• O poder das power naps

    Dezembro está a matar-me. Acho que enquanto me lembrar não torno a meter-me em empreitadas nesta altura do ano. Tenho a minha vida pensada, planeada e contada ao minuto e tento fazer o milagre de cumprir os prazos a que me propus (ou que, no caso do trabalho, sou obrigada). Um conjunto de eventos e acontecimentos aglomeraram-se nesta altura e eu nunca senti esta época passar tão rápido. “Não respiro” desde Novembro e, pior, sinto que este tempo de festas que tanto adoro me está a passar ao lado, porque nem tenho tempo de olhar em meu redor.

    Mas enfim, agora não há muito a fazer. Espero que o Natal em si seja fenomenal e que o meu projeto esteja milagrosamente concluído nessa altura e que melhore ainda mais este dia especial. Mas até lá preciso de sobreviver ao meu próprio cansaço, o que não está fácil.

    Eu preciso de dormir umas oito horas por noite para me sentir bem no dia seguinte e evitar cair no sofá para uma sesta durante a tarde. Não sei se isto é uma fase ou um padrão que se irá manter na vida adulta, mas o que eu sei é que antes dormia menos e aguentava-me bem durante o dia. Mas pronto, uma pessoa vai envelhecendo, já não é o que era, e agora preciso de umas horas reparadoras para me sentir em condições. (Um aparte: é estranho, mas na minha cabeça o facto de uma pessoa dormir muito é pouco algo dignificante, de que se tem orgulho, quase como se a pessoa fosse muito mais ativa por ter mais tempo e dormir menos. Como quem diz: durmo menos que tu, sou menos preguiçoso, e faço ainda mais! Lembro-me de, lá pelo oitavo ano, adorar dizer as horas que dormia – que eram poucas – porque me sentia muito crescida. Sou só eu que tenho/tinha este estigma parvo?.)

    Mas o tempo não estica e eu tenho roubado horas ao sono para conseguir fazer tudo o que preciso. Isto resulta, no dia seguinte, em cansaço e, como bónus, em mau humor e numa Carolina muito mais emocional. E eu sei que aquilo é sono, mas não consigo evitar ter determinadas reações. Mas se não há tempo para dormir de noite, muito menos tempo há para descansar de tarde, pelo que só tenho uma saída: as power naps. Depois do almoço encosto-me quinze a vinte minutos e quando acordo sinto-me incrivelmente melhor.

    Já naquela altura em que dormia pouco esta era uma técnica a que recorria – sonos desfasados, quando tinha tempo e sono para isso. Movia os meus tempos de sono quase como blocos e encaixava-os na parte do meu dia em que me era mais conveniente. Nestes dias tenho aproveitado a hora de almoço para descansar e tentar utilizar aqueles minutos que, apesar de preciosos, não são em quantidade suficiente para eu de facto fazer algo significativo. Por isso durmo – e bem! – e tem-me sabido pela vida. É estranho como apenas 20 minutos chegam para nos restabelecer parte da energia, pelo menos pensando a curto prazo.

    É um bocado chato porque custa adormecer e, quando isso acontece, parece que acordamos logo a seguir, por o tempo ser tão curto. E isto faz com que acordemos estremunhados e aparentemente ainda mais cansados mas, depois de passarem aqueles primeiros cinco minutos, eu sinto-me muito melhor que antes. Para mim, é absolutamente milagroso. E cheira-me que até ao dia de Natal, vão ser os meus únicos minutos de descanso durante o dia.

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  • Review da semana 22#

    Os novos bodies com caxemira da Intimissimi

     

    Acho que toda a gente já sabe que eu sofro horrores com o frio – aliás, eu sou provavelmente a blogger da história que mais escreveu sobre coisas relacionadas com este tópico. Para além de me queixar do meu sofrimento graças a temperaturas aparentemente amenas ou “só-frias” que me parecem negativas, também já escrevi muito sobre a moda que não respeita as pessoas friorentas ou simplesmente sobre gadgets e produtos que foram feitos para pessoas como eu.

    Tenho evitado vestir-me com 31 camadas de roupa, escolher casacos bem quentes e acima de tudo relaxar – há cerca de um ano vi um vídeo que dizia que uma das coisas que faz com que sintamos ainda mais frio é o facto de estarmos sempre muito contraídos e encolhidos, pelo que devíamos fazer exatamente o contrário. E apesar de ser difícil – eu já “sou” naturalmente encolhida – tenho tentado e, de facto, é algo que funciona. Mas não faz milagres, por isso a roupa é mesmo a arma mais forte que tenho contra este flagelo digno do pólo norte.

    Também no ano passado comecei a usar bodies, clássicos, de manga caviada, para tentar contrariar o frio. É uma óptima solução para não termos de pôr uma camisola extra por debaixo do camisolão, mas a falta de mangas e o conforto das rendas e daqueles materiais mais abertos não é igual ao de uma malha. De qualquer das formas, é óptimo para nunca termos pele de fora – não há sensação mais horrível do que baixarmo-nos para apanhar qualquer coisa, as camisolas subirem e ficarmos com as costas expostas e disponíveis para congelamento imediato.

    Mas este ano descobri um 2 em 1 magnífico: os novos bodies de modal e caxemira da Intimissimi. Confesso que foi através de um anúncio que vi na televisão – é verdade, nós bem que os tentamos evitar, mas eles ainda funcionam – e pouco depois fui lá a loja experimentar, para ver se de facto era tudo aquilo que apregoavam. Desenganem-se: os bodies não são de caxemira! Há uma diferença entre “ser de caxemira” e “ter caxemira” e esta peça inclui-se no segundo caso: o que não deixa de ser óptimo. O toque deles é muito macio, muito leve e fino, mas têm uma boa capacidade de aquecimento, sendo muito confortáveis e não nos deixando com aquela sensação de sermos uns pneus ambulantes. São todos de manga comprida (yey!) e há versões de gola alta e gola redonda – e ainda há, penso eu, umas camisolas feitas com a mesma malha. Só peca pela falta de cores claras, para funcionar em perfeição com todas as peças: só tem preto, azul marinho e cor de vinho.

    Vou esperar que isto seja um best-seller de vendas e que eles passem a fazer diste um clássico, com todas as cores e mais alguma, tal como têm as cuecas e os soutiens. Se assim for, têm aqui uma fã incondicional.

     

    body intimissimi.jpg

     

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  • Sou uma fã controlada de Game of Thrones

    Detesto ser uma info-excluída. E, como tal, há coisa de um ano comecei a ver Game of Thrones. Isto porque sempre que passa uma nova temporada o meu facebook tem, post-sim-post-não, algo relacionado com a série; nos ajuntamentos de família a malta da minha idade só fala da Daenerys, da Sansa e do John Snow – e o mesmo acontece com os poucos amigos que tenho. E eu detestava não perceber nada daquilo, não conhecer os nomes nem a história, por isso só tive uma solução: começar a ver a série.

    Há um ano vi duas temporadas de uma só assentada mas entretanto parei. Já antes disso tinha comprado os dois primeiros livros da saga e disseram-me que se eu começasse a ver a série nunca mais ia pegar neles, pelo que esperei que uma vontade divina de ler me assolasse a alma… mas não aconteceu. Os livros continuam ali, intocáveis, até porque não tenho lido praticamente nada e não tinha qualquer força de vontade de ler algo “mastigado”. 

    O ano foi passando, sem grandes notícias da série, mas quando chegou o verão… boom. Eram spoilers por todo o lado, a mesma quantidade incrível de entrevistas e artigos no meu mural do facebook, conversa entre-cruzadas de pessoas sobre as personagens e as ocorrências dos últimos episódios e eu ali parada na segunda temporada, sob as perguntas impressionadas das pessoas: “mas ainda só vais aí?”.

    E pronto, fiz-me ao caminho. Vi a série toda. E sim, gostei, mas não consigo sentir aquela maluqueira toda que as pessoas parecem transparecer. Um amigo meu dizia e eu acho que tem razão: o facto de eu ver a série de uma assentada, de ter os episódios ali à minha mercê, de os poder ver quando quiser e nas quantidades que bem me apetecer, tira um bocado a piada, a essência e a magia daquilo. Porque, na verdade, muito do que é Game of Thrones faz-se pela espera, pelo suspense, pelas expectativas – principalmente tendo em conta que as temporadas são curtas e o tempo de espera entre elas é longuíssimo. 

    Durante todos estes anos em que não vi a série também fui “recolhendo” spoilers (algo que, confesso, não me afeta muito…), pelo que já sabia quem sobreviveria à matança submetida pelo George R. R. Martin, apesar de não saber porquês nem o decorrer da história. Talvez por isso nunca me afeiçoei a nenhuma personagem que tivesse sido morta nem nunca fui arrebatada pela violência de um episódio. Simplesmente era aquilo e eu aceitava-o, sem grandes revoltas ou espantos – o que pode ser normal em qualquer outra série, mas nesta é no mínimo estranho.

    Isto pode querer dizer que não vivi a série da melhor forma – ou, pelo menos, da forma clássica – mas foi o que foi. Acho-a fenomenal e aconselho-a a quem goste do género, embora a ache pesada em muitos aspetos. Vi sempre os episódios antes de dormir e por vezes dava por mim a pensar “se calhar não devia ter visto isto, ainda vou ter pesadelos”. Nunca aconteceu. Pelo meio desenvolvi uma paixoneta pelo John Snow (devia ter juízo, não é?) e agora espero ansiosamente, tal como os comuns mortais, pela última temporada. Acho que só aí é que vou poder viver isto com a intensidade com que todos os outros viveram até agora. Ou então não… talvez eu simplesmente já não me surpreenda com nada do que vem daquela mente terrífica do George R. R. Martin. A ver vamos. 

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  • Os filmes podem ser chatos, mas são uma cópia da vida

    Desde muito cedo que me recordo do meu pai de máquina na mão, a tirar fotografias ou a filmar todos os eventos importantes de família, ajuntamentos, ocasiões engraçadas ou simplesmente momentos do dia-a-dia. Sou uma privilegiada por ter fotografias e vídeos de todas as fases da minha vida – mesmo aquelas em que eu não gostava de ser fotografada! Mas de uma forma gradual acabei por ser eu a ficar com a câmara na mão: primeiro porque sempre gostei de fotografar, depois porque tirei um curso e me acho com competências suficientes para tirar boas fotos e porque, tenho de admitir, eu sou muito chata e passo a vida a dizer para o meu pai não tirar fotos com a câmara dele, para tirar com a minha que é melhor, e isto e aquilo – o que acaba, ainda que não propositadamente, por fazer com que a tarefa recaía sobre mim.

    Mas, se repararem, eu referi-me sempre a fotos. Eu tiro fotos e adoro tirar fotos. Mas vídeos – outra das coisas que o meu pai fazia imenso – não é a minha praia. Sinto-me capaz de filmar alguma coisa de forma decente, se necessário, mas não é daí que retiro grande prazer. E nem é tanto por filmar, mas mais por depois por ver os filmes; porque a verdade é que eu acho sempre os filmes um tanto ao quanto entediantes – inclusivamente aqueles que eu faço! Acho que quando estamos com uma câmara na mão, e como somos incapazes de prever o futuro, vamos filmando e filmando até termos algo digno de aparecer no nosso filme; algum conteúdo bom, algo que pensemos “isto vai ser giro de ver daqui a uns anos” – mas, nisto, passaram-se minutos. Minutos de pessoas a fazer a mesma coisa, minutos de conversa fiada que não interessa a ninguém, minutos a ver as crianças a descer nos escorregas do parque aquático, minutos a observar o não-sei-quem a dar os primeiros passos, minutos a ver a muda da primeira fralda. E se somarmos todos estes minutos, em todas estas ocasiões… são mesmo muitos minutos. E quando pegamos em cassetes ou CD’s antigos para ver, as primeiras filmagens passam-se bem, mas depois quase nunca resistimos em pegar no comando e clicar no forward, à procura de conteúdo que capte a nossa atenção.

    E é por ter consciência disso – por perceber que a menos que exista um cuidado imenso da parte de quem filma e posteriormente na edição, os filmes são uma seca – que eu praticamente não faço filmes. Mas nas últimas semanas tenho-me apercebido que faço mal que, apesar da fotografia ser a minha real paixão, eu não devo deixar as filmagens de lado. Porque apesar de ter passado dezenas de horas embrenhada em filmes caseiros, da vida corriqueira da minha família onde muitas vezes nada de especial se passava, reconheço agora que tudo aquilo é um privilégio. Há coisas que as fotografias não captam e que só os filmes passam realisticamente. Os maneirismos, os tiques, o movimento, a forma de sorrir, a forma de sentar ou de cruzar a perna, o movimento das mãos de alguém. E a voz! Ouvir a voz de alguém que já faleceu, quase como se ainda estivessem cá… é quase irreal. Infelizmente os meus avós maternos morreram quando eu era pequena o suficiente para não me recordar e tudo o que eu sei sobre eles, em termos físicos, foi graças aos filmes que vi, muito mais do que as fotografias.

    Continuo a achar que ver filmes pode ser entediante, mas cada vez mais percebo que as partes “chatas” destes vídeos são, na verdade, a parte realística da coisa. É a vida a passar, o dia-a-dia. O menino a brincar, a menina a dormir, a senhora a estender a roupa; os aniversários, os natais, as passagens de ano podem ser mais divertidas e bagunçadas que tudo isto, mas os momentos do banho, da sesta, os primeiros passos, as primeiras palavras ou um passeio no jardim não deixam de ser mais importantes. 

    Vou passar a filmar mais para que um dia, se algum dos meus sobrinhos (ou eventualmente, ainda que pouco provavelmente, um filho meu) se lembrar de fazer algo parecido com o que eu estou a fazer por estes dias, se possa lembrar das nossas vozes, das nossas maluqueiras, mas também da calmia das nossas vidas.

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  • A competição anual de luzes de Natal está em decadência

    Não sei como é que é aí na vossa vizinhança, mas numa das ruas perto de minha casa há claramente uma competição anual de luzes e enfeites de Natal – ou havia, até agora. Todos os anos, sempre pela mesma altura, lá começam a aparecer as luzinhas, as grinaldas, os pais-natal a subir parede acima, as renas a entrar pela janela, os arbustos a piscar no jardim e os corrimões pintalgados a LED’s. E não é só o facto de coincidirem na altura de colocar os enfeites que me leva a crer que tudo isto é um concurso organizado, com direito a mesa de voto e até assembleia: todos os anos há um tema aparentemente comum entre todas as casas, o que faz parecer que até há um regulamento pré-planeado!

    Ora são os pais-natal mais gordos e as escadas mais rebuscadas; ora são as luzes mais pirosas com as cores mais garridas que se encontram nas lojas dos chineses, com formas de colar ao vidro tais como flocos de neve, estrelas ou até mesmo corações – não fosse o Natal a época do amor; ou, como este ano, os animais natalícios, que foram fazer companhia aos cães de loiça que já moram naquelas varandas durante o resto do ano.

    Estamos a falar de pequenas moradias, quase todas elas com um pequeno jardim à porta e pelo menos dois andares, pelo que podem caprichar: enchem as plantas de luzes, utilizam os corrimões das escadas para colocar enfeites fora da caixa e até dão toques dramáticos, fingindo que os pais-natal estão a cair acidentalmente pela varanda abaixo. As inspirações dos filmes americanos podem ser muitas, mas o céu é o limite.

    Mas este ano estou triste: aparentemente uma das casas deixou de participar na luta, pelo que a rua está menos iluminada e, consequentemente, menos pirosa. Dei por mim a pensar que não conheço quem lá vive, mas já me tinha afeiçoado a toda esta dedicação na época natalícia – mesmo nunca tendo sido convidada para votar nas melhores decorações do ano, o que não deixa de ser ultrajante, sendo eu uma fã incondicional há vários anos. Mas enfim: a única rena na área está solitária, o arbusto ofusca todas as plantas à volta e o pai-natal está a escorregar pela parede fora, de tão magrinho que é. Uma casa foi-se e todas as outras parecem ter perdido o ânimo. É o que dizem: as tradições já não são o que eram. 

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  • Duas considerações sobre a rádio

    Já há muito tempo que ando para escrever isto, mas nenhuma das ideias é grande e desenvolvida o suficiente para escrever um post indivídual sobre cada uma delas. O tema de ambas é a rádio. Isto porque há muitas coisas na rádio atual que me irritam e outras que eu simplesmente acho curiosas, pelo que me surgem muitas vezes ideias para dissertar sobre este tema. Apesar de estar sempre sintonizada, não sou fiel a nenhuma estação: salto entre a Comercial e a Mega Hits (as principais) e a Cidade e a RFM. Quando só passa publicidade – o pior praga das rádios hoje em dia – ou simplesmente não estou no mood, ligo a pen que tenho com músicas e venho o caminho todo ao som da minha própria banda sonora. Mas enfim, vamos aos dois pontos que hoje quero abordar:

     

    1) O conceito de músicas “novas”. De cada vez que um locutor da Rádio Comercial anuncia uma música nova eu tenho vontade de mandar um murro eletromagnético, que atravessa o éter, e chega diretamente à bochecha do dito radialista. Isto porque a música nunca – mas nunca! – é nova. Ela pode ser nova na Rádio Comercial, mas não é nova para o resto do mundo. Acho que ainda hoje eles chamam à “Too Good at Goodbyes” a “música nova do Sam Smith”. E daqui a um par de meses, quando a “Pray” virar single ou sucesso de vendas – porque tem qualidade para tal – voltará a ser a “música nova do Sam Smith”, ainda que já tenha saído num álbum que, na altura, já terá saído há meio ano. Isto não acontece em todas as rádios – na Mega Hits, a rubrica “Lugar às Novas” tem de facto conteúdos inéditos para os meus ouvidos – mas na Comercial é todos os dias. E é irritante. Porque isso não são músicas novas – são os hits do momento!

     

    2) Os vídeos. Percebo perfeitamente que hoje em dia as rádios – como tudo, aliás – tenham de estar presentes em todos os meios e redes sociais. É através deles que vejo muitos dos seus conteúdos, quando não os consigo ver em direto. Mas, para mim, a rádio perde a magia quando eu a vejo em vez de só a ouvir. E isto acontece com quase tudo, mas principalmente com a Mixórdia de Temáticas, onde apanho um balde de água fria quando me lembro de ver um vídeo em vez de ouvir o podcast. Adoro o Ricardo Araújo Pereira mas não seguia esta rubrica com particular atenção: quando ouvia, óptimo; quando não ouvia, também não ia procurar. Mas por vezes aparecia-me o vídeo no feed do facebook ou alguém me mandava por achar que eu ia gostar e o meu pensamento é sempre o mesmo: parte da magia da rádio desaparece. Isto porque vejo que ele está a ler – assim como todos os outros, em participações que parecem naturais e espontâneas quando se ouve na rádio – e que tudo aquilo, afinal, é mais do que pensado. E é lógico que eu sei disso, sei que tudo aquilo é escrito ao pormenor para ter piada, mas quando uma pessoa está no carro, concentrada no trânsito e a ouvir aquelas histórias como pano de fundo, descentra-se da irrealidade de tudo aquilo. E é aí que está a magia e é essa a receita do sucesso: tudo parecer tão natural que tem mesmo muita piada. Não sei se há mais pessoas como eu mas esta é a razão pela qual eu, de uma forma geral, evito ver os vídeos daquilo que se passa por detrás dos microfones e prefiro usar a minha imaginação (ou capacidade de abstração) enquanto ouço o que se passa do outro lado. Até porque, como quase sempre, as imagens que criamos na nossa cabeça são normalmente muito melhores que a realidade.

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  • Eu julgo as pessoas pelos seus carrinhos de compras

    Julgar é feio, eu sei. Mas, na verdade, isto não se trata bem de um julgamento: é mais um conjunto de ideias, características e histórias que eu obtenho através daquilo que as pessoas levam nos seus carrinhos de compras e pela forma como agem quando estão numa fila de supermercado – e, em minha defesa, posso também dizer que faço o exercício inverso. Ou seja, penso muitas vezes “o quê que as pessoas pensariam de mim perante os produtos que tenho aqui em cima do tapete?”

    Isto depende muitos dos dias, do meu estado de humor, da má-língua e até do tipo de compras. Sobre aquelas pessoas que compram poucas coisas – muitas vezes aquisições de última hora ou os ingredientes para o jantar – eu tento adivinhar quais os pratos que vão sair dali; em compras mais substanciais, tento mesmo decifrar o estilo de pessoa, passando primeiro pelos produtos e depois para uma avaliação superficial do próprio indivíduo. Vejamos algumas das categorias que costumo encontrar:

    Os saudáveis (onde se incluem também as fit, que não são necessariamente saudáveis, mas pelo menos parecem): o carrinho está frequentemente recheado de proteínas, carnes brancas, skyrs, óleo de coco, aveia e coisas assim; esta é talvez a tipologia mais rara.

    Os “não-saudáveis”: estas não são, necessariamente, as que trazem mais gordices no carrinho, mas sim aquelas pessoas que às vezes têm filhos e lhes levam pacotes de todos os cereais possíveis – estrelitas, chocapic, kellogs com frutos vermelhos -, iogurtes gregos de caramelo, bolachinhas dos crocodilos, rissóis e pizzas congeladas. Dou sempre por mim a pensar “será que esta senhora sabe a quantidade de açúcar que está naqueles cereais?” e na falta de clareza que há neste sentido, não sendo este um julgamento necessariamente pejorativo (no sentido de pessoas gordas, por exemplo) mas sim de alguma desinformação.

    Os gulosos: estes, ao contrário dos não-saudáveis, sabem bem o que levam no carrinho – e que, no caso das mulheres, se vai transferir diretamente para as ancas e, no caso dos homens, para a barriguinha. Chocolates, gomas, sugos, gelados. Tudo uma maravilha… mas não há bela sem senão, e nós sabemos disso.

    Os caça-promoções exagerados: detetam-se à distância através dos carrinhos estilo monopólio – só levam um tipo de produto em quantidades abismais e ridículas, que só um exército é que é capaz de deitar abaixo durante um mês inteiro, seguido, e sem pausas. Mas estava em promoção, por isso vale a pena.

    Os cupõezaólicos: este tipo de pessoa não se vê bem pelo conteúdo do carrinho – a menos que sejamos, também nós, cupõezaólicos e saibamos que tudo o que está ali é patente de uma promoção – mas sim pelos dezassete minutos que as pessoas demoram a ir buscar os cupões, a procurar os cupões, a ler os cupões, a entregar os cupões, a guardar os restantes cupões. Enfim. Cupões e cupões e cupões.

    Os esperançosos: bastante comum no dia dos namorados – uma rosa, morangos e preservativos. É fácil tirar-lhes a pinta.

    Os desorganizados: isto não tem que ver com o conteúdo do carrinho, mas sim com a forma como as coisas estão arrumadas. Estas pessoas chumbaram na disciplina do tetris e estão matam um obsessivo-compulsivo de cada vez que atiram impiedosamente mais um item para dentro do carrinho, não respeitando a regra do mais-pesado-por-baixo e outras coisas que tais;

    Os jovens pré-ressaca: o vodka mais barato da secção, copinhos de plástico e nada para comer, que é para o álcool bater o mais rapidamente possível e eles nem se lembrarem que aquela noite existiu;

     

    No fim disto tudo, e fazendo uma avaliação global da minha pessoa, gosto de pensar que sou uma boa mistura entre o saudável e o guloso. Ou então sou simplesmente aquela pessoa que vai só buscar pão e que mal põem o pé fora do supermercado já está com uma bucha na boca, o que me abre toda uma nova categoria: a esfomeada. Assenta-me que nem uma luva.

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  • Um throwback aos anos 90

    Como vos disse no outro dia, estou embrenhada num projeto natalício que, embora me esteja a roubar todas as horas livres, fins-de-semana e até algum sono, me tem dado muito gozo. Estou a recolher todos os vídeos que tenho da família para depois fazer um apanhado geral do nosso “desenvolvimento” e a ideia é mostrar o resultado final na Véspera de Natal, quando estivermos todos (ou quase todos…) juntos, para rirmos e chorarmos em conjunto, como uma família deve fazer.

    E isto tem-se revelado numa autêntica viagem ao passado, não só por passar horas e horas (só neste fim-de-semana prolongado foram pelo menos umas oito…) a ver vídeos de família antigos – quando os meus tios ainda tinham cabelo, quando os meus irmãos eram adolescentes e os da minha geração ainda usavam fraldas ou ainda não eram sequer um plano – mas também por ter de voltar a manusear materiais que, hoje em dia, já são quase uma relíquia. Tem sido muito engraçado voltar a trabalhar com cassetes e câmaras antigas e a reaprender coisas que já muitos nem sabem o que são. Neste momento, o meu quarto é quase um salão vintage: entre dois leitores de VHS e umas quantas cassetes, três (três!) máquinas de filmar em vídeo 8 e uma dezena de cassetes também neste formato e ainda uma câmara mais recente – também de cassete, embora mais pequena -, é só mesmo o freguês escolher.

    Isto porque apesar de eu querer é ver os vídeos, muitos deles estavam ainda em formato analógico, portanto tive de ir um passo atrás no processo e antes de ver o que quer que seja, tinha de arranjar uma forma de passar o conteúdo para formato digital. Fui à procura, perguntei a quem de direito, e pus logo mãos à obra: tentei arranjar um leitor de VHS para ler as cassetes, pedi emprestada a máquina de filmar do meu pai para ler os Vídeo 8 e ainda arranjei, por pura acaso, os cabos e o software para gravar os conteúdos no computador. E isto seria fácil se tudo corresse bem – o que, como é lógico, não foi o caso!

    Trabalhar com equipamentos com mais de 20 anos tem os seus problemas – a idade e os anos sem funcionar têm consequências. Primeiro fui buscar o leitor de VHS do meu irmão, que estava ligado e a funcionar cinco minutos antes de o ter metido no saco; quando o voltamos a ligar, pzzzzzzzzz. Foi-se. Morreu ali, nas nossas mãos, quando há pouco antes estava aparentemente de boa saúde. Felizmente tinha um plano B – a minha irmã – que me emprestou o dela. Depois foram as câmaras de vídeo; tinha duas cá em casa. Ligamos a primeira, ela acorda e, um segundo depois, dá um flash de luz e morre. Segundo óbito nessa semana. Tentei a outra máquina – funcionava, até filmava, mas com muitos problemas ao nível da leitura de cores e imagem… não servia. Com bastante esforço, o meu irmão conseguiu uma emprestada, que foi o que me safou.

    Depois foram as cassetes. Logo na primeira que pus no leitor, a fita ficou presa. O pânico, o horror, a tragédia: era um vídeo muito importante, sem cópia, que não podia ficar estragado. Lá se resolveu, com muitos “ai mãe, ai mãe!” pelo meio. Na segunda capelinha em que fui bater à porta para obter mais relíquias, ponho a cassete dentro do leitor e nada – passava a vida a cuspi-la. Quando fui ver, a fita estava partida. Abriu-se a cassete, cortou-se um bocadinho da parte danificada e com mãos de cirurgião colaram-se as duas partes. Ficou funcional! Aconteceu o mesmo com outra – que era Vídeo 8 – mas, infelizmente, o resultado não foi o mesmo. E custou-me muito não saber o que estava ali dentro e andar a cortar fita – mesmo, com tesoura! – e saber que estava a cortar memórias, pessoas, momentos.

    Ando muito cansada à custa desta brincadeira, porque a quantidade de horas passadas em frente a este ecrã têm sido claramente demasiadas, mas isto tem-me dado um gozo imenso e conteúdo para muitos posts e pensamentos. Mas hoje, enquanto destruía aquela cassete para tentar recuperar, tive um daqueles momentos profundos em que de facto me apercebi da passagem do tempo: hoje em dia não estamos habituados a cortar coisas, a fazer algo definitivo. Eu senti um pesar tão grande de cada vez que dava uma tesourada ou que a fita se rasgava, não sabendo o que estava ali, e pensei que se tudo isto tivesse no computador eu simplesmente fazia CTRL+Z e voltava atrás em qualquer erro, em qualquer nanosegundo que não quisesse cortar e que, mesmo se fizesse delete ao ficheiro desejado, tinha sempre a reciclagem onde o ir buscar. Antigamente as coisas eram mais difíceis, mais cruas, mais definitivas, mais limitadas – mas se calhar também mais saborosas. As dores deviam doer mais, mas as alegrias se calhar tinham mais ênfase. Hoje é tudo feito tão rápido que nem queremos saber. E estes dias, estas horas em que tenho passado entre vídeos, cassetes e a resolver problemas do século passado, fizeram-me dar ainda mais valor a estas pequenas coisas, que hoje achamos tão simples, mas que antes requiriam uma perícia e uma motricidade fina que não era para todos. Tem sido bom regressar ao passado.

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