A maior parte dos textos aqui do blog surgem por causa de situações que vivenciei e sobre as quais relato coisas ou pensamentos que me surgiram depois ou na altura, que por vezes nem sequer têm muito que ver com o assunto em si. Às vezes, por uma razão ou por outra, não os publico – mas normalmente deixo-os no rascunho até ganharem bolor e eu me fartar deles. Raramente faço o que estou a fazer aqui: publicar um desses textos. Este foi escrito há mais de um ano e na altura não o publiquei para não ferir suscetibilidades. Mas a vida não se faz só de consensos ou paninhos quentes e, por estes dias, lembrei-me muitas vezes daquilo que escrevi.

E onde é que eu vou meter o nariz desta vez? Nos nascimentos e na maternidade. Uhhh, já sinto a minha pele quase a ser esfolada e ainda nem pus a boca no trombone. Na minha opinião, hoje em dia fala-se tanto da liberdade de escolha que tem de ser dada à mãe (do tipo de parto, de amamentar, de trabalhar ou não, de dividir a licença com o pai) que só esconde a enorme pressão que se está a construir à volta destes assuntos. Vejamos a amamentação: toda a gente diz que cada mãe é como é, que podem escolher (“embora o vosso leite seja melhor para o vosso filho!!!”), mas se alguém não amamenta por escolha cai o carmo e a trindade. Para mim essa liberdade é tão grande como aquela que eu tive quando me tentaram praxar, fechada num anfiteatro que não conhecia, às escuras, e com gente a gritar-me por todos os lados. Podemos dizer não, mas estamos sempre condicionadas e com uma clara pressão para dizer “sim”. Ou seja: não é liberdade.

Eu sou pouco sensível a todas estas questões porque a cada dia que passa tenho mais a ideia de que não quero ter filhos e que todos esses dramas me vão, felizmente, passar ao lado. Mas há coisas que me tocam (também tenho sentimentos, sim?) e há dias estava a ver uns vídeos antigos, enviados por uma das minhas tias, do nascimento de um dos seus filhos. São coisas filmadas há 25 anos, numa altura em que acho que não havia esta moda de “não visitar pais nem criança mal ela nasce”, mas de qualquer das formas a minha família sempre foi (ou costumava ser…) unida o suficiente para querer partilhar estes momentos uns com os outros. E, enquanto via aqueles vídeos passados na maternidade, com a minha tia a olhar enternecida para o seu bebé acabado de nascer, com a cama cheia de gente à volta a soltar “oh”‘s, tornei a lembrar-me deste texto que escrevi. Não chorei enquanto via os vídeos, mas a minha garganta estava num aperto sem fim; emocionou-me ver a alegria de todos, num momento partilhado e claramente tão feliz para quem lá estava. Adorava-se o menino, cuidava-se da mãe, mimavam-se ambos e nos corações, ainda que não se vissem a olho nu, transbordava amor por todo o lado. O nascimento é, de facto, um momento incrivelmente feliz para a família do novo rebento. E talvez esteja aqui a questão, no vocábulo “família”. Para mim, família, não são só os meus pais e irmãos; são os irmãos dos meus pais, os filhos dos meus pais, os filhos deles, os filhos dos meus irmãos, os respetivos conjuges e, se quiserem, a família que escolhemos: os amigos.

Para mim é inconcebível pensar ter um filho e não o mostrar a todos aqueles que me amaram ao longo da vida, que me aturaram em todos os momentos maus e bons, que partilharam momentos das suas vidas comigo. Não significa que todos tenham que o ver no primeiro, segundo ou terceiro dia ou que encher o quarto de visitas – mas estar um mês sem mostrar a criança ao mundo?! Sei que isso está na moda mas, quando me deparei com uma situação semelhante, fiquei honestamente magoada. Aprendi a lição, respeito, mas não compreendo. E escrevi este texto:

 

“Lembro-me de ter lido num blog qualquer, há uns anos, que depois de uma família ter tido o primeiro filho, decidiu que só um mês depois iria ter a visita dos amigos e familiares e dar a conhecer a nova cria (calculo que avós e pessoas mais próximas tenham sido excepção à regra, “but you never know”). Fiquei parva com o que li – e o sentimento mantém-se até hoje, porque sei que me sentiria magoada se mo fizessem. Sentir-me-ia posta de parte por aqueles pais, que se calhar conheço há uma vida e com quem partilhei tantas coisas, se me privassem de partilhar aquele que seria um dos maiores momentos das suas vidas.

Eu sei que os pais ficam super cansados com a história do parto, sei que habituarem-se aos horários da criança é extenuante, sei que querem ter tempo para “namorar” a sua nova cria – mas, no fim de contas, o que não falta é tempo para isso. Não são as visitas que dão de mamar, não são as visitas que ficam a adorar a criança pela noite dentro, não são as visitas que dão o primeiro banho. Os pais têm uma vida inteira pela frente com aquela criança, vão mima-la e conhece-la melhor que ninguém – enquanto que a família e os amigos, numa fase inicial, só querem dar as boas-vindas do bebé ao mundo e partilhar um momento de felicidade com alguém de quem gostam. Porque, para mim, os bebés não são só dos pais, mas também daqueles que já o amavam enquanto ele estava dentro da barriga – e, antes disso, aqueles que já amavam os pais antes mesmo de eles se juntarem ou decidirem ter um filho em conjunto.

Porque a verdade, pura e dura, é que família e os amigos já lá estavam antes do bebé – e, muitas vezes, antes do companheiro. Estiverem lá nos momentos bons, nos maus, nos fantásticos, nos péssimos e nos menos bons – e, no entanto, naquele que será o momento mais feliz da vida daquela pessoa, são impedidos de o partilhar com ela. É uma escolha e, sendo eles os pais, não há outra opção a não ser respeitar. Mas quem está do outro lado da barricada também tem o direito de não se sentir respeitado, por não ver o seu “amor” correspondido; por se sentir privado de felicitar e conhecer alguém que, automaticamente, já é um bocadinho amado, por ser filho de quem gostamos – de alguém que é sangue do nosso sangue ou, simplesmente, faz parte da “família que escolhemos”. 

Não percebo o medo de partilhar um bocadinho da felicidade com os outros; de mostrar o bebé, de terem receio de não ter tempo para estarem sozinhos com a criança, quando têm uma vida juntos pela frente. Não se trata de pôr uma mensagem no facebook, mandar um email estilo “circular” com o tamanho e peso da criança. Trata-se só de a partilhar um bocadinho para quem esteve lá sempre, para quem – quer se goste ou não – já faz parte e quer partilhar a felicidade. Para mim, tudo o que disse acima não são medos. É uma forma pura de egoísmo.”


14 respostas a “Os filhos são só dos pais?”

  1. Avatar de David Marinho
    David Marinho

    Eu partilho do que dizes. Sinto que não tenho ainda capacidade para partilhar o meu tempo e espaço com um ser tão pequenino a tempo inteiro. E a liberdade é muito pessoal porque uma criança é do casal e eles têm o direito de agir sobre ele, de não o querer mostrar, mesmo que seja egoísmo emocional para ama a criança tanto ou mais que eles. Mas é deles, nada a fazer. Mas ter uma criança é querer doar a vida por ele, ponto. E isso é uma decisão muito importante que às vezes custa a tomar para muita gente.

  2. Avatar de Matilde
    Matilde

    Olá Carolina!
    Este texto poderia ter sido escrito por mim, tenho a mesma opinião, nunca comento, mas adoro o teu blog.Bjinhos

  3. Avatar de Bailarina Da Lua
    Bailarina Da Lua

    Boa tarde . 
    Subscrevo na íntegra. 

  4. Avatar de Ana

    Olá! Concordo com quase tudo o que disseste. Nunca me passaria pela cabeça impedir a família de ver as minhas crias e houve logo visitas, desde o primeiro dia. Há contudo um ponto que salientaste e que me parece importante (segue a citação): 

    “Eu sei que os pais ficam super cansados com a história do parto, sei que habituarem-se aos horários da criança é extenuante (…)”

    Para mim este ponto é muito importante. Porque (e não leves a mal) uma coisa é “saber” que os pais ficam super cansados, outra coisa é seres tu a mãe, estares cheia de pontos na barriga e estares super cansada. Uma coisa é o conhecimento teórico do assunto. Outra coisa é vivê-lo na prática. Acredita que não é por “medo” que muitos pais optam por não concordar com visitas, mas sim pelo extremo cansaço (e dores físicas). 
    Da minha parte, aceitarei sempre as visitas de amigos e familiares por tudo aquilo que referiste no teu excelente texto. 
    Mas… vou ser sincera… se as pessoas quisessem esperar aí uns 3 ou 4 dias para nos visitarem… eu não me importaria nada, acredita. Os primeiros dias são um horror, em particular para quem teve cesariana. Abraço!


  5. Avatar de Ventania

    Compreendo o teu ponto de vista, mas também compreendo o dos pais mais reservados ou stressados com um rebento, que indubitavelmente vem alterar todas as rotinas e dinâmicas. Em última análise, há que respeitar o que os pais decidem. Mas que há muito exagero e sobre-protecção das crianças também não duvido. Os miúdos são tratados como florzinhas de estufa, tesourinhos que nem o ar lhes pode tocar, e isso até é mau. Os recém-nascidos também precisam de apanhar ar, sol, ganhar anticorpos pelo contacto com pessoas… A tendência dos pais para a exagerada protecção da cria é natural, têm medo que a criança se parta ou estrague, suponho que seja uma coisa meio irracional. Falta muita descontracção nos pais do século XXI, e falta independência para pensarem pela sua cabeça, querem cumprir com todas as “regras” e conselhos que ouvem e lêem para não serem acusados de ser maus pais, em vez de se marimbarem para as opiniões alheias. Digo eu, que também não sou mãe e se calhar um dia mordo a língua! ;D

  6. Avatar de Aninhas
    Aninhas

    Uma coisa pensar a situaçao, outra é vive-lá! Sou mãe já há uns bons anos, e pr saber o que é baterem-nos à porta a toda a hora, a casa cheia de gente a qualquer momento, e nós mães ainda a precisar de repouso! Prq um parto mto bem k corra, não é péra doce! Eu própria decidi, só ir visitas mamãs e bebés pr volta de 1mês + ou – ! Prq nessa altura a mãe já está mais restabelecida, e com outra disposição pra receber visitas! E temos mto tempo pra adorar e mimar o bébé!

  7. Avatar de Sandra Wink.Wink
    Sandra Wink.Wink

    Carolina, quando e se fores mãe, por favor volta a ler o que escreves-te.
    Beijinhos.

  8. Avatar de Carolina

    Sandra, como disse, é pouco provável que aconteça. Mas, a acontecer, duvido que a minha opinião mude. Há valores que se mantém constantes na vida – e este texto foi escrito depois de muito ouvir (um ano e meio!) opiniões de mães. Algumas até se expressaram aqui e a ideia não parece assim tão estaparfudia 🙂 São opiniões 🙂

  9. Avatar de Miss Winter

    Proibir nunca proibi, eu foi de cesariana, dores horríveis e nem gostava que me vissem ali a contorcer-me cheia de dores que nem tinha posição para dar de mamar ao meu filho, levaram pessoas que nem eram amigos meus apenas conhecidos, eu e o pai da criança nem conseguíamos estar sozinhos com o nosso rebento, nem conversar… foram 3 dias e meio… cheguei a casa a minha irmã veio para fazer o jantar mas fez o favor de trazer um casal amigo dela mais uma criança de um ano e pouco e já nem me recordo se outra filha… eu cheia de dores, cansada e ninguém ia embora… não sei se foi o cansaço ou o que foi, eu fiquei com diarreia e claro que o meu filho também ficou, porque o nosso leite transmite o bom e o mau… foi para esquecer essa noite.
    Depois são visitas diárias, a qualquer hora sem aviso… depois acaba a licença do pai, fiquei em casa mais 3 meses e passavam dias e semanas nem uma alma… tudo acaba.
    Por isso há casos e casos e não devemos criticar sem saber as razões ou sem passarmos pelo mesmo.

  10. Avatar de
    Anónimo

    Não sou mãe, partilho do valor da família e da amizade, mas não concordo com o teor do texto. Acho que os momentos a seguir ao nascimento do bebé, os primeiros dias, ou semanas pois cada um tem o seu ritmo, devem ser para os pais se habituarem ao bebé e vice-versa. Não se trata de uma questão de egoísmo, mas acho perfeitamente aceitável que não queiram tornar a casa num arraial. Apesar de terem uma vida toda pela frente, essa vida vai acabar por ser meter no meio e, por muitas oportunidades que haja de estarem juntos, os primeiros dias são O momento de criar laços. Depois, muitos pais não passam a noite a contemplar a cria, passam-na acordados entre fraldas sujas e biberões. Penso ainda que, numa perspectiva completamente oposta, não se trata de egoísmo dos pais, mas sim das visitas, em não perceberem que a criança vai continuar ali daí a uns dias/semanas para a conhecerem e se calhar até será melhor porque os pais vão estar mais disponíveis para conversar e o encontro vai ser mais agradável. Nunca passei pela experiência, mas os primeiros dias já devem ser de uma canseira, stress e desgaste suficiente para os 3 (ou mais, se não for o primeiro filho), quanto mais com a entrada é saída constante de gente…

  11. Avatar de
    Anónimo

    è isto sem tirar nem por, e para quem não tem filho é um ponto de vista realista e lúciso, só tenho a acrescentar que no primeiro mês de vida os bebés tem zero defesas e por isso não devem ser tocados por outras pessoas que não o pai ou a mãe e muito menos deixar dar beijos porque podem transmitir  doenças que num recém-nascido pode provocar a morte. Os pais de hoje em dia fazer este tipo de coisas porque é o que a medicina/médicos manda/aconselha e é com estes cuidados que conseguimos reduzir a mortalidade infantil drásticamente desde o tempo dos nossos país e avós até agora.  E sim é como dizes as outras pessoas têm muito tempo para conhecer os nossos filhos se assim o quiserem!!! 

  12. Avatar de VeraPinto

    Olá Carolina, 
    Sei que este teu texto já têm uns dias, mas quando o li não pode deixar de sentir que devia partilhar uma experiência. E desculpa desde já, mas o texto vai ser grande. Não sou mãe, não quero ser num futuro próximo, mas vivi uma realidade de perto que já me fez decidir algo caso tenha um filho. Não haverá visitas no hospital, e as visitas a casa, só pessoas próximas e agendadas. 
    Parece estupidez dito assim, mas vi o que aconteceu com uma prima minha e disse que comigo nem pensar. 
    De uma família grande, tanto materna como paterna, assim que nasceu o bebé, invadiram o hospital. A minha prima teve um parto extremamente difícil, ficou muito debilitada fisicamente e o menino não dormia mais do que uma hora de sono seguida. Passou 4 dias horríveis no hospital porque nem o marido conseguia estar com ela porque a família lhe roubou o tempo de antena todo, não conseguia dormir de dia porque estava sempre com gente, não dormia de noite por causa do filho. Chegou-me a contar depois, que a falta de noção era tanta que no hospital sentavam-se em cima da cama dela, aos saltos, quando o mínimo movimento a fazia morrer de dor. A rapariga chegou a uma altura que só chorava de desespero. 
    Em casa piorou. Como foi em Agosto, estava muita gente de férias e a casa dela estava sempre cheia de gente. Ela só queria tempo para tratar do filho, de dormir, de estarem os 3 como família, mas a casa dela parecia um museu, com pessoas a chegarem a casa dela às 9h da manhã e ficarem até às 22h..
    Deixou de conseguir controlar a temperatura de casa pelo constante entra e sai, como vivia no campo, até a casa ficou inundada de moscas pelas portas sempre abertas, as pessoas como eram “próximas” e habituadas a casa dela, esvaziavam-lhe o frigorífico nos lanches e bebidas que faziam e deixavam a casa em virada do avesso. E ela cheia de dores, com um filho que não dormia, não comia, que ficava cansado de tanto colo, de tanto barulho, com um marido exausto nas tarefas domésticas e em receber as pessoas porque ela não conseguia mesmo fazer nada. 
    Disse-me ela, há uns dias, que sabe que perdeu a magia dos primeiros dias do filho. Que hoje ainda chora pelo desespero, pelas discussões que teve com o marido devido ao stress, que sabe que até perdeu os primeiros sorrisos e movimentos, porque pouco tempo conseguia ter o filho no colo. 

    Os filhos não são só dos pais, mas são eles que são os pais deles. E devem ser eles a desfrutar os primeiros dias de um filho, com a paz e o tempo sozinhos que vão precisar, não serem tios, amigos, primos, por muito próximos que sejam, a roubarem a magia destes dias. 

  13. Avatar de Mijona

    Olá, Carolina! 🙂

    Sou mãe há cerca de oito anos e nunca impedi visitas nenhumas à minha criatura. Nem na maternidade, nem em casa. Amigos e família puderam sempre visitar-nos, desde que avisando, claro.

    Hoje olho para trás e faria de forma diferente. Não instituiria nenhuma barreira temporal, mas seria mais assertiva, diria mais vezes “não”. Lembro-me de momentos com enxaquecas, estourada, dorida ou simplesmente com as hormonas aos saltos e rodeada de visitas. Deixei-me levar por pressões externas e sinto que muitos desses momentos me desgastaram imenso na altura e levaram os meus “baby bues” aos píncaros. Estava mais preocupada em fazer os outros felizes do que a mim mesma.

    A ter um segundo filho espero continuar a pensar como agora: visitas sim, mas sem pressões. Se não der – por um dos motivos acima ou outro qualquer, como acontece na vida sem filhos também – peço para virem a outro dia ou outra hora. 

    Beijinhos

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