Acho que nunca cheguei a publicar um texto que há tempos escrevi sobre o facto de ter medo de não estar a “viver a vida” – aquela expressão que, em jovens, todos ouvimos vezes sem conta. “Vive a vida!”, dizem-nos os mais velhos enquanto olham o horizonte, claramente revivendo momentos da sua juventude… ou então pensando em tudo aquilo que não fizeram e queriam ter feito.

Isto aterroriza-me. Há um medidor de vivências? De qualidade de vida? Será que o pessoal que curte ao máximo a vida universitária – entre praxes, festas, bebedeiras e queimas – viveu mais do que eu, que não gosto de nada disso? Será que se eu me tivesse obrigado a presenciar isso tudo faria de mim uma pessoa mais feliz (que, ao fim e ao cabo, é o objetivo de estarmos vivos)?

Este conceito confunde-me muito, mas também me atemoriza. Não pelo que não vivi (porque já lá vai e tenho a certeza que aquilo que preenche o conceito de “viver a vida” da maioria, não corresponde ao meu), mas pelo medo que tenho de não viver. Porque por um lado sou nova e tenho a vida pela frente; emas também porque por outro sou nova e é aqui, nesta fase, que o melhor da vida acontece.

Isto – e o facto de estar numa fase altamente contemplativa – tem-me colocado inúmeras questões. Nem eu sei o que é “viver a vida”, mas penso que para além de tudo aquilo que já tenho e que é essencial (que em linhas gerais se pode descrever como saúde, família e trabalho) acho que, para mim, tudo o que me faz sentir mais viva, feliz e inspirada é viajar e ouvir espetáculos ao vivo. E por isso comecei a fazer contas e a pensar: “se eu quero viver a vida, é isto que tenho de fazer”. O próximo verão em particular pareceu-me  a altura ideal para pôr isto em prática, uma vez que, se tudo correr planeado, terei tempo e dinheiro no bolso. Mas rapidamente me apercebi que faltava só um detalhe nesta equação: as pessoas.

Este “detalhe” não é de hoje, é mesmo algo transversal na minha vida (lembro-me de ter doze anos e jogar monopólio sozinha, porque não tinha com quem jogar) e também um tanto ao quanto paradoxal: sei que não posso viver sem os outros, não quero viver sem os outros, mas também preciso de uma quantidade muito maior que o normal de tempo só para mim.

Já há muito que aceitei o facto de ser assim – o que não quer dizer que lide bem com isso todos os dias, até porque diariamente são-nos impostos novos desafios e as coisas vão modificando. Até aqui todos me diziam para esperar, que com as diferentes fases viriam novas pessoas e que tudo acabaria por surgir naturalmente. Mas acho que se enganaram, provavelmente por o defeito não estar nos outros, mas em mim. Não fiquei com muitos amigos do secundário, fiquei com ainda menos da faculdade e do trabalho também não tenho ninguém que leve de férias. 

E, se pensarmos bem, as duas coisas que destaquei como o meu sinónimo de “viver a vida” fazem-se, normalmente, com companhia. Companhia que eu, normalmente, não tenho. Por isso, olhando para o quadro geral de tudo o que quero fazer, dos “anos de ouro” que tenho pela frente e para as poucas pessoas que tenho no meu caminho, pergunto-me: vale a pena continuar a esperar? Vou continuar a não ir a concertos como o do Sam Smith porque não tenho ninguém que goste das músicas dele? Vou deixar de ir ao cinema à noite porque não tenho ninguém que queira sair do sofá? Vou esperar que o teatro do Harry Potter em Londres acabe porque os meus pais ficam com o coração nas mãos por eu viajar sozinha? Vou deixar de ir à Islândia porque ninguém tem dinheiro para lá ir? 

Sempre tentei que esta minha péssima característica (a solidão crónica) nunca me impedisse de fazer as coisas de que gosto. Da mesma forma que, em miúda, peguei no tabuleiro do Monopólio e comecei a jogar sozinha, também aprendi a relaxar, pegar no carro e ir ver um filme sem ninguém. Mas estou a chegar a uma fase em que sinto que preciso de passar uma linha que, até agora, restringia as atividades a fazer em grupo. É estranho ir a um concerto sozinha. É estranho viajar sozinha. É estranho ir experimentar um restaurante novo sozinha. É estranho para mim e é terrível para os meus pais que sofrem por tudo isto. Mas até quando é que é suposto eu esperar? Quando é que é aceitável eu atirar a toalha ao chão, aceitar que é assim, que sou assim, e que isto não deve mudar? Quando é que eu devo parar de esperar pelos outros para viver a minha própria vida?


11 respostas a “Quando é que devemos parar de esperar pelos outros?”

  1. Avatar de Vanda Duarte Santos

    Eu sou essa pessoa sozinha, que vai ao cinema sozinha, a concertos sozinha… e é tudo muito estranho. Eu sinto que o mundo que me rodeia não aceita que alguém faça isso sozinha. E também era suposto com as diferentes fases os amigos surgirem, mas aos 28 anos ainda espero por isso. Fazer parte de um grupo, ser a dita pessoa normal. Neste momento já não espero que isso aconteça, por isso, resta me viver a vida sozinha. 

  2. Avatar de Rhysium
    Rhysium

    Já leio o teu blog há algum tempo e sempre me identifiquei com muito do que escreves.
    Sempre fui um pouco ovelha negra, mas não deixei de ter amigos por isso. Poucos, mas próximos. A questão é que o tempo passa e muitas vezes, desses já poucos, restam um ou dois. Em parte, por minha culpa. Não sou a pessoa mais presente. Desses poucos que restam, estes nem sempre estão disponíveis para fazer companhia. Já várias vezes quis ver um filme ou viajar para ir ver um concerto… mas rapidamente mudo de ideias porque não tenho ninguém, de momento, que convidasse para ir comigo. E apesar de me considerar uma pessoa solitária, a minha motivação para fazer qualquer uma dessas coisas desaparece assim que me apercebo que iria sozinha.
    Por isso, admiro-te, por pegares em ti e ires ver um filme ou um concerto sozinha. Mesmo que sintas que é “estranho”. Eu não o faço. E isso só aumenta o peso na consciência.
    A conclusão (se calhar, um pouco óbvia) é: Faz o que sabes que te faz feliz. 🙂 

  3. Avatar de Sandra
    Sandra

    Olá! 🙂
    Já sigo o teu blog há bastante tempo e identifico-me muito contigo e com o que escreves, mas acho que esta é a primeira vez que comento.
    Eu sou essa pessoa “estranha” que vai a concertos sozinha, vai ao cinema sozinha e viaja sozinha. Aliás, vou ver o Sam Smith sozinha, e o ano passado fui ver o teatro do Harry Potter a Londres sozinha 😛
    Também fiquei com poucos amigos do secundário e da faculdade. Durante algum tempo deixei que não ter companhia me impedisse de fazer as coisas que gosto, mas depois decidi mudar isso e passei a tentar fazer o que queria, mesmo sem companhia. E sou muito mais feliz assim 🙂

  4. Avatar de Sofia Marques

    “Viver a vida” apenas quer dizer vive a tua vida. Se tiveres companhia, boa. Se não tiveres, vai à mesma. Não se deve deixar de fazer o que se gosta e o que se quer por não teres companhia. Se tens possibilidade de fazer sozinha e sabes que isso vai-te fazer feliz, pura e simplesmente faz 🙂 Nós não temos de viver a vida dos outros e os outros não têm de viver a nossa vida. Há coisas que coincidem e fazemos juntos 🙂 Mas também há coisas que fazemos sozinhos e não há problema, está tudo bem 🙂 Não podes estar à espera dos outros para viver a tua vida!

  5. Avatar de Jess
    Jess

    Viver a vida é fazer aquilo que nos faz mais felizes, o que não precisa de ser forçosamente igual às outras pessoas. Penso que não devemos esperar por ninguém para viver, pois é assustador pensar que um dia podemos olhar para trás e sentir arrependimento. Mas é óbvio que viver coisas e poder partilhá-las com alguém é muito melhor, pois como disse Chris Mccandless “A felicidade só é real quando compartilhada.”.

  6. Avatar de
    Anónimo

    Já há algum tempo que leio o teu blog e cada vez me identifico mais com os teus posts. Ainda ontem falava com a minha irmã exatamente sobre isto, de sentir que tenho poucos amigos e que às vezes deixo de fazer coisas que me poderiam dar prazer, mas que não faço por não ter companhia. 

  7. Avatar de Inês

    Identifico-me tanto com este texto. Já vou ao cinema sozinha e em viagens, se bem que só tenho viajado em projetos de voluntariado e aí acabo por não estar sozinha. Confesso que já perdi alguns concertos a que queria ir por falta de companhia, mas o resto tento sempre não deixar de fazer por causa disso… Aproveita as férias 🙂 (e a Islândia é um destino de sonho para mim)

  8. Avatar de David Marinho
    David Marinho

    Nunca te impeças de viver por estares sozinha. Uma pessoa sem vivências, é uma pessoa sem vida e sem brilho, e isso nota-se facilmente nos outros.

  9. Avatar de Isa

    Não esperes (nunca) pelos outros, para viver a tua própria vida 😉

  10. Avatar de sacha hart

    Com este texto tocaste mesmo no ponto que tem sido, desde a minha infância, o mais sensível. Sou muito parecida a ti em todos os sentidos deste texto. 
    Por um lado, sabe “bem” saber que há pessoas no mesmo barco e não sou a única “esquisita” no mundo, por outro este é um aspecto da vida que não desejo a ninguém, o de preferir ou inevitavelmente estar sozinha e ao mesmo tempo arrepender-me de o ser, porque a vida faz-se de pessoas e a minha está muito vazia. 
    Acho que penso nisto todos os dias, mas hoje por alguma razão calhou ler este teu post e perdi-me novamente em reflexões que por vezes têm um sabor amargo e negativo, ao invés de impelir à mudança para resolver esta lacuna que sentimos na vida. 
    Só espero que não estejamos realmente a perder os melhores anos da vida, nem que nos coibamos de a viver. 
    (desculpa, este comentário acabou por não acrescentar nada, mas ao menos permite-me agradecer-te por partilhares estes receios). 

  11. Avatar de
    Anónimo

    Assim sim. Que seja esta a mentalidade desta geração de mulheres. 

    Sem amarras, sem medos e sobretudo que um dia consigamos ser realmente LIVRES. De corpo e mente.

    Estranho, estranho, é querermos ir a algum sitio e não o fazermos por estarmos sozinhas. 

    Isso sim é aterrador.

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