O casamento pela igreja era uma não-questão. Isto porque era daquelas que, para além de saber bem aquilo que queria, era também dos tópicos em que eu não iria ceder (isto tendo em conta o noivo que tenho; se fosse alguém extremamente devoto, a história poderia ser diferente).

Se há coisa que eu prezo na vida é a coerência – foi assim que fui ensinada e é algo que gostaria de manter. Se é verdade que as pessoas mudam, também o é que não mudam assim taaaanto. A minha parca ligação com a igreja é algo constante – em nenhuma fase da minha vida fui praticante ou tive um contacto mais presente com a religião. Sou batizada mas, para além disso, só pus os pés em igrejas para funerais e casamentos (nunca fui à catequese). Costumo dizer que sou católica pela cultura que tenho e pelos princípios com que rejo a minha vida – a preocupação com o bem do próximo, a solidariedade, etc.

Tenho fé – mas não é algo que caiba dentro dos “parâmetros” normais, justificada por um Deus. Não a encontro em locais de cariz religioso. A minha fé materializa-se no acreditar numa qualquer forma de perpetuação das pessoas que já partiram e que fizeram parte da minha vida; sinto a sua presença em pequenos detalhes do dia-a-dia, e em mim própria, em várias ocasiões… e é nisso que acredito. Mas, para mim, isso em nada tem que ver com a igreja. 

Diria até que, ao nível da igreja-instituição, a minha relação tem-se vindo a degradar. A ideia dos peditórios, dos dogmas, das ideias fixas e pouco flexíveis e os escândalos afastam-me cada vez mais desse tipo de práticas.

O curioso é que embora sempre tenha gostado de marcar a minha posição, a religião é um tema muito sensível, sobre o qual tive dificuldade em impor o meu ponto de vista numa fase inicial da minha vida. Apesar de nunca ter sabido qualquer tipo de reza, não gostava de estar calada numa igreja onde todos pareciam saber os cânticos e os rituais; tinha a tendência de mexer os lábios para dar a ideia de que estava a dizer algo e procurava manter um ritmo natural daquele levanta-senta chato a que somos submetidos em todas as missas. Cheguei até a fazer uma leitura no funeral da minha avó e a andar com o cestinho a fazer a recolha das dádivas! E esse foi o ponto de viragem.

Aquela não era eu. Nunca fiz parte de grupos e nunca me preocupei por não fazer parte de um rebanho – pelo contrário, sempre me orgulhei disso. Porque é que ali, naquele sítio, tinha de ser diferente? Porque é que tinha de fingir saber fazer algo que de facto não sabia? Porque é que tentava fazer parte de algo que não me dizia nada?

Deixei de me benzer quando entro numa igreja. Deixei de mexer os lábios durante a missa. Deixei de me sentir pressionada naquele ambiente tão cheio de rituais e aceitei que não os sabia. Sento-me e levanto-me à medida que os outros o fazem e não me importo de ser a última a fazê-lo. Recusei fazer uma leitura no funeral do meu avô. Porque se é para ser coerente, é para o ser em toda a linha. 

Por isso, relativamente ao casamento, não é preciso dizer nada, pois não? Se nunca fui praticante, porque me havia de casar pela igreja? Por ser bonito? Por ter um altar? Por ser costume? Não.

Não me esqueço de algo que o padre que celebrou o casamento do meu irmão lhe disse. Podendo falhar-me aqui alguma coisa na sua narrativa, a ideia é que hoje em dia só vamos à igreja em três ocasiões, transportados pelos 3 C’s: primeiro por um carrinho, quando somos batizados; depois de carrão, quando casamos; e por fim de carrela, quando morremos. Eu quero ser coerente e quebrar este ciclo. Quando fui batizada não tive escolha (e, honestamente, não é algo que me afete) – mas hoje, adulta, acho que devo ir de encontro às minhas crenças e as minhas práticas (ou, neste caso, à falta delas). Se não frequento a igreja no dia-a-dia, também não me faz sentido lá ir num dia que para mim é tão importante.

Nos dois casamentos a que fui, ambos os padres, de diferentes paróquias, fizeram menção a esta hipocrisia em que todos vivemos mas que fazemos questão de assobiar para o lado de cada vez que nos toca a nós. Que devíamos frequentar a igreja no dia-a-dia, não só nestes dias especiais; que as igrejas não eram só para este tipo de celebrações. E a verdade é que estão corretos – estão a pedir coerência.

Aqui entre nós, devo confessar que quando vejo aquelas fotos dos noivos de joelhos no altar, compenetradíssimos nos seus pensamentos, penso para mim: “será que eles estão a fazer o que eu faço durante a missa inteira? A pensar o que vou fazer para o jantar durante a próxima semana ou que emails ainda tenho por responder?”.

No dia do meu casamento eu quero ser feliz – e isso implica, provavelmente, quebrar tradições e fazer o menor número de fretes possível. Não quero uma celebração chata, num local que não me diz nada para além da sua beleza arquitetónica e regida por alguém que acha ter em si a palavra de um Deus em que não acredito. No meu casamento eu quero ser eu. E, como tal, a igreja nunca esteve na equação. 

 

casamento igreja.png

 


12 respostas a “Uma história com princípio, meio e sim! #3”

  1. Avatar de Tita Vicente

    Concordo plenamente contigo. A minha relação com a igreja nunca existiu, aliás tenho bem presente na memória pedir à minha mãe (com uns 7 anos) para deixar a catequese porque não me identificava com aquilo. A minha mãe lá me fez a vontade (até porque isso significava voltar a ter os sábados à tarde disponíveis para outras coisas acredito).
    Não me considero crente, aliás, já me cheguei a considerar ateia. Não assisti aos funerais dos meus avós e só estive presente no da minha avó paterna porque era um desejo dela, mas tirando isso não me conformo com tudo o que lá é feito/dito/pago. Lembro-me de ter sido olhada de lado por ter recusado entrar na igreja nos outros dois funerais, mas a realidade é que para mim aquilo não fazia sentido algum. Felizmente tenho uns pais compreensivos que já aceitaram como eu vejo esta questão. Inclusive já disse aos meus pais que se tiver a infelicidade de morrer antes deles que não quero que uma missa faça parte do meu funeral. 

  2. Avatar de Ana Sapo
    Ana Sapo

    Mas porque é que quando se fala em casamente tem de vir à baila a igreja!!! 
    O casamento é um contrato civil. PONTO FINAL

    Quem quer casa pela igreja, quem não quer não casa. NÃO ASSUNTO.
    Que mania.
  3. Avatar de DESCRENTE

    OK, mas quando se vir msm aflita, continue coerente e não apele a Deus !
    Sou DESCRENTE, mas sou coerente.
    Eu tenho fé, gosto de ir à igreja e cemitérios. Não gosto de padres, médicos, juízes e políticos, personas k  têm o “complexo de Deus” 
    Sou dos k celebra o Natal c/ o menino Jesus , não c/ 1 velho anafado e barbudo.
    Sempre fui defensor da ponderação e do livre arbítrio, tipo:
    Cada qual come do k gosta !
    Não gosta, come só as batatas.    


  4. Avatar de
    Anónimo

    Tem toda a razão, cara amiga. Os senhores da igreja são uns chulos

  5. Avatar de Carolina

    O casamento não é só pelo civil. Hoje em dia vivemos num país laico, ainda que católico, mas durante muitos anos não foi assim. O casamento está amplamente enraizado em todas as religiões, igreja católica incluída. Está por isso longe de ser uma não questão – e se eu quero esmiuça-la, naquele que é o meu blog, acho que estou no meu direito 😉

  6. Avatar de Carolina

    Eu, se calhar, sou mais crente. Não apelo a Deus, mas apelo aos meus (uns dirão que é a mesma coisa, eu não). Não me disse descrente no texto acima. Tenho fé, mas não é apoiado nas ideias transmitidas pela igreja. 
    Gosto de visitar igrejas (dispenso missas) e vou várias vezes ao cemitério, simplesmente porque me apetece visitar as minhas pessoas que já partiram.
    Do meu lado, continuo coerente.

  7. Avatar de Carolina

    Ninguém aqui disse isso. Acho que a intensidade das palavras deve ser medida.

  8. Avatar de Carolina

    Também já disse aos meus que não queria ter missa no meu funeral (não sei até que ponto o “funeral” não é a missa, mas pronto, há-de existir outro qualquer ritual para quem não quer estas coisas). 

  9. Avatar de Liliana
    Liliana

    Eu e o meu noivo estamos nessa situação. Somos ambos católicos de formação, com catequese completa e tudo. Mas não frequentamos a igreja. Agora como adultos, todos aqueles rituais não nos dizem nada. E decidimos que o nosso casamento será apenas com cerimónia civil. As nossas mães não gostam nada da ideia, principalmente a minha mãe que é super beata. Para ela, é como se nem contasse o casamento por não ser na igreja.

    Apesar desta pressão, não cederemos. Não faz sentido ir à igreja só porque os outros querem, quando nunca lá pomos os pés, exceto em casamentos e funerais (chegámos a ir a um casamento de amigos e o padre ficou espantado por a maior parte das pessoas nem saber rezar, incluindo os noivos!).

    Também sinto a necessidade de ser coerente. Não quero ir à igreja só porque é supostamente mais bonita a celebração.
    Bjs
    Liliana

  10. Avatar de sara
    sara

    Concordo plenamente contigo. Apesar de nos últimos tempos me identificar cada vez mais com os valores e etc católicos, pensando num futuro casamento, só o faria na igreja se realmente estivesse decidida a “converter-me” (ou seja aprender mais, envolver-me na missa, tornar-me católica realmente praticante). Também nunca me fez sentido casar-me ou fazer qualquer coisa pela igreja se na verdade não acredito ou sequer sei o que eles defendem e estão para ali a dizer ahah. Outra coisa que também só tive noção no casamento da minha prima em 2019 foi que basicamente no casamento pela igreja “comprometes-te” a educar os teus filhos pela religião católica e outras coisas. Se a pessoa pode só casar pela igreja porque é muito giro e ignorar as promessas que fazem perante um altar e uma plateia? Pode, eu pessoalmente acho que não se brinca com essas coisas. E ou quero seguir o que me dizem,  ou então não caso por lá e ponto final.

  11. Avatar de Isabel Dentinho
    Isabel Dentinho

    Olá, tem toda a razão.
    Eu sou Wedding Planner e posso dizer-lhe que dos Casamentos mais bonitos, ou personalizados, que presenciei, nenhum foi na Igreja.

    Sinceramente, as pessoas, principalmente em Portugal, ainda têm muito aquela noção de que o Casamento, tradicional, pela Igreja é que é o que devem fazer.
    Muitas vezes até para agradarem à família, ou não criarem confusão, em mentes pequenas, fazendo um casamento diferente.
    Se não se pratica a religião, não faz sentido nenhum casar, segundo um ritual que não se pratica.
    Eu sou totalmente contra. Há que haver sempre essa coerência, para que se crie um dia que realmente seja especial e ambos apreciem.
    A meu ver, ou o Casamento Civil, que já pode ser bastante personalizado (pelo menos aqui no Algarve), ou um Casamento com um Celebrante, que crie a Cerimónia, mais personalizada, ao que os Noivos quiserem fazer.
    Inclusive, costumo sugerir que, quem tenha alguém próximo, que saiba a história dos Noivos e tenha o dom da palavra, que o faça.
    Pois nada mais personalizado do que isso, com significado, sentimento, profundidade. No local que se escolher.

    Boa sorte!

  12. Avatar de Ana Sapo
    Ana Sapo

    Boa resposta. Amigas 😀
    Neste dia eu estava um bocadinha às avessas.
    Para quem, como eu, católica praticante, sem imaginar casar de outra forma, (mas foi tudo feito à minha maneira, tudo com muito significado), epá… é tão chato ouvir sempre o porque não casa pela igreja… não devia ter de se justificar, se realmente nada daquilo lhe faz sentido.
    Da minha “experiência” como frequentadora de casamentos, sempre achei mais bonitos os religiosos do que os só civil. Mas também fui a um muito especial, em que um ex padre fez a cerimónia.
    Estava a falar do contrato que assinamos, o casamento é um contrato, o resto é a festa que nós quisermos.

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