Todos os dias fico espantada com a facilidade com que todos já compramos coisas feitas. Vivemos num mundo tão atarefado, tão sem tempo, que queremos as coisas no imediato, sem nos esforçarmos minimamente – e, de preferência, ao melhor preço possível. E isto seria óptimo se as coisas que compramos fora de casa não fossem de pior qualidade… e, acima de tudo, se não se perdesse o que está no meio.

Este tópico veio-me à cabeça pela junção de dois acontecimentos: o primeiro foi o facto de ter levado umas bolachas para o piano (que, como é lógico, fui eu que fiz) e de ver as reações surpreendidas de todos à minha volta; o segundo foi em Cacilhas, aquando do Web Summit, onde fui jantar a uma marisqueira e tinha ao meu lado a decorrer a festa de aniversário de uma menina com não mais de dez anos. Quando chegou a altura de cantar os parabéns, vêm dois bolos da cozinha, claramente comprados previamente pela família. E porquê dois? Porque eram pequenos, comprados no Continente, e a família, com medo que algo faltasse, não esteve com meias medidas e levou logo dois.

Os dois eventos não têm, aparentemente, nada que ver um com o outro. Mas na realidade têm. O elo comum é o espanto e a capacidade de dedicarmos o nosso tempo em prol dos outros. Quando cheguei ao estúdio de piano com as bolachas, toda a gente ficou chocada: “Foste tu que fizeste? Uau, que prendada! O queê, mas fizeste isto de manhã, antes de vir para aqui? Como tiveste tempo? Deves ter acordado de madrugada…”. Pelo contrário, quando vi aquela família num restaurante (onde não me pareceu irem muitas vezes, indo propositadamente para aquela ocasião especial) fiquei eu espantada pela falta de empenho e de esforço por parte de todos aqueles adultos que ali estavam – e ainda eram alguns.

É claro que posso estar a julgar em vão – não sei as circunstância daquela família, do seu tempo e do seu trabalho – mas creio que isto é algo cada vez mais generalizado, e não diz sõ respeito a bolos. Estou em crer que há famílias que já só cozinham o básico, porque todas as refeições provêm de take aways. Tudo é feito fora, comprado fora. Antigamente as frutas vinham do campo, as hortaliças da horta, as roupas eram feitas à mão, os animais mortos em casa. Até os edifícios são agora pré-fabricados, construídos em blocos tipo lego. É assustador.

Para além do processo de aquisição ser mais rápido, também diminui o tempo que desfrutamos as coisas. Já não saboreamos a comida: engolimo-la; já não guardamos as roupas para os nossos filhos: elas estragam-se tão rápido que as deitamos fora. E eu sei que sou a excepção, sei que sou – como sempre – a anormal aqui da parada. Mas eu dou valor ao tempo que passo a fazer as coisas e acho que é esse tempo que as faz boas, mais bonitas, com mais significado. O tempo que eu passo na cozinha – ou o tempo que eu vejo que a minha mãe passa na cozinha quando me faz cabrito assado, por exemplo – faz com que o prato seja mais saboroso; faz com que eu tenha a preocupação de o provar, de o saborear com cuidado. E, acima de tudo, faz com que goste mais dela: porque em vez de ser como aos outros e encomendar o cabrito num sítio qualquer, passou horas a fio na cozinha para fazer o meu prato favorito.

Para mim, cozinhar é uma forma de amar, de dizer que me preocupo o suficiente com os outros para lhes dar um bocadinho do meu tempo. E é impensável para mim ir a uma festa sem levar um bolo – e ainda mais indispensável que, no aniversário de alguém que me é importante, não haja algo com a minha assinatura em cima da mesa. Pode ter sido feito há dois dias atrás, de madrugada ou acabado de sair do forno… mas está. E sei que isso não é regra, mas não deixa de ser estranho para mim que as pessoas pensem de forma diferente.


3 respostas a “Vivemos num país de pré-fabricados”

  1. Avatar de
    Anónimo

    O tempo, a dedicação, o prazer de presentear alguém – e falo num sentido mais lato, não estritamente material – não deviam sair de moda. Dão, sem dúvida, cor aos dias. Viver num mundo pré-fabricado, como dizes, é pobre e fica muito aquém, privando-nos de pequenos grandes prazeres na vida, como a felicidade de fazer alguém de quem gostamos sorrir. 

  2. Avatar de Beatriz Canas Mendes

    Também tive sorte de ter sido criada por pessoas que dão atenção aos pormenores e ao fazerem elas mesmas as coisas. A minha avó já me fez roupa, malas, cintos, mantas, tapetes… O meu pai fez roupas e acessórios de Camões e trouxe-me um Ken com elas vestidas para representar as minhas aventuras no estrangeiro, a minha tia desenhou-me uma caixa com as figuras do presépio que eu não tive este ano… E faço questão de escrever postais às pessoas de quem gosto e de ler o que escrevem de volta. São gestos que nem custam dinheiro, mas que contribuem para uma felicidade rara, que é a de saber que aquelas pessoas perderam o seu tempo, sem perderem necessariamente dinheiro, a pensar em nós, como nos agradar e a realizarem o gesto. Não poderia concordar mais contigo! E aposto que essas bolachas estavam óptimas! 

  3. Avatar de David Marinho
    David Marinho

    “cozinhar é uma forma de amar”
    Pois.
    Mas quem é que hoje ama as coisas que faz? (na generalidade, do que vamos vendo).
    Por isso é que vivemos num mundo de gente cada vez mais infeliz e fechada, porque não amam as coisas, não vêem significado nas coisas, infelizmente.

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