltar, num gesto de cidadania e sentido de dever para com o meu clube. Confesso, até, que fiz também por uma questão de continuidade: primeiro porque me custa prescindir de uma das prendas que me deixou mais feliz e que me foi dada pela minha querida avó, e segundo porque estou a cinco anos de receber a roseta de prata e não queria agora morrer na praia. Regularizei a minha conta corrente, esperei pelas eleições e pumba: foram marcadas na única semana do ano em que estive fora do país! A única!!! Mas os meus concidadãos-portistas souberam o que fazer e elegeram a pessoa certa para um cargo que estava a apodrecer. Devemos muito ao Pinto da Costa enquanto clube, mas é preciso saber parar – e ele não só não soube como saiu mal, o que foi uma pena.

A questão é que o Pinto da Costa não era o único problema – ele não era a única fruta podre na fruteira que é o FCPorto. E não é por se tirar a peça maior que tudo vai mudar – é preciso uma mudança longa e algo penosa para se alterar a cultura de um clube (ou de uma empresa ou de qualquer organização que tenha pessoas), que envolve a saída de muita gente mas também alterações de base que são normalmente muito difíceis de instituir. 

A ideia de que os portistas são arruaceiros, mal-educados e “broeiros” não vem de razões alheias. São preconceitos generalizados que nascem de um fundo de verdade qualquer… ainda que não se aplique necessariamente para o todo e que sejam injustos a maior parte das vezes. Sinto que o Pinto da Costa e sua prole tiveram uma quota parte muito grande de culpa sobre a imagem que se passa sobre os portistas e, de uma forma geral, do pessoal do Norte – e acho que, indo devagarinho na direção contrária, o Villas-Boas está a levar o clube num bom caminho. O gesto do Pêpe é um bom exemplo disso. (Em confronto, podemos lembrar-nos de todas as vezes que o Sérgio Conceição foi mal educado com os árbitros, que faltou a conferências de imprensa e outras coisas que tais – e tantos outros exemplos feios que há no futebol, a começar pelo anti-jogo que praticam e os nomes que se chamam uns aos outros).

Mas aquilo que eu almejo mesmo para o meu Porto é que consiga dar uma volta de 180º como deu o Sporting. E esta é a razão deste meu post, que surge numa altura completamente aleatória e um pouco descontextualizada, mas que tinha de ser escrito hoje depois do que se passou ontem no jogo contra o Manchester City. O Sporting passou de ter como presidente uma figura anedótica (não sei quanto a vós, mas eu divertia-me imenso com o Bruno de Carvalho – as conferências de imprensa eram dos momentos mais divertidos do meu dia) para ser um clube com uma gestão cautelosa e amistosa, sem levantar ondas de maior. Não sou fã do Varandas, mas acho inquestionável o rumo para onde leva o clube verde e branco – e isso provou-se ontem, no último jogo do Amorim em Alvalade.

As saídas a mal de inúmeros treinadores do Porto (incluindo o Villas-Boas, depois de se ter pronunciado sobre a sua “cadeira de sonho”, do Mourinho que mal festejou depois de ganhar a Champions, ou mesmo do Conceição, cujos relatos da reunião com o novo presidente são dignos de curta-metragem) é algo que me deixou desgostosa e calejada – de tal forma que eu nem sabia que havia forma de fazer as coisas de modo diferente! Aquilo a que tanto o Amorim, como o Sporting, o Varandas e o Manchester United se predispuseram a fazer foi das saídas mais limpas que vi no futebol moderno em Portugal: sem zangas, sem portas a bater e sem lavagem de roupa suja nos meios de comunicação social. É só um homem que quer um futuro num clube maior e que tem o direito de ir atrás do seu sonho; é só um clube que o respeita. É só um treinador que, no momento que achou correto, foi claro como a água com a imprensa e explicou a situação que lhe foi apresentada e a sua visão – sem ironias, sarcasmos ou figuras de estilo que destorçam as suas palavras. É só um clube que aceita, que prepara uma saída em grande para uma pessoa que foi essencial na mudança e um momento em que todos saem a ganhar (ainda que sabendo que a perda é muito grande) e para mais tarde recordar. 

Que sirva de lição. Esta era a imagem que eu gostava de ter do Porto daqui a uns anos.

 

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(foto daqui)


7 respostas a “O futebol português tem muito para aprender”

  1. Avatar de
    Anónimo

    Como portista ferrenho, embora não sócio, subscrevo na totalidade o que referiu relativamente à necessidade de mudança de rumo do nosso amado clube. Por vezes sentia vergonha alheia das cenas tristes protagonizadas por vários responsáveis do clube que todos sabemos quem são.
    Além disso era ver definhar o clube na parte financeira devido a má gestão, contratações erradas e apoio a grupos desordeiros.
    Vilas Boas tem um trajeto muito árduo e penoso para percorrer. A equipa está diferente, novas caras, muitos jovens e será por agora difícil ombrear com os adversários. Tenho paciência para esperar porque mesmo nestas dificuldades tenho muito mais gosto de os ver a jogar à bola.
    Cumprimentos

  2. Avatar de Carolina

    Temos mesmo que ter esperança, porque acredito que os próximos anos sejam de seca no que diz respeito a títulos. Mas Roma não se contruiu em dois dias. Há que ter perseverança e fé!

  3. Avatar de Pedro

    Carolina, disseste tudo, mas mesmo tudo o que muitos pensam e ninguém ousa dizer. Os meus parabéns pela coragem e audácia de uma portista assumida. 

  4. Avatar de Nuvem

    como te entendo e como concordo contigo. ver o “nosso Porto” assim é de uma tristeza imensa. mas tenho fé que, também nós, passemos por essa mudança e possamos, daqui a uns anos, voltar a sorrir.

  5. Avatar de s o s
    s o s

    tinha-a num pedestral, até este momento (confessar ser socia ), estou que nem posso…tou abrincar.

    Mas agora mesmo a sério, uma pessoa como é o seu caso, da ideia que tenho do que as vezes leio, como é que é possivel voltar a acreditar, se está tudo na mesma, no minimo ! Aceita-se que duas pessoas digam da outra, contigo nunca mais, porque é pessoal, e a paixao pode reacender-se, voltar. Mas voltar a paixonar-se pelo mesmo clube mafioso ?!!!!!!, é coisa para estudo. 

    nota: com clube mafioso estou a classificar todos os mais clubes futebol. 

    Pronto, parei na leitura para preventivamente registar esta parte, e continuei a ler (a parte que explica porque retornou ), li tudo. 

     

  6. Avatar de Mario Coelho
    Mario Coelho

    Uiiiii menina sou do tempo das ANTAS, se a menina é do tempo do DRAGÃO  e se sente assim … (não sou portista) mas segui muito de perto o fc do PORTO,  sobretudo nos anos 80/90 tempos do SENHOR ERIKSSON, no SLB, ja disse tudo sobre o clube ao qual pertence o meu coração… e sim o futebol TUGA,tem muito que evoluir 

  7. Avatar de
    Anónimo

    Do Pinto, como disse o Varandas “um bandido é sempre um bandido”. Bem, agora podemos dizer que foi, e foi mesmo para o clube. Veja-se as últimas notícias sobre as viagens de férias pagas ao Macaco, família e amigos, que é uma coisinha como a pontinha dum iceberg. O Pinto está ao nível do Vieira. Não sou portista, mas fiquei satisfeito com a vitória do AVB. O FCP está a percorrer o caminho certo.

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