Há uns dias estava a rever o Inception e chamou-me à atenção uma frase que a personagem do Leonardo di Caprio diz à Ellen Page: as ideias, a partir do momento em que são implantadas na nossa cabeça, são como um vírus – não saem e tendem a propagar-se, neste caso dentro de nós.

Naquele momento lembrei-me da minha tatuagem – que ainda não é minha, porque não existe. Tive dia e hora marcada para a fazer, faz por esta altura um ano: mas fiquei tão agoniada, tão preocupada, tão atormentada com os “e se’s”, que desmarquei. Sei ao pormenor o desenho, o sítio; sei quem quero que ma faça, sei o preço, sei a morada; sei a opinião dos meus pais, sei que não adoram, mas sei que não vão deixar de dormir por causa disso. Sei tudo. Só não sei se quero um compromisso desses para o resto da minha vida. Mas também sei que a ideia não me sai da cabeça.

No dia em que a fizer, se a fizer, não quero dar aviso prévio; quero aparece e, oh!, já está. Não quero colher mais opiniões do que as que já tenho, não quero conspurcar a minha mente com ainda mais preconceitos com os que já lá existem – e a verdade é que tenho muitos, mesmo inconscientemente. Lembro-me que na altura em que tinha tatuagem marcada o tema surgiu várias vezes em conversas de família (sem que eu puxasse pelo assunto) e as vozes eram tão dissonantes (“odeio”, “adoro”, “nem pensar”, “porquê mexeres no teu próprio corpo?”, “é arte”) que acabaram por implantar mais medos dentro de mim. O faz-não-faz estava a consumir-me tanto que deitei a ideia para trás das costas e desisti, ainda que desiludida comigo mesma. Senti (e ainda sinto, na verdade) que não a fiz por ter medo daquilo que os outros iam pensar e por recear as consequências que aquelas marquinhas podiam ter. E, caraças, isso não sou eu! Mas não queria ir contra a vontade dos meus pais que, embora me tivessem dado carta branca, torceram um bocadinho o nariz; tive medo de crescer e não querer ver aquilo no meu pulso; pensei no que os outros podiam pensar quando, numa reunião de negócios importante, o relógio deixasse ver que outrora eu decidi escrever algo em mim; tive medo de, depois de fazer uma tatuagem, querer fazer outra, como toda a gente diz que acontece.

Li muito sobre o assunto – não sobre a ciência de fazer as tatuagens ou os riscos, mas sim sobre o potencial arrependimento e as consequências sociais que ainda hoje existem caso queiramos mexer na nossa própria pele. Nunca cheguei a nenhuma conclusão. Passei sempre por períodos de certeza absoluta e outros de dúvida extrema – e mudava de estado em pouco mais de cinco minutos. Tive tanta certeza de que a ia fazer que tenho aqui, nos rascunhos, um post a descrever o porquê e a explicar a necessidade que eu senti de tatuar algo; mas também tive tantas dúvidas que cheguei ao ponto de desistir. Disse à tatuadora que, quando a fizesse, seria num ápice: decidir, ir e fazer. Não podiam haver muitos dias de hiato, não podia ser algo extremamente pensado (não mais do que já é, entenda-se). Mas isso também não é o que eu sou. 

Voltando ao di Caprio, a ideia é um vírus. Ficou em remissão durante uns meses, mas voltou em força desde a primavera. Faço-não-faço, a minha mente anda nisto tipo pêndulo. Olho para pessoas que admiro, que gosto (por dentro e por fora), e penso “caraças, a tatuagem que ela tem não afeta nada aquilo que penso dela”. Mas sei que nem todos são assim. Sei que até eu posso mudar e odiar-me daqui a uns anos por um dia ter tatuado, de alguma forma, um período da minha vida. 

Pergunto-me se algum dia conseguirei tomar uma decisão e passar por cima de todos os argumentos – tanto racionais como emocionais – que se levantam sempre que penso nisso. Pergunto-me se algum dia terei coragem de me render a um compromisso tão grande (espero) como o período da minha vida. Por um lado gostava muito. Por outro… “e se…?”.


18 respostas a “Sobre uma tatuagem, a falta de coragem e de loucura”

  1. Avatar de Nuvem

    Sabes também eu andei assim. Os meus pais não gostam mas não se opunham… A minha também é no pulso esquerdo exatamente para ter o relógio quando da jeito tapar. Mas houve um dia em que tive coragem e fui. E foi a melhor coisa que fiz. Já passaram quase 4anos e em nenhum dia me arrependi. Se tem realmente significado , nunca te vais arrepender.

  2. Avatar de Nuno
    Nuno

    Uma tatuagem é uma decisão séria pois há partida será para a vida toda por isdo deve ser algo que dê facto te marque se nso a fizeres que seja porque tu não queres ou não te s a certeza de a querer e não pelo medo da opinião dos outros, bem sei que dizer isto é lindo mas na realidade o mu do laboral é cheio de ideias preconcebidas de preconceitos mas não te deixes levar por eles no limite se te arrepender és mesmo ja existem clínicas que apagam tatuagens 

  3. Avatar de Tita Vicente

    Sempre soube que um dia iria querer fazer uma tatuagem, sempre gostei imenso. Aos 16 pedi à minha mãe para que fizesse uma tatuagem comigo, pois queria que a primeira fosse especial. Tenho 23 neste momento e já “carrego” 9 tatuagens comigo. Todas marcam uma fase/pessoa importante na minha vida. Não me arrependo de nenhuma que fiz até hoje e não existe nada que goste mais do que olhar para mim e ver a minha história em pequenos pedaços. Acaba por se tornar ainda mais bonito quando as pessoas te perguntam a história por detrás do desenho ou da frase! O meu conselho para toda a gente é: se tens vontade faz! Esquece os medos, o que a sociedade diz ou deixa de dizer. Espero ter ajudado um bocadinho 😀

  4. Avatar de Carolina

    É muito reconfortante ler isso. Mesmo. Mas depois penso “e se eu sou diferente e me arrependo”? Aiiiiii! Sou tão chata e complicada! 

  5. Avatar de Carolina

    Ajuda sempre ler a perspectiva dos outros. Mas, curiosamente, espelhaste um dos meus medos: toda a gente diz que depois da primeira, queremos fazer a segunda; depois da segunda, queremos fazer a terceira e por aí fora. E se eu me descontrolo e viro tela de arte? Ahahahah! Tenho muito medo de perder a noção das coisas – ou, pelo menos, a noção que tenho agora, que é a que neste momento me parece a mais correta. 
    Ando mesmo vai-não-vai. Com os vossos comentários está mais para o vai. Mas daqui a nada já está para o não-vai. Enfim! Nem eu mesma tenho paciência para mim 

  6. Avatar de elsa
    elsa

    Olá Carolina. Vou lendo o seu blog e se o sigo é porque gosto de o ler. Não costumo comentar,julgo já o ter feito uma vez. Agora este das tatuagens …podia ser sua avó ,daí ser careta mas com experiência de vida.Não vou falar de tatuagens ,se gosto ou não ,se as pessoas se podem vir a arrepender  etc etc. Eu própria quando tinha talvez 16,17 anos e ainda não se faziam tatuagens senti necessidade de fazer uma. (exactamente como a Carolina referiu sabia o que queria e onde queria)Hoje se a tivesse feito estava feita e não iria  ser um bicho de sete cabeças.No entanto 
    presentemente acho que o que é realmente importante é o “sentir as coisas ” “viver” e essa tatuagem que não fiz ficou na minha memória sem realmente ela existir Entende ? Um beijinho para si 

  7. Avatar de Ana Patrícia Pereira

    Tenho três e passei por tudo isso, em especial nas duas ultimas. Os meus pais não adoram e para eles já estou tatuada da cabeça aos pés. Lol sem medos, não custa nada e não muda em nada como somos 🙂 já tenho as próximas pensadas e também não vou fazer aviso prévio 😛

    Beijocas >> http://farmaciadacusquice.blogspot.com

  8. Avatar de Maria

    Eu tenho a minha tatuagem.
    Tenho como e o quê.  Onde exactamente. E o significado que tem para mim.
    Só ainda não foi feita. Mas vai. Quando não sei. Mas vai.

  9. Avatar de Ana Silva
    Ana Silva

    Como te compreendo. Sempre quis fazer uma. Não tenho nada idealizado como tu, mas os medos vem sempre ao de cima. As incertezas.
    A minha requer-se sobre a opinião da minha mãe (que ao mesmo tempo é a minha melhor amiga) que sempre odiou (mas com O grande) esse tema.

    Se é algo que realmente queres, deixa-te levar.
    Há sempre contras é uma verdade, mas no final a decisão é sempre tua.
    E quando dizes que será algo para a vida toda, hoje em dia já não é bem assim. Já existem soluções de remover uma tatuagem 😉

    Obrigada pela partilha!

  10. Avatar de Cool Mam

    Penso nas tatuagens como uma marca no nosso corpo que conta uma história, uma experiência, um sentimento… Fazem parte de nós, demonstram quem somos e o que queremos.

    Eu tenho duas tatuagens, uma delas é grande e no dia-a-dia não se vê; a outra é média, na barriga da perna e essa já se vê consoante a roupa que eu uso. Sendo que fiz a primeira tatuagem há 7 anos, não acho que se tornem um vício. No fundo depende tudo do significado que queremos dar às tatuagens e dos motivos para as usarmos: se é para serem exibidas ou se representam um pedaço de nós. Se fores uma pessoa controlada e racional, acho que não precisas de te preocupar com o receio de quereres fazer mais.

    Em relação à questão das tatuagens estarem à vista de todos, sobretudo em ambiente profissional, embora ainda vivamos num país com muito boa gente de mente fechada, a grande maioria não liga. Posso até dizer que nunca ninguém deixou de trabalhar comigo quando via a minha tatuagem na perna.
    Espero ter ajudado a desmistificar um pouco esses teus receios 

  11. Avatar de Sérgio Ambrósio
    Sérgio Ambrósio

    Não tenho nenhuma tatuagem!  Tenho medo de agulhas! 

  12. Avatar de
    Anónimo

    Olá Carolina
    Também tive muito indecisiva em fazer a minha tatuagem por causa dos medos da dor , houve um dia que fui sem pensar o que ia fazer, disse ao tatuador que estava com medo da dor,  pois fiz no peito do pé, até hoje, já lá vão 7 anos estou a espera da dor não doeu nadinha.

  13. Avatar de Julia
    Julia

    Bom dia, eu literalmente vi-me neste texto….sou tal e qual!
    Tenho 47,…a caminho dos 48 muito brevemente, e até à uns 4 anos atrás, estou nessa de “faço ou não faço?” grrrrrrrr muito irritante! Também já tive para fazer, e à última, desisti! Estou com tanta vontade de fazer, mas depois tenho aquelas vozesinhas na cabeça, a da minha mãe (que ódeia tatuagens), e de outros a dizer: Não, fica feio; não fica bem quando fores velhota; não fica bonito numa senhora da tua idade e no trabalho, etc, etc….. e por respeito a todos, não avanço!      
    Mas, realmente chegamos a uma idade e pensamos “temos que fazer aquilo que nos faz feliz!” e se gostas, FAZ! …………………A minha filha tem 20 anos e teve mais coragem do que eu. Fez, com toda a minha autorização, e quando estava longe de mim, com amigos que a apoiaram. Ela adorou a experiência, e se calhar vai repetir?!?! Mas ainda hoje ela quer fazer uma comigo e está à espera que eu decida :)………talvez este ano? talvez para o próximo, sabes lá!? Boa sorte para ti.

  14. Avatar de Rita
    Rita

    Olá! Experimenta fazer o desenho, no sítio, mas de forma temporária. Assim perceberás se te queres comprometer.

    Beijinho

  15. Avatar de
    Anónimo

    Francamente…não há coisas mais importantes que deviam preocupar as pessoas?
    Bem…depois é um acto – sempre – antinatural…enfim…! 
    Tempos complicados, estes da livre expressão… 

  16. Avatar de Jose Claudino Ribeiro

    O texto está engraçado, os meus parabéns…em relação à tatuagem, como em tudo na vida, é não complicar…Se queres mesmo fazer, fazes…se te arrependeres, sempre a podes tapar, ou remover…

  17. Avatar de José Augusto Piteira

    Fazer uma tatuagem é uma das piores LOUCURAS. Pense só que vai alterar o que é seu desde que nasceu. Tenha vergonha.

  18. Avatar de Arnaldo Miguel Neves
    Arnaldo Miguel Neves

    Sobre tatuagens há apenas a dizer que quem as faz se divide em apenas duas categorias: Os reles e os que embora não o sendo justificam a sua tatuagem pensando “Eu não sou verdadeiramente reles mas gostava…” e isto desde o tempo do Levítico, nada de novo portanto, mas durante muito tempo as pessoas que não eram reles gostavam realmente de não o ser, hoje em dia já não é bem assim, o Pós-modernismo tudo desconstruiu.

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