Escrevo-vos do aeroporto de Madrid, onde espero pelo meu avião. Cheguei cá ontem, naquela que foi a minha primeira viagem de trabalho, e parto daqui a umas horas para Munique. Na verdade, a viagem de trabalho inclui-se num enorme lote de coisas que nas últimas 48 horas fiz pela primeira vez: a minha primeira viagem “sem rede” (já tinha viajado sozinha, mas sempre com pessoas à espera no destino), a primeira feira profissional, o meu primeiro contacto direto com as empresas e tudo o que isso envolve. É uma sensação um bocadinho avassaladora.
Em conjunto com alguns problemas que Janeiro me trouxe, a expectativa e o medo destes dias fazia com que o meu estômago desse cambalhotas o dia inteiro e o meu sistema nervoso andasse todo escangalhado. Não tinha medo de estar sozinha, mas sim de não corresponder às expectativas ou de fazer um bom trabalho – defraudar as esperanças que os outros depositam em mim é algo com que lido sinceramente mal. E aqui não se trata de sair da minha zona de conforto: porque isso, por estes dias e com este trabalho, já é por onde habitualmente ando; esta aventura eleva-se a todo um outro nível. Se eu estava a uns metritos da minha zona de conforto, fora dela mas sem a perder de vista, agora fui catapultada para uma zona onde nem sei o que é isso de conforto, comodismo ou relaxamento. Tudo me é estranho, tudo é um desafio, tudo é novo. Sou a mais nova que aqui anda – consigo ser mais nova que as hospedeiras que distribuem panfletos, bolas! – e isto é um mundo tão grande, com tanta gente, com tantos metros quadrados, com tantas línguas, que uma estreante como eu se sente uma verdadeira formiga.
Por saber disto é que estava estava a morrer de medo. Mas a verdade é que, como noutro par de ocasiões, há um clique que se dá em mim (acho que é o botão do “desenrasca-te, mexe-te e faz acontecer”) e tudo isto se evapora e eu simplesmente faço. Como dizem os antigos, a necessidade aguça o engenho, e eu que detesto o meu portunhol já o falava quase como língua materna. E o exemplo da língua aplica-se a tudo o resto: à minha espécie de jornalismo, ao meu medo de falar com pessoas. Faço-o inevitavelmente de forma inexperiente, por isso às vezes tenho de repetir; mas faço. Dei por mim a meter conversa com as pessoas, a perguntar coisas sobre os seus negócios e a saber a história de vida daquelas empresas; a aceitar jantar com pessoas que tinha acabado de conhecer (ou, na verdade, nem sequer conhecia) e no dia seguinte tomar o pequeno-almoço com elas. E depois chegar ao fim do dia, com umas olheiras estilo panda e o corpo dorido, deitar-me na cama com o meu livro (que me devolve o cheiro a casa) e aí pensar: calma aí, que extraterrestre é que eu encarnei hoje? Quem foi esta pessoa?
Vão ser dias tão difíceis como interessantes de analisar, estes. Passo por todas as sensações em apenas 24 horas: desespero num momento em que vejo que não vou conseguir, euforia quando percebo que afinal consegui, frustração quando afinal vejo que não resultou tão bem como queria, orgulho por mesmo assim ter tentado, saudades de um abraço que me apoie quando a moral está em baixo, entusiasmo por estar sozinha e independente e poder fazer o que quiser da minha vida.
Acho que sou muito racional e organizada, principalmente a nível mental, mas este é um daqueles embates com a realidade que nos abana os alicerces. Pode parecer só uma experiência, mas há muita coisa que daqui se vai perceber. Se eu seguir o plano que delineei para mim, isto vai fazer parte da minha vida de uma forma constante. E falo de tudo: de estar sozinha, independentemente de estar ou não só; de passar a vida metida em aviões e em hotéis; e no cansaço de estar em feiras, monta-las, desmonta-las, empacota-las… e depois repetir tudo de novo (aqui já na óptica de quem expõem e não de “jornalista” e de apoio logístico a quem expõem).
Mas, acima de tudo, sinto orgulho. Não sou capaz de me meter numa montanha russa, não gosto de parques de diversões, tenho medo de ratos, detesto filmes de terror e sou incapaz de ir fechar a portada do meu quarto se ouvir um barulhinho. No entanto, na minha primeira oportunidade de trabalho, atirei-me de cabeça mesmo sem saber no que me estava a meter – e depois percebi que era afinal uma área que nunca quis, que não gostava e que me custava fazer; depois perguntam-me se quero ir a Madrid e a Munique, sem me dizerem datas, tarefas ou expectativas – e eu torno a dizer que sim. E vou. Vim. E faço. E vou fazer acontecer. Por isso, da próxima vez que me chamarem medricas por não me meter numa daquelas diversões numa qualquer romaria, eu sorrio e aceno, pensando interiormente que já fiz coisas muito mais badass e desafiantes que tudo isso. Mesmo que antes sofra, que no momento doa e que ache que não vou conseguir. Estou cá para provar o contrário.


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