• Web Summit: o rescaldo final

    Acho que antes de começar este post devo fazer um disclaimer: em primeiro lugar, eu não paguei para ir ao WebSummit – como sou menor de 23 (ou 25? anos), o bilhete foi-me oferecido devido a uma promoção que na compra de dois bilhetes normais dava outro para um “entrepreneur”; em segundo lugar, fui lá como mera adepta das novas tecnologias e do conhecimento geral – há poucas coisas sobre as quais não goste de aprender e dada a vasta quantidade de talks disponíveis, achei que seria interessante e que enriqueceria a minha bagagem; em terceiro lugar, nunca esteve nos meus planos conhecer startups, (porque não ia investir nem escrever sobre elas) nem pessoas – o que, depois de lá ter estado, acho que é o core deste evento.

     

    “O problema não és tu, sou eu”. Acho que esta frase, tão comummente usada para terminar relações pelos quatro cantos do mundo, se aplica na perfeição no que diz respeito à minha visão da Web Summit. Acho que ficou patente no meu primeiro texto sobre o evento que eu não estava a adorar e a verdade é que, quando saí, não passei a gostar mais do que no primeiro dia. Não fui feita para viver em ambientes caóticos, cheios de gente, com barulhos e estímulos vindos de todos os lados. Mas era expectável que um evento com mais de 50 mil pessoas, metidas em cinco pavilhões, fosse assim: eu é que fui naive ao ponto de não me lembrar disso.

    Acho que vale a pena ir quem, de facto, estiver interessado em conhecer parceiros de negócio. Mas é muito importante saber-se concretamente aquilo que se quer e ao que se vai, porque a oferta é tanta que, se não segmentarmos bem a coisa, o mais provável é passarmos o tempo entre vai-e-vem’s. Eram imensos os balcões de startups, sobre tudo e mais alguma coisa, em que cada micro-empresa só tinha prá’i um metro quadrado para ter as suas coisas, o que tornava aquelas zonas sempre em sítios super caóticos. Para além disso, havia os stands das grandes empresas, que devem pagar balúrdios para lá estar. Eu sou sincera: não percebo muito bem o que é que muitas entidades estão lá a fazer, de um ponto de vista prático. Acho que a ideia é só estar presente no evento, marcar um X, gastar um dinheirão e depois voltarem de novo para as suas vidas.

    Isto é o que acontece, aliás, com a maioria das pessoas. Percebe-se perfeitamente que muita gente está lá para fazer parte daquilo – basta ver a quantidade de pessoas que andava a fazer diretos enquanto passeava pela feira ou simplesmente esperavam que as filas da segurança andassem. Eu, como pessoa que fui lá para conhecer o evento mas principalmente para ver as talks, digo sinceramente que preferia ter ficado em casa. Foi giro conhecer, foi giro ter um badge com o meu nome e uma pulseirinha para o evento mais falado do ano, mas quando percebi que todas as talks a que fui – ou que queria ter ido – estavam no facebook, com uma qualidade de áudio e de imagem dez vezes melhor do que eu presenciei, arrependi-me um pouco das horas e do cansaço que ali dispensei. Acho que podemos comparar isto a um jogo de futebol: se quiserem sentir a adrenalina e a emoção, vão ao estádio; se querem ver tudo na mesma (ou ainda melhor) e estarem confortáveis, com opção de puxar para trás, parar para ir à casa de banho ou pôr o som mais baixo, enquanto estão sentados no sofá com uma mantinha nas pernas, ficam em casa. Isto sem esquecer a parte monetária: poupam umas boas coroas se decidirem ver as coisas à distância.

    É difícil arrependermo-nos de coisas que queríamos mesmo fazer. Eu estava entusiasmada para ir, queria muito ouvir certas coisas, e por isso não estou triste por ter metido uma semana de férias para ir para a capital. Olhando para trás, confesso que não aprendi grande coisa: para além das talks serem muito superficiais, muitas vezes saíam dos tópicos iniciais – e nunca dava para fazer uma “pescadinha de rabo na boca” porque o tempo era tão pouco que nunca dava para fechar o ciclo ou tirar grandes conclusões. Outra das coisas que esperava e não aconteceu foi sentir-me inspirada: estava confiante de que ia ouvir histórias de empreendedores, de negócios ou histórias de vida que me inspirassem a fazer mais, mas nunca aconteceu. Ouvi muitas pessoas a falar, algumas muito interessantes, mas nunca me caiu o queixo de espanto – pelo contrário, estive mesmo para passar pelas brasas em algumas (sabem aqueles momentos em que os vossos olhos estão a fechar e vocês dizem expressamente ao vosso cérebro que isso não pode acontecer?). 

    E porquê que nessas conferências, eu que eu já não ouvia nada, não me ia embora para outras que mais me interessassem? 1) Porque só para sair de um palco podia demorar dez minutos, tal era a quantidade de pessoas que estavam em pé atrás das cadeiras e que formavam uma barreira difícil de transpor; 2) porque contando o tempo que demorava a sair de um palco e chegar a outro, a conferência que me interessava já estaria a acabar; 3) porque por vezes somos obrigados a fazer escolhas chatas – e se eu queria estar numa talk, naquele palco, que não era imediatamente a seguir mas apenas 20 minutos depois, mais valia aguentar e esperar. Isto fez com que sacrificasse muito do que queria ouvir e ver – no primeiro dia não me apercebi disto, tentei andar sempre de um lado para o outro, qual barata tonta, mas não há hipótese senão fazer escolhas e sacrificar outras se não queremos acabar o dia com as pernas em gelatina e a cabeça em água. 

    Para pessoas como eu que vão para lá para conhecer, para aprender e centrar-se em talks, aconselho a que fiquem em casa. No final do dia, depois de ouvir dez ou doze conferências, estava arrasada e sentia que tudo aquilo que tinha ouvido tinha caído em saco roto: e olhando à minha volta, com toda a gente a mexer nos telemóveis, penso que não era a única. O evento é giro em teoria, mas na prática – e a menos que sejamos supersónicos – não conseguimos disfrutar nem de metade.

    Reafirmo o que disse no início: acredito que estes sejam dias de ouro para startups, investidores e entendidos. Para pessoas “normais”, e julgando por tudo aquilo que vi (pessoas sempre na conversa ou nos telemóveis, sempre imensa gente nos espaços comuns e de come e bebes) tenho as minhas sérias dúvidas. Acho que é fixe fazer parte do Web Summit, é incrível as massas que aquilo aquilo movimenta, o dinheiro que traz ao país, o movimento que leva para a cidade, o investimento que atrai, os conhecimentos que proporciona: e é por isso que tanta gente vai. Eu também fui, vou guardar a minha credencial na caixa das recordações e relembrar estes três dias com graça. Mas uma coisa é certa: não volto.

    Sem comentários em Web Summit: o rescaldo final

  • Finalmente vou ter um bullet journal apresentável!

    Tenho jeito para muitas coisas nesta vida, mas artes não é uma delas. Ambas as minhas sobrinhas, que têm oito e dez anos, desenham muito melhor que eu, que tenho vinte e dois. Sempre foi uma causa perdida: nunca tive jeito, nunca tive capacidade para desenhar as coisas de forma proporcional, nunca tive a mão precisa ou detalhada. Apesar disso, nunca foi algo que me incomodasse: preciso pouco das artes na minha vida. E, quando preciso, encontro soluções, que é precisamente aquilo que vos vou contar abaixo.

    Já tinha dito que tomei a decisão de fazer um bullet journal e deixar as agendas para trás. A experiência tem corrido muito bem, tenho-me vindo a ajustar consoante aquilo que descubro que gosto e não gosto, que uso e não uso, que preciso ou não preciso. Mas perante todo os vídeos e imagens que vi para aprender como é que o bullet journal funcionava, só me apoquentava uma coisa: o meu bloco era horrível. A minha caligrafia não ajuda, é um facto, mas tudo o resto também era mau – eu bem que tentava escrever o nome do mês de uma forma bonitinha, fazer um quadrado com os cantos a 90º ou uma espécie de grinalda num título… mas não resultava. Já utilizava todos os truques que tinha visto no YouTube (autocolantes, washi tape), mas faltava aquele toque de bullet journal. E encontrei.

    Comprei uma espécie de moldes (como aqueles que tínhamos em criança) que têm todas aquelas formas típicas de bullet journal e mais qualquer coisa. Desde as típicas setas, aos quadrados e retângulos, passando pelas caixas de título, há logos de redes sociais, números, corações, símbolos meteorológicos, balões de fala… enfim, toda uma panóplia de coisas, muitas que nunca virei a usar. Ao todo são 12 “folhas” com inúmeros desenhos que comprei no ebay por pouco menos de quatro euros. 

    Acho que para quem é como eu – um desastre nas manualidades, mas que quer ter um caderno bonito e apresentável – está é uma boa ideia. Fica a dica. Para comprar, aqui.

     

    DSC_0145.JPG

    DSC_0149.JPG

     

    4 comentários em Finalmente vou ter um bullet journal apresentável!

  • Um ano, um álbum de fotografias

    Mais uma das muitas coisas que fazem de mim uma alma velha é o facto de gostar de ver fotografias – e não falo de fotografias no computador. Gosto de álbuns, pesados, com descrições feitas à mão; gosto daquelas mini-mikas para as fotos, de as tirar para passar de mão em mão em vez de estarmos todos colados a um ecrã.

    Acho que a passagem do analógico para o digital foi tão rápida que nem deu para nos adaptarmos. Abandonamos completamente os álbuns, mas abandalhamos completamente na fotos digitais: tiramos 41 fotos da mesma coisa, arrumamo-las em pastas incatalogadas, atiramos com tudo e mais alguma coisa lá para dentro e ainda temos a vaga esperança de que um dia, desesperados à procura daquela foto do dia Y e do evento X, ainda encontremos alguma coisa de útil.

    Já aqui falei que desde há algum tempo para cá que ando a trabalhar na organização das minhas fotos – que pratico a limpeza geral das fotos, que só deixo ficar uma das 41 fotos que tirei à mesma pessoa, que ponho nomes em todas elas, que ponho as pastas direitas e com o menor conteúdo possível – e agora o próximo passo vai ser fazer álbuns anuais. Não estou a pensar fazer álbuns de anos que já passaram, mas sim daqui para a frente. Um best of de 2017, por exemplo, onde albergo aniversários, eventos de família, datas especiais, férias, passeios ou simplesmente selfies bonitas tiradas nesse ano. 

    Mas não seriam álbuns clássicos: para além de não serem fáceis de encontrar, os que há são feios e pouco personalizáveis. Para além disso, imprimir fotografias fica caro, por isso acho a solução dos álbuns digitais muito melhor. Já fiz vários: uns para oferecer às minhas tias em datas de aniversário marcantes (no fundo, álbuns de vida) e outros dois com fotos dos cruzeiros que fiz. Tudo é personalizável: o número de páginas, o número de fotos que ponho em cada página, a disposição com que ficam, o tamanho de cada uma das fotos, o tipo de letra para as legendas (e cor, tamanho, etc.) e até escolher alguns bonecos ou designs para adornar o álbum. As escolhas são infinitas – o que também torna o processo mais moroso. Porque, tal como tudo o que envolve o trabalho pós-fotográfico, é trabalhoso e demorado: é preciso escolher as fotos, trata-las previamente caso seja necessário, dividi-las por páginas (ainda que seja mentalmente) e definir uma linha lógica (quer seja temporal ou de importância, por exemplo) para imaginarmos o resultado final do álbum. Ou seja: não é pêra doce, mas compensa!

    O que eu faço é aproveitar as promoções que encontro no Sapo Voucher, que tem um protocolo com a DreamBooks: para quem não conhece, o primeiro é um site de promoções de artigos vários, o segundo é uma loja/plataforma de álbuns digitais (e não só – também tem telas, calendários, canecas e etc., tudo personalizável e tudo coisas que dão boas prendas). Os modelos de álbuns disponíveis vão mudando, mas o preço compensa sempre: eu gosto de livros verticais, por exemplo, e muitas vezes aparecem alguns. Os dois álbuns que tenho de cruzeiros foram comprados assim e são diferentes: um mais leve e com páginas mais finas e outro, premium, mais pesado e páginas mais encorpadas (quase parece um daqueles livros de crianças). Escolhi consoante a oferta que tinha na altura e nunca me arrependi – e se não têm nada que vos agrade naquele momento, o que sugiro é que vão vendo nas semanas seguintes, porque as ofertas vão mudando.

    Depois de comprarem o voucher têm 30 dias para fazer a vossa encomenda. Se, tal como eu, deixarem passar este tempo, podem sempre comprar uma extensão do prazo na DreamBooks. Eu acho que os resultados ficam incríveis e que dá uma prenda espetacular (nomeadamente de Natal, já podem apontar a ideia!), mas acredito que não seja para a paciência de toda a gente. Mas para quem gosta de fotografias, de rever momentos e de os ter na palma da mão… é uma óptima solução. Eu espero mesmo conseguir levar esta ideia dos álbuns anuais avante e fazer algo de útil com as centenas de fotos que aqui tenho amontoadas virtualmente.

     

    montagem_album.jpg

     

    P.S. Ninguém me pagou para escrever este post e mencionar estes sites. Mas se me quiseres oferecer álbuns à borla, be my guests. :p

    2 comentários em Um ano, um álbum de fotografias

  • As minhas primeiras impressões sobre o Web Summit

    Pois é: estou em Lisboa, para a cimeira tecnológica mais popular do universo. Depois de no ano passado ter ficado com alguma pena de não ter vindo, desta vez pude vir e estava com as expectativas em alta. A minha ideia era explorar o Web Summit ao máximo, mas também tirar o maior partido do meu tempo na cidade. Para já, fiz mais a segunda parte. Porque relativamente à primeira, tenho três palavras para vos dizer: UM. CAOS. COMPLETO!

    Cheguei ontem à hora do almoço e fui fazer o registo, até porque tinha uma entrada para a Opening Night – onde acabei por não ir. Há uma constatação mais que óbvia: a organização é uma desgraça e podia ser muito melhor com pequenas coisas como cartazes ou pessoas informadas; formam-se filas que ninguém sabe bem para o que são e só se sabe que o nosso sítio não é ali dez minutos depois, as pessoas do evento não sabem dizer onde são os palcos ou zonas específicas do evento, o som durante as talks era muitas vezes miserável e os atrasos inaceitáveis quando se tratam de apresentações de 20 minutos que encadeiam umas nas outras. Para além disso, um detalhe que a mim me chateia e me entristece é ver centenas de voluntários em funções que deviam ser claramente pagas, como a registar pessoas ou a carregar os sofás para cima dos palco de cada vez que mudam os painéis.

    De uma forma geral, como já se puderam aperceber, não fiquei muito impressionada. Gostava de dizer que todas estas desvantagens compensam com a qualidade das talks e das empresas presentes, mas o caos é tanto que nem sempre é fácil fazer uma avaliação isenta das coisas. Acho que depende também muito das pessoas: a mim as multidões stressam-me, deixam-me nervosa. Não estou sozinha no Summit mas ando, maioritariamente, sem companhia – não tenho a quem me agarrar, conversar ou descomprimir, por isso a minha vontade, como boa anti-social-desesperada-no-meio-de-70-mil-pessoas-a-tentar-fazer-networking, é aninhar-me a um cantinho e esperar que o barulho passe. Mas não passa. E eu vim para aqui por vontade própria e preciso de arranjar outra forma de lidar com os problemas sem ser em posição fetal. Por isso mentalizei-me de uma coisa: “estás sempre livre de sair”. E foi assim que o dia correu – comigo stressada e a balançar esse estado de nervos com pensamentos apaziguadores como “não te preocupes que tens o oceanário aqui ao lado caso queiras silêncio”. Aguentei-me histoicamente.

    Como não vim para aqui em trabalho, mas sim como uma pessoa interessada em tudo o que é novas tecnologias, estava mais virada para as talks – podia dar uma volta nas startups e nos stands, mas não era a isso que pretendia dedicar o meu tempo. Preparei o meu horário, com bastantes mais coisas do que podia ver na realidade, e daquilo que vi e passeei já tirei algumas conclusões: 1) gosto muito mais de apresentações de uma só pessoa do que conversas moderadas por jornalistas – sinto que as primeiras já estão preparadas para agarrar o público, enquanto que os debates acabam por não ser tão pensados e por isso potencialmente menos interessantes; 2) o Altice Arena é, sem dúvida, o melhor local para as conferências porque têm o número de lugares sentados ideal, assim como condições de som e imagem; 3) a zona de comes e bebes é aparentemente grande, mas fica completamente lotada em horas de ponta – de tal forma que eu saí do recinto e fui ao Continente buscar uma baguete; 4) as melhores conferências são, às vezes, aquelas que não esperamos, por isso vale a pena dar uma hipótese.

    Pontos a realçar de hoje: gostei muito do José Neves, da Farfetch, sobre o qual tantas vezes já escrevi; vi o Triple H no Altice Arena – não se pode dizer que tenha sido um sonho de infância, mas quase… tive muitos throwbacks com os tempos em que gostava de ver wrestling; duas das apresentações de que gostei e que não estavam nos meus planos eram com uma senhora do hotel Hilton (que falou da aplicação inovadora que têm) e o brand guy da Shell – fiquei muito bem impressionada, pela positiva. Ainda assim, uma das melhores coisinhas de hoje foi ter chegado ao hotel, tirado as sapatilhas e pôr os pés para o ar. O Web Summit pode ser fixe, mas não deixa de ser uma feira (lembrei-me bem dos meus dias em Munique)… e as feiras cansam pr’a carago. 

    Vemo-nos amanhã, com as expectativas reajustadas e com um novo embate da realidade. Em caso de desespero, já sei: tenho sempre o oceanário ali ao lado. No final dos três dias faço um balanço que, tal como este post, não deixará de ser menos caótico que o próprio Web Summit.

     

    IMG_8932.JPG

     

    1 comentário em As minhas primeiras impressões sobre o Web Summit

  • Tenho uma confissão a fazer

    Acho que está na altura de abordar um tema fraturante da sociedade. É melhor ir direita ao assunto e não estar aqui com falinhas mansas: eu não gosto do boomerang. Pronto, já disse, é a verdade! Acho aquela aplicação uma chatice, fico farta de ver trinta vezes as mesmas coisas quando não têm piada ou assunto. Achei que tinha potencial quando saiu, mas rapidamente me apercebi que as pessoas generalizaram a sua utilização de tal forma que uma pessoa até foge quando vê um instastory com aquilo.

    O boomerang só é giro quando há duas posições bem marcadas que contrastam entre si: quando as sobrancelhas sobem e baixam, quando a máquina fotográfica dá um flash, quando os olhos e a boca abrem e fecham. Percebem o conceito? A ideia não é mexerem o smartphone no meio da rua, como se fosse um filme rasca com shaky camera; o objetivo não passa por fazer um zoom literal nas coisas (que é como quem diz andar com o telemóvel para a frente e para trás); não é suposto apanhar as pessoas desprevenidas quando estão simplesmente a falar e a imagem se torna num conjunto de movimentos indecifráveis – e repetitivos – dos lábios.

    O pior disto tudo é que há claramente fanáticos do boomerang, que utilizam a ferramenta para tudooo o que captam com a câmara. Mas as coisas ainda pioram se atentarmos ao facto de que publicam tudo isso nas instastories e no instagram, poluindo todo o nosso feed. Porque há coisas que têm piada e a verdade é que o boomerang foi criado com um propósito (que até faz sentido) – mas as repetições são tantas e passam tão rápido que é impossível ver o que quer que seja de forma decente. Por isso não passa mesmo de uma coisa com graça mas sem qualquer utilidade prática.

    Hoje em dia os likes é que importam; o sucesso, a beleza e as capacidade de uma pessoa medem-se pela sua popularidade nas redes sociais e por isso quase nos sentimos olhados de lado quando admitimos não gostar de algumas destas coisas da moda. Mas, meus amigos, está na hora de quebrar o tabu e de dizer não às utilizações-estúpidas-e-desregradas-do-boomerang. Juntos somos mais fortes e sobreviveremos às 256 repetições que nos obrigam a ver diariamente em redes sociais alheias. Há que ter fé.

    4 comentários em Tenho uma confissão a fazer

  • O meu organizador de anéis

    Este blog não é para desarrumados ou desorganizados. Tenho uma leve noção da quantidade de coisas que aqui publico relacionadas com formas de arrumar e organizar objetos (reais ou virtuais) e, por isso, peço desculpa se isto for uma autêntica seca para a maioria das pessoas. Acho que se houvesse um blog só a falar sobre formas de organizar tralhas eu seria a primeira subscritora: estou sempre à procura de formas mais eficazes de ter tudo arrumado, ocupando o menor espaço possível, e por isso é que às vezes posso abusar do assunto aqui. Muitas vezes são soluções que eu nunca antes tinha encontrado e que acho que podem ser úteis a outras pessoas – por isso, se já estiverem em overdose de posts-sobre-arrumações, peço desculpa em avanço.

    Hoje, mais uma vez, trago um achado do ebay. Uma das minhas gavetas mais caóticas é a das bijuterias/adornos. Tenho lá os óculos de sol e os relógios e depois todas as coisas mais pequenas como colares, pulseiras, brincos e anéis. Quem me conhece sabe que os anéis são, de longe, a minha peça favorita para usar no dia-a-dia – tenho muitos (demasiados, confesso) mas vou sempre alternando e formando novos conjuntos. Normalmente, com a pressa, deixo-os em cima de um prato que tenho junto à porta de saída (mesmo prontos a pegar, pôr no dedo e sair) e passado uma semana está tudo lá ao molhe, já não consigo distinguir os anéis um do outros e acabo por pegar sempre nos que estão em cima (e, por isso, usar sempre os mesmos).

    Fui à procura de soluções e encontrei a mais óbvia: um arrumador de anéis, daqueles que se vêem nas lojas ou nas feiras de artesanato, mas muito mais barato do que aquilo que é costume. Custou-me três euros, e o toque em cima é muito semelhante ao veludo – a parte de baixo é que é claramente fraca e barata, feita de cartão, daí o preço tão em conta. Mas se for para o manter dentro de uma gaveta, para além de servir perfeitamente, ainda faz um brilharete – e ajuda imenso a dar um ar arrumado à gaveta do demónio. 

    Deixo a foto abaixo. Para comprar basta clicar aqui.

     

    DSC_0160.JPG

     

    1 comentário em O meu organizador de anéis

  • Em busca da francesinha perfeita 9#

    Adorava dizer que esta rubrica está morta porque eu me deixei de gulodices e passei a ter uma alimentação espetacularmente saudável. Mas não. A verdade é que deixei praticamente de comer francesinhas. Sou aquele género de pessoa que está sempre a dizer (e a pensar) “estou tão gorda” e estar a comer francesinhas que não me sabiam bem só aumentava o meu nível de desespero.

    Sempre gostei bastante desta iguaria portuense e acho que, desde que me lembro de comer como gente grande, nunca tinha passado tanto tempo sem comer uma francesinha. Este ano devo ter comido umas três, o que bate um recorde mínimo nunca antes alcançado.

    Porque a verdade é que comia e não me sabiam bem – ou, se sabiam, deixavam-me maldisposta a seguir, com o fígado a gritar por misericórdia depois de tanto molho inglês. Há mais de dois anos que não comia uma francesinha que não fosse demasiado picante, que não tivesse o bife mais fraco que se encontrava no talho, cujo pão fosse rijo e crocante e as carnes de boa qualidade.

    Mas neste feriado decidi fazer mais um tentativa, sacrificando mais uma vez as minhas ancas em prol desta causa. E talvez tenha resultado. Gosto de pensar que, em parte, a culpa é do sítio.

     

    Francesinha 9#: A Marisqueira do Porto (antigo Gambamar)

    A Marisqueira do Porto abriu há pouco mais de um mês num sítio, para mim, muito especial: o antigo Gambamar, onde aprendi a gostar de francesinhas e onde havia, para mim, as melhores de todas. Esta rubrica surgiu quando o restaurante fechou e eu fiquei “órfã” de francesinha, por isso esta nona tentativa representa quase o fechar de um ciclo.

    Estava bastante esperançosa. Conheço o dono, que me disse que elas eram boas, e que quem as fazia tinha vindo d’A Regaleira (que, para quem não conhece, é a criadora deste “petisco”). Tudo era um bom prenúncio e veio a concretizar-se.

    Acima de tudo, e deveras importante, o picante não se sobrepunha a nada; não era demasiado intenso, não queimava o paladar, não deixava o estômago a roncar horas depois. O molho é, aliás, um pouco para o adocicado.

    Mas a melhor maneira de descrever esta francesinha é dizendo que ela é “rica” e “pesada”. É muito grande – eu já não sou o que era, porque há dez anos comia o prato inteiro enquanto o diabo esfregava um olho, e agora deixei parte da comida no prato, porque já estava a arrebentar pelas costuras – mas muito bem constituída, com muito boas carnes. E o bife era excecional, com uma altura bem razoável, saboroso e tenro, tal como se quer.

    Vem com o típico camarão por cima (eu, por acaso, dispenso) e um cestinho de batatas fritas. Ao todo, dez euros.

    O veredicto não podia ser mais positivo. Dado o preço que se paga por aí, num simples café, por uma francesinha… penso que a relação preço/qualidade desta é, até, muito aceitável. O restaurante é muito agradável, tem estacionamento e fica no coração do Porto, por isso não se pode pedir mais. Foi das melhores francesinhas que comi desde que comecei esta rubrica e é óptima para quem gosta de bem enfardar. Estou contente e prometo voltar.

     

    image1 (1).JPG

     

    1 comentário em Em busca da francesinha perfeita 9#

  • A subtil arte de fazermos crescer melhores versões de nós próprios

    Já há algum tempo que percebi que de cada vez que conheço alguém novo posso ser, também eu, uma pessoa diferente. E a liberdade de estar solta de preconceitos, de ideias predefinidas que os outros podem ter de nós é maravilhosa, porque podemos optar por sermos quem quisermos, a melhor versão de nós próprios. 

    Tenho noção de que este talvez seja um conceito difícil de perceber, mas eu vou tentar explicar. Acho que todos interpretamos papéis na sociedade e eles são todos diferentes consoante quem nos rodeia: eu não sou com os meus pais a mesma pessoa que sou com os meus amigos, nem estou no trabalho como estou no ginásio. São posturas diferentes, personagens construídas ao longo do tempo – e que, como tudo o que é construído, tem de ter a sua coerência. O que quero dizer é que, por exemplo, eu não danço em frente dos meus amigos – porque eles passaram comigo a fase em que eu tive aulas de dança, em que esse era o meu momento mais embaraçoso da semana, e presenciaram a altura em que eu disse “nunca mais na vida danço!”. Assim como não bebo uma Somersby, nem que me apeteça, em frente aos meus colegas de trabalho, porque já afirmei, veementemente, que não toco em álcool. Também não saio à noite, mesmo que esteja num mood especial, porque já habituei os outros a que esse não é um hábito meu. E o mesmo se pode dizer em relação a tantos, tantos outros comportamentos a que habituamos os outros e que chega a um ponto em que não é fácil contrariar.

    Eu acho que esse tipo de “regras” se criam porque, de facto, nós as impomos a nós próprios: eu, de facto, não danço, não bebo álcool, não saio à noite. Mas pode haver uma noite em que me apetece fazer tudo isso, mas não o faço, porque me custa sair daquele padrão que criei para mim; porque sei que quem me conhece vai olhar e pensar que eu não estou bem.

    Não se tratam só de atitudes ou atividades: passa também por humores, estados de espírito, traços de personalidade. Lembro-me perfeitamente de estar na fisioterapia, numa das piores fases da minha vida, e o fisioterapeuta me dizer “lá vem a miúda sorridente”. E, no entanto, eu estava a cozinhar uma depressão. Aquela era a minha personagem na fisioterapia: feliz, comunicativa, faladora, esperançosa. O choro deixava-o para as viagens de carro e antes de adormecer. E foi aí que eu percebi que, em circunstâncias diferentes, podia ser quem eu quisesse, apenas com uma condição: tinha de ser coerente, porque há que manter um comportamento constante. E é assim que se constroem facetas.

    Os meus pais são as pessoas que me conhecem melhor. É aqui em casa que eu me deixo ser a versão mais pura de mim mesma – que, por acaso, é das versões que menos gosto, porque carrega sempre uma carga demasiado negativa. Apesar de achar sempre que os outros têm uma ideia errada de mim – penso que amigos e restante família me acham severa e sisuda, quando na realidade até consigo ser bem divertida – tenho a noção de que no dia-a-dia, tal como acontecia na fisioterapia, não tenho uma aura assim tão negra. Posso ter dias piores – e eles distinguem-se à distância – mas, de uma forma geral, sou uma miúda bem disposta pelos lugares por onde circulo: no trabalho, no ginásio, no piano.

    Não sei porquê que no final do dia me cai tudo em cima. Acho que é um problema de núcleo: o pessimismo, a negatividade e a depressão fazem parte do meu íntimo, daquilo que sou. Mas viver um dia-a-dia positivo ajuda. E não sei até que ponto é que as facetas que vamos encarando não se tornam, de facto, em nós próprios. É lógico que todas as personagens que interpretamos ao longo do dia (e da vida) também fazem parte de nós, mas é difícil distinguir qual é a mais pura delas todas, aquela que se aproxima mais da versão menos trabalhada de nós próprios. Não seremos um mix delas todas?

    Eu, por vezes, gostava de mudar a ideia que as pessoas que me conhecem há muito tempo têm de mim. Porque acredito que no meio de tantas facetas e mudanças (que as há, inevitavelmente, ainda que não acredite em transformações profundas), mudei para melhor: mas chego a um ponto em que não me sinto à vontade para o demonstrar, acho que ninguém se pode acreditar que aquela “outra” pessoa também sou eu.

    É por isso que agora aproveito as oportunidades que tenho para deixar a Carolina antiga em casa e tentar construir uma nova imagem à volta de mim própria, de forma consciente, ponderada e coerente. O estúdio de piano tem sido uma lufada de ar fresco e o local ideal para pôr isto em prática. Lá, todos temos pelo menos um denominador comum: gostamos de música. Mas a experiência tem sido ainda mais enriquecedora porque, de facto, não é só a música que nos une. O grupo de alunos é super eclético: homens e mulheres, dos 14 aos 60, passando de médicos a arquitetos, jornalistas a professores, estudantes a políticos. Não faltam tópicos de conversa – e se não gostamos de um, não faltam outros tantos possíveis de abordar. Ajuda o facto de já sermos todos adultos, estarmos ali por vontade própria, sem fretes ou obrigações (como acontece com a maioria das crianças que aprendem piano, como já foi o meu caso) e de querermos usufruir ao máximo de todas as experiências, incluindo o convívio uns com os outros.

    E tem sido bom perceber que eu posso, de facto, ser descontraída. Que posso não ser uma control freak. Que não tenho sempre de marcar posições vincadas, de não gritar ao mundo a minha personalidade acentuada e feitio difícil. Que posso até ser desinibida, ser a primeira a tocar ao piano, falar com os outros sem problemas. É bom perceber que podemos e conseguimos ser uma versão simplificada de nós próprios – nem que seja só de vez em quando. Nem que seja na esperança de que esse de vez em quando passe a estado permanente.

    Sem comentários em A subtil arte de fazermos crescer melhores versões de nós próprios