Há uns dias vi o vídeo do Gustavo Carona (podem ver aqui) e não podia estar mais de acordo. O Covid é um problema sério, que não podemos ignorar – e não é nos hospitais que ele vai ser resolvido. É nas ruas, é nas nossas casas, é nas empresas. Está literalmente nas nossas mãos – essas, que carregam tanta coisa invisível, e que hoje tomam uma importância extrema no que diz respeito ao transporte do vírus ou à sua eliminação (se as lavarmos e desinfetarmos bem e corretamente).

Concordo também com ele no facto de isto não se poder tornar numa luta política – não interessa quem está no poder. De direita ou esquerda, uma coisa eu sei: não queria estar naqueles calcanhares. Não tendo qualquer empatia com as pessoas em questão (e não comungando com muitas das suas convicções políticas), eu não queria ser primeira-ministra, não queria ser ministra da saúde, não queria ser a diretora geral da Direção Geral de Saúde. E há que respeitar as posições que estão a tomar – porque nenhuma vai ser boa e nenhuma vai ser fácil e todas serão controversas.

Mas há aqui um erro generalizado que está a revoltar a população: chama-se falta de coerência. Não deixam as pessoas ir ver um jogo de futebol, ao ar livre, num estádio com espaço para mais de 50 mil indivíduos; mas deixam que exista público na fórmula 1. É para ricos, não é? Também deixam que se vá às touradas. É para chiques, não é? E o Avante? É para camaradas, pois claro.

A mim não me afetam as restrições – dou-me bem com regras e sou boa a respeitá-las. Não me importo de não sair do concelho, não me importo do dever cívico de um recolher obrigatório (embora não possa exercer o meu trabalho em casa, sendo obrigada a fazer a minha vida normal), não me importo de usar máscara na rua, não me importo de esperar na fila do supermercado para não sermos 5628 pessoas à volta da mesma peça de fruta.

Mas importo-me com os contra-censos que mencionei acima. Revoltam-me mais estas cedências estúpidas – em prol de favores, de dinheiro, de tudo o que não devia contar – do que as próprias pessoas envolvidas nestes atos, que apesar de inconscientes só estão lá porque à partida a cancela não estava fechada. E sei que não me revolta só a mim: revolta-nos a todos, porque não é preciso ser nenhum génio para perceber as incongruências que existem.

Sobre as medidas que saíram ontem para os concelhos com risco elevado (que incluem as cidades onde moro), mais uma vez, acato e respeito o que foi decidido – mas a última medida, que proíbe que se façam feiras e mercados, mexe comigo até aos ossos. O Covid afetou-nos a todos: psicologicamente, pelo medo e pelo tempo de confinamento; fisicamente, principalmente àqueles a quem o bicho já pegou e sofreram consequências físicas; e financeiramente, para quem perdeu o emprego, para quem viu os seus postos de trabalho ou empresas em lay-off, para quem perdeu inúmeras oportunidades de negócio num ano que se queria promissor. Serão muito poucos os que beneficiam disto – eu olho à minha volta e não vejo ninguém. Mas a mim ninguém me obrigou a deixar de trabalhar – mas aos feirantes, que vendem bens de primeira necessidade, acabaram-lhes com o negócio. O Continente pode operar, o Pingo Doce, o Mercadona e o Mini-Preço também; mas uma feira ao ar livre, sem ar-condicionados, sem carrinhos que são manipulados por milhares de pessoas e sem tapetes rolantes podem trabalhar. Aqueles que o estado segura e promove; as Sonae’s e Jerónimo’s Martins desta vida, que mais do que dinehiro, movem influências. Mas os feirantes – pessoas como nós, sem as contas cheias de zeros e sem amigos na assembleia -, que acordam todos os dias às tantas da madrugada para andarem com as tralhas às costas, de sítio para sítio, para se fazerem à vida e terem o seu ganha-pão, têm de ficar em casa.

Eu, podendo, deixava de ir a super-mercados – ia sempre à feira. Estar antes das oito da manhã a fazer compras ao ar livre é terapêutico para mim – e a qualidade daquilo que compro é infinitamente melhor. A minha sopa não é a mesma se não for feita com as coisas que compro vindas da terra, ainda sujas, ali da Póvoa do Varzim.

Mas a D. Carolina já não me pode vender batatas, alho-francês, courgete ou agrião.

A senhora das flores já não vai estar lá com aqueles raminhos bonitos que dou semanalmente à minha mãe.

Já não posso ir comprar a manga do Algarve à D. Carla, nem a uva sem grainha ou o melão doce que me deixa sempre experimentar antes de comprar.

Não posso ir comprar os fidalgos da minha mãe à senhora que me chama sempre “meu amor”.

O senhor das árvores de fruto já não me vai dizer que trouxe, finalmente, os pêssegos-paraguaios carecas para eu plantar no quintal.

Por isso hoje, mais do que pelas multidões na Nazaré, concertos ou filas para o que quer que seja, estou triste – e revoltada! – pelas pessoas que todas as semanas me enchem os armários, o frigorífico e a alma. Pelas pessoas que me tratam com empatia, que me aconselham aquele fruto em vez daquele, que me deixam pagar na semana seguinte se se apercebem que não trouxe trocos suficientes. Tudo o que não acontece num supermercado, onde eu – como todos – sou tratada como um número e constantemente enganada por cupões e cartões e cadernetas autocolantes. 

É incoerente, triste e, acima de tudo, revoltante. 


3 respostas a “Uns são filhos (os supermercados) e outros são enteados (os feirantes)”

  1. Avatar de
    Anónimo

    Olá Carolina! Não sei se viste, mas o governo acabou por se retratar em relação a esta medida, cabendo agora aos municípios a autorização ou não das feiras.

  2. Avatar de
    Anónimo

    Olá Carolina,
    Concordo, em tudo, contigo. Penso que este governo tomou as medidas adequadas na primavera, mas que a partir do verão se começou a sujeitar à pressão económica que esta crise promete. Sou muito anti-Sonae em particular (pancadas minhas…), mas no geral prefiro sempre comprar local e pessoal 🙂 sei que vives no Porto como eu: tens sugestões de mercados onde possa fazer as minhas compras semanais?

    Grata!

  3. Avatar de
    Anónimo

    Olá, parabéns pelo blog!

    É muito bom encontrar espaços onde a literatura é divulgada, ampliando os horizontes dos que procuram crescer através do mundo das letras. O saber não ocupa lugar, e como sabiamente expressa Confúcio: “Você não pode abrir um livro sem aprender algo”, a leitura mostra novos caminhos de sabedoria.  

    Queria compartilhar a notícia da publicação em português, (já foi publicada em espanhol) duma obra onde semeio alguns conceitos um pouquinho inusuais sobre o tema que nos impeliu a mudar usos e costumes do diário acontecer, o vírus. E justamente este é o nome do livro: “O VÍRUS-HUMOR”. Onde, de forma engraçada e divertida, mostramos ruindades diversas em um planeta, sendo a pandemia uma delas.

    Qual é a solução encontrada?

     Um final inesperado, coloca uma luz de esperança para todos os que, por ventura, morem hoje em um mundo semelhante.

    Publicado pela Amazon, o link é: http://www.amzn.com/B08J9NXWB1 (http://www.amzn.com/B08J9NXWB1) Se disponibiliza sem custo a leitura de parte dela.

    Seria uma alegria que tivessem algum tempo para lê-la.

    Congratulações de novo pelo blog!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *