Devem ser muito poucos os temas que considero serem centrais na minha vida e que eu, durante estes nove anos, não tenha abordado no blog. Mas há um que, se a memória não me atraiçoa, eu fui desviando sempre: os filhos. Fi-lo porque não queria deixar aqui registada uma opinião (ou um conjunto de pensamentos) de que, no futuro, me pudesse vir a arrepender. Mas os anos passaram-se e nada mudou. E esta é uma questão que sempre tomou uma certa (des)proporção na minha vida precisamente por eu ter uma postura disruptiva em relação à maioria dos que me rodeiam.

Eu nunca quis ter filhos.

Não me lembro de, em nenhuma fase da minha vida, os querer ter tido – nem mesmo quando não sabia o que isso implicava (e falo desde a sua concepção, passando pelo nascimento e terminando na educação de uma criança). Recordo-me de brincar (poucas vezes) com nenucos, com as minhas primas, e de não lhes chamar filhos. Eu não queria filhos. Nunca quis. Ainda hoje não faço questão de os ter.

“Isso passa-te”.

“Nunca digas nunca”.

“Com a idade vais ver que queres.”

Quem está nos meus calcanhares sabe que são estas as frases que preenchem a nossa vida, no que a este tema diz respeito. Sobre isto todos se tornam leitores da sina: todas as pessoas sabem o nosso futuro, como se não existissem excepções à regra. Como se não houvesse, de facto, pessoas que não queiram pôr crianças no mundo.

A sensação é de incompreensão total. 

Tudo isto piora quando se está numa relação estável e, a olho nu, todas as condições estão reunidas para que o casal possa finalmente procriar. São chamados os “três estágios de perguntas-de-tias” – sendo que, hoje em dia, o segundo se vai saltando com alguma frequência. Quando se está solteiro a pergunta é sempre a mesma: “então e namorados, nada?”. Já quando se arranja namorado todas as atenções se viram para o nosso anelar – “estamos à espera de casório!!!”. Se a segunda fase for ultrapassada (por questões religiosas, monetárias ou, simplesmente, por teimosia dos visados), chegamos ao terceiro estágio: “então e bebés?!?!?!”. 

Se a pressão é enorme para todos os que estão nesta fase, pior é para aqueles que têm um desejo diferente da maioria e que ousam dize-lo em público. “Eu não quero ter filhos”. A frase é seguida por olhares reprovadores ao longo de toda a mesa, de julgamentos mentais e, acima de tudo, de desprezo para com os “pobres coitados que ainda não sabem o que querem e que, com a mania que vão mudar o mundo, ainda o dizem em voz alta”. Afirmar que não se quer ter filhos é ainda hoje visto como uma afronta àquilo que é o propósito da vida. É uma coisa de adolescente revolucionário. De quem ainda não cresceu o suficiente para não sentir o chamamento. 

O problema é quando a idade passa e nós mantemos as nossas convicções. É o meu caso. Fui esperta o suficiente para adotar um discurso que, ainda que honesto, fosse flexível o suficiente para um dia mudar de ideias: sempre disse que, apesar de não ter o desejo de ter filhos, a possibilidade ficaria em aberto se encontrasse alguém que quisesse dar continuidade à família. Como via a minha vida como um caminho solitário, solteira, nunca foi uma preocupação – mas, entretanto, encontrei a pessoa ideal para mim. De tudo o que fomos falando – e isto aconteceu logo numa fase inicial -, este sempre foi o nosso único ponto de discórdia. Ele, um autêntico encantador de crianças, gostava de ter filhos. Eu fui sempre clara no meu desejo “anti-natura” e quis que ele soubesse que isto era um problema – e se ele fizesse questão de ter herdeiros, então eu preferia que cada um seguisse a sua vida. A decisão é hoje óbvia: estamos juntos. Como sempre disse – e não menti – a possibilidade está em aberto. Mas transformou-se num monstro que me persegue de cada vez que alguém me vem com o terceiro estágio do discurso-das-tias ou até pelo simples facto de ver o meu namorado a interagir de forma carinhosa com uma criança.

Sinto-me culpada. Culpada por, eventualmente, o privar de uma coisa que ele deseja. Culpada por ser assim, “diferente”; por pensar tanto no assunto, por racionalizar uma coisa que a grande parte das pessoas olha de um ponto de vista emocional. Eu não quero ter filhos porque não me agrada a ideia de uma gravidez – não gosto sequer de pensar na mudança de corpo e na bomba atómica hormonal em que ele se transforma. Detesto a ideia do parto. É-me totalmente estranha a romantização da amamentação. Porque dispenso a privação de sono, a privação de momentos só para mim, a privação de momentos a dois. Porque não me atrai a ideia de ter alguém ao dependuro durante todo o dia, dependente de mim a 100%; porque não gosto de pensar que não posso ir de férias para o outro lado do mundo porque não vou pôr a criança num avião durante 21 horas. Porque, ao contrário de muitos, para poder fazer tudo isto de que me vou privar, não quero deixar um filho – uma decisão minha, uma responsabilidade minha, um dever meu – à mercê de outros (ainda que família) que não têm de levar com uma criança aos berros e limpar cocós só porque me apetece ir passear. Porque não gosto do risco de pôr um ser no mundo que, por muito boas intenções que eu tenha e boa educação que lhe dê, pode vir a ser um traste. Porque nem sequer gosto particularmente de crianças. Porque me agonia a ideia de viver para alguém, dedicar-lhe a minha vida, e passado vinte e poucos anos ele me dizer que quer ir de erasmus para ter novas experiências e conhecer novas pessoas.

Percebem a ideia?

Não há nada na ideia de ter um filho que me agrade. Posso listar uma série de razões pelas quais gostava de ter crianças – mas nenhuma delas me envolve a mim. É sempre a pensar nos outros – na alegria e no prazer que lhes daria ao ver crescer a família. E, para mim, acima de tudo… ver nascer um pai. 

Muito para além dos medos físicos que possa ter (sim, estamos a falar do parto) o maior tem que ver com a parte psicológica. Há outros que nem sequer se colocam: não tenho medo de não amar o meu filho, de não conseguir cuidar dele e educa-lo; não tenho medo do acréscimo de responsabilidade. Tenho a certeza de que o faria bem. Mas tenho um pavor colossal de que o papel de mãe faça de mim uma pessoa infeliz. Tenho a certeza absoluta que há muitas mulheres com filhos que não são felizes naquele papel – mas também sei que a maioria não consegue ser racional o suficiente para o perceber ou pelo menos entender a razão do problema. Também sei que, quem o sente, não o diz – afinal que tipo de mãe é que diz uma coisa dessas? Que ingratidão é essa, ter o privilégio de deitar um ser ao mundo e não usufruir de tal coisa? Quem é esse “ser horrendo” que admite que era mais feliz antes de ter filhos? Quem é que consegue ser tão racional ao ponto de amar um filho até às entranhas mas saber que ele não veio alterar a sua vida para melhor? É um paradoxo gigante para o qual não estamos preparados. É um julgamento pessoal demasiado pesado para se conseguir lidar – e muito menos aceitar. E é uma dor que acresce às outras, numa pessoa que já se encontra só por si dorida e frágil na posição que se encontra.

Cheguei à idade que sempre achei que seria a ideal para procriar: porque o corpo recupera bem, porque sou nova e tenho mais capacidade para lidar com a falta de sono e os problemas normais que surgem quando se tem um bebé. Fui uma filha tardia, ambos os meus pais com mais de 40 anos na altura, e sempre disse a mim mesma que, se um dia me tornasse mãe, não gostava de os ter assim tão tarde – tão simplesmente porque sinto na pele as consequências de ter pais mais velhos e detesto a ideia de os poder perder ainda em tenra idade. Costumo dizer que, comparado com os meus irmãos, terei eternamente menos anos de convivência com os meus pais – tudo porque eles me levam um belos anos de avanço; eles ficarão inevitavelmente com mais memórias, porque passaram com eles mais anos de vida. E eu não quero que, para os meus filhos, isso seja uma questão.

Tenho tentado procurar respostas com base na experiência dos outros – mas são poucas as pessoas que me interessa ouvir. Apesar de pertinentes, não é importante para mim ouvir histórias de mulheres que sempre quiseram ter filhos, porque sei que nunca me compreenderão. Mas conhecer algumas pessoas que têm filosofias e medos parecidos com os meus é-me essencial. Independentemente de terem cedido à pressão da sociedade e do relógio biológico, acabando por ter filhos, ou tendo-se mantido convictas na sua crença: o que me importa é a capacidade de análise, a racionalização e, claro, a honestidade. Perceber qual a sua percepção dos resultados: abdicar de tudo aquilo que idealizavam como a vossa vida ideal em prol de um filho compensou? Os medos que existiam eram justificados? Ou, depois de se passar de “prazo de validade” há remorsos em não ter filhos? 

No fundo eu não quero ser mãe: mas gostava muito, muito, muito de querer ser. Gostava de ser quem não sou. E, talvez por isso, vivo diariamente assombrada por uma pergunta: devo correr o risco? Porque nesta decisão em particular não há volta atrás; não há botão de delete, não há um papel que se assine e que acabe com aquela responsabilidade. Estou dentro de uma panela de pressão com todos os ingredientes que, na minha cabeça, defini serem os ideias para ter filhos: tenho uma vida estável, um namorado com desejos de ter uma família e estou na idade que acho ser a perfeita para ter crianças. Mas, ao contrário das previsões do resto do mundo, eu não mudei. Continuo com as mesmas ideias que tinha – ainda que gostasse muito de dar esse presente a todos os que me rodeiam. E isso pesa-me na consciência. Na cabeça. No coração. E na alma. É uma dor enorme, uma dúvida com a qual me debato todos os dias – e que sei que nunca terá uma resposta certa. E, por pouca matemática que saibamos, é certo que as contas que não dão um resultado exato são sempre as que nos dão mais dores de cabeça a resolver.


28 respostas a “Ter ou não ter filhos: eis a questão”

  1. Avatar de Isabel P.
    Isabel P.

    Tenho 33 anos, a caminho dos 34. Também nunca quis ter filhos. Nem quero. Por todas as razões que enunciaste aqui, sendo que sou ainda mais egoísta e não abdico desta minha vontade, nem para fazer os outros felizes. Tenho um relacionamento estável há alguns anos e também foi um ponto de discórdia entre nós. Por ele já tínhamos 2 ou 3. Sempre achou que com o tempo eu ia mudar de ideias. Mas o tempo só me faz cada vez mais não querer. Não quero, não nasci para isto. Respeito todas as mulheres que nasceram para ser mães, mas simplesmente não é para mim. É
    Uma decisão completamente tomada, que a família conhece e respeita, mas da qual evito falar em público. Dou sempre a desculpa do “ainda é cedo”. Infelizmente tem de ser, para não ser confrontada com os olhares de pena.

  2. Avatar de Nala

    Olá Carolina, gostei de te ler. 
    Ao contrário de ti tenho o desejo de ser Mãe. Durante muito tempo dizia que não mas, efetivamente, mudei de opinião com a idade. No entanto uma das minhas melhores amigas, a primeira do meu grupo a casar, não quer ter filhos. Pelo menos para já e é verdade que essa situação é muitas vezes estranha para as outras pessoas. Afinal decidiu casar mal acabou a faculdade qual é a lógica?! 

    Pessoalmente sempre compreendi a sua escolha. Acho preferível ser sincero, honesto consigo mesmo do que ser frustrado no papel de pai/mãe. É um compromisso para a vida e, ao contrário de muitos outros aspetos, não podemos fazer devoluções. E porque raio não podem as pessoas ser felizes sem filhos, se é isso que desejam?!

    Pessoalmente, e apesar de desejar filhos, não deixo que façam muitos comentários sobre isso: porque posso não conseguir, porque tenho o projeto na cabeça há muito tempo e por x razões tivemos de adiar um bocadinho. E acho a pressão desnecessária e prejudicial. 

    Quanto ao casal ter filhos ou não, acho que quem escolhe ficar sabendo todas as peças do puzzle o faz em consciência. Um beijinho

  3. Avatar de
    Anónimo

    Gostei do que li!
    Fui um pai tardio!
    Na minha vida, há um antes e um depois do nascimento do meu filho – o depois é melhor.
    O melhor dos filhos é a possibilidade de ter netos.
    Quanto à sua postura, compreendo-a, aceito-a e adiro-lhe a coerência. Pode alguém ser quem não é? Só o Sérgio Godinho para lhe responder.
    Bom domingo e continue a escrever!

  4. Avatar de
    Anónimo

    Surpreendentemente, aos 20e poucos conheci o homem que, dia a dia, ano a ano, década a década, me fez escolher ficar. Não era minha intenção. Mas acabei conseguindo o pacote: sucesso, companheiro, etc 
    Eventualmente percebi, avisada por outros, que faltavam os filhos. Não dei importância, até que recebi um ultimato do médico “se quiser, essa é a hora limite de decidir”. 
    Com toda a pressão desse momento, resolvi ignorar e “resolver depois”.
    Não os tive. Foi absurdamente natural
    Não ia ter. Meu companheiro da vida faleceu quando fiz 50 anos. Ainda sou uma mulher bem sucedida e autossuficiente, mas a aquela época a pergunta foi inevitável: faltaram os filhos? Passados alguns anos continuo “só e sem desculpas”para viver. Não poderia estar mais em paz e aliviada com minha NÃO decisão. 

  5. Avatar de Andreia M
    Andreia M

    Já sabes que eu nunca comento mas que leio sempre os teus posts. Seja por alto (no offense) ou devagarinho e com atenção. Este li bem com atenção. Eu nunca quis ser mãe nem vou querer ser e se, por alguma razão que nunca me passou pela cabeça. quiser ser algum dia, tenho bom remédio – adoção. Mas eu apercebi-me de que não queria ter filhos muito, muito nova e toda a gente me dizia e diz que eu um dia vou mudar de ideias. Mas tanto eu como o meu namorado não queremos ter filhos. Porque não gostamos de crianças, não sabemos lidar com elas e temos a certeza que não seríamos bons pais porque não temos paciência e somos demasiado egoístas – gostamos dos nossos hobbies, de viajar sem ter de pensar em mais nada a não ser finanças e pedir férias à empresa, de estarmos sozinhos e, acima de tudo, já vimos as consequências de ter filhos a acontecer aos nossos colegas, amigos e família. TODOS, TODOS se queixam depois de os terem. E nós não queremos ter uma vida assim. E basicamente queremos o nosso dinheiro todo para gastar em nós xD Tu tens mais azar porque o teu namorado é paternal e quer ter filhos mas honestamente, és tão nova. Tens 25 anos. Lá por seres mais fértil não quer dizer que tenhas de ser mãe já. Jesus. Tem calma, mulher. E manda toda a gente que te pressiona passear. Eu já tive tantas, TANTAS discussões com a minha família e a família do meu namorado – discussões acesas, do tipo quase sair pela porta fora ou mandar um soco a alguém – sobre isto. Já fui insultada, já fui quase manipulada para me sentir mal por não querer filhos… É a vida, as pessoas gostam de casamentos e nascimentos. Tu não tens de gostar. E não és ‘diferente’. És só mais racional que o resto e sempre pesaste os prós e os contras de tudo. A maioria das pessoas cede às hormonas e faz filhos e depois arrepende-se. Se tu algum dia quiseres ser mãe, eu tenho a certeza de que não te vais arrepender porque algures vai haver uma folha com uma lista de prós e contras e a tua decisão vai ser uma coisa real, não feita à pressa e vais levá-la até ao fim. For now, chill out. E vê lá o vídeo da Bumba outra vez xD

  6. Avatar de Cátia
    Cátia

    Também sou filha de pais aos quarentas. De facto, não é bom. 
    Daqui a uns tempos, 5 anos quiçá, fazes nova reflexão. E logo se vê.Por agora, não penses mais nisso. Este post já saiu de dentro de ti, acredito que estejas mais aliviada. 

  7. Avatar de náuseas

    Antes de mais, parabéns pelo post e pela coragem de decidir não ter filhos.  Consigo perceber a pressão sofrida ao longo dos anos pelas perguntas directas, pelas alusões, olhares, sorrisos cúmplices.  E depois há os casais amigos que começam a distanciar-se porque tiveram filhos e passaram a fazer parte de um clube restrito ao qual vocês não têm acesso.

    Também eu não tenho filhos (e custa-me cada vez mais perceber como alguém pode querer tê-los neste mundo, mas isso é outra conversa).  Mas julgo que a sociedade é mais tolerante comigo por não ser mulher.  No meu caso, nenhum de nós quis filhos, mas a minha companheira sofreu sempre mais com essa pressão social.

    Compreendo que seja complicado combater os genes que querem fazer o que eles sabem fazer.  Mas não vejo nenhuma razão para o sentimento de culpa, que resulta apenas (julgo eu!) da pressão imposta externamente.  E que deve ser ignorada, caso contrário ela vai continuar sempre (“quando é o baptismo?”, “quando vai ter um(a) irmãozinho(a)?”, etc etc).  Toda a gente tem o direito de querer ter filhos.  E de não os ter.

    Mais uma vez, parabéns pela coragem.

  8. Avatar de Ana

    Pareces demasiado apressada para resolver esta questão dentro de ti. Na tua cabeça é um grande não mas o teu coração está naquele limbo, de querer e não querer.
    Estás confusa. Percebo. 
    Não tens que decidir desta forma. Não é um caso de vida ou de morte. Relaxa. A vida resolve-se.
    Eu tenho 37 anos e um filho com 7 meses. E acho que já fui mãe tarde. Tu tens muitos anos pela frente e o companheiro vai perceber esta tua angústia. 
    Não penses na questão do corpo, do parto (chegado o dia nem tens tempo para teres medo, só queres que nasça), da recuperação… Estás a pôr a carroça à frente dos bois. A vida não funciona assim. Deixa fluir.
    Um beijinho. 

  9. Avatar de Just_Smile

    que o papel de mãe faça de mim uma pessoa infeliz.” Esse é mesmo um dos meus maiores receios, casada há quase dois anos ouço essa conversa todos os dias e digo sempre que “primeiro construir a nossa casa” depois o resto, mas a verdade é que não sei se estou pronta para abdicar da minha qualidade de vida, o descanso, a falta de ter alguém 100% dependente de mim e tudo o que um filho acarreta. Ele começa a falar muito de filhos e eu respondo-lhe muitas vezes que não sei se serei demasiado egoísta para ser mãe e adoro crianças e brincava imenso com bonecas, mas tenho sempre a sensação que ou sou nova de mais (quase 30) ou que ainda me falta fazer muita coisa para me prender a um filho.
    A minha cunhada sempre disse que nunca quis filhos, aliás, quando engravidou do primeiro filho a mãe não se acreditava que estava grávida e teve de o comprovar com a ecografia e a verdade é que agora é das melhores mães que conheço. Acho que um dia teve um click porque simplesmente não quis privar o meu irmão de um dos maiores sonhos da vida dele…

  10. Avatar de vanita

    Eu sempre quis ter filhos. Mas a vida acabou por não me dar essa oportunidade e, tendo passado por tanto, acabei por desenvolver uma ideia de que, sem filhos, posso ser até mais feliz do que com filhos. Ainda assim, tenho uma certeza: ter filhos é abdicar um bocadinho de nós em prol de outros. E pode ser, ao que dizem, uma das melhores escolhas das nossas vidas. Os nossos pais irão sempre ser felizes com o papel de avós e as crianças – não são crianças para sempre – trazem alegria e renovação aos dias. Isso é importante. Ter filhos também pode ser uma prisão e uma má decisão. Na minha opinião, e da análise que tenho feito nos últimos anos, isso acontece quando: 1) não temos condições monetárias ou familiares para o fazer; 2) não temos uma vida compatível com as exigências da maternidade/paternidade (sobretudo em termos de horários); 3) somos pessoas egoístas. Ou seja, se ter filhos é abdicar de uma parte de nós, essa escolha tem de ser feita em consciência de tudo o que vamos deixar de fazer: viajar, ter tanta liberdade para fazer o que queremos, estudar o que nos apetece ou mudar de rumo na vida de um momento para o outro. E aqui é que deve entrar a tal magia: será isso abdicar? Depende da relação que temos com o que conquistámos na vida e de tudo o que ainda queremos fazer. Ter filhos pode ser o maior gesto de amor para a grande maioria das pessoas. Pode ser de tal forma que, apenas isso, define toda a razão de viver de muitos seres humanos. Penso que, na maior parte dos casos, a magia dá-se no momento em que são pais. O foco deixa de ser no Eu e passa a ser na Família e isso faz toda a diferença. Criar uma família, com a pessoa que amamos, pode ser uma realização que faz tudo valer a pena. O importante, em dar ou não esse passo, é que estejam os dois na mesma sintonia. 

  11. Avatar de kate ♡

    ótimo, ótimo post.
    também não quero e nunca quis ter filhos, embora já tenha pensado neles quando estava presa na fantasia heterocêntrica e socialmente aceite. ainda que mudasse de ideias, sempre soube que seria a adoção, pois não vejo uma única razão para colocar mais crianças no mundo quando há tantas sem família. é o fetiche do adn? não sei, não compreendo.
    entretanto, a minha maior razão é a verdade proibida de se falar em público: não gosto de crianças. de todo. não gosto de crianças da família, nem da rua. e já trabalhei exclusivamente a cuidar de crianças dia e noite, então não tenho a desculpa de não ter lidado com elas.

    estou muito plena na relação que tenho. não nos falta outro elemento para atrapalhar a vida, o dinheiro e também o afeto. não preciso de dividir. e, felizmente, ele também não quer filhos.
    concluindo, ter filhos nunca deve ser pelo bem-estar ou pressão exteriores. tem que ser para nós, porque nós é que vamos ter que arcar com as consequências (ou fardo, quando não partiu de vontade, nem de carinho).

  12. Avatar de marina malheiro

    Sempre quis ter filhos. Fui tia muito nova. Mãe de primeira viagem aos 29 e de segunda aos 42. Fases totalmente diferentes. Não compreendo quem não gosta de crianças, não compreendo sinceramente. Não há amor maior e tão tão bonito como este.
    MM

  13. Avatar de
    Anónimo

    ola 🙂 Tenho 27 anos e também nunca quis ter filhos. Estou numa relacao há 8 anos e por isso as perguntas sobre o tema sao frequentes principalmente por parte da familia do companheiro.  Com 18 anos dizia logo que nao queria e as pessoas diziam logo que com a idade ia mudar. Até agora nada nudou. Eu sou uma pessoa introvertida, preciso mesmo do meu tempo e uma das coisas que mais quero fazer é viajar, o que nao é possivel tanto a nivel financeiro como de tempo, quando se tem filhos.
    Tenho diferença de 12 anos do meu irmao e por isso vi bem de perto que a maternidade nao é nenhum mar de rosas. Vi todo o trabalho e dedicacao que é preciso. Vi a minha mae a beira de um ataque porque ele nao comia, porque ele nao dormia etc.  Na família tenho 2 casos que foram pais por pressões externas e nao deu mesmo bom resultado. A frustração pessoal e a falta de paciência acaba sempre por prevalecer, por isso quando me dizem que quem nao quer ter filhos é egoísta, eu discordo. Egoísta é quem decide por no mundo sem qualquer vocação, sem paciência porque os outros também tem.
     

  14. Avatar de simplesmente...
    simplesmente…

    Gabo-lhe a coragem do seu desabafo.
    “Quem tem filhos, tem sarilhos”
    “E quem os não tem, sarilhos tem”.
    A sabedoria popular, velha de muitos séculos, às vezes ajuda.
    Não lhe vou falar de mim: é uma história muito, muito triste.
    Hoje, sou avô.
    Mas o preço foi muito, muito alto!
    Não sei se compensou…
    “In dúbio”, minha boa amiga, fique como está.
    Este mundo já tem muitos, muitos milhões de crianças muito sofredoras.
    Não sei o que o “destino” reserva aos meus Netos.
    Não sendo por ora motivo de angústia, é, no mínimo, razão para perplexidades.
    Um abraço!

  15. Avatar de A Eficiente

    Acho que a pergunta que se deve fazer é “porque é que quer se uma pessoa que quer ter filhos?” 
    Porque foi educada nesse sentido? Porque gostaria de agradar ao seu parceiro? Porque é algo que a fazia feliz?
    Não acho que todas as mulheres devem ou querem ser mães, é opção de cada uma e tem a liberdade de optar por si. Se não é algo que queira, que ache que não a vai fazer feliz, que não a vai “completá-la” , a resposta é óbvia.
    Parabéns pela coragem..

  16. Avatar de Margarida

    Carolina, este post poderia ter sido escrito por mim, com uma única diferença: sempre disse ao meu marido que não queria ter filhos, mas se ele tivesse a certeza que os queria, não o iria privar disso. Acabou por ser ele a mudar de ideias, e a também não querer.
    Numa relação estável há tanto tempo, levo anos de pressões em relação a este tema. Já me incomodou, já me tirou o sono, já me coloquei todas as dúvidas que aqui falas, pensei até em recorrer a um psicólogo para me ajudar. Falei com muita gente, ouvi muitas experiências de vida: alguns voltariam a ter, outras amam os filhos mas hoje não os teriam tido.
    Cheguei à conclusão que isto é um não assunto, para já. No dia em que sentir que algo dentro de mim mudou, voltarei a colocar-me todas as questões para ter a certeza da minha decisão. Até lá, não vale a pena pensar nisso. Ter um filho por pressão social, pela idade a avançar, pela estabilidade, por ouvir insistentemente que é o melhor do mundo não vai de acordo com a minha racionalidade. Um “se calhar até ia ser bom” não é suficiente comparado com uma possível vida de arrependimento. Contudo, a vida também já me foi ensinando que não adianta pensar e planear demais, no final tudo acontece quando tiver de acontecer, se tiver de ser.
    Beijinhos, minha querida.

  17. Avatar de Ana Silva
    Ana Silva

    Não tem nada a ver com o gostar ou não de crianças. Eu adoro crianças e por opção não tenho filhos. 

  18. Avatar de marina malheiro

    É uma opção sua. Tudo a correr bem consigo. 

    MM

  19. Avatar de
    Anónimo

    Com todo o respeito pela experiência pessoal e profunda que implica a tua opinião, digo-te: arrisca 🙂 Mas casa primeiro… e baptiza os teus filhos na igreja católica. Tudo o que viemos a dar como retrógrado, ultrapassado e contra a nossa liberdade e natureza, é afinal um tesouro e a expressão máxima da nossa liberdade e natureza. Ser-se livre, espontâneo e amar intensamente a vida é completamente compatível com a ideia de que a vida vem com alguns “pré-programas” embutidos no nosso ser, de que há um sentido absoluto, de que Deus existe e é O do cristianismo… Acredito que a maternidade / paternidade não seja para todos, nem o casamento; mas não pelas razões que enuncias… Tudo isto daria para longas conversas, mas como não preciso de me preocupar com uma passagem breve por aqui, e como não digo o que digo para chatear nem condicionar ninguém, digo-o com toda a liberdade. Se tanta gente pode partilhar pensamentos acerca do caminho que considera o da felicidade, porque não haveria de poder eu também partilhar este? 🙂 

  20. Avatar de
    Anónimo

    Ora aqui está um texto muito bem definido e com uma ideia precisa e completa. Na minha opinião se essa é a tua forma de pensar, julgo que estás correta em não avançar, se o clique ainda não veio, poderá um dia vir, mas até lá pelas razões que expões, acho que tens razão. Se quem está contigo compreende e sabe como é e sempre soube, compreende e vai esperar o tempo que for preciso, ou então poderá em certa altura saltar fora. Acho que o amor que sentem um pelo outro é o mais importante, e compreenderem-se um ao outro. Eu também estou numa fase que ainda não tive filhos porque não chegou o momento certo, não será por não querer ou ela não querer, mas ainda não chegou o momento certo, ainda temos muito que aproveitar os 2, porque depois de um filho tudo muda conforme indicas, tudo será em prol da criança e o parceiro deixa de ser importante, e também acho que é uma altura muito complicada para o casal e põe em prova o amor entre os dois, pois deverá ser uma pressão enorme para os pais. Tudo é intenso, a falta de dormir bem, com qualidade poderá assustar, gosto de crianças no colo dos outros, mas tenho sempre receio da qualidade de vida que conseguirei proporcionar ao/aos meus filhos, pois podem sair gémeos… 😂 Compreendo o que sentes e as palavras e ideias/duvidas que tem, são muito bem fundamentadas, tudo assusta, e a dúvida de ser um bom pai assunta um bocado, apesar de sabermos o que queremos do nosso filho/filha poderá não se vir a realizar, ou mesmo por um problema de saude, uma dificuldade, ou outra coisa que possa assustar. Aproveita bem cada momento da tua/vossa vida, e não ligues ao que é suposto acontecer e em que idades.

  21. Avatar de Paula Manuela Silva
    Paula Manuela Silva

    Carolina alguns trechos do seu “post” Retratam-me como num espelho. Durante anos um antecedente dos seus pensamentos. Esta cópia permitiu-me recordar muitas da grandes dúvidas, vulnerabilidades e terrores que me assaltaram.

    Desde há uns poucos anos ocorreu uma mudança inclemente na minha visão…
    Lendo com atenção o post percebi que há alguns pontos para puxar nesta análise. Gostaria de lhe revelar o insuspeito de tudo isto… Há muita coisa para evoluir em nós, nomeadamente o ilusório controlo das circunstâncias, o medo do descontrole e a noção de prazer.
    Depois que me tornei psicoterapeuta pude ver os ângulos obscuros e os claros da minha argumentação. Podemos ter uma conversa despretensiosa, solta e informal. 
    Deixo-lhe o meu e-mail e fico a aguardar…
  22. Avatar de paulamanuela

    Alguns dos aspectos que a Vanita enfoca são de todo cruciais. É muito valioso que ambos os progenitores estejam em sintonia, mas quanto a mim não é o ponto de partida. O que permite estar em posição de partida é ter a máxima convicção, porque ela dá firmeza e coragem para enfrentar o que sem autoconfiança não se consegue. 
    Gostaria de acrescentar que as ciências da psicologia, após muita pesquisa, concluiram que o bem maior é cuidar dos outros. É estar ao serviço de outras vidas. O Amor é um propósito máximo e encontra nos filhos um campo fecundo. ☺️

  23. Avatar de Ana
    Ana

    Olá.

    Gostei muito deste post e identifico-me com tudo o que disseste. A chegar aos 30 por aqui, com algumas amigas próximas já mães e a pressão enorme para seguir o mesmo caminho. Confesso que ainda não tenho vontade, nem nunca tive, posso mudar de ideias daqui a uns anos, mas sei que no máximo um filho. Acho que vou deixar andar e ver, se aparecer aceito, mas se não acontecer também vou viver com isso perfeitamente.

    Uma pequena história sobre um parceiro querer e o outro não: ainda recentemente vi um casal amigo separar-se por isso, um queria o outro não, tinham falado sobre isso antes de assumirem a relação, supostamente tinham chegado a acordo, mas parece que um ficou sempre a achar que convencia o outro. Acabou por não correr bem e quando chegaram mais ou menos ao limite da idade fértil acabaram por se desentender e hoje estão separados. 

    Beijinhos

  24. Avatar de
    Anónimo

    Bem, é uma opção muito pessoal e cada um sabe de si.
    Tenho duas filhas, nunca, nunca me senti presa ou a viver menos a vida pelo fato de as ter, são vidas e vivências completamente diferentes. É quase como comparar a vida do secundário, com a vida laboral, diferem e muito e por isso não há termo de comparação.
    Penso que deves seguir/fazer aquilo que o coração te dita, mas da mesma forma que não gostas de sentir que te estão a impor, terás que estar aberta a não impor a tua decisão ao companheiro.
    Adoro ler-te 🙂

  25. Avatar de Carolina Sousa
    Carolina Sousa

    Olá!
    Gostei muito de ler o teu texto. Identifico-me totalmente com o que dizes. Finalmente encontro algo com este tema que me relacione.Para além dos motivos que referiste tenho outros que me fazem colocar em questão a ideia de ter filhos.

  26. Avatar de
    Anónimo

    Oi Paula e Carolina,
    também gostaria de participar desse assunto se puder.. Carolina, vc, apesar de ter 12 anos a menos que eu, esclareceu o tema de uma forma tão madura que, ao ler seu texto, tive vários Insights de meus próprios sentimentos e pensamentos. Em várias partes do seu texto senti-me sendo desnudada aos poucos.. e qnd vc disse:“ tenho medo do papel de ser mãe me fazer infeliz“, pensei: „agora ela foi direto ao ponto“… É isso, exatamente isso…
    Gostaria muito de papear sobre isso com vocês, de ser entendida por alguns momentos.. Deixo meu EMail: batamburini@hotmail.com
    Beijos,
    Barbara

  27. Avatar de Evelize
    Evelize

    Oi gente, tudo bem
    Sei que este papo começou muito antes deste comentário, mas só o encontrei hoje em um desprentensiosa busca sobre o assunto. 
    Me identifiquei muito com o texto e diferente de você Carol, eu já tenho 35 anos e esta dúvida quica na minha mente todos os dias…
    Há 3 anos decidi vir com o meu marido ter uma experiência internacional e viemos apra o Canadá, o que na minha opinião dificulta ainda mais, pois tudo por aqui é diferente. Sei que tem muitas mulheres que passaram por isso aqui, eu não seria a primeira, mas só de pensar me dá arrepios.
    Gostaria muito de entrar nesse papo com vocês! 
    Meu email é vestqorna@gmail.com

  28. Avatar de Joanna Oliveira
    Joanna Oliveira

    Hoje a pressão levou-me a pesquisar no google: “como decidir se quero ter filhos ou não”.
    E o primeiro resultado foi este teu texto. Parecia que eram palavras que tinham sido tiradas da minha cabeça, sem tirar nem pôr. Não me desfez as dúvidas, mas foi ainda melhor saber que não estou sozinha e que há pessoas EXACTAMENTE na mesma situação que eu. Sempre disse que nunca queria ter filhos, sempre levei com as mesmas respostas que tu. Mas agora, em 2020 e até já em 2021, todos os meus amigos começaram a ter filhos… os mais velhos, os da minha idade, os mais novos… E isso colocou em mim uma pressão e uma dúvida ainda maior. Mas revejo-me em tudo o que dizes. Sigo na indecisão.

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