Diz-se por aí que todos somos leitores: o difícil é encontrar o nosso livro. Aquele que nos enceta neste universo encantado da literatura e que nos abre portas para um admirável mundo novo (e este trocadilho, hã?). Aquele que nos faz apaixonar por personagens fictícias, tomar-lhes as dores e as alegrias, quase viver por elas. Aquele que nos dá vontade de passar o almoço e o jantar, só para conseguirmos adiantar mais um par de capítulos. Aquele que queremos devorar mas que, ao mesmo tempo, não queremos que chegue ao fim: este que será, sempre, o paradoxo de qualquer leitor. A alegria de saborear um bom livro e a tristeza de saber que esse prazer terá um fim, bem marcado e delineado, na página 356. 

Eu concordo totalmente que basta um (e só um) livro para nos fazer gostar de ler. Mas sei hoje, por experiência própria, que são preciso vários livros para manter essa chama acesa. Não vamos ler para sempre “Uma Aventura”, o “Triângulo Jota” ou o “Cherub”; também não nos podemos manter eternamente nos livros juvenis, de paixonetas impossíveis, de amores proibidos e num eterno rol de novas experiências. Se por um lado acho que há uma evolução natural da leitura à medida que crescemos, que faz com que deixemos de nos interessar por uma determinada categoria de livros e passemos a gostar de outra, acredito mesmo que têm de existir “livros âncora” que nos prendam nessa nova fase enquanto leitores. Algo que mantenha a chama acesa. Caso contrário o hábito perde-se, a fome de devorar páginas e capítulos esvai-se e todo o processo terá de se repetir.

E se custa pôr um miúdo a ler (porque não querem, porque jogar computador é muito mais fixe, porque as letras são muito pequenas, porque tem muitas páginas e nunca mais vão chegar ao fim), convencer um adulto a voltar a ter hábitos de leitura é igualmente difícil (mesmo que o processo de persuasão seja interior e seja ele próprio a tentar fazer esse esforço): porque não há tempo, porque o trabalho nos ocupa a mente e não temos cabeça para mais mundos para além do nosso, porque há tarefas domésticas para executar, porque à noite o sono é demasiado para ler um par de páginas, porque a Netflix é mais fácil, não dá tanto trabalho nem custa tanto dinheiro. 

Não sei se já repararam, mas estou a falar por experiência própria. Eu era, aqui há uns anos, uma devoradora de livros. Hoje, se ler meia-dúzia de livros por ano já é muito – e é algo que me entristece imensamente, porque era um hábito que eu adorava ter. Mas sinto que fiz uma má gestão das minhas leituras, não evoluí; como sempre tive uma lacuna grande na minha vida social (e amorosa), fiquei-me por romancezinhos adolescentes que me davam uma boa sensação de preenchimento, que me faziam viver no lugar das personagens – e era o suficiente para mim. Mas se por um lado as narrativas acabam por ir dar todas ao mesmo, a minha idade ia avançando, mesmo que a minha vida social estivesse estagnada desde os início da minha vida adulta. E eu fartei-me. Ler já não me sabia bem. Muitas vezes, em vez de me preencher, só me lembrava daquilo que não tinha: amigos, verões super preenchidos de noites quentes e felizes, alguém de quem eu gostasse e que gostasse de mim de volta. 

Tentei evoluir para outro tipo de leituras, mas o hábito da leitura é uma das muitas coisas que precisam de ser bem cimentadas para que consigamos evoluir. Ninguém passa de um “Harry Potter” para um “Guerra e Paz” – há um caminho a percorrer. Há uma tolerância à frustração que tem de ser desenvolvida e trabalhada, para que consigamos ultrapassar pedras no caminho (que, neste caso, são livros que não apreciamos) e não nos deixemos abater e desistir. E eu não tinha as minhas bases bem fixas, porque estagnei. E, eventualmente, parei. Fiz muitas tentativas para reatar a relação tão especial que tinha com os livros, principalmente nas férias (altura em que, por não ter nada para fazer, era mais fácil não ter alternativas que me dissuadissem), mas eram sempre coisas fugazes. Lia na altura, mas assim que voltava a casa, os coitados ficavam a morar ad aeternum na mesinha de cabeceira. E todos os dias em que me deitava, que olhava para eles e não me apetecia pegar-lhes, era um momento triste.

Aproveitei toda esta fase da pandemia para tentar reaproximar-me à leitura. Não porque tenha mais tempo, mas porque sinto necessidade de me distanciar do mundo real, que hoje em dia me angustia ao ponto de ter ataques de ansiedade recorrentes. Precisava de um escape. E olhei para a minha prateleira, parada há tantos meses, e saquei do meu maior trunfo: um livro que tinha comprado mal saiu, mas que acabei por nunca mais ler, tal a minha falta de vontade. “O desaparecimento de Stephanie Mailer”, de Joël Dicker, é quase a minha bisca, neste jogo que pretendo mesmo ganhar. 

Ainda não acabei o livro, mas estou a adora-lo. O escritor suíço já tinha um lugar no meu coração e acho que neste momento, mesmo não tendo terminado esta obra, já está no meu top de autores favoritos. Independentemente deste ser o meu novo “livro-âncora” ou não, conseguiu que eu saísse do mundo onde mora uma pandemia mortífera e que passasse a estar, por alguns minutos, em Orphea. Que passasse a andar com o livro no carro, de um lado para o outro, aguardando qualquer momento morto para ler mais umas páginas. Que tivesse vontade de ler. E que tivesse, acima de tudo, um mundo alternativo onde morar durante um pouco. E isso, nos dias de hoje, vale ouro. 

Espero conseguir continuar e que isto seja só o início. Que começou por eu precisar de tirar a cabeça do caos que se vive à nossa volta, mas que continuará pelos dias todos, quando tudo já estiver normal, e eu só quiser saborear algumas páginas antes de adormecer.


10 respostas a “Uma dissertação sobre os (meus) hábitos de leitura”

  1. Avatar de
    Anónimo

    “ler é o melhor remédio”,  cumprimenta “entre parêntsis” e convida para falar de: hábitos de  leitura, livros, liberdade de expressão e coisas do género.
    Cumprts, fl

    nos tempos livres – ler é o melhor remédio
    https://lereomelhorremedio.blogs.sapo.pt/
  2. Avatar de Carolina Helena
    Carolina Helena

    A leitura é efectivamente um hábito. No meu caso, foi a faculdade que me desviou da leitura. Depois de horas e horas de aulas, imersa em sebentas, a minha disponibilidade mental para pegar num livro ao fim-do-dia, era frequentemente pouca ou nenhuma. Duas coisas que me ajudaram muito a retomar esse hábito que me dava tanto prazer em miúda foram: juntar-me a um clube de leitura para adultos (há presenciais espalhados pelo país e alguns online) (ter um tema mensal e com quem partilhar impressões é um bom incentivo) e (re)começar por géneros mais curtos (contos para adultos como “Os Amores Difíceis”, do Italo Calvino ou “O Amor de Uma Boa Mulher”, de Alice Munro (os que mais satisfizeram os meus gostos)), poderão ser boas ideias. Boas leituras! (Puseste em palavras o que eu de alguma forma também sinto, sentia; os livros, por vezes, também se podem tornar um refúgio demasiado confortável para aquilo que almejamos e não temos na nossa vida, mascarando a necessidade de acção. Questão a estarmos atentas, mas que não nos deve fazer de modo nenhum desistir deles.) 

  3. Avatar de Nala

    Espero que encontres essa âncora nos livros. Pessoalmente tenho quase o mesmo percurso que tu. Sempre adorei ler… até à faculdade devorei livros e não lia qualquer coisa. Depois “desleixei-me” um bocadinho: lia por intermitência até que vim para França. 

    Primeiro comecei a ler porque precisava de me entreter mas depois percebi que me ajudava com a língua e sobretudo me reabria as portas de tantos novos mundos e tantas novas aventuras. 

    Hoje leio imenso… chego facilmente a um livro por cada 15 dias se for uma grande obra. Se forem coisas mais fáceis chego a ler num fim de semana. O tempo, o trabalho e o facto de não ter filhos, ter um apartamento pequeno e um marido que faz a sua parte ajuda. Mas o escape emocional que me é oferecido é enorme. 

    Infelizmente, e porque já fiz uma série de mudanças de casa e porque os livros são pesadissimos custumo ir buscar livros à biblioteca o que agora não é impossível. Fiz anos em Março e ele, que estava dividido entre oferecer-me um relógio ou um Kobo ofereceu-me o relógio. Por isso valem-me os blogues e reler livros antigos. Mas compreendo tão bem o que queres dizer com este texto.

    Cuida-te e beijinhos!

  4. Avatar de Joana
    Joana

    Olá Carolina!

    Que curioso falares deste livro. Conheci o Joel Dicker através do teu blog, e adorei (mesmo!) a ‘Verdade sobre o Caso Harry Quebert’ e ‘O Livro dos Baltimore’.
    Com a quarentena, também tenho lido mais que o habitual, e acabei a semana passada este mais recente lançamento do autor. No entanto, confesso que fiquei um pouco desiludida! Não só me pareceu utilizar uma ‘fórmula’ muito próxima à dos livros anteriores, mas também achei as personagens pouco trabalhadas e difícil de relacionar!
    Se calhar tinha expectativas muito altas. De qualquer maneira, gostava imenso que fizesses uma publicação com as tuas opiniões, quando terminares.

    Beijinhos! Espero que o teu affair com os livros volte em força

  5. Avatar de Carolina

    Obrigada! É mesmo 😉

  6. Avatar de Carolina

    A ideia dos grupos de leitura é, de facto, muito boa – e vejo que surgem cada vez mais. Penso que funciona como pressão extra para leres um livro, mesmo que não estejas a adorar. É como fazer os trabalhos de casa, não necessariamente porque te dá prazer, mas porque sabes que o professor te vai fazer perguntas. E isto, visto deste ponto de vista, até parece um bocadinho “repressor”, mas na verdade deve ajudar a que cries defesas quanto ao ímpeto de desistires de um livro logo ao primeiro obstáculo e ajudar também no combate à frustração. É uma boa ideia. Obrigada pelas sugestões de leitura, também! Beijinhos

  7. Avatar de Carolina

    Um livro a cada duas semanas é uma pequena maravilha, Nala! Quem me dera a mim… 
    De qualquer das formas… não te esqueças das livrarias online. Podem sempre ser um escape nesta altura em que não há lojas abertas… beijinhos!

  8. Avatar de Carolina

    Olá Joana,
    Que giro! Fico feliz por te ter dado a conhecer um livro que adoraste 😉 Infelizmente eu não gostei tanto assim dos Baltimore, mas (ao contrário de ti) achei este último maravilhoso (publiquei hoje uma review). 
    Beijinhos!

  9. Avatar de
    Anónimo

    Boa tarde.
    Este seu post tem muito interesse para quem percebe a necessidade que todos nós  temos de ler (falo por mim). Só peca por ser demasiado extenso, atendendo ao contexto em que está. Nele constam vários temas susceptiveis de serem abordados. Desde logo: Dissertação sobre hábitos de leitura; …de como a pandemia nos devolve a vontade de ler… Gostaria,  de partilhar o post no meu blog mas é muito extenso e receio abusar da paciência dos leitores. Sugestão: penso que seria bom que textos como este post fossem divididos em 2 ou 3 talvez se tornassem mais apelativos. Gostaria que desse uma vista de olhos ao meu Blog e me dissesse o que pensa. 
    Cumprts de: 
    ler é o melhor remédio  

  10. Avatar de Carolayne Ramos

    Que bem que me soube ler esta publicação! Cheguei aqui por intermédio de outro blog – o Mar de Maio (https://mardemaio.blogs.sapo.pt/) – e fiquei deliciada com o teu relato! Para além de escreveres super bem, a tua honestidade sente-se a léguas! Isso é de se prezar! ♥

    Por vezes, ao longo dos 365 dias de um novo ano, há fases em que não consigo pegar num livro sequer, por muito que ame ler, no entanto, isso não me impede de ficar longos meses sem o fazer. Se fico quatro ou cinco semanas sem explorar outros universos, já é muito e esforço-me por compreender e combater o que me leva a viver tamanha ressaca, reconquistando a leitora que há em mim! 😛

    Leio desde que me recordo e sinto-me realmente nua quando não alimento esse hábito. Com o surgimento dos e-readers, tornou-se até mais fácil de conciliar duas ou mais leituras, partindo do princípio que uma delas é sempre em formato físico, pois, há muito livros parados na estante e que merecem, com toda a certeza, atenção! 😀

    Espero que consigas perpetuar o teu lado de leitora e que encontres obras que te preencham!
    Beijinhos,

    <a href=”https://imperiumblog.com/ (https://imperiumbylyne.blogspot.com/?m=1)”> LYNE, IMPERIUM BLOG</a> // <a href=”https://open.spotify.com/show/3wOPDb1SzI9gX9ej8beDuM?si=GxY6DqLQRrq-USxfWQaAOQ (https://open.spotify.com/show/3wOPDb1SzI9gX9ej8beDuM?si=GxY6DqLQRrq-USxfWQaAOQ)”> CONGRESSO BOTÂNICO – PODCAST </a>

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