• A antítese dos dias

    Este ano não parece ser feito de meses ou de semanas, mas sim de um “antes” e “depois” de um dos maiores sustos que o mundo teve nos últimos tempos. Sem querer refiro-me a Fevereiro como se fosse “o ano passado” e sinto que fui ao Japão há dois. O tempo voou e parou, ao mesmo tempo, qual síndrome de Gato de Schrödinger.

    É-me estranho agora estar parada, quando tive meses frenéticos no pico da pandemia (curiosamente, quando todos estavam fechados em casa). Já não estou habituada a ler três livros de catadupa ou a ter tanto tempo livre que já nem sei o que escrever no meu blog, tão parado que parece moribundo. Não me lembrava de acordar a outra hora que não as 7 da manhã. O meu corpo estranha comer uma bola de berlim todos os dias, em vez de estar preocupada em comer apenas uma colher de sopa de hidratos às refeições. É estranho que o tempo livre de hoje fosse há uns dias o meu horário de trabalho, e que o tempo ocupado hoje (a comer, claro) fossem antes as horas livres do dia.

    Em férias o contrário impõe-se e a antítese dos dias normais é a rainha.
    Mas este ano nem Agosto quer ser normal: o Algarve há uma semana acordou com nuvens e morrinha; a água do mar está fria como no norte – e, como se isso não bastasse, também o vento se assemelha aquela nortada que levanta pazadas de areia ao mínimo esforço.

    2020 foi, é, tão estranho que até estranho estar de férias, embora tenha sentido que precisava delas como de pão para a boca. Perdão: de como bola de berlim para a boca. Porque quando as férias acabarem volta a dieta e, aí sim, a normalidade. Talvez, nessa altura, estranhe o normal e queira tudo ao contrário outra vez.

     

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  • A lealdade, a traição e os direitos entraram numa loja (ou, neste caso, saíram da SIC e entraram na TVI)

    Há um mês estava no Algarve e caiu uma bomba na sociedade portuguesa: Cristina Ferreira saía da SIC para a TVI. Na altura isso levantou-me um debate interior, na verdade já recorrente, sobre o qual decidi escrever. Até hoje. Entretanto já voltei ao trabalho e já voltei de férias – estando outra vez no Algarve, pelo que me parece a altura ideal para fechar o ciclo e publicar este texto (que nunca viu a luz do dia, de tanto lhe mexer e remexer, acrescentar e tirar – mas é desta, vamos tentar).

    A lealdade no trabalho é um dos temas que domina muitas das minhas conversas no dia-a-dia: à mesa do almoço, em reuniões de trabalho, com amigos ou simplesmente conhecidos. Acima de tudo porque me divide enquanto pessoa e enquanto empresária – e eu sinto-me, ao mesmo tempo, advogada do diabo e advogada da paz. O tópico voltou a estar em cima da mesa naquele fim-de-semana em que uma bomba caiu em cima deste país, depois de há dois anos termos sido assolados por outro tremor de terra: Cristina Ferreira, até aqui desertora da TVI, voltou à casa-mãe. E eu voltei às minhas discussões interiores.

    Eu percebo que cada um de nós tem o direito de ambicionar algo melhor ou diferente, independentemente do sítio onde trabalha ou até daquilo que receba – basta ter leves noções de recursos humanos para perceber que não é só o dinheiro que cai ao final do mês que conta. No entanto, como em tudo, acho que os direitos devem ser usados com conta, peso e medida, nunca olhando exclusivamente para o nosso umbigo. Há uma relação de interdependência entre a empresa e os seus trabalhadores: sem funcionários não haveria empresa, mas sem empresa também não haveria necessidade de dar emprego a ninguém. Será, penso que eternamente, uma das relações mais difíceis de gerir. 

    Com esta facilidade de acesso a novas oportunidades – para além de uma lista prolongada de tantas outras vantagens dos tempos modernos, entre as quais a facilidade de locomoção e o contacto constante com quem está longe apenas utilizando um telemóvel – a ideia de um trabalho para a vida foi-se desvanecendo. Mas, em muitos casos, não houve um meio termo: passou-se de ter, em 40 anos de trabalho, apenas um emprego, para algumas pessoas terem 20. São aqueles que apelido de “salta-pocinhas” – os que passam a vida a saltar de posição e de empresa, ora porque ambicionam mais, ora porque não gostam do local onde estão naquele momento. E esses, confesso, fazem-me confusão.

    Primeiro porque, do ponto de vista pessoal, não me revejo neste papel: detesto grandes mudanças de rotinas e é-me difícil imaginar que, a cada ano, tenha de me adaptar a um novo local, a um novo trabalho, a novos colegas, novas chefias, etc. Por outro lado, do ponto de vista da empresa, esta instabilidade tem de ser dura de gerir, até porque apesar de uma pessoa poder estar qualificada para um determinado emprego, existe sempre uma aprendizagem específica que tem de ser feita para aquele posto – algo que pode demorar uma semana ou meio ano, dependendo daquilo que estamos a falar (para além do poder de adaptação das pessoas em causa).

    Mas é do ponto de vista de empresária têxtil que este tópico mexe comigo. Quando preciso de contratar alguém, não é como ir buscar um enfermeiro ou um jornalista ao mercado de trabalho. Primeiro porque não há formação na área – somos obrigados, internamente, a formar uma pessoa do princípio ao fim; e depois porque, devido ao nível de especialização, não é um trabalho em que exista em “modo default”. Um jornalista, independentemente do sítio onde trabalhe, sabe que há questões que vai ter de fazer sempre, que vai ter de escrever, que vai ter de ligar e ouvir as partes; um enfermeiro, quer trabalhe em geriatria, ortopedia ou pediatria, tem de saber dar injeções, limpar um paciente e fazer pensos. Aqui não – mesmo pessoas que trabalharam uma vida no ramo podem não saber trabalhar específicamente com determinadas máquinas: e essa técnica leva anos a aprender. Isso revela-se um investimento de tempo, de dinheiro e de confiança gigante por parte da empresa (quando, nos outros casos, é um investimento da própria pessoa, que paga para tirar um curso na faculdade, por exemplo). E cai-me muito mal se essa pessoa, em que eu investi, saia da minha empresa para ir para outra (ou, pelo menos, que o faça de ânimo leve, sem razões que o justifiquem).

    No caso da Cristina Ferreira, a verdade é que há muitos cursos de comunicação e qualquer pessoa poderá ser, à partida, apresentador de televisão. Mas ela distinguiu-se de tal forma que, aparentemente, a sua presença numa estação televisiva dita as vitórias e as derrotas do canal. É diferente, pois não se trata só de conhecimentos, mas também de popularidade. Mas, para mim, todas as pessoas que trabalham comigo (ou que façam o mesmo noutros sítios) são autênticas Cristinas Ferreiras – porque agregam um conhecimento e uma importância vital na estrutura onde estão inseridas. Este tipo de profissões são hoje tão raras, tão específicas, tão especiais… que uma só pessoa faz a diferença.

    Num mundo idílico, isto vai contra todos os bons princípios de gestão de recursos humanos. Não é suposto haver insubstítuiveis; é sempre preciso estar preparado para a saída de alguém, tendo já dentro da empresa alguém qualificado para o efeito. Infelizmente, só no papel é que isso é possível. E eu imagino o abanão que é termos de nos adaptar, de um dia para o outro, à saída de alguém que parece ter uma importância equivalente a um orgão vital no seio da nossa empresa. Percebo bem, por isso, o azedume demonstrado pela SIC nos dias seguintes à saída da apresentadora.

    Por outro lado, eu própria já me despedi quando senti que já não estava feliz num posto de trabalho e senti que tinha todo o direito a fazê-lo (porque todos temos). A maneira como o fazemos é que dita muitas vezes a forma como saímos  – e, mais, diz muito sobre aquilo que somos! No meu caso fiz o que ditava a minha consciência: avisei com antecedência, de forma a termos tempo de arranjar substitutos e a ser eu própria a forma-los. (Como se tem vindo a ver nos últimos anos, a televisão e as despedidas não se coadunam, pelo que raramente se viu uma cessação de contrato que não acompanhe uma saída imediata). Mas nem sempre é assim. E é nessas situações que a “traição” e o “oportunismo” entram em linha de conta. O que faz de alguém um traidor? E que diferença faz para um indivíduo que tenha, simplesmente, os seus objetivos bem definidos? Diria que é a forma como ambas as partes conduzem o processo… Assim como o contexto. E o timing.

    Cristina Ferreira foi com popa e circunstância para a SIC e anunciava-se feliz como nunca com o programa que, dizia, fora sempre o seu sonho. E, do dia para a noite, trocou tudo isso pela casa que, ainda há tempos, não lhe dava oportunidades suficientes. Lá está:o contexto. Para mim não tem nada a ver com o facto de ser mulher (como tanto se falou) – tem a ver com a coerência das atitudes, ainda que no mundo da televisão nada seja aquilo que parece ser. E se é verdade que Cristina Ferreira tem o direito de fazer aquilo que quer da sua vida – e seguir os seus sonhos, os seus instintos e fazer valer os seus direitos -, o público também tem o direito de tentar ler e perceber as suas ações. No fim, independentemente do mote e dos objetivos que conduziram a este terramoto, e muito para além daquilo que ela foi apelidada, há algumas coisas que ficam claras: Cristina Ferreira é talvez a pessoa com mais impacto desde sempre na televisão portuguesa, é uma das mulheres com mais garra e capacidade de trabalho que o público que já viu, mas não tem na lealdade o seu forte. Como todos, tem os seus defeitos e qualidades; e como todos os que gerem empresas e pessoas, têm simplesmente de aprender a lidar com isso.

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  • Chávena de Letras: “Manual de sobrevivência de um escritor”

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    Nunca li nada de João Tordo para além deste seu manual de escrita, se assim podemos chamar. Mas mal o vi nas prateleiras virtuais de uma livraria online não resisti em comprar; sou sempre atraída por obras que explorem este ofício, independentemente de o analisarem de um ponto de vista mais técnico ou mais poético e romântico (como é o caso deste).

    Apesar de ter sido uma leitura bastante agradável, devo confessar que o rolar das páginas não abonou a favor do livro: achei o início delicioso (a dissertação sobre o que é ser escritor e a forma como ele olha o mundo à sua volta), mas a parte do fim acabou por me soar um bocadinho… vá, presunçosa. Acho que a o meu desagrado começou algures quando o autor escreveu que “A menos que tenhas a sorte de escrever um bestseller à primeira, e vender centenas de milhares de exemplares (o que, habitualmente, significa que escreveste um livro mauzito) (…)” e continuou com aquilo que considera serem os “escritores literários” que, para além de serem aqueles que se dedicam a 100% a esta arte (não tendo mais nenhuma profissão), se depreende que se distinguem dos autores “pimba” (esta comparação com a música é a melhor forma que me ocorre de descrever este tipo de escritores – pelo menos vistos deste prisma -, que não se pautam por uma escrita super eclética, rica e que narram histórias mais corriqueiras). Eu percebo a distinção, mas acho-a preconceituosa. Não acho que se possa comparar Mário Vargas Llosa com Nicholas Sparks – mas, para mim, são ambos escritores: sentam-se, escrevem, corrigem, reescrevem, publicam, publicitam. Também não ouso comparar o Rui Veloso com o Quim Barreiros: mas ambos são, indubitavelmente, cantores, compositores e homens do mundo do espetáculo. São estilos diferentes – mas não tem de haver necessariamente um demérito de nenhum deles derivado ao estilo que preferem. A nossa tendência é, obviamente, juntarmo-nos ao grupo daqueles que consideramos ser os melhores. O autor cita muitos outros “escritores literários” ao longo da obra (o que enriquece imenso o livro) e ambiciona, claramente, fazer parte desse grupo. O que não é mau – mas pode deixar um rasgo de presunção que nem sempre conquista a simpatia de quem lê.

    A visão purista da escrita também me dá alguma comichão; João Tordo dá-nos a entender que o escritor é quase refém do seu próprio ofício, que é a escrita que lhe comanda a vida e não o contrário – e que só assim será bem sucedido. Não sei se a visão é partilhada pelos seus colegas de trabalho (já li alguns, mas não muitos, manuais deste género), mas não me consigo identificar com ela. A verdade é que a minha opinião vale o que vale: apesar de sonhar publicar livros, nunca esteve nos meus planos fazer da escrita a minha fonte de rendimentos exclusiva – e, até agora, não publiquei nada, não me podendo considerar uma escritora, embora tenha escrito muitos milhares de palavras ao longo destes anos (mas guardo com carinho algo que Tordo escreve quase no fim da obra: “Faz a ti próprio esta pergunta à maneira de Rilke: Preciso de escrever? E, caso a resposta seja positiva e sincera, então podes chamar a ti próprio «escritor», mesmo que nada tenhas publicado.”)

    Tirando estes dois pontos, achei muito interessante o enfoque de alguns aspetos pessoais que os autores nem sempre mencionam neste tipo de obras: a dificuldade que é viver da escrita (e as cedências que temos de fazer para viver dela), a relação com a crítica e a maneira de retirarmos o melhor dela e, uma coisa que gostei em particular, a ligação normalmente próxima que os escritores têm com drogas e álcool, que embora a curto prazo possam parecer trazer inspiração, a longo prazo só trazem desgraça. A escrita é leve e rica em exemplos, muitos deles retirados dos livros e da experiência do próprio autor (algo que neste tipo de livros nem sempre é fácil, baseando-se tudo em citações de outros e ideias bonitas mas pouco concretas).

    O facto de ser escrito por um autor português é um ponto positivo – e vai direitinho para a prateleira ao lado do “Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão”, do Mário de Carvalho, que considero que vai muito na onda deste livro do João Tordo. É um livro para se ir pegando de vez em quando – talvez no dia em que me decida a escrever um livro de fio a pavio, talvez numa altura em que duvide de mim própria e destas minhas ambições literárias ou simplesmente numa altura em que me apeteça reler algumas das passagens que mais me inspiraram.

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  • A capa da Women’s Health: inspiração ou frustração?

    Nas últimas semanas meio mundo ficou de queixo caído com a transformação da “youtuber do momento”. Helena Coelho passou de uma rapariga perfeitamente normal a uma mulher mega fit e capa de revista, com um tanquinho à maneira e um rabo de fazer inveja às inimigas. 

    Nunca fui sua seguidora mas, no meio de tanto burburinho, tive de ir espreitar a Women’s Health. No meio da pesquisa vi alguns dos seus insta stories onde contava tudo sobre o seu processo de transformação, dizendo que foi duríssimo, que teve de se aguentar imenso para não comer o que os outros comiam e que não era nada fácil resistir a certas tentações. Mas que, naquele momento, se sentia a mulher mais feliz do mundo.

    Devo, desde já, dizer o seguinte: o corpo “inicial” da Helena Coelho (ou, talvez, o correspondente à segunda foto que conseguem ver abaixo) era o corpo que eu desejaria para mim. Não acho as mulheres muito musculadas particularmente bonitas. Gosto, sim, de ver um corpo tonificado, sem nada a abanar. São gostos, não se discutem, mas é um disclaimer importante tendo em conta o que vou dizer aqui para a frente.

    Faz-me impressão que numa altura em que tanto se fala na normalização e aceitação do corpo da mulher, aquela seja a imagem do corpo perfeito. Aliás, o pior para mim é que o antes (aquele que eu considero mais bonito, com formas) seja considerado “o mau”. Como é que depois podem vir para as redes sociais dizer que todos os corpos são lindos, que “para ter um corpo de praia basta ter um corpo”, quando depois se apresentam assim? É lógico que 98% das mulheres se sente frustrada, compreendendo imediatamente que não tem um corpo à altura.

    Uma coisa eu não nego: a Helena é uma inspiração, um exemplo de força e de superação. Tinha um objetivo – com o qual eu posso ou não concordar, gostar ou não gostar – e conseguiu atingi-lo. É de louvar! Mas faz-me confusão que só se tenha em conta o resultado e não o percurso; acredito que ao olhar para aquela primeira página nas bancas de todo o país, o dia de lançamento tenha de facto sido um dos mais felizes de sempre. Mas penso que este tipo de comportamentos têm de ser vistos a longo prazo: aquele estilo de corpo só se mantêm com uma alimentação sempre regrada, com a prática de exercício diária e planeada. Senão, ao fim de um mês, desaparecer e não passa daquilo: um momento, uma fotografia bem tirada com as sombras nos sítios certos. Se ela fala no período de mudança como algo duro, em que não pôde comer aquilo que lhe apetecia e em que tinha de treinar em dias em que essa não era a sua vontade… o impacto que isso teve, nesses dias, não conta? Só conta o resultado final?

    Do meu ponto de vista, as pessoas que conseguem manter este tipo de corpo durante longos períodos de tempo são aqueles que são realmente felizes a fazer desporto, que o fazem até por necessidade (dizem que o “corpo pede”), porque foram habituados assim desde cedo. De resto, para a maioria, este tipo de vida é um sacrifício. Se assim naõ fosse não havia tantas pessoas gordinhas; não havia tantas desistências nos ginásios. Fazer exercício depois de um dia de trabalho particularmente mau é difícil. Comer uma salada quando os outros estão a comer pizza é difícil. E é assim para, sei lá, 98% das pessoas! Os outros 2% são de facto tão poucos que eu, assim de repente, só me lembro da Carolina Patrocínio. De todos os outros – desde famosos a conhecidos meus, que já atingiram objetivos do género -, recordo-me sempre de os ouvir dizer (e mesmo de ver com os meus próprios olhos) que aqueles corpos não passam de momentos (sessões fotográficas, provas, etc.), resultantes de um esforço particularmente intenso e que não é normalmente prazeroso. 

    O que quero dizer é que uma capa daquelas faz a maioria das pessoas sonhar. Diz a Helena que o objetivo é fazer as pessoas acreditarem que conseguem. E é verdade que sim. Mas a que custo? Será que o custo-benefício vale a pena? Rotular aquilo como “o bom” e “o bonito” só vai fazer com que as pessoas que não conseguem lá chegar – e todos sabemos que são a esmagadora maioria – se vão sentir frustradas e, provavelmente, relacionar-se ainda pior com o próprio corpo. E é assim que uma capa que devia ser uma inspiração se transforma em mais uma forma de sentirmos que nos esfregam na cara aquilo que nós próprios não conseguimos.

     

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    (retirado do instagram da Helena Coelho)

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  • Chávena de letras: “O Bibliotecário”

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    Este é um bom livro de verão – uma obra leve que não exige muito de nós, que dá sempre vontade de virar a página e saber o que conta o capítulo seguinte. É um thriller com uma cadência cativante, que não deixa grandes margens para ficarmos entediados ou termos vontade de pousar o livro. Para os fascinados pela história do antigo Egipto deverá ser uma obra ainda mais entusiasmante, onde a verdade, a ficção e algumas teorias da conspiração se misturam num enredo que só por si já é atrativo. Nota-se uma preocupação do autor em contextualizar e precisar alguns pontos históricos, o que faz com que para além de mero entretenimento, possamos sair desta leitura mais ricos.

    Ponto positivo a focar: o facto da personagem principal ser uma mulher que não se detém pelo medo do desconhecido e é levada pela vontade de conhecer mais. Pontos negativos: apesar de adorar a Emily, ela parece um bocadinho lerda inicialmente, não percebendo a dimensão do esquema em que se encontra e caindo em esparrelas básicas. Nota negativa também para a tradução: ao longo do livro há várias falhas – palavras não traduzidas, outras mal escritas, frases com uma formulação dúbia e pouco cuidado em alguns trechos, onde por exemplo se notava a repetição da mesma palavra numa só frase.
    Fora isso, é um livro giro que bem entretém.

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  • O dia da perda de um amigo de quatro patas

    Há dias que não nascem para sermos felizes. Às vezes sabemo-lo como dado adquirido, outros sentimo-lo, noutros estamos simplesmente às escuras e, durante o decorrer daquelas 24 horas, damos de caras com qualquer coisa que nos faz querer não nos termos levantado na cama nessa manhã. Mas os dias são para se viver – mesmo os tristes.

    E hoje é um deles.

    Hoje disse adeus ao guardião mais antigo de minha casa. O Tomé faria 11 anos em Novembro, estando connosco há mais de uma década. Nasceu com um problema na anca e os quase 70kg que carregava todos os dias (não por ser gordo, mas por ser enorme) não ajudaram a que tivesse uma vivência fácil nos últimos tempos. Chega uma fase em que é difícil balançar o nosso sofrimento, por o vermos assim, com o sofrimento deles; eles não falam, não conseguem exteriorizar de forma precisa a dor que sentem, e nós deixamo-nos levar por uma pontinha de egoísmo que nos diz que “amanhã ele estará melhor”, tentando adiar o inadiável mais um só dia – e fazendo o melhor possível, puxando por ele, cuidando dele e festejando as suas vitórias como se fossem as nossas. Até ao dia.

    O dia foi ontem – o da decisão. O dia foi hoje – o da perda. Decidir a morte de um cão é mau; mas pior é vê-lo a perder a vida em frente aos nossos olhos. É uma dor que temos por garantida no dia em que um cachorro vem para nossa casa, mas para o qual nunca estamos preparados – muito menos se temos de decidir por eles a hora de partir.

    Guardo do Tomé o seu instinto de proteção – tão grande como a sua teimosia. Não me esqueço das primeiras vezes que fui tomar café à noite e ele me esperava religiosamente no portão, só indo dormir para o seu posto quando eu chegava a casa. E acho que recordarei sempre, pelo menos enquanto todos à volta da mesa nos rirmos, das vezes em que ele foi confundido com um animal selvagem – quando uns estafetas vieram fazer uma entrega mas não passaram do portão, alegando que “não era legal ter leões em casa”; das vezes em que fugiu, assustando as pessoas de cada vez que irrompia pelas suas casas adentro, deixando-as – e muito confusas – perante o enorme intruso que tinham à sua frente. Já para não falar da altura em que o tosquiamos e enganamos toda a gente, dizendo que tínhamos adotado um cão que estava perdido na rua – e os outros, para além de acreditarem, ainda acrescentavam: “coitadinho, é tão feiinho, mas tem um ar tão feliz!”. 

    O Tomé não era o rei da selva, mas era o rei lá de casa. Amuava quando íamos de férias, não nos dirigindo sequer o olhar, e era subtilmente comprado pelo meu pai depois deste lhe oferecer uma bandeja de costelinhas, prontas para ele destroçar com os seus caninos de quase-leão. Se isso não é de rei, o que será?

    É muito fácil que, nestes momentos de dor imensa, tenhamos a tendência de só olhar para o presente (e até perspectivar o futuro). Muita gente diz não querer passar por isto outra vez, recusando-se a voltar a ter um animal de estimação – mas olhando para a balança, o que valeu mais? Os dez anos de alegrias, de peripécias e mimos ou este momento? Para mim compensa sempre a vida e os momentos que partilhamos com cada um deles, mesmo que a dor da despedida seja imensa.

    O Tomé partiu hoje mas fará sempre parte da nossa história e da nossa casa. O seu rugido e andar característicos de leão, as suas patas gigantes, o seu carinho e lealdade, os seus olhos doces e focinho gigante deixarão saudades por entre aqueles muros e as paredes do nosso coração. Que agora viva sem dor e corra livremente pelos jardins fora, como fazia dantes.

     

    Tomé
    24 de Novembro de 2009 – 8 de Julho de 2020 

     

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  • Não pode haver verão sem pão com chouriço – !ajuda é necessária!

    Num ano normal eu já estaria a fazer contas à vida, por entre calendários, planos de fim-de-semana e fins de tarde (que passariam dissimulados por “jantares ligeiros”). Já estaria a fazer reconhecimento no terreno, a programar onde estacionar nos dias de mais confusão. Já teria marcado na agenda os dias de começo e fins de festa – e agilizado até as minhas férias, qual gincana, de forma a poder ir passear e simultaneamente parar nas romarias e feiras medieval que existissem pelo caminho. Já estaria a salivar com antecedência.

    A primeira semana de Julho marca o início dos meses-do-pão-com-chouriço do meu ano, que só terminam em meados de Setembro, com a última feira medieval que acontece nas redondezas. Durante dois meses o objetivo é trincar o maior número de pães com chouriço possível, e quiçá mistura-los com umas boas papinhas de sarrabulho e uns crepes recheados com doce de frutos vermelhos ou maçã com canela, feitos sob caldeirões de fogo. 

    Mas este ano não. 

    Este não não há papinhas de sarrabulho em bancos corridos. Não há crepes gigantes embrulhados em guardanapos de papel. E, mais do que tudo, não há pães com chouriço. 

    Eu não quero saber das tatuagens de hena, das barracas de gomas ou sequer dos doces conventuais. Não quero saber das banquinhas onde os árabes vendem perfumes e roupas inspiradas no deserto, dos brinquedos de madeira, das velas, dos incensos ou dos cheirinhos. Não quero saber da ginginha e nem sequer do copo de chocolate. Não quero saber da bijutaria arcaica nem dos nomes escritos em árabe. Não quero saber de farturas ou churros. Só para verem: já nem quero saber dos burrinhos, das cabras ou dos porquinhos! Na loucura, até dispenso as papas e os crepes.

    Mas e os pães com chouriço? Como é que eu vou sobreviver sem trincar aquele pãozinho acabado de sair do forno, a fumegar como quem implora por ser comido? Como é que vou conseguir passar um verão sem sentir aquele calor a invadir a minha boca – e a minha alma! -, à medida que vou trincando aquela massa mal cozida? Como é que se faz um verão sem pão com chouriço? Mais: como é que se consegue ser feliz sem ter pão com chouriço à mistura?

    Soluções como “há pão com chouriço à venda no Continente” não são aceites. Mais: são consideradas uma heresia! Quem compara uma coisa com outra não sabe distinguir o bom do mau; a realidade e a imitação. Não sabe o que é sentir a fuligem do forno de lenha na crosta do pão nem o cheirinho da gordura do chouriço deixada na sua massa. Diria que, quem diz ou acha tal coisa, não devia ter direito a papilas gustativas, pois não lhes sabe dar o devido valor.

    Por isso, almas-caridosas-com-gostos-gastronómicos-decentes-que-não-se-contentam-com-coisas-de-supermercado, digam-me: onde é que, neste país, eu consigo encontrar aqueles pães com chouriço que se vendem nas romarias, principalmente o pão com chouriço do Marco de Canaveses? Na terra que lhe dá nome há alguma padaria que seja famosa por ter destas delícias à venda, sempre quentinhas e fresquinhas? Ou é tudo marketing para enganar esta velha alma gulosa? 2020 já está a ser mau o suficiente – e não poder comer nem um pãozinho com chouriço faria dele, sem dúvida, um ano para enterrar até à eternidade.

    Ajudem!

     

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  • Uma carta à…. #5 Mimosa

    Querida Mimosa,

    Sei que não me tens em grande consideração depois de ter dito, há um ano e tal, que as natas da Longa Vida eram incomparavelmente melhores que as tuas (não mencionei nomes, mas é fácil servir-te a carapuça, uma vez que são vizinhas de prateleira).

    Gostava que a nossa relação melhorasse a partir daqui e acho que a lição que é importante tirar do nosso pequenininho incidente é que cada um é bom em diferentes coisas – e se as natas da Longa Vida são, sem sombra de dúvida, as melhores do mercado, já os seus iogurtes frutados são tão desenxabidos como o queijo Filadélfia que potencialmente também vende. Estás a ver? Isto é só uma questão de procurar… E eventualmente cai para cima de todos 😉

    Dito isto, e agora que já avançamos na nossa relação, gostava de falar sobre os teus iogurtes magros. São óptimos, os meus preferidos. Mas quem te diz que eu gosto simultaneamente de morango-kiwi, banana e pêssego? Ou côco e morango? Ou morango-kiwi e manga? Esta tua mania de tentar prever combinações de sabores que agradam às papilas gustativas dos teus consumidores é um bocado chata. E a verdade é que nem toda a gente tem a mesma sorte que eu. No frigorífico lá de casa as embalagens são divididas irmãmente: o homem come tudo o que meta morango, eu devoro tudo o resto. Mas e quem vive sozinho? E quem não tem uma cara metade que coma, literalmente, metade do pacote?

    As questões que se colocam são então estas: porque é que o morango tem de estar sempre metido ao barulho? Porque é que o pêssego, a banana, a manga ou o côco não podem ser livres e independentes, tendo sempre que estar acompanhados com aquele fruto vermelho que mais parece um pau-de-cabeleira? São maiores e vacinados, já correm mundo há muitos anos, e está na altura de lhes dar espaço, quais filhos crescidos. Eu quero iogurtes de banana. E de côco. E de pêssegos. Sozinhos. Aos pacotes e sem packs. Não quero ter de espiar constantemente o frigorífico para ver se o meu namorado já comeu os iogurtes-pau-de-cabeleira, para poder comprar uma embalagem nova. Eu, tua consumidora fiel, exijo a independência dos sabores mais irreverentes. E como sou amiga, para poupares algum dinheiro no processo criativo e continuares na tua linha de combinações, ajudo já com a promoção dos iogurtes de banana (sou suspeita, pois são os meus favoritos!). Ora cá vai:

     

    Iogurtes de Banana

    Combina bem com tudo

    Até com uma bifana!

     

    Se isto for muito arrojado, aí vai um comercial mais soft…

     

    O bom sabor de Verão

    Agora com independência

    O clássico sabor a banana

    A compensar estes anos de ausência!

     

    Posto isto, e tendo em conta toda a ajuda que já disponibilizei, aguardo ansiosamente junto às prateleiras dos lacticínios.

     

    Até lá, sempre vossa (menos no que diz respeito às natas, mas isso são mágoas do passado),

    Carolina

     

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