Nós nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos. Somente através do amor e das amizades é que podemos criar a ilusão, durante um momento, de que não estamos sozinhos.

Orson Welles

 

No próximo mês vou fazer duas viagens em trabalho, uma delas a um sítio onde nunca fui. Vão ser mesmo seguidinhas e, no total, vou estar uma semana fora – não vou com ninguém do meu escritório mas sim com pessoas com quem já trabalhei e com quem agora não privo diariamente. Vai ser uma experiência nova para mim mas como, de alguma forma, tenho o amparo de gente que conheço, não tenho qualquer tipo de receio – pior vai ser mesmo o trabalho lá, que não sei como vai ser; aliás, sei uma coisa: vai ser MUITO cansativo. Sei que vou chegar à noite e cair invariavelmente redonda na cama do hotel, o que me vai impedir de desfrutar dos sítios onde vou estar.

Pus por isso em cima da mesa ficar mais um ou dois, por minha conta e risco, para conhecer um dos sítios onde vou ficar – aí já não teria nenhuma das pessoas que ia viajar comigo para me acompanhar. Lancei a ideia para o ar aqui em casa e senti que ficou alguma apreensão no ar – eu, sozinha, numa cidade estrangeira… não é propriamente a mistura de palavras que agrade aos ouvidos dos meus pais. Mas a verdade é que eu sempre quis ter a experiência de viajar sozinha – e acho que se não o fizer nos próximos tempos, eventualmente vou-me conformar com a ideia típica de que viajar recreativamente só acompanhada o que, creio, me tirará muitas oportunidades no futuro.

A questão vai muito para além da experiência – acho que chega à necessidade. Ao longo da minha vida aprendi a fazer muita coisa sozinha – não só porque quis e gosto da minha companhia, mas também porque não tinha ninguém com quem as partilhar e nunca quis deixar que isso fosse um entrave às minhas vivências. Eu sempre joguei monopólio sozinha, vou ao cinema sozinha, aos saldos sozinha e almoço sozinha sem grandes problemas. Desde cedo que me limitei a aceitar que sou assim e não quero nunca que esta característica minha me impeça de viver – sendo que viajar, para mim, é uma parte essencial da vida.

O que eu quero dizer é que não só quero ter esta experiência porque acho que vou gostar mas também porque acho que é só uma amostra do meu futuro – não porque não goste de viajar com pessoas, mas porque já sei o que esta vida gasta: é difícil encontrar alguém de quem eu goste, que goste de mim, que tenha um poder económico semelhante ao meu, férias nos mesmos timings e que tenha gostos semelhantes aos meus – e eu simplesmente não estou para esperar por uma coisa que não sei se vai acontecer. Sei que isto choca muitos, porque estamos formatados desde cedo que a vida tem de ser partilhada com alguém – mas essa ideia, para mim, é tão estereotipada como tantas outras. Eu não me imagino casada, não me imagino com filhos. Não quer dizer que isso não venha a acontecer, não nego à partida uma ciência que desconheço – mas posso garantir que não é algo que tenho como um objetivo para a minha vida. Eu sei que este é um assunto pesado, que normalmente as pessoas mais velhas contrariam veementemente: dizem logo que não é assim, que as coisas mudam – e eu não digo que não. Mas o que é facto é que há muitas pessoas sem filhos e sem alianças nos dedo que são igualmente felizes. E porque não? Para mim, é uma forma de viver tão legitima como todas as outras, com os prós e contras que existem como em todas as outras coisas da vida.

Eu sei que sou nova, mas também sei que a vida não pára. Aliás, acontece-nos: e sim, se tudo correr bem tenho muitos anos pela frente, mas tenho de os fazer valer e agarrar cada oportunidade não como se fosse mais uma, mas como se fosse A oportunidade. Custa-me desperdiçar uma viagem – sim, porque quem é que gosta de andar enfiada naquelas bichos com asas a que chamamos aviões? – sem tirar o menor proveito dela, só pela carga de ir sozinha, quando ainda por cima acredito que este vai ser sempre o estado primário da minha vida.

Se em miúda aprendi a ser feliz sozinha enquanto brincava no quarto, sei que serei feliz também em qualquer recanto do mundo. E quanto às fotos… bom, eu sabia que aquele selfie-stick me ia dar jeito um dia destes. 😉


11 respostas a “Porque não viajar sozinha se a própria vida é uma viagem solitária?”

  1. Avatar de Catarina

    Este texto é uma lufada de ar fresco! Também sinto essa vontade de arriscar uma viagem sozinha, e são pensamentos complexos de entender pelos pais, família e amigos. Vêm essa opção como sendo “falta de opções” quando na verdade representa apenas uma vontade de crescer naquilo que somos e de nos conhecer melhor.

  2. Avatar de C.S.

    Grande decisão. Óptima decisão. Se já lá estás porque não aproveitar por tua conta e risco?! Boa viagem. ☺

  3. Avatar de vanita

    Sempre quis viajar sozinha mas nunca chegou a acontecer. Percebo-te bem mas também entendo a apreensão da tua família. Portugal é um lugar seguro, lá fora… não sabemos. Mas nem penso que isso seja grande argumento, com medo não se vai a lado nenhum. Penso é que,  do que me é permitido ver deste lado, tens pouca experiência fora da tua zona de conforto e, talvez por isso, possa ser um passo demasiado grande para já. Nunca saíste de casa dos pais, não foste morar para outra cidade e continuas a almoçar com a tua família sempre que queres. Deixar o ninho é um bocadinho mais duro do que parece e o meu medo é que, numa cidade estrangeira, te sintas demasiado insegura e não consiga aproveitar a experiência. Não sei se me fiz entender bem. A verdade é que estar fora do País não é bem como ir ao cinema sozinha. E que tal tentares por baby steps? Fica a dica 🙂

  4. Avatar de MP

    Fiz uma coisa dessas no ano passado e foi a melhor coisa que fiz por mim! Andava a adiar à anos e acho que nunca me senti tão ligada a mim como nessa viagem. Nunca me senti sozinha e incrivelmente socializei imenso no bar do hostel. Estou mortinha por repetir a experiência! Boa viagem e não é caso para teres medo 🙂

  5. Avatar de Amaria
    Amaria

    Não nascemos sozinhos, não vivemos sozinhos (por muito que possamos pensar que sim) e nem sequer é fácil morrer sozinho.
    Ou então toda a nossa vida é uma ilusão.

    Amaria

  6. Avatar de Pedro Lopes
    Pedro Lopes

    “não nego à partida uma ciência que desconheço ” oh esta bela expressão, que por muitas vezes também uso.
    Força na viagem contigo mesma! Acredito que irás interagir com outros muito mais do que se levasses o “mala” a trás sempre agarradinho e a tirarem fotos enamorados em frente a monumento qualquer!
    Força nas fotos, para aqueles que não tiverem oportunidade de viajar, lavem os olhos também.

  7. Avatar de Happy

    Eu estou habituada a viajar sozinha. Faço um par de viagens por anos acompanhada (família e outra com amigos), mas é como disseste, nem sempre se arranja a companhia para aquele destino, aqueles dias e com a vontade de ver determinadas coisas.
    A minha experiência diz-me que vais gostar. Aprendes imenso sozinha e como me pareces uma pessoa desenrascada e de certa forma independente, acho que vais gostar da experiência. E depois, não sabes se não experimentares, certo? 

  8. Avatar de Novembro

    Força vai em frente, sem olhar para trás. Quando fazemos as coisas sozinhas, experienciamos tudo de uma forma mais intensa.
    Penso da mesma forma que tu, e Carolina sou bem mais velha do que tu.
    Vais ter muito para partilhar connosco.
    Um grande beijinho.

  9. Avatar de Catarina

    Digo-te que o maior perigo de viajar sozinha é depois não querer outra coisa.
     É óptimo ir com a família, com o namorado ou com um grupo de amigos, mas a minha partícula egoísta adorou a experiência de estar sozinha numa capital europeia durante 3 semanas o verão passado. És tu quem controla os horários, o que vais ver, o que te apetece comer e os desvios aos programas que te derem na cabeça.
    Claro que percebo a apreensão da tua família, mas, a não ser que vás para algum sítio com perigos mesmo frequentes e graves, basta seguir as precauções cosmopolitas cá de Portugal que não é assim tão diferente.
     Espero que abraces a oportunidade e te divirtas. E tens toda a razão, os selfie sticks servem para alguma coisa 

  10. Avatar de Ana Silva
    Ana Silva

    Amaria , por muito que nos custe aceitar, nascemos, vivemos e morremos mesmo sozinhos.Somos um só. Como ser. Ninguém sente o que sentimos, nem sabe o que pensamos, não vive a nossa vida e por aí adiante.

  11. Avatar de Ana Carolina Helena
    Ana Carolina Helena

    Como te compreendo. Estou a passar por uma situação semelhante. Este ano, desafiei-me e disse para mim mesma: “Hei-de marcar uma viagem solitária!”. Não sabia o destino, muito menos quando seria. Comprometi-me apenas que quando aparecesse a oportunidade, não lhe iria virar as costas. Tal como dizes, as condições hipoteticamente ideais para viajar muito dificilmente vão estar reunidas todas ao mesmo tempo. Devo aproveitar agora, enquanto ainda estudo e o meu horário é bem mais flexível do que possivelmente no futuro. Assim, noutro dia à noite estava a consultar voos e encontrei uns baratos – 5€+5€ – de ida e volta para Bucareste e não hesitei. Vou ter de me desenrascar um fim-de-semana sozinha, num sítio onde não conheço ninguém e nem toda a gente fala inglês. Sinto um nervosinho sempre que penso nisso, mas tenho muita vontade de ir. Acho que vai ser libertador e abrir portas para outras possíveis visitas a solo no futuro. A minha mãe também torceu o nariz à primeira, mas com 21 anos também já não me pode dizer grande coisa, uma vez que é com o meu dinheiro. Boa sorte e que tenhas uma excelente experiência!

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