• O enraizar de um hábito

    A primeira foto que tenho de um pós-treino no meu telefone foi tirada no dia 20 de Setembro de 2021 – faz por isso hoje, precisamente, um ano. Aqui há dias, enquanto suava a minha alma em cima da bicicleta, pensei que estaria a fazer um ano da primeira vez que tinha subido para cima daquele selim – e, quando fui vasculhar os arquivos, percebi que era hoje.

    Foi o Miguel, claro está, que me instou a experimentar. Era Setembro, época de recomeços – e particularmente especial para nós, com o papo cheio das férias e de ressaca após meio ano de uma preparação de casamento particularmente stressante – e estávamos ambos algo desagradados com a nossa forma física. Ele já tinha arrancado no seu processo e eu morria um bocadinho de cada vez que o via em cima da bicicleta, a pingar como uma torneira, deixando ali todas as quilocalorias que queria matar. Eu sentia-me muito frustrada e triste porque não tinha força de vontade para aquilo, porque não queria voltar para o inferno de um ginásio mas não sabia o que havia de fazer; no passado tínhamos feito treinos estilo cardio em casa, mas passado uns meses os joelhos queixavam-se e os resultados não eram tão visíveis como o desejado, pelo que também não tinha o ímpeto necessário para começar. Continuávamos a jogar padel, já de forma mais consistente, mas muito longe de alcançar qualquer meta visível.

    Ele ia insistindo comigo para subir para a bicicleta. Um dia, dois, três. Um sábado lá me deu a volta – emprestou-me uns calções de ciclismo velhinhos e cronometrou quinze minutos. Eu pedalei, sem peso e sem rumo e, com os bofes de fora, fiz o esforço de chegar até ao fim do tempo acordado. No fim, festejou comigo por eu ter pedalado durante aquele quarto de hora como se tivesse acabado de fazer um Iron Man (eu sei, tenho sorte no marido que escolhi). 

    Apesar das dores no rabo, não achei que aquilo fosse assim tão mau. E segunda-feira – porque nós temos a mania que os inícios devem ser sempre às segundas – comecei a minha mudança. Nos primeiros dias fiz 20 minutos, depois 25 e fixei-me na meia hora dali em diante. Inicialmente ia mexendo no peso da bicicleta de forma mais ao menor arbitrária, gerindo as dores nas pernas e a respiração. Em Dezembro o Miguel – outra vez ele, claro – ofereceu-me um smartwatch que, honestamente, fez toda a diferença nesta fase da minha vida. Criou-me metas, deu-me métricas para me guiar. Ainda hoje saio derrotada de uma semana em que não faça cinco vezes algum tipo de exercício (nem que seja uma caminhada de quinze minutos); já sei que estive demasiado parada e sentada se não cumprir com a meta dos 10 mil passos diários e que um treino teve um rendimento mais baixinho se não atingir a média das 200 calorias. Foi, mesmo, o melhor investimento que ele podia ter feito por mim, pela minha saúde e pela minha motivação. Tenho lá a minha vida ativa registada e adoro a política do envio de notificações motivacionais (“só faltam mais dois dias de treino para atingir o seu objetivo!”, “mais dois mil passos e chega à sua meta diária!”, “ganhou o badge não-sei-quantos por ter subido mil degraus num só dia – as suas pernas são melhores que um elevador topo de gama!”) que, por muito  parvo que pareça, funciona na perfeição.

    No início do ano, creio eu, comecei a fazer treinos do Youtube (do canal do GCN) – assim não pedalo em vão, tenho uma sequência e um objetivo. Descobri que aquilo que melhor funciona comigo são treinos de intervalos e intensidade – e agora que já os sei quase de cor, alterno simplesmente o peso que ponho na bicicleta e aumento e diminuo a velocidade consoante aquilo que me sentir capaz naquele dia. Se no início utilizava só metade da roda do peso (180º), algures a meio deste ano passei a utilizar 270º – sempre sentada. Apesar de haver segmentos que se faziam em pé, não tinha pernas para aquilo. Até que há uns dois meses consegui – e agora já ultrapasso os 360º quando estou de pé e me obrigo a dar à perna. Estas evoluções foram vividas com muita alegria, ânimo e festejo – porque são realmente vitórias impressionantes para alguém que nunca gostou de fazer exercício e que tanto sofreu com isso ao longo dos anos. Na verdade, cada treino é tido como uma vitória – e em todos tiro uma foto para registo e mando para o Miguel, a pessoa que mais me motivou a conseguir e chegar até aqui.

    Foi uma evolução feita com calma e passo a passo – não sou (nem nunca fui) de testar os limites do corpo. Se calhar até teria evoluído mais rápido se tivesse puxado a corda e provado a mim mesma que era capaz – mas também é provável que tivesse desistido rapidamente com as dores do dia seguinte e com o esforço mental que era necessário para me arrastar para a bicicleta todas as manhãs. Porque a verdade é que, nos primeiros tempos, não havia hormonas que me safassem – era penoso ir para a bicicleta, sair da bicicleta e, de uma forma geral, sobreviver ao resto do dia (e subir as escadas para o meu escritório? Parecia uma velhinha!). Continuei por pura teimosia e por querer consolidar um hábito e não por me sentir bem antes, durante ou depois do treino – acho que ainda hoje, um ano depois, as endorfinas não funcionam comigo. Agora, com o hábito enraizado, subo para a bicicleta por medo: por medo de engordar e por medo de perder um hábito que, de facto, só me trouxe saúde.

    Os primeiros a notar as diferenças foram os outros – para mim, eu estava igual. Mas a minha capacidade de fazer arranques enquanto jogava padel e de conseguir chegar, finalmente!, às bolas mais perto da rede começaram a tornar mais óbvio que a minha forma física estava a melhorar – isso e umas pernas mais delgadinhas, como nunca antes tive. O emagrecimento só veio depois. Atingi o meu pico de peso em Novembro, quando já treinava – na altura estava a tentar emagrecer só com exercício e não sei até que ponto é que não fiquei mais pesada, precisamente, por estar a ganhar massa muscular. Como disse no último post, foi em pouco mais de três meses que perdi quase dez quilos – mas a verdade é que já andava a preparar o corpo e a mudar os meus hábitos nos seis meses anteriores, o que foi indispensável para aquele processo. 

    Não sei muito sobre a criação de hábitos mas creio que um ano já é o suficiente para dizermos que um hábito está enraizado. Mas isto é como a confiança: demora-se anos a ganhar mas segundos a perder. Passei as minhas férias aterrorizada, com medo de não conseguir voltar à cadência de treinos que tinha conquistado. A rigidez com que vivi o segundo trimestre deste ano, com uma dieta muito restritiva e a treinar seis vezes por semana, era demasiada para uma vida social minimamente ativa e para um dia-a-dia relaxado, mas a verdade é que depois do impacto inicial (que foi duríssimo) o nosso corpo se habitua; difícil é depois encontrar um meio termo. A manutenção é o segredo de qualquer dieta bem sucedida, mas é também a parte mais difícil – porque mal começamos a dar ao corpo aquilo que ele gosta (nomeadamente calorias a mais e o rabo alapado no sofá), ele não quer outra coisa. Quanto mais comemos, mais queremos comer; quanto mais dormimos, mais queremos dormir. Às vezes temos a tendência de nos “fazermos as vontades”, de ouvirmos o nosso corpo – aquilo que é tantas vezes necessário em inúmeros casos – mas caímos em erro, continuando determinados ciclos que deviam ser quebrados.

    Mas apesar dos meus medos, consegui voltar ao meu regime de exercício com bastante facilidade. Já voltei a planear os meus treinos no início da semana (faço sempre um plano mental, à segunda-feira, para saber os dias em que faço bicicleta tendo em conta a minha disponibilidade matinal e os dias em que vamos jogar padel) e o resto dos hábitos continuam: ponho o treino do GCN no tablet, uma série no telemóvel, ativo o treino no relógio e pedalo – tudo de manhã, se possível ainda antes das 8h. Já cheguei a treinar ao final da tarde, mas só mesmo se for estritamente necessário – a minha força anímica esvai-se durante o dia com todo o stress e problemas do trabalho, pelo que dificilmente conseguiria enraizar um hábito destes ao final da tarde, entre a obrigação de fazer tarefas domésticas e as oscilações de humor e energia que dependem do decorrer do dia. Para além disso, desde há uns meses para cá que tento fazer um ou dois treinos de braços (musculação) por semana, para complementar o cycling (e o padel), uma vez que estou a dar muito mais atenção aos braços do que às pernas.

    Duzentos e tal treinos depois, cá estamos – mais magra e mais saudável (noto menos cansaço no final de tarefas que puxam pelo corpo, por exemplo) mas, acima de tudo, muito orgulhosa de mim. Eu não sou só alguém que nunca gostou de fazer desporto – sou, ainda hoje, alguém com marcas profundas ganhas na escola e ginásios alheios, que me magoaram profundamente. São cicatrizes que, levianamente, tentamos pôr para trás das costas e deixar de dar importância, mas que não deixam de ser um peso só porque as escondemos e menosprezamos. Conseguir manter um hábito destes durante um ano é uma superação muito mais mental do que física. Ter encontrado um desporto que não me mata por dentro, sem ter olhos alheios postos em mim que sirvam de ponto de referência ou comparação foi uma lufada de ar fresco que nunca antes tinha sentido e a solução para um problema que achei que não era solúvel. Que dure muitos mais anos e que eu saiba equilibrá-lo com estilo de vida saudável – e que nunca, nunca mais tenha de pôr os pés num ginásio.

     

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  • Cinco coisas que me ajudaram a readquirir hábitos de leitura

    O ano ainda não acabou mas já teve duas conquistas muito grandes: a primeira foram os quase 10kg que perdi à custa de muito suor e lágrimas (felizmente o sangue não foi necessário!); foram três meses de dieta muito restrita (agora já aliviada, mas nunca totalmente posta de parte) e já lá vão quase nove meses de treinos praticamente diários, cinco a seis vezes por semana. A segunda conquista foi ter conseguido voltar a ler – que, na verdade, é o tema que me traz cá hoje.

    Curiosamente, os dois feitos estão ligados entre si. Porque foi também por ter começado a treinar que consegui voltar a ler. E houve outras coisas que ajudaram – listei cinco, ao todo, e vou contar-vos a seguir:

     

    Um bom, e soft, pontapé de saída: comecei o ano a ler um livro mais técnico, sobre dietas (lá está, primeira conexão!) e alimentação. Na altura era “o” tema da minha vida, por isso queria muito chegar ao fim do livro para fazer uma gestão mais equilibrada da minha alimentação (embora ainda hoje esteja a ser seguida por uma nutricionista). Quando dei por mim já tinha chegado ao fim e já só precisava de continuar.

     

    – Diversificar estilos: Quando cheguei ao fim do “XL ao S”, divergi para um estilo completamente diferente e novo para mim: a banda desenhada. Li-o num fósforo! E para alguém que sempre se moveu a metas no que diz respeito a livros (embora saibamos todos que quantidade não é igual a qualidade), quase sem saber como, o número ia aumentado sem grande esforço. Só depois de “A Balada para Sophie” é que me voltei para a ficção, com um livro que me tinham oferecido e que tocou o meu coração, por todas as memórias boas que tenho do Japão – “Doce Tóquio”.

     

    – Definir tempos para ler – e para tudo o resto: uma das principais causas para o decaimento nos hábitos de leitura tem um nome simples e curto, que começa e acaba com a letra “s”. Chamam-se séries. Não dão trabalho a ver, não temos de ter a luz do quarto ligada enquanto o nosso marido quer dormir, não temos de estar concentrados, despertos ou cheios de atenção – tudo (aparentes) vantagens. Mas aquilo que eu sempre senti é que ter a televisão ligada enquanto estou a adormecer me deixa agitada, enquanto que se ler fico logo muito mais relaxada; para além do stress, os livros exercitam-nos a mente, obrigando-nos à construção de cenários infinitos, enquanto que na televisão não podemos passar daquilo que escolheram mostrar-nos. No entanto, a verdade é que é difícil resistir a tanto facilitismo e ao hype que é construído em volta de várias séries, que nos deixam rapidamente com um bichinho que nos obriga a ficar colados ao ecrã durante dias seguidos. E se não podes vencê-los, junta-te a eles. Eu não deixei de ver séries – passei foi a vê-las em horários que não substituem a leitura. Que é quando? Na meia hora do demónio do meu dia, em que subo para cima da bicicleta e deixo lá os meus pulmões e, espero, umas quantas quilocalorias. Não consigo estar num aparelho de ginásio sem fazer nada: morro de tédio, começo a concentrar-me nas minhas dificuldades, a pensar em tudo o que podia estar a fazer em vez de estar ali a magoar o rabo – por isso preciso de um entretenimento. E qual é aquela coisa perfeita, que não precisa de muita concentração nem dá muito trabalho? Uma série. E as leituras ficam para a noite, com o seu slot de tempo vago, sem concorrência desleal.

     

    – Ouvir o podcast “Vale a Pena”: se há muito hype volta das séries, é preciso que o haja também em volta dos livros. E se não é bom comprarmos obras compulsivamente, até às estantes estarem cheias de livros nos quais nunca tocamos, também não nos faz mal ficarmos com aquela vontade de correr para uma livraria depois de termos ouvido rasgados elogios a uma determinada obra. E é por isso que o podcast da Mariana Alvim vale a pena (e passo o trocadilho 😉 ) – é um programa com estrutura e feito com um profissionalismo que não é assim tão comum, uma vez que os podcasts são normalmente programas não lucrativos. A ideia é ter todas as terças-feiras um convidado que, normalmente, nada tem que ver com o mundo literário e saber quais os seus três livros favoritos – e perceber o porquê, claro. Dado o leque diverso das pessoas que vão ao programa, as respostas são muito diferentes e cobrem vários tipos de obras e estilos, por isso todas as semanas há uma nova surpresa para descobrir. E se por acaso estivermos numa daquelas fases chatas de um livro que não parece avançar, é uma boa forma de arranjarmos força para o acabar – para no final, claro, termos direito a um novo livro por bom comportamento 😉

     

    – Arranjar livros que “colem” as leituras e nos deem vontade de continuar: desde há muitos anos que tenho esta técnica, mas infelizmente deixei de ter livros que servissem como cola e que me despertassem o interesse pela leitura. Para que é que servem? Para nos ajudar a ultrapassar livros que foram mais difíceis de terminar ou até obras cuja digestão não seja fácil. Uso-os, primeiro, por serem leves e fáceis de ler e segundo por, de alguma forma, nos entusiasmarem a continuar e não quebrar o ritmo. Durante muito tempo usei os livros do Tiago Rebelo para este efeito, pois tinham as características que considerava perfeitas: eram obras relativamente curtas, com histórias que agarravam facilmente e páginas que se viravam com facilidade, sem necessidade de pensar ou processar muito sobre o assunto. Li várias obras do autor mas considerei que vinham a perder qualidade, pelo que fiquei sem livros que cobrissem este propósito. Entretanto, com o sucesso da série Bridgerton – e por esta me dar aquele friozinho na espinha e vontade sempre de saber mais sobre o desenrolar da história – decidi começar a ler os livros, e percebi que tinham as características perfeitas para serem “livros cola”. E por isso, de vez em quando, lá ando eu com uma obra de “chick lit” pura – mas que me vale umas belas gargalhadas e garante a continuidade das minhas leituras.

    Dica extra! – Uma das coisas que fazia com que eu não lesse à noite era não querer incomodar o Miguel enquanto ele já descansava, por ter de estar com a luz ligada. E ao contar isto a uma amiga, ela deu a sugestão que mudou tudo: comprar uma luz estilo mineiro, daquelas que se colocam na cabeça e se compram por alguns euros na Decathlon. Se é um bocado ridículo? É. Se é um game changer? Também. É a solução que todos precisávamos para resolver os nossos problemas matrimoniais!

    Em breve partilho as críticas aos livros que tenho lido!

    E por aí, o que têm andado a ler neste verão? Há algum podcast sobre livros (e outros) que também gostem?

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  • Uma história com princípio, meio e sim: um ano depois

    Um ano. 365 dias. Casei há um ano e tudo parece ainda tão fresco… Sinto que foi ontem, mas que se passaram um trilião de coisas pelo meio – coisas que, claro, nunca caberiam num espaço de vinte e quatro horas. Mas lá que parece, parece!

    Este foi um tema muito batido no blog até ao final do ano passado – e penso que bastante maçador para alguns (desculpem!) -, ultrapassando qualquer recorde no que diz respeito às séries de textos já existentes aqui no blog (mesmo os das viagens). A rubrica “Uma história com princípio, meio e sim!” tem o equivalente a um pequeno livro de 45 páginas A4 – é muita letra sobre um só casamento, eu sei…

    Tudo isto seria relativizado se os textos se tivessem diluído ao longo do tempo, mas a verdade é que eu agora pouco tenho escrito, pelo que basta recuar meia-dúzia de posts para se ter rápido acesso a tudo escrevi sobre este tema. Sei que este é mais um para o monte – mas sinto que é importante para mim fazê-lo. Passou um ano, caramba! Como é que estou, em comparação com há um ano? Quero refletir sobre esse contraste, do sítio onde me encontro agora versus o de onde estava (e não me refiro fisicamente); quero perceber a evolução da minha visão de um acontecimento que foi tão colossal e avassalador na minha vida; quero comparar o tamanho das feridas; quero olhar para trás e ver as diferenças – e, se calhar, o que tinha mudado no caminho para aquele dia.

    Neste momento consigo comparar aquilo que sinto em relação ao bolo total do casamento (o dia e os seis meses de preparação) com a leitura de um livro já longínqua: fica a ideia geral – se gostei ou não da obra, dos sentimentos com que fiquei e as emoções por que passei enquanto folheava o livro, assim como uma visão muito genérica da história; mas os detalhes desvaneceram-se. Tenho um grande suporte com tudo o que escrevi aqui – coisas mais práticas sobre a organização de um casamento, que quis eternizar porque sei que a memória não dá para tudo -, mas os detalhes e meandros da história, tudo aquilo que foi central neste iceberg em que bati mas que só revelei a pontinha, foi desaparecendo – e ficam “apenas” os sentimentos de seis meses muito difíceis de gerir internamente, para além de uma série de temas-chave que ainda hoje me moem.

    Tenho muito a tendência de rever mentalmente acontecimentos – não fosse eu uma overthinker clássica! -, de perceber o que podia ter feito diferente, de re-encenar discussões e chegar à conclusão de que devia ter dito isto e não aquilo. O casamento não é exceção – mas sei, neste caso em específico, que fiz o melhor que sabia e podia, tendo em conta as circunstâncias.

    Ainda assim, por vezes, deixo-me cair nesta tentação de pensamentos com possibilidades infinítas e dou por mim a pensar: “fogo, se era para sofrer assim, mais valia ter partido a loiça toda e ter feito as coisas exatamente como queria! Que se lixassem os tradicionalistas – levava o Miguel comigo para decidir o vestido de noiva e ponto final. Se não queria a pessoa Y no casamento, não era convidado e ponto final. Se não queria fazer a primeira dança, não tinha sequer de dar explicações – e ponto final!”. Mas no fundo sei que o “ponto final” é sempre mais um ponto na história – ou, se o quisermos ver de forma mais dramática, mais um prego num caixão que estava a ganhar forma caso eu não tivesse posto pés ao caminho. O sofrimento não tem uma escala: mas acho que podemos concordar que ele funciona como a Lei de Murphy – pode sempre piorar. E pioraria. Porque eu estava no limite do meu esforço: lutei as batalhas que consegui, venci algumas, mas sinto que perdi outras tantas. E essa mágoa, por se tratar do meu casamento (com aquilo que deviam ser as minhas decisões, as minhas vontades e as minhas expectativas), está ainda longe de ser ultrapassada. Tenho ainda um longo caminho pela frente, onde o principal fator é o tempo. Porque na verdade, ainda que hoje o meu pensamento predominante seja “já passou um ano”, a minha cabeça sabe que na verdade deveria dizer: “calma, ainda só passou um ano…”.

    E enquanto o tempo passa – e, lentamente, cura… -, a vida acontece. E entre dias bons e maus, vem ao de cima a certeza daquilo que realmente importa: a de que tomei a decisão certa, independentemente de quaisquer pedras ou pedregulhos que me tenham atravessado o caminho. Que o Miguel foi a melhor prenda que a vida me deu, o acaso mais feliz que me aconteceu e a melhor escolha que eu podia ter feito. E que o correto era dar aquele passo, supostamente tão normal e inocente, mas que na verdade encapsula todo um conjunto de memórias, mágoas e dores que, hoje percebo, são normais em muitos casos – só não são é conhecidas nem expectáveis, uma vez que o mau tem sempre tendência para ser escondido e atirado para debaixo do tapete, ficando só as fotos com os sorrisos por cima da prateleira para toda a gente ver.

    Eu optei por não esconder nada – até porque tornar-me visível foi uma parte muito importante para apaziguar a minha alma. E hoje, um ano depois, sinto muita coisa: mas, acima de tudo, muita felicidade por ter casado com o homem da minha vida. Sei, todos os dias, que fiz a escolha certa – e casar-me-ia de novo com ele, mesmo sabendo tudo o que sei hoje.

    Há uns dias, ao passar numa montra de vestidos de noiva, demos por nós a comentar e a partilhar precisamente o mesmo pensamento, que a olho nu pode parecer um tanto ao quanto paradoxal mas que para nós faz todo o sentido: que o casamento é um dia bonito de viver e que voltaríamos a fazê-lo, um pelo outro; mas não o quereríamos reviver. A parte boa é agora, que já passou e virou memória. Porque o dia é uma experiência gira, mas o que vem a seguir é muito melhor. E nós ainda só vamos no início. 

     

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  • Algumas considerações sobre estes dois meses em que não escrevi

    1. Na verdade, escrevi, mas ainda não publiquei: tenho o post sobre as Maldivas a marinar há semanas, mas há uma inércia qualquer que me impede de o terminar. Vou tentar dar a volta à questão o mais rápido que conseguir.

    2. Apanhei Covid, na altura em que já não está na moda ter Covid – foi o meu marido que trouxe o bicho para casa (por isso, apesar de ter apanhado, sinto que estou isenta de culpas) mas passamos os dois muito bem. Na verdade, sinto que estava a precisar daquela pausa para parar com uma rotina que me estava a desgastar há uns longos meses. Foi bom para pôr a casa em ordem, fazer arrumações a fundo que iam sendo adiadas ad eternum e descansar. 

    3. Foi também óptimo para cumprir escrupulosamente com a dieta, que comecei seriamente no início de Março. O Miguel alinhou comigo neste regime e tem sido muito mais fácil fazer isto com um parceiro do que a solo: primeiro porque as refeições estão sempre alinhadas e eu não tenho de resistir ao vê-lo comer batatas fritas ou coisas do género; segundo porque temos sempre uma vozinha que nos ajuda a não desistir, mesmo nos dias em que a tentação de pecar é muita; e terceiro porque quase entramos em espírito de competição, ao estilo “quem consegue chegar aos 60kg em primeiro”. Do meu lado, tendo em conta o peso que atingi no final do ano passado, já consegui dizer adeus a cinco quilos. Para além da dieta, tenho feito exercício cinco vezes por semana, em média (o que, tendo em conta que estamos a falar de mim, é uma completa LOUCURA!). E não parei durante o Covid! Foi sempre a pedalar – o que resultou, provavelmente, na melhor semana de sempre na nossa dieta, apesar de estarmos fechados em casa.

    4. Fiz 27 anos, o que me faz estar tão perto dos 30 como dos 25. Estou um bocadinho assustada.

    5. Voltei a ler. Estou tão, tão, tão contente com isto! Li três livros nos últimos dois meses – um mais técnico, um romance e um de banda desenhada (o primeiro de toda a minha vida) – e agora só quero que isto pegue para conseguir voltar a agarrar este hábito. Mais tarde coloco aqui as minhas reviews e falarei de uma das táticas que me fez voltar a ler. Oxalá conseguisse alguma para voltar a escrever com regularidade…

    6. Apareci na televisão, numa reportagem sobre a minha fábrica, cujo resultado final gostei mesmo muito! Se tiverem curiosidade em conhecer um pouco do processo de tecelagem e do local onde trabalho, podem ver o programa aqui. A reportagem começa no minuto 1 e tem uma segunda parte, que surge por volta dos 11:45min. 

    7. Dois anos depois, voltei a tocar piano num recital. Foi tudo muito bonito até ao momento em que me sentei no piano de cauda do estúdio, para tocar o Canon in D do Pachabel; mas quando me deparo com o teclado, os meus dedos fizeram um bailado nunca antes visto. Tendo em conta tudo isto, e sabendo que o difícil naquela situação era acertar nas teclas, a coisa até nem correu muito mal – mas, na verdade, podia ter saído muito melhor. Toco muito menos do que tocava antes e perdi o hábito de atuar em público. Mais uma coisa a trabalhar nos tempos vindouros… Ate lá, vou ver se gravo uma versão decente e sem nervos para partilhar.

    8. Já tenho férias marcadas – whowooooo! Foi uma decisão que demorou a ser tomada, mas já está – agora não dá para “des-decidir”. Por muito que goste do nosso país, sinto uma “fome” enorme de mundo e quero muito colmatar estes dois anos de privação e aproveitar estes tempos com o Miguel. Mais uma vez a escolha recaiu sobre um cruzeiro que passará por Itália, Grécia e Malta. Nunca fui à Grécia, por isso será o “check” deste ano.

    9. E custe o que custar, venha o que vier, eu sei que terei de voltar a escrever. Há dias, aquando da marcação do cruzeiro, tive uma dúvida sobre um dos sítios onde parámos numa das viagens anteriores e voltei atrás nos meus posts. E estava tudo lá, com detalhe e precisão, de tal forma que quase me permite viajar de novo, ainda que sentada no meu lugar. E nesse momento pensei, e soube, que tenho mesmo de continuar a fazer isto: não só roteiros e crónicas de viagem, mas escrever de uma forma geral. Tenho saudades – mas elas não compram horas extra no meu dia, não arrumam a casa nem fazem a sopa. Passaram-se três anos de namoro e ainda não consegui reorganizar a minha vida com todas as “novas” rotinas e hábitos – mas ainda não perdi a esperança. Tenho saudades – e, no fundo, espero que também tenham saudades minhas.

     

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  • Uma arca congeladora, o luxo de uma dona de casa prevenida

    Cresci numa casa enorme, com quintal e animais, e nunca pensei que de lá ia sair. O que veio a seguir toda a gente sabe, é a lenga-lenga mais falada neste blog: a vida trocou-me as voltas e o avesso da vida acabou por se revelar o certo, mas a verdade é que a adaptação nem sempre foi fácil. Mas uma coisa correu muito melhor do que eu esperava: a mudança de uma moradia para um apartamento. Achei que me ia sentir claustrofóbica num espaço tão pequeno comparado ao meu habitual, mas a verdade é que a minha casa, mesmo antes de ser minha, revelou-se sempre um lugar de enorme conforto. 

    A arrumação e organização foi o meu maior desafio – mas a otimização de espaços é algo que até me dá algum gozo (tanto que já estive várias vezes tentada a escrever sobre isso aqui, partilhando alguns hacks e tralhas que compro e que vão ajudando no processo), pelo que sempre consegui agilizar as coisas de alguma forma. No limite, ponho numa caixa e levo para casa dos meus pais, onde o que não falta é espaço.

    Mas a verdade é que por muito que agilizemos, por muito que queiramos, por muito que sejamos a Marie Kondo portuguesa… não há como alargar espaços pequenos. Há limites para o que cabe dentro das coisas. E sabem o que é seriamente pequeno em minha casa? A arca congeladora. 

    Vinda de uma casa como a dos meus pais, quase uma pequena quinta que “produz” muita da comida que consome, nunca antes isto havia sido um problema. Com umas cinco arcas congeladoras, há espaço suficiente para os coelhos e para os frangos, para os tomates e as courgetes, para as ervilhas e para os pimentos. Nada comparado com as minhas duas singelas gavetas, que dão para pouco mais de meia dúzia de refeições.

    Ora, eu sou toda virada para a otimização, não só de espaço mas também de viagens, idas ao supermercados e mercearias. Sei que, na verdade, não sou assim tão bem sucedida, porque passo a vida a saltar de supermercado em supermercado em busca dos meus produtos favoritos; ainda assim, tento ao máximo ampliar o espaçamento das minhas visitas à mesma loja. E, para isso, é essencial planear e armazenar. Sempre gostei de planear as refeições semanalmente e de ter tudo pensado com antecedência, mas a pandemia veio agravar este meu traço, tendo em conta que hoje em dia todos estamos em risco eminente de um isolamento (o que, até agora, ainda não aconteceu connosco, whowoooo!). A questão é: onde armazenar? 

    A minha luta com a arca durante estes dois anos foi estoica e dura. Gosto sempre de ter de tudo um pouco em casa – desde carne a vegetais (corto tudo depois de vir da feira e congelo, para ser mais rápido fazer sopa durante os dias da semana), passando por algum peixe, pão e uns gelados – mas às vezes o tetris era demasiado exigente e alguma coisa acabava mesmo por ficar de fora, ao ponto de ter de levar alguma comida para casa da minha mãe. 

    Mas esses tempos acabaram. Finnito!!! Cedemos à pressão da falta de espaço e ao tetris constante e compramos uma pequena arca para pôr na cozinha; são mais três gavetas vindas diretamente do paraíso dos congelados para minha casa, que agora me permitem ceder a pequenos luxos (uns crepezitos, talvez?) e a não ter de proceder a quinze minutos de encaixa-aqui, desencaixa-ali para conseguir chegar a algum tipo de alimento.

    Ah… a liberdade! O luxo! O espaço! A capacidade de planeamento durante uma semana, sem precisar de ir ao supermercado pelo meio! Que pequena maravilha. Ser adulta tem destas coisas, não é? Quem diria que um dia havia de ficar tão feliz com uma arca congeladora. 

     

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  • Uma carta ao…. #6 Mercadona

    Querido Mercadona,

    Sou assumidamente tua fã. (Será que já inventaram alguma alcunha para os vossos fãs? Mercadonnas, para agarrar a clientela italiana? Merca-ladies, a piscar o olho aos anglo-saxónicos? Merca-dónas, para atrair as donas de casa portuguesas? Tudo um bocado preconceituoso, mas serviria o propósito. Se calhar vou pesquisar naquele grupo do “Feedback Sincero – Produtos Mercadona” que há no facebook – de certeza que já se auto-apelidaram de alguma coisa.)

    Enfim, divaguei, desculpa. Na verdade é mais ao menos como faço contigo: entro na loja e em vez de ir direta ao pão ou ao presunto, vou dando umas voltas para ver o que encontro de novo. E isso tem-me trazido consequências. Graves. Gravíssimas. Não porque o resultado tenha sido mau… é só pessimamente bom.

    Porque é assim: já todos sabemos que os produtos do Bosque Verde cheiram muito bem, que as vianinhas estão fresquinhas e no ponto, que a carne sai sempre bem, que a tua peixaria é o mais próximo que um supermercado tem de uma lota, que os mirtilos são dos melhores que se encontra no mercado, que os pãezinhos com alho são um mimo, que os iogurtes de proteína têm uma excelente relação qualidade-preço, que as pizzas são muito boas, assim como os morangos, os gelados, as castanhas congeladas, o pão ralado e, claro, o presunto que é de bradar aos céus de tão delicioso. Mas é assim… há uma linha que separa. Que separa o bom do diabolicamente bom; o desejável do irresistível; a capacidade de escolha e o vício. Que separa aquilo que se quer daquilo que não se consegue evitar. Que distingue o querer comer e não ter escolha. O querer parar e o não conseguir.

    E é aqui que entram os teus chocolates, os Fusion Oreo, que eu descobri enquanto passeava e olhava para as prateleiras, numa das minhas últimas visitas. É que uma coisa são os iogurtes, a carne, o peixe e até o presuntinho. Outra coisa são aqueles chocolates, importados diretamente pelo Diabo, para nos infernizar as papilas gustativas para todo o sempre – e que, mal habituadas, não querem saborear mais nada desde então. Sabias que a gula é um dos sete pecados mortais? E que os cúmplices são tão culpados quanto os próprios culpados? 

    Como tal, teremos de tomar medidas – até porque nenhum de nós quer ir parar ao inferno, certo? A medida mais sensata da tua parte seria retirar isto do mercado; tal como as drogas são proibidas, chocolates neste calibre de viciação e gostosura não deveriam ser permitidos. A outra alternativa será eu deixar de frequentar os teus supermercados e arrumar o meu crachá de merca-dóna – sei que parece exagerado e será duríssimo viver sem o teu jámon reserva, mas para grandes males, grandes remédios, e já se sabe que a ideia de resistir a comprar aquele pedacinho de céu (perdão – inferno) é perfeitamente utópica. Podemos arranjar também aqui uma solução intermédia, algo que te ficava bem de qualquer das formas, uma vez que o mal já está feito: criar vários clubes de chocolatólicos anónimos distribuídos pelo país, para todas as pessoas que, tal como eu, já só têm oito quadradinhos de chocolate e que não sabem como será a vida depois deles acabarem; serviria também de apoio a todos aqueles que se sentem fortes o suficiente para deixar o Fusion Oreo de vez, partilhando as suas emoções e dores neste processo de doloroso desmame para as papilas gustativas e o corpo de uma forma geral.

    Neste momento já fomos obrigados a tomar medidas aqui em casa e a única coisa que me separa do restinho da tablete que jaz na cozinha é a providência cautelar que o meu marido colocou para salvaguardar as minhas ancas, muito queixosas desde o dia em que descobri o maldito chocolate. Ele ameaça-te com processos judiciais, nomeadamente por achar que isto se pode encaixar num quadro de adultério, uma vez que acha que neste momento gosto mais do chocolate do que dele. E o pior é que não sei se ele não terá razão.

    Há por isso várias vertentes de peso envolvidas nesta questão: a fé (queremos ir ambos para o inferno?), a moral e a ética (será correto ter um produto destes no mercado?) e até a justiça (por ciúmes do meu marido). Não valerá mais a pena cortar o mal pela raiz e segregar o chocolate de vez das tuas prateleiras? Por favor. Por mim, pelas minhas ancas e glicémias. Por nós, no fundo, e pela relação que temos vindo a construir ao longo do último ano. E, claro, pelo meu marido – pessoa que, não sabendo a chocolate, eu também gosto muito. 

    Conto com a tua compreensão.

    Obrigada,

    A tua merca-dóna favorita,

    Carolina

     

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  • A vida é uma estranha bola de neve

    Há cerca de um ano e meio fui à nutricionista porque achei que estava a ficar com peso a mais e eu não estava a conseguir emagrecer sozinha. Na altura resultou, passei dos quase 67 quilos para uns felizes 61 e segui contente da vida, com o objetivo de manter. Entretanto fiquei noiva, 2021 não chegou para brincar e eu voltei a sair dos eixos. Ainda fui a consultas aí pelo meio, para ver se a pressão de uma balança que não a de casa e o compromisso com outra pessoa funcionaria, mas nem isso fez com que eu conseguisse privar-me de certas coisas e obrigar-me a outras. Valores mais altos se levantavam.

    Em Outubro, quando a vida acalmou, voltei à carga. Entre o tempo da marcação da consulta e a própria ida ao médico, vi a minha vida profissional ser abalada por um tremor de terra que mexeu muito com os alicerces da fábrica. A calmia durou dias. De qualquer das formas fui à consulta – já andava a fazer um esforço para emagrecer, a treinar pelo menos três vezes por semana e com um olho forte sob a minha alimentação (fiz um diário alimentar e tudo) mas, mais uma vez, nada resultava. Perante tudo aquilo que tinha apontado e tendo em conta tudo o que andava a fazer, a solução era só uma: cortar com todos os pequenos erros, com os deslizes e os pecadinhos que se iam cometendo para consolar a alma. 

    Ainda tentei, mas não consegui durante muito tempo – entretanto, com o Natal à mistura, mais difícil tudo isto se tornou. Sei que é na privação que está a capacidade de atingir o meu objetivo – em muitas dietas não é nem deve ser, mas no meu caso e com o meu metabolismo, não há grande volta a dar – mas eu não estou em época de me privar de algo que me dê alento. Comer emocionalmente é mau, mas há alturas em que é a das poucas coisas que restam para nos aquecer o coração e a alma. Estou numa fase tão estranha e rara que sou capaz de comer uma tablete de chocolate num só dia (eu, que normalmente como um quadrado de chocolate por mês, se tanto), por isso nem vale a pena tentar fazer grandes negociações, pois sei que serão em vão. 

    Este tipo de processos são complicados, pois são autênticas bolas de neve. Já estamos tristes por um acontecimento exterior e pior ficamos por não conseguirmos alcançar um objetivo a que nos auto-propusemos. Depois entra a auto-sabotagem (“perdida por dez, perdida por mil – vou comer a tablete de chocolate inteira!”), que levam a uma tristeza e uma frustração ainda maiores, que não compensam o prazer de termos comido o que quer que seja. E as coisas vão-se arrastando, piorando, dilacerando-nos por dentro. 

    O trabalho sempre foi para mim uma força motriz, onde eu alicerçava os meus maiores objetivos e esperanças. Quando era mais nova e achava que ia ficar solteira para sempre, imaginava que a vertente profissional seria o pilar principal e moldador da minha vida, que seria uma trabalhadora nata, que o trabalho seria o alimento da minha alma; hoje, ainda que os meus planos se tenham alterado e a família tenha passado para primeiríssimo lugar na minha lista de prioridades, o trabalho continua a ser preponderante na minha vontade de viver, de sair da cama e fazer mais, de ver um projeto meu crescer. Mas tive azar na altura em que fiquei com a fábrica e o contexto nunca esteve a meu favor. Por muito que se goste e que se queira fazer mais, há alturas em que o desânimo e a desmotivação tomam o controle – e aquilo que aprendi nos últimos tempos é que embora devamos lutar contra isso, também devemos ser tolerantes para connosco. Não estamos sempre bem nem podemos querer estar sempre bem – e isso faz parte, porque não controlamos tudo à nossa volta. E, nessas alturas, não podendo mudar aquilo que nos provoca dor, podemos tentar mudar nós. Somos altamente adaptativos, mesmo quando achamos que não. E a verdade é que não é preciso alterar muito para às vezes acontecerem coisas que antes acharíamos inacreditáveis. 

    Como não conseguia emagrecer e como a minha vida profissional também não me está a dar abébias (muito pelo contrário…), surgiu naturalmente um dos objetivos mais estranhos na história da minha vida: fazer desporto cinco vezes por semana. Quando fui à nutricionista já estava a treinar cerca de três a quatro vezes por semana, num duo entre alimentação e desporto que já achava hercúleo da minha parte. Hoje, não estando a apostar em cortes na alimentação, pus as fichas no desporto, e tem sido um desafio semanal com direito a suor e lágrimas mas, acima de tudo, de muita superação. Porque não estou focada nos resultados – e ainda bem, porque emagrecimento nem vê-lo – mas sim no facto de estar a conseguir cumprir algo que para mim seria impossível. Intercalo entre o spinning e o padel (o primeiro faço em casa, normalmente de manhã, e com muito esforço; o segundo já encaro mais como um divertimento e convívio) e controlo tudo no meu super relógio – algo que nunca pensei que ajudasse tanto neste processo.

    O smartwatch (Versa 3, para quem quiser saber o modelo) foi uma prenda de Natal do meu marido, e apesar de ser um presente incrível, é daqueles assim meio envenenados. No fundo funciona como aqueles vernizes para deixar de roer as unhas: têm um sabor amargo mas o objetivo é bom. Porque por um lado o relógio é chato e controlador – queixa-se logo quando não me mexo durante uma hora e é pior que uma vizinha cusca, sabendo quantas horas durmo, quantos passos ando, quantos pisos subo, quantas calorias queimo, o oxigénio que tenho no sangue – e, se lhe der trela, até quer saber detalhes sobre o que como, o que bebo, sobre o meu ciclo menstrual e estados de stress. Admira-me, na verdade, não ter interesse sobre xixis, cocós e outras coisas igualmente íntimas – mas acredito que lá chegaremos! Por outro lado regista todos os exercícios e avanços que faço, quantas calorias perco e o meu nível de esforço, fazendo-me querer ir mais além e criando um histórico que não engana. De cada vez que penso que não sou capaz é só ir à aplicação e ver que na segunda-feira fiz isto, na terça fiz aquilo, e que continuo cá para contar a história.

    A vida, de facto, dá voltas muito estranhas. Nunca achei que fosse beber inspiração e força no desporto mas, à falta de melhor, aqui estamos nós. A lutar para ficar à superfície – e, para isso, a definir novas metas quando as que tínhamos se vêem impraticáveis. A mostrar que somos capazes, mesmo em áreas que nunca achamos ser possíveis. E a trabalhar em novos hábitos, que podem manter-se em alturas de maior estabilidade. E nessa altura sim, talvez consiga perder o peso, a anca e a barriga que acho que tenho a mais. Uma coisa de cada vez. Até lá, o horizonte é sempre a tona da água.

     

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  • Eu não quero desmontar a árvore da Natal

    Todas as época do ano são bonitas na sua forma distinta de ser, mas nenhuma traz preparativos como o Natal. O verão pode ser digno de ânsia, mas não tem chocolates para fazer contagem decrescente; o São João é muito giro, mas não começamos a preparar a decoração um mês antes.

    O Natal é sinónimo de esperança do que vem, nem que sejam os chocolates para nos adoçar a vida; é uma de perspetiva de futuro, por termos algo que ansiar. É perceber que o amor e a partilha se calhar têm um cheiro – a canela, cravinho e vinho do porto. É ter curiosidade sobre o que é que nos espera no sapatinho, mais por saber que alguém pensou em nós do que pela prenda em si.

    O Natal para mim é tudo isso. É luz quente, é um coro de vozes como pano de fundo, são as músicas mais bonitas do ano inteiro. Um calor interno que não se explica.

    E para mim, este ano, foi especial: passei-o pela primeira vez em minha casa, com os meus pais e a família do Miguel (agora minha também). Foi a celebração do meu espaço e da família que criámos. Foi um dos dias mais bonitos do meu 2021. E por isso, e não só, custa-me desmanchar a árvore, tirar o presépio, arrumar o centro de mesa e esconder a rena. É como se desmantelasse memórias a cada galho da árvore que ponho na caixa.

    Um ano passa rápido, mas tão devagar também… O que temos para ansiar nos próximos tempos? A que cheiram estes meses frios que se seguem? A quê que nos agarramos para uma vida mais doce, somente com o calendário da secretária e sem o do advento?

    Sei, racionalmente, que não faz sentido manter a árvore todo o ano – porque é o símbolo de uma época específica, porque é estranho tê-la ali parada e faz com que pensem que tivemos simplesmente preguiça de a desmanchar. Mas, agora que penso, é exatamente por ser simbólica que eu gosto tanto dela. Uma árvore de Natal é muito mais do que uma simples árvore, não é?

    Mas, mais do que aquilo que os outros pensam ou acham, eu vou tirá-la para, daqui a uns tempos, a poder montar de novo. Porque magia não rima com rotina, e eu quero que esta época continue especial e diferente, destacada do resto do ano; porque quero que a hora de montar a árvore continue a ser um momento de felicidade – e, para o fazer, não tenho outra hipótese senão a desmanchar.   

    Por isso, este fim-de-semana, já preparada emocionalmente, dispo a muito custo o Natal aqui de casa, mas só para ter algo com que ansiar nos próximos onze meses. Porque dentro das incertezas normais da vida, o Natal é a certeza de um momento feliz; o resto do ano é incerto. Só sabemos que não tem árvores de Natal. 

     

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