Nos últimos meses, por questões de trabalho, tenho vindo a conhecer mais pessoas do que o normal. Aliás, muitas vezes nem é conhecer, as pessoas são-me simplesmente apresentadas: “muito prazer” para trás e para a frente, “foi um gosto, até à próxima” e adeus. Mas quer sejam situações em que falamos mais com as pessoas e passamos a conhece-las e até conviver com elas ou simplesmente apresentações mais formais, há sempre uma questão que se coloca: como é que cumprimentamos alguém no primeiro contacto? Beijinho, passou-bem ou um simples aceno de cabeça?

Eu acho que neste tipo de coisas cada um cria as suas próprias regras – o pior é que as regras nem sempre coincidem e algumas situações tornam-se um tanto ao quanto desconfortáveis: um dá a mão e o outro já tem a cara estendida para um beijo; ambos já têm o cumprimento de mão dado mas, naquele impasse, ainda dão um beijo por cima enquanto as mãos estão juntas; há uma hesitação estranha tipo vai-não-vai e fazem apenas um ligeiro aceno de cabeça e um trejeito com a boca como quem diz “foi quase, não percebi o que aconteceu, mas foi estranho”

Eu sou pouco dada a toques e a intimidades por isso a minha primeira reação é sempre estender a mão – pelo menos no que diz respeito a homens. Penso que em mulheres está muito universalizado o beijinho – resta saber se é um ou dois, o que ainda vem tornar toda esta questão mais complexa – e só não o faço quando percebo que há um distanciamento maior do que normal ou quando são de outras culturas ou religiões que entendo que não têm o hábito de dar a cara logo à partida. Mas nos homens é que está o busílis da questão.

Acho que é lógico para todos nós que um beijo é mais íntimo que um aperto de mão – e, por isso, eu opto quase sempre pelo passou-bem. Mas há outra questão deveras pertinente: a higiene. Apesar de nos parecer mais “próximo” cumprimentar alguém de beijo, e embora possamos pensar na quantidade de germes que por ali andam e em “quantas bocas e sítios é que esta boca já passou?”, a verdade é que apertar a mão é provavelmente menos higiénico, uma vez que é a nossa ferramenta para tudo nesta vida: para nos apoiarmos nos corrimões, para tirarmos o dinheiro do bolso, para fazermos festinhas aos cães ou – aquilo em que todos pensamos – irmos à casa de banho (e depois não lavarmos as mãos).

Apesar disto, a questão “intimidade” costuma-me pesar mais e eu não dou grandes hipóteses: mal vejo a pessoa já estou de mão em riste. Mas por vezes noto que não era aquilo o esperado ou que estranham o facto de uma mulher dar um passou-bem de forma tão convicta. Mas o mais engraçado é que, se for o caso de ter uma conversa, um jantar ou algo mais próximo, já me é natural deixar que se despeçam com um beijo. E quando saio deste tipo de situações dou sempre por mim a pensar “o quê que mudou nesta hora para já passar de um comportamento para o outro?”. A verdade é que eu acho que mudou muito pouco: apenas nos habituamos à presença uns dos outros, o que não quer dizer que não continuemos a ser estranhos. Mas tudo isto não se colocaria se, simplesmente, tivéssemos dado dois beijinhos à partida.

Da mesma forma que há um livro de estilo nos jornais, um livro de marca para as empresas ou um livro de instruções para os eletrodomésticos, devia acontecer o mesmo connosco – …pelo menos em algumas situações. Isto de viver numa sociedade com beijinhos, passou-bens e acenos é muito complexo.


3 respostas a “Viver num mundo de beijinhos, passou-bens e acenos”

  1. Avatar de
    Anónimo

    Pois eu prefiro 30 vezes dar um beijo  na face de um homem do que um aperto de mão. Face com face não há grande  “toque” (digo eu) já a mão sei lá eu onde ele andou com ela….
    Amaria

    (Mas o tema tem pano para mangas culturais)

  2. Avatar de BeatrizCM

    Faz como os tailandeses e surpreende as pessoas com um “wai” 😅

  3. Avatar de Carolina

    Fui pesquisar, não sabia o que era! Mas agora que percebo, acho que iam ficar a olhar para mim como quem diz “esta não bate muito bem” ahahah!

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