Comecem a preparar as pedrinhas, defensores acérrimos da literatura portuguesa, porque vão precisar. Eu, pelo sim pelo não, já fui buscar o escudo, que daqui a dois dias vou de viagem e não me apetece ir de olho negro. Vamos lá a isto.

Ontem explodiu uma polémica a propósito de um livro do Valter Hugo Mãe, que contém conteúdos explícitos a nível sexual, por este estar proposto no plano de leitura dos alunos do terceiro ciclo. Foi uma queixa apresentada por pais, o que eu acho muito bem, mas fico parva com tudo o resto: primeiro porque o conteúdo, para além de explícito, é bruto; segundo porque os típicos comentadores de facebook vêm dizer que as criancinhas não são nenhumas santas e que sabem muito bem o que é sexo e blablabla. Pois uma criança de 12 anos saber o que é sexo, principalmente nos dias de hoje, é de facto normal; já saber interpretar e contextualizar uma frase que diz “e a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponha a pila no cu” (citado) é outra coisa completamente diferente. Nem me vou alongar neste tópico, sou tudo menos experiente no campo da educação sexual, mas sei que dar uma visão destas a um puto é para ele 1) rir histericamente à gargalhada por ver escritos uma série de termos que os pais censuram, 2) não perceber absolutamente nada, 3) ficar com uma visão deturpada sobre aquilo que é o sexo e 4) ainda ter o bónus de saber o que é uma “puta”, no pior sentido possível. Só por isto, este livro nunca deveria ser sugerido para alunos com 15 anos no máximo. 

Por outro lado há toda uma outra questão, onde me pretendo focar mais – e aqui até posso incluir os alunos de secundário, a quem supostamente este livro é verdadeiramente destinado (embora eu também não concorde): se o Plano Nacional de Leitura tem também como objetivo fomentar hábitos de leitura, porquê dar um dos autores mais difíceis da literatura portuguesa contemporânea? Principalmente se pensarmos em alunos, por exemplo, do sétimo ano, dá-me uma vontade de rir imensa de tão ridículo que é. 

E podem achar que não falo com conhecimento de causa, mas falo. Primeiro porque saí da escola há quatro anos, ainda me lembro bem dessa realidade; segundo porque aprendi a gostar de ler relativamente tarde e lembro-me bem de como foi esse processo; e terceiro porque lido com miúdos com idades próximas do terceiro ciclo, praticamente todos os dias, e sei aquilo que eles sabem e a maturidade que têm (ou não têm, que é mais este o caso). Muitos deles mal lêem direito, têm graves falhas de vocabulário, não sabem escrever direito, não sabem pontuar sequer razoavelmente, não cumprem regras básicas de ortografia – e é ridículo dar-lhes um livro que não cumpre as regras clássicas de pontuação, que não escreve com maiúsculas e que, como bónus, ainda tem uma linguagem bruta por detrás e uma história pesada que têm de saber digerir. Não cabe na cabeça de ninguém.

E digo que isto também serve, em grande parte, para alunos de secundário porque a verdade é que muitos deles também não gostam de ler – e não é com livros destes que vão chegar lá. Eu fui para um curso de letras e vi textos e trabalhos que davam direito a um ataque de coração, de tão mal escritos (e com erros) que estavam.

Faz falta ler. E irrita-me que as pessoas sejam fundamentalistas e queiram pôr putos a ler com obras que nem sequer muitas pessoas adultas conseguem, que não gostam, com estilos de escrita demasiado carregados e histórias pesadas, só porque são autores com nome na praça. Para mim, pode ser o Harry Potter, o Twilight, o Eragon, o Triângulo Jota, os Uma Aventura – o que quiserem. Todos os livros que façam alguém gostar de ler deviam ter um estatuto de deuses gregos. Porque são esses os responsáveis por todos os livros que vêm a seguir: os clássicos, os light, os young adult, o que for. Mas tudo começa ali. E eu duvido seriamente que alguém comece a gostar de ler com Valter Hugo Mãe. Muito menos aos 14 anos de idade.


19 respostas a “Pôr miúdos a ler Valter Hugo Mãe é a anedota da semana”

  1. Avatar de Margarida

    Só me ocorre dizer: quem é a pessoa responsável pela escolha dos livros para os planos de leitura escolar? Essa pessoa é realmente paga para fazer esse trabalho? 
    Entendo a vontade de introduzir literatura portuguesa desde cedo, mas com tanto que há para escolher vá-se lá saber o que lhes passou pela cabeca aquando essa escolha…

  2. Avatar de Nuvem

    não podia concordar mais contigo. acho no mínimo ridícula esta escolha. pelas razões todas que apresentaste. é só motivo para risada fácil e falta de atenção. e para não perceberem nada de nada. o inteligente que faz o plano nacional de leitura é que não é bom da cabeça, com certeza.

  3. Avatar de Sofia

    Eu nunca tinha pensado nisso dessa maneira, mas tenho de concordar consigo,. Não é com livros demasiado complexos e pesados como esses, ou com os Maias ou o Memorial do Convento ou mesmo os Lusíadas, que vamos cativar os miúdos para a leitura. Eu já estou na casa dos vinte e, apesar de até gostar dos Maias, conheço pessoas mais ou menos da minha idade que ainda têm o trauma da descrição do Ramalhete. Eu sempre gostei de ler mas, quando era miúda, ouvia vários adultos dizendo que eu devia ler livros a sério, não apenas Uma Aventura e Harry Potter e afins.

    Hoje, acho essa conversa uma parvoíce. Digo-o com toda a sinceridade, os livros do Harry Potter contribuíram mais para a minha formação como pessoa do que, vá lá, oito em cada dez leituras obrigatórias das aulas de Português (e, diga-se, do que muitas aulas de catequese e Educação Moral). Mesmo sem essa componente mais didáctica, mesmo como mero entretenimento, acredito que os Harry Potters e os Uma Aventuras desta vida sejam mais eficazes a ensinar os jovens algumas noções básicas de ortografia, gramática, pontuação e sintaxe – e mesmo de coisas como enredo, caracterização de personagens, etc – do que livros mais complexos, que nada dizem à maior parte dos miúdos.

    Atenção, não estou a dizer que devemos deixar de estudar os clássicos nas aulas de Português. Mas diabolizar os livros menos eruditos e mais comerciais não faz sentido.

  4. Avatar de Amaria
    Amaria

    Concordo contigo plenamente, acho que os livros deste autor, não são adequados  à generalidade dos adolescentes pela sua complexidade, ponto!
    Não conheço a obra mas acho que mais uma vez os “midia” fizeram do tema “sexo” um campo de batalha, contra ou a favor do autor…quem sabe? 

  5. Avatar de Bruno
    Bruno

    De acordo com o que li, a escolha desse autor foi um “erro” qualquer – e ainda que concorde com a falha que foi, atribuir textos do género a essa juventude, de si e de todo o liberalismo, já tão estragada, acho que, quem escreve toda e qualquer crítica, fá-lo porque sim, porque há quem dê crédito e visibilidade a isto. E seguramente, não leram “algures” como eu, que se tratou de erro grosseiro.

  6. Avatar de Maria Araújo

    Muito bom post.
    Mão conheço o livro, mas pela frase que transcreveu do livro, faço minhas as suas palavras.

  7. Avatar de Maria Manuel
    Maria Manuel

    Não creio que vás precisar de escudo, nem espada, nem qualquer tipo de arma para defesa pessoal! Como sabes, adoro esse tipo de literatura, mas concordo que é preciso ser um leitor experiente, ter uma boa capacidade de interpretação, bom vocabulário, e uma maturidade que só vem com a idade. Mesmo que haja miúdos preparados para ler este autor- e outros como ele- esses miúdos vão saber procurar este livro.. não precisa de lhes ser sugerido na escola.

  8. Avatar de Maria vai com todos

    Primeiro, o PNL não é uma lista de livros obrigatório. São sugestões de leitura.
    Segundo, alunos do 8º ano já têm conceitos básicos de sexualidade – ou eu espero mesmo que sim.
    Terceiro, leu o livro? Considera mesmo a dita passagem pornográfica? Eu não.
    Quarto, o livro existe, está publicado e ao alcance de qualquer um, em qualquer livraria. Este exagero “proteccionista”, não nos leva a lado nenhum. Os putos são putos, mas não idiotas, caramba. Eu li outros livros e mais pesados e estou bem !

  9. Avatar de Carolina

    Primeiro, eu nunca disse que a leitura era obrigatória. O texto vai de encontro a uma leitura sugerida. Se é sugerida, é porque acham que se enquandra – e eu discordo disso.
    Segundo, sim, têm conceitos básicos de sexualidade. E como básicos entende expressões como “pôr a pila no cu” e “tenha uma racha para foder”? É que eu não. Se calhar é por causa de uma visão tão “libertina” das coisas que muitos miúdos hoje em dia começam as suas vidas sexuais aos 13 anos sem sequer conhecerem o próprio corpo.
    Terceiro, não li, não gosto de Valter Hugo Mãe. Mas também não preciso, o core do meu texto nem sequer era o enfoque da passagem mas sim não achar que um autor destes deva ser aconselhado a miúdos, sem maturidade para perceberem o que o autor escreve (e por tudo o resto que elenquei acima, que não me parece necessário estar a transcrever). E, mais uma vez, não disse pornográfico. Disse “bruto”. E continuo a descreve-lo como “bruto”, porque acho que é isso que é.
    Quarto, eu não estou a proteger ninguém. Acho que todos devemos ler e ver aquilo que quisermos, mas acho fixe se entendermos aquilo que lemos – o que não é o caso de meninos e meninas de 12 e 13 anos que possam ler este livro. E falo tanto a nível da dureza de algumas passagens como mesmo do enredo e da escrita em si. Porque, não tendo lido o livro, li o primeiro capítulo disponibilizado na net para pelo menos ter uma contextualização (ainda que já a tivesse dos outros livros do autor em que já peguei) e li várias opiniões sobre o livro em si, escritas muito antes do barraco cair. 

  10. Avatar de Lady Di

    concordo a 100%, há ainda o facto de nas aulas as crianças lerem excertos em voz alta, há aqueles que vão achar um piadão, mas há outros que acredito que se irão sentir muito constrangidos por ler determinado tipo de palavras que foram ensinados a nunca pronunciar
    Enfim…

  11. Avatar de Catarina Duarte

    Concordo plenamente! Não tiro uma vírgula.

  12. Avatar de C.S.

    Gostei muito da tua opinião/reflexão. Concordo que conteúdo desse para miúdos do terceiro ciclo é demasiado. Imagino esse tipo de frase lido em sala de aula e é muito fácil compreender o tumulto que se iria gerar. Por mais que o professor tentasse interpretar, contextualizar e explicar os miúdos não ouviam nada e iam rir até à exaustão. Depois iam para o recreio repetir as mesmas palavras que leram e, quando chamados à atenção, iriam prontamente dizer que o acabaram de ler numa aula de português. 

  13. Avatar de jampgui
    jampgui

    Concordo em absoluto com o teor do post.
    Mas há uma outra questão a abordar: trata-se do beneficio financeiro que o natural aumento de vendas do livro, pelo facto de estar numa lista recomendada, acarreta.
    Beneficia quem?
    Directamente o autor do livro e o editor; mas indirectamente também poderá beneficiar quem o meteu na lista.
    Não haverá umas comissões a cobrar?
    Sim, porque nos dias de hoje, afirmar que houve um erro informático  como desculpa cheira muito a esturro…

  14. Avatar de #RapazSecreto
    #RapazSecreto

    Entendo que seja importante incentivar o gosto pela leitura, mas creio que o mais importante é que cada jovem possa escolher/encontrar aquilo que lhe dá prazer ler, em vez de se tentar formatar todos para o meu estilo literário… Enfim, não comento o resto, porque desconheço o livro.
    Beijinhos e boa viagem!

  15. Avatar de Purpurina

    Olá, por acaso discordo bastante. 🙂 Com 13, 14, 15 anos, acho que um jovem pode perfeitamente ler um livro do autor (mesmo o excerto partilhado) sem ficar com uma ideia errada da sexualidade ou sem ficar sem vontade de ler mais. Espera-se que, com essa idade, já saibam interpretar um texto suficientemente bem para inserir conceitos mais estranhos no contexto geral do livro.
    Com 14 anos li livros do género e posso afirmar que esses livros são responsáveis pelo meu gosto pela leitura.
    Também li o Harry Potter  (que adoro) já em adulta e não me parece que seja esse o tipo de livro adequado para miúdos de 13 ou 14 anos.
    O que acho que devia existir é uma maior flexibilidade de obras para ler, em vez das leituras obrigatórias. Não somos todos iguais e não devemos ser obrigados a explorar exatamente as mesmas coisas. Mas, ler Valter Hugo Mãe, no 8º ano não me parece, de todo, descabido. Espero bem que as minhas filhas tenham maturidade para isso no 8º ano, senão algo vai muito mal na educação delas.

  16. Avatar de Purpurina

    Concordo muito. Eu também li livros do género com 13, 14 anos e adorei. Digo até que estimularam e muito o meu gosto pela leitura. 

  17. Avatar de Purpurina

    Totalmente de acordo, o mais importante seria mesmo não tentar formatar os miúdos para um determinado estilo de leitura. Uns estarão preparados para umas obras, outros para outras. Felizmente somos todos diferentes.

  18. Avatar de Patrícia

    Olá Carolina, 
    Este texto podia ter sido escrito por mim há uns tempos. Percebo perfeitamente o que tentaste dizer e ainda gostava de saber se essa solução – o de ter livros porreiros e adequados nas aulas de português – resultava.
    A verdade é que entretanto mudei um bocadinho de ideias.
    Em relação à polémica do VHM devo dizer que concordo contigo – não acho o livro adequado às idades e esse erro já foi corrigido. Mas acredito que muita gente, à conta desta polémica, foi ler o autor e isso é óptimo (não é um dos meus favoritos mas reconheço-lhe a qualidade).
    Mas o que vejo de forma – agora – diferente de ti (e de mim até há bem pouco tempo) é a necessidade de mudar o tipo de obras dada em aula. Acho que no 2º e 3º ciclo a escolha das obras dá um bocadinho mais de liberdade aos professores que no secundário e isso é positivo. Mas, cada vez mais, acho importante que os miúdos leiam obras clássicas. O problema é que a maioria dos miúdos de 16 anos não consegue ler os Maias. O drama não está na obra escolhida – está na falta de capacidade de um miúdo de 16 anos de o ler. Não tentam, não querem e escondem-se atrás do facto de ser um clássico. E estamos a falar de miúdos que pretendem continuar os estudos e aceder ao ensino superior. Assistimos à luta desesperada de ter uma média mais alta – e achamos aceitável que não sejam capazes de ler um livro que conta uma história de faca e alguidar. 
    Sim, é importante fazer os miúdos ler – mas esse trabalho deve ser feito (também) em casa. Em casa pode e deve ler-se de tudo – do mais bera romance aos mais escabroso policial passando pela fantasia (e quão maravilhoso é isso?). Mas a escola não pode baixar o nível – sob a pena de, daqui a algum tempo, a língua portuguesa, os autores portugueses não serem lidos.
    É necessário que os leitores sejam postos à prova – e a escola deve fazê-lo, deve mostrar-lhes coisas diferentes, obrigá-los a crescer. Mesmo que, na altura reclamem (eu sei bem que reclamei).
    Se as obras lidas podiam variar? sim, podiam. Há mais literatura para além do Eça (até mais Eça para além dos Maias), “o viagens à minha terra” é uma seca descomunal mas, caramba, ninguém disse que as leituras na escola têm que ser todas fáceis e maravilhosas.
    Não entendas este comentário como uma crítica ao que disseste mas como mais um argumento que deve ser considerado nesta discussão.
    Boas leituras

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