No fim do último recital de piano do ano passado a minha professora entregou-me aquela que viria a ser a minha música de Janeiro (todos os meses apresentamos músicas novas, que estão sujeitas ao tema do mês). Neste início do ano o mote eram peças a quatro mãos. Normalmente somos nós que escolhemos a música que mais gostamos e começamos a estudar a partir daí, mas naquele dia ela entregou-me aquela peça, que achava que era a minha cara, e assim ficou. O primeiro baque deu-se quando eu olhei para a pauta. As pautas, aliás. Eram dez: cinco para ela, cinco para mim (pânico!). O segundo  foi quando eu ouvi a parte dela e nem sequer percebia por onde os seus dedos andavam. E o terceiro foi quando, em casa, percebi a extensão e a dificuldade da música.

Tive a opção de fazer uma estafeta, em que vários alunos tocavam uma pauta da peça. Mas fui esperançosa e um tanto ao quanto gananciosa quando decidi ficar com ela toda para mim. Assim, fiz contas à minha vida, decidi fazer o esforço e dar mais meia hora do meu dia ao piano (para além do tempo que já dou habitualmente) para conseguir ter a peça pronta a tempo.

Acabou por ser uma jornada e tanto. De uma peça que eu desconhecia (assim como a maioria), passou a ser algo que faz parte de mim; nem sequer era uma música que eu ouvisse pela primeira vez e me apaixonasse. Mas, como me foi atribuída pela professora, com o significado que isso tem, deixei-me ir… e todas aquelas horas que passei a treinar acabaram por me fazer perceber o quanto eu podia gostar da peça e o quanto eu já gosto de tocar piano. Apesar da luta que me deu – e não foi pouca – foram sempre momentos de puro prazer.

Sim, porque tocar uma peça a quatro mãos tem que se lhe diga. A principal dificuldade é a coordenação – para além das duas pessoas terem de estar “alinhadas”, as suas peças têm de estar perfeitas ao nível dos tempos, senão o resultado final não vai soar direito. Como só podia tocar com a minha professora durante uns quinze minutos por semana – e por eu ser um tanto ao quanto obsessiva no que o piano diz respeito – estava a dar em maluca – primeiro porque não estava a conseguir alinhar-me com ela, segundo porque aquilo que eu tocava parecia estar sempre descontextualizado. A solução para tudo isto envolveu o uso do metrónomo (foram muitas horas a ouvir aquele horroroso “toc toc toc plim! toc toc toc plim!” enquanto tentava tocar nos tempos certos) e a tocar ao mesmo tempo que uns russos – dos poucos que disponibilizaram a música no Youtube – de forma a conseguir perceber onde devia entrar e interiorizar a parte da minha professora. Para além de tudo isto, por a peça ser enorme, eu tinha mesmo de ler a pauta – era-me impossível decorar aquilo tudo!

Cheguei ao fim do mês com a peça pronta. Encravei em muitas partes ao longo do processo, ainda hoje há trechos que eu respiro fundo antes de tocar, mas quando ficou pronta (e a gravei) fiquei com uma sensação agridoce: por um lado de dever cumprido, por outra triste por esta jornada partilhada ter acabado. Foi a primeira vez que senti no piano uma extensão de mim. Mais tarde toquei-a no recital, correu-me terrivelmente e fiquei despedaçada: tantas horas para depois me enganar na hora H. Enfim, acontece. Ao menos já tenho o vídeo como prova. 

As peças nunca estão acabadas, nunca estão perfeitas, por muito que as toquemos – e aqui cabem anos! Sei que se tocar isto daqui a um ano, tudo vai soar melhor – já vejo isso quando toco peças que aprendi há quatro meses atrás. Mas sinto que se não partilhar esta música com os meus, não partilho mais nenhuma. Mesmo sabendo que daqui a uns tempos vai soar melhor, mesmo detestando a minha cara de concentração profunda enquanto toco. Esta teve um sabor especial. Para a maioria, será só mais uma; para mim, acho que vai ser sempre “uma das”.  

 

Sonatina by Diabelli; Op.163 n.1, quatro mãos:

(são cinco minutos de vídeo, sei que estou a testar a paciência até aos mais pacientes. se quiserem só uma amostra, saltem para os 4.30min)


Uma resposta a “Quatro mãos num piano e uma música especial”

  1. Avatar de
    Anónimo

    O tempo que tu desperdiçaste e nos fizeste deixar de ouvir.
    Amaria

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