Vamos entrar na 36ª semana do ano – aquela que, para muitos de nós, dá o pontapé de saída o início real de um novo ano. Isso quer dizer que já lá vão 35 segundas-feiras ultrapassadas – cerca de 30 delas em esforço pleno. Podia dizer-se que a de amanhã será a mais dura de todas, tendo em conta que as últimas três semanas foram de férias, mas a verdade é que acho que não. São todas difíceis. Foram todas difíceis, este ano. 

Se eu fechar os olhos e pensar a curto prazo, sinto que o meu cérebro me leva para o dia de Natal do ano passado. E, numa perninha, passamos para o dia de hoje – nove meses passados num ápice, num daqueles paradoxos de tempo, falácias de memória e erros de percepção que nos acontecem tipicamente nos momentos muito bons ou muito maus, em que os dias parecem não passar enquanto os estamos a viver, mas quando fazemos deles passado parecem ter andado em modo fast-forward ao ponto de quase não nos lembrarmos de nada para além do inicio e da meta.

Fui à fábrica na passada sexta-feira ultimar um par de coisas antes do regresso oficial e o “baque” que senti foi grande. Uma das coisas que não nos contam sobre a indústria é que há sempre alguma coisa que não está bem – coisas muito graves que exigem mudanças imediatas porque estão de alguma forma a criar entraves no processo, coisas graves que pomos na lista de afazeres a curto-prazo e todas as outras, onde incorporamos o espírito de “vai-se fazendo”. Isto agudiza-se quando herdamos uma empresa velha em infraestruturas, em cultura e recursos-humanos: o “vai-se fazendo” cresce em nós, porque não há outra maneira de fazer as coisas. Porque não há dinheiro para pôr tudo direito de uma só vez, porque não podemos correr o risco de fazer mudanças tão bruscas que assustem as pessoas que trabalham naqueles postos há décadas, porque as formas de estar e de trabalhar talvez nunca venham a mudar. 

Quando entrei nos salões vi lixo, que sei que já lá estava antes, mas cujo os meus olhos já se tinham habituado até há pouco menos de um mês; senti o cheiro a óleo que para mim é normalmente tão natural como o odor ao shampô que ponho no cabelo; vi coisas desarrumadas, desalinhamentos desnecessários – tudo pormenores que, ainda há dias, me tinham passado despercebidos porque a visão já está viciada e a alma cansada de tentar alterar coisas cuja inércia é, aparentemente, maior do que a minha força da mudança.

Acho que a paciência e a resiliência são, talvez, as ferramentas mais úteis e preciosas no meu trabalho – mas estas são também características de alto desgaste, principalmente quando os tempos são duros de se viver, como foi esta primeira metade do ano. Este é o meu quinto ano à frente da fábrica e eu já conheço esta sensação de início de Setembro: um misto de tristeza pelo fim das férias mas de pujança para fazer as coisas acontecerem, mudar o que tem de ser mudado, como quem vai meter a primeira mudança depois de uns dias sem ter de fazer trabalho de embraiagem. Mas o que a experiência me conta é que, infelizmente, há qualquer coisa no caminho (normalmente logo nos primeiros quilómetros) que nos faz imediatamente abrandar e todos aqueles planos iniciais caem por terra. As próximas duas semanas já me darão, certamente, água pela barba: aguardam-me sessões de esclarecimento com todos os funcionários, uma auditoria e dois dias de feira. E depois? Depois só queria sossego e normalidade.

A questão é que eu não sei se sossego e normalidade são sinónimos ou, no mínimo, coabitantes nesta vida que eu escolhi. Será que sou só eu que estou eternamente à espera de períodos mais sossegados na minha vida, que acabam por nunca acontecer? Estou cheia de planos para esses dias: nessa altura vou finalmente arrumar as peças soltas de uma das urdideiras, vou finalmente organizar o escritório contíguo ao meu que foi acidentalmente transformado em sala de arrumos, vou finalmente enumerar todas as chaves que me faltam; vou finalmente colar o relógio partido que tenho aqui em casa, vou finalmente elaborar o álbum de fotos sobre o verão passado, vou finalmente pôr todos os emails em dia. Aguardo o dia em que não tenha coisas urgentes para tratar para poder pôr estes “finalmentes” em prática – mas o dia nunca chega, pois não?

Eu gostava que chegasse. E, como tal, é esse o meu desejo para este novo recomeço. Nesta altura do ano as contas já estão quase todas feitas e não vale a pena gastarmos os nossos desejos em esperanças infundadas. Já sei que não vale a pena pedir um ano de trabalho bem sucedido, calmo ou extraordinário – porque não será. Daqui a uns meses, quando estivermos a fechar mais um Natal, a análise a fazer será expectavelmente de que este foi um ano de superação e de sobrevivência – mais um, neste meu percurso de industrial. Como extra, gostava apenas que fosse um ano de “finalmentes”. Finalmente arrumei aquilo! Finalmente fui ao cinema! Finalmente fiz o álbum! Caraças, finalmente respirei enquanto trabalhava. Que bom que isso deve ser.

Um bom regresso para todos. Há que voltar ao sítio onde temos de estar.

 

JPG-22.jpg


3 respostas a “Voltar ao sítio onde temos de estar”

  1. Avatar de
    Anónimo

    Se não tivesses coisas para renovar, objetivos e sonhos que te podem parecer utópicos, era uma monotonia 😊. Força nisso e nunca baixes os braços.  

    Amaria

  2. Avatar de girl

    Não estou à frente de nenhuma empresa (Deus me livre e proteja disso!), mas encontro nas tuas palavras o que sinto em relação ao meu trabalho e à vida, no geral.
    Estamos constantemente à espera de períodos de acalmia, de tranquilidade, que nos permitam “arrumar” a casa e parece que estes nunca surgem. Chega ao ponto de ser frustrante e desmotivante. 
    Espero que este arranque seja vivido em pleno e que o entusiasmo não carbure imediatamente nos primeiros dias! Bom regresso e boa semana 🙂

  3. Avatar de Inês

    Bom regresso! 🙂

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *