Acho que nesta altura do campeonato todos podemos concordar que a Netflix mudou completamente a forma como vemos e consumimos séries. Começando pela possibilidade de ver tudo de uma só vez, quando quisermos e onde quisermos, e terminando na luta contra o estigma que existia relativamente a séries de língua não-inglesa. (Quem diria, há meia-dúzia de anos, que o mundo iria estar louco por uma série sobre um roubo produzida em Espanha e falada em espanhol?)
Pelo meio, na minha opinião, teve outra grande conquista: transformar documentários, histórias e biografias em algo apetecível. Pode aprender-se imenso a ver Netflix – tanto como no Discovery, no National Geographic ou no Canal de História. Posso estar errada, mas acho que existe a ideia (talvez por ser verdade?), de que muitos dos programas que por lá passam são chatos e maçadores. De certeza que também os há na Netflix, mas os produtores e realizadores contratados pelo canal de streaming têm uma visão muito diferenciadora deste tipo de programas. Só assim é possível agarrar as massas a histórias que, de outra forma, não seriam vistas por mais do que umas centenas de pessoas.
É claro que dinheiro gera dinheiro e aquilo que eram inicialmente pequenas produções são agora coisas gigantes, com budgets a abarrotar pelas costuras mas que fazem o gasto valer a pena, tal é a qualidade dos programas. Tudo isto continuando com o seu espírito inicial, dando ênfase não só a grandes séries, como a outras mais pequenas (e poucos episódios, algo que adoro!) e com conteúdos que, até há poucos anos, eram feitos somente para públicos de nicho.
Nos próximos quatro dias vou falar-vos de quatro séries documentais, sobre pessoas ou histórias reais: Unorthodox, The English Game, The Tiger King e Self Made.
Uma série para pensar: Unorthodox

Esta série retrata a vida de Esther Shapiro, uma rapariga que cresceu no seio de uma comunidade judaica ortodoxa. A história é contada com recursos a flashbacks, que intercalam com a atualidade, que faz com que rapidamente se perceba que ela decidiu fugir daquele estilo de vida, onde se sentia prisioneira.
Em quatro episódios entendemos o porquê dela sentir necessidade de sair da comunidade hassídica e ficamos a conhecer muitos dos hábitos dos judeus ortodoxos – desde raparem o cabelo às raparigas quando casam, passando pelos banhos de purificação e acabando nos eruv, os circuitos fechados onde os judeus podem passear no seu dia de descanso. Nada disto nos é dado de mão beijada: não são explicados os rituais ou as razões por detrás deles – cabe-nos a nós pesquisar, se tivermos essa curiosidade. Mas eu diria que é impossível não tentar perceber alguns daqueles ritos e algumas cenas da série, tal a estranheza que nos provoca. Diria mais (perdoem-me os mais sensíveis): não é estranheza, é quase asco. A certa altura dei por mim a pensar que pouco distingue um judeu de um muçulmano (a religião que, diria, mais é criticada), quando ambos levam a sua crença aos extremos; percebi, finalmente, alguns estigmas, preconceitos e até ódios que existem em relação aos judeus, que deverão ter em alguns destes costumes a sua raiz.
Não é uma série boa para os aficcionados do inglês: é falada maioritariamente em iídiche, embora com algum inglês pelo meio (uma vez que retrata a comunidade de Williamsburg, em Nova Iorque), pelo que é normal sentir alguma estranheza no início – que é compensada pela qualidade da série. Para mim há apenas um ponto negativo, que descobri nas minhas pós-pesquisas: a história de Esther (que na verdade se chama Deborah Feldman) não aconteceu exatamente como foi retratada na série, embora a ideia esteja lá.
Fora isso, é fácil saber se uma série é boa: quando nos faz pensar, pesquisar e querer saber mais. Em todos os pontos coloquei um “check”, o que me fez sentir uma pessoa mais rica depois de tudo o que aprendi.
(Para os que viram, gostaram e ficaram com curiosidade, encontrei um artigo muito interessante na NIT, que desmonta e explica alguns dos rituais vistos na série.) Ler aqui.

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