O problema de sempre

Chateia-me escrever este post, porque sinto que me estou a repetir. Ainda que por outras palavras, já o escrevi: e de cada vez que o escrevo, é quase o admitir de mais uma derrota. Mas há coisas na vida que são tão constantes como a nossa sombra – nunca desaparecem e nunca saem da nossa beira e esta é uma delas: a péssima relação que tenho com o meu corpo.

No que a isto diz respeito, vivo constantemente numa relação precária e instável: e tem pouco que ver com os números da balança ou até daquilo que se reflete no espelho. O problema é mesmo aquilo que o meu cérebro processa quando vê a imagem do meu corpo refletida, que depende não do meu peso, mas do meu estado de humor, da quantidade de exercício que fiz nos últimos tempos e daquilo que eu comi. Consigo perceber, racionalmente, que não tenho o corpo que queria; mas também sei que há muitos momentos em que me acho gorda e sei que não o estou. Simplesmente não estou como quero ou como me desejo.

Outra coisa que aprendi nos últimos anos é que não vou chegar, nunca, a ter esse corpo: mesmo que me apaixonasse subitamente pelo exercício físico, por saladas, super alimentos e coisas que tais. Porque o corpo que desejamos nunca é o corpo que temos. De qualquer das formas, a questão nem se põem: eu não consigo gostar de ir ao ginásio, de fazer exercício. E eu juro que já tentei! Passei uma fase mais estável aqui há uns anos, mas desde que o meu ginásio fechou, nunca mais consegui estabilizar; o outro onde andei era longe de casa, em dias de trânsito demorava meia hora a lá chegar e a situação tornou-se incomportável. Com este, fiz uma escolha errada: preferi escolher um mais perto do trabalho, com um horário de aulas que inicialmente me parecia apetecível, mas que acaba por não funcionar com o tipo de trabalho que tenho e a pouca força de vontade que me move. Para além de que comecei com o pé esquerdo, com umas aulas de PT que continuo a preferir nem sequer me lembrar. Infelizmente trata-se de um ginásio com fidelização e o meu dinheiro continua a voar sem eu lá pôr os pés há meses e sem encontrar grande solução à vista ou vontade de voltar.

O que é estúpido, porque quando estamos descontentes com uma coisa o mais lógico é lutarmos para contornar essa situação. O problema – no meio de tantos outros – é eu detestar o ginásio quase tanto como detesto os defeitos do corpo que me carrega a alma. É eu ter vergonha de ser aquela que se atrapalha sempre a fazer tudo, é eu ter vergonha de não conseguir pegar num peso mais alto enquanto toda a turma pega naquilo com o mindinho, é eu ter medo de cair do step (como já caí), é eu não gostar que olhem para mim nem mesmo quando é para me corrigirem posições corporais, é eu ter vergonha de ser a primeira a desistir de um exercício porque já não aguento mais. O problema são muitos pequenos problemas, que são autênticas bolas de neve.

E não adianta dizerem que nos ginásios cada um olha por si, e que não faz mal em ser trapalhona e fraquinha e tudo mais: porque eu posso ser neurótica, mas sinto-me sempre observada. E, enquanto observada, mais fraca. Fragilizada. Sinto-me no meu pior, ali. Mas também não vale a pena afirmarem que eu estou óptima, porque eu sei que não estou – e, acima de tudo, sinto que não estou.

Aos meses que ando nisto, a tentar desfazer os nós deste novelo que me consome a alma e que anda com a minha auto-estima de arrasto pelo chão: ao ponto de querer que chegue o bom tempo, mas não ter a mínima vontade de pôr dentro de um vestido ou de um fato de banho. Sinto que já disse demasiadas vezes “é agora”, sem nunca conseguir avançar significativamente: e por isso é que este post é o admitir de mais um falhanço. Tenho vergonha. Mas pior do que ter vergonha, é olhar para o baralho de cartas que disponho à minha frente e não ver grandes jogadas para onde me mover e ganhar o jogo. É pensar: “ou tens uma injeção de força de vontade para saíres daqui ou deixas-te ficar” – e não quereres nem uma, nem outra. É a escolha entre o conforto do comodismo e da infelicidade ou da motivação, das dores, dos possíveis dias maus, dos metros longe da zona de conforto e dos potenciais resultados. É escolher sempre por um caminho que nunca vai saber bem: ou pelo fim ou pelo meio para atingir o fim. 


4 respostas a “O problema de sempre”

  1. Avatar de Inês Silva

    Muitas vezes também me olho ao espelho, aí está depende do humor, e não gosto do que vejo. Já tive fases em que ia mais vezes ao ginásio do que agora, mas na altura também tinha mais tempo livre para o fazer. Tenta encontrar um desporto do qual gostes muito. Eu adoro praticar natação, faz bem a tudo e como é em regime livre posso ir quando quiser. Sem pressões.
    Beijinhos e, um conselho, não sejas tão dura contigo mesma.

  2. Avatar de AC
    AC

    Olá, Carolina! Já te leio há muito tempo e nunca comentei, por inércia confesso 😉 Temos a mesma idade e já te acompanho desde que entraste na faculdade (e entretanto saíste). Identifico-me contigo em imensos pontos: na vida amorosa, na introversão, na dedicação ao trabalho, na alternação entre momentos em que nos sentimos mesmo bem e naqueles em que só nos apetece fugir, etc… Como hoje acho que consigo ajudar – porque são muitas vezes aquelas em que leio os teus textos e penso “pois, também tenho essa dúvida…” – escrevo este comentário (enorme, peço já desculpa). Ora a solução que eu arranjei para a temática “desporto” na minha vida foi não sair de casa e fazer vídeos no Yt. Odiava ginásios, odiava as músicas e os horários incómodos, por isso deixei de ir e faço tudo em casa, desde musculação a aeróbica a yoga. Faço tudo ao meu ritmo, quando quero (é preciso um bocadinho de disciplina, mas lá se consegue) e como quero. Sinto que estou ao controlo, sabes? Não há nada como experimentares umas vezes e veres como te dás. Gosto imenso dos blogilates, Millionaire Hoy e fitness blender.
    Um abraço,
    AC

  3. Avatar de C.S.

    Carolina, leio as tuas palavras e compreendo-te a dor. Mais do que passar a gostar de ginásios tens de conseguir aceitar-te, como tão bem fixes, ninguém tem o corpo que quer, é muito raro uma pessoa sentir-se totalmente confortável com o seu corpo. Beijinhos e espero que encontes o teu equilíbrio.

  4. Avatar de Eduarda
    Eduarda

    Carolina, e que tal umas caminhadas com os teus cães? Pensa nisso. Eu também detesto ginásios. E todos os dias olha para o espelho e diz para ti mesma: “eu sou bonita e hoje vou fazer o melhor por mim”.

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