• Osaka, a cidade boémia

    Já passaram quase quatro meses desde que fui ao Japão e acho que não há semana em que não fale dos locais por onde viajei durante aqueles dez dias – ora porque me perguntam, ora porque me dão as saudades, ora porque avanço num dos muitos projetos que tinha em mente neste pós-viagem, que acabou por se revelar gigante.

    Nunca demorei tanto tempo a terminar um diário de bordo – e isso pesa-me na consciência porque esta viagem, mais do que as outras, deve mesmo ficar registada com detalhe aqui, para quando a minha memória deixar de estar tão fresca. E a verdade é que já não está. Não sinto que algo se tenha perdido (não mais do que os pequenos detalhes, que por vezes fazem a diferença, mas que só no momento são possíveis de ser registados), mas sei que as emoções e os sentimentos se transformam, muito por culpa da saudade. São poucas as coisas de que me lembro de não ter gostado. O cansaço da viagem já se varreu, a lembrança do jet lag já era – e eu já ia outra vez, nem que fosse para lembrar tudo de novo. Apesar do diário de bordo ter ficado em stand by, avancei noutras coisas: o álbum físico de fotos já está nas minhas mãos (mais uma vez aproveitei uma promoção do Sapo Voucher, na sua parceria com a Dreambooks) e o vídeo já está praticamente terminado, faltam apenas algumas legendas. Só resta mesmo acabar a minha série de textos aqui e colar as minhas lembranças no viajário. Pouco a pouco, o ciclo vai-se fechando. E acho por bem eliminar o peso que há tantos meses anda na minha cabeça: o de ter deixado o diário de bordo pendurado. ‘Bora conhecer Osaka?

     

    Osaka, de todas as cidades onde fomos, é sem dúvida a mais ocidental. E não digo isto num bom sentido – muitos dos hábitos dos japoneses que mencionei nos textos anteriores deixam de se praticar quando vamos a Osaka. Dos quatro locais que conhecemos, foi o mais sujo e mais caótico; foi o único onde vimos pessoas a fumar na rua e bêbados a deambular. Foi o único local do Japão onde me senti ligeiramente insegura, numa determinada parte da cidade. Dá a sensação que importaram uma série de hábitos ocidentais… que nunca deviam ter viajado até àquele lado do globo. Gosto muito mais do “outro Japão”, limpinho e meticulosamente organizado que conheci em Tóquio, por exemplo. Importa também dizer que Osaka é a capital dos negócios onde, mais uma vez, os arranha-céus (escritórios de grandes empresas) convivem em plena harmonia com locais históricos com centenas de anos.  

     

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    É difícil distinguir estes mercados “cobertos”, que existem um pouco por todo o Japão, com lojas em ambos os lados; sem certezas, diria que este é o Shinsaibashi. Normalmente são ruas pedonais, intersetadas por outras perpendiculares onde circulam carros, cuja única diferença é não serem a céu aberto – muito para ajudar os comerciantes a não perder clientela devido às diferentes condições climatéricas. 

     

    Dotonbori é, talvez, a rua mais movimentada de Osaka – e talvez a metáfora perfeita para a própria cidade. Faz-se, acima de tudo, de comida e bebida – e, mais adiante, de lojas de roupa e outras diversões. E não é só direcionada para estrangeiros – vêem-se mesmo japoneses nas filas para comprar uns petiscos e a deambular por lá, mesclando-se perfeitamente no meio dos ocidentais curiosos, que passam a vida a olhar para cima, apreciando as montras dos restaurantes, diferentes de todas as que também nós tínhamos visto. Tem especial encanto à noite, quando todas elas têm as luzes acesas, e tudo aquilo parece um parque de diversões em modo restauração.

     

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    Algumas das montras de Dotonbori. O caranguejo real é um dos pratos típicos mais apreciados (e caros) que por lá havia.

     

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    Mais uma montra – desta vez muito famosa. O Kukuru é talvez o restaurante de takoyaki (umas bolinhas fritas, com pedaços de polvo dentro) mais conhecido de Osaka.

     

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    E mais uma montra.

     

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    O movimento típico de Dotonbori.

     

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    Não podia deixar de utilizar uma das minhas técnicas preferidas de fotografia numa rua tão movimentada!

     

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    Para além das típicas gyozas e takoyakis, experimentamos o melon pan que, como o nome indica, é um pão em forma de melão. Todos gostamos muito!

     

    Caminhando um pouco vamos dar a Minami – uma parte da cidade com as mesmas cores vibrantes de Dotonbori, mas mais calma e atravessada por um canal (o Rio Tombori), onde se podem dar passeios de barco – não o fizemos, porque estava frio, nós muito cansados e o trajeto ainda demorava algum tempo. Tem uma série de restaurantes (mais exteriores que em Dotonbori, que está mais pejado de “take aways” e coisas tipo tapas) e lojas, mais uma vez com montras gigantes e luzes que atraem toda a nossa atenção.

    Já aqui tinha falado no Don Quijote – uma loja com tudo e mais alguma coisa, onde já tínhamos ido várias vezes em Tóquio. Aqui, o “mais alguma coisa” é um carrossel com vista para Osaka, integrado na própria loja. Decidimos experimentar. Não tem nada de assustador (a subida é lenta e muito gradual), mas também nada de excelente. A parte boa é que íamos só nós dentro da cápsula, e foi divertido vivermos isso juntos; a parte má é que estávamos basicamente dentro de uma redoma de plástico, que devido aos inúmeros riscos (do uso) nem sequer permitia tirar fotos à paisagem, ou até aprecia-la devidamente. Podia ser uma coisa muito melhor do que é.

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    A zona de Minami e o Rio Tombori. Do lado esquerdo consegue-se ver a roda gigante do Don Quijote

     

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    A vista (muito “desfocada” e “riscada”) do topo da roda

     

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    Na nossa cápsula da roda gigante

     

    Foi também nesta zona que fizemos a coisa mais estúpida desta viagem (e, consequentemente, onde pior gastamos o dinheiro): irmos a um “Mameshiba Café”. Trata-se de um café… com cães. Paga-se para estar lá, tomar um café ou um chá e “conviver” com eles. A questão está no conceito de “conviver”: não se podia brincar com eles, mexer nos brinquedos e tantas outras regras que já não me recordo, porque aquilo era só absolutamente absurdo. O pior é que os cães, de tão habituados que estavam àquele entra e sai, não ligavam nada às pessoas. Mais: até evitavam contacto. Foi um desastre total. Mas desenganem-se se acham isto estranho; este tipo de cafés são  muito comuns lá: se não é com cães, é com gatos, corujas, porquinhos-anões, ouriços-cacheiros, coelhos ou até cobras, para quem quiser ser mais hardcore. Há para todos os gostos, feitios e carteiras – mas não é certamente para mim.

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    Os cães no Mameshiba Café

     

    Mas não só de festa se faz Osaka. Também tem uma parte histórica, com edifícios que entraram para o nosso top de favoritos. O Castelo de Osaka é, provavelmente, o ponto turístico mais especial. E que bonito que é! Tão diferente dos nossos castelos aqui… A parte interior do Castelo está transformado num museu com vários pisos, cuja entrada é grátis. Pensando em retrospetiva, esta acabou por ser a única parte mais “teórica” da nossa viagem, em que paramos mesmo para perceber um bocadinho da história do Japão, ali inteligentemente contada, em forma de imagens interativas e pequenos textos. Hoje vejo que essa é uma falha global de 90% dos monumentos – há falta de contexto. Ou se vai previamente preparado, ou então não se aprende muito sobre aquilo que se está apreciar.

    Dentro do museu apercebemo-nos de algo interessante e que não esperávamos: a relativa influência que Portugal teve no Japão – nomeadamente na língua. Havia dois exemplos bem explicados: os calções, que passaram a “karusan”, e o escritório (shotansu), que é no fundo uma mini-cómoda com arrumação. Havia ainda uma espécie de carta, escrita em português arcaico, que nos encheu de orgulho: das centenas de pessoas que por lá andavam tínhamos quase a certeza absoluta que éramos as únicas que percebiam o que lá dizia. Não é todos os dias, hã?

     

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    A entrada do Castelo, rodeada por água. Este tipo de paisagem, neste monumentos, é muito comum no Japão; recordo-me, por exemplo, do Palácio Imperial em Tóquio ou do Castelo de Nijo em Quioto.

     

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    A fronte do edifício, muito ornamentada com a talha de ouro e os seus telhados com formas tipicamente japonesas

     

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    Um templo dentro do Castelo

     

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    Detalhes em frente ao templo. É muito comum este tipo de estátuas estarem mais brilhantes em determinados sítios, pois muitas pessoas crêem que esfregando-as terão mais sorte na vida.

     

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    Muito amor à frente do edifício mais popular do Castelo

     

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    Figuras em representação das batalhas no Japão

     

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    Vestígios da cultura e língua portuguesas no Japão (em cima o calção e em baixo o “escritório”)

     

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    No topo do Castelo

     

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    A vista do topo do Castelo e o contraste da história com os edifícios contemporâneos

     

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    Posando em frente ao Castelo

     

    A visita ao Castelo ficou ainda marcada por outro episódio engraçado, que acabou por satisfazer (melhor do que alguma vez esperamos) um dos nossos desejos: vestirmo-nos de gueixas e samurai (nós, raparigas, e ele, respetivamente). Em Quioto a oferta era imensa – tanto para comprar fatos, como para alugar, ou até fazer sessões fotográficas muito pomposas, em que éramos maquilhadas e penteadas exatamente como elas. Achamos que o dinheiro e o tempo empregues nisto não iam valer a pena – e muito menos andar o dia todo vestidos com roupa desconfortável e uns chinelos de bradar aos céus. 

    Mas à saída do Castelo deparamo-nos com um pequeno cenário verde e um conjunto de roupas e acessórios que, em menos de um minuto, fazia de nós japoneses da antiguidade – e por tuta e meia, comparado com aquilo que tínhamos visto em Quioto. Nem pensamos duas vezes. Foi muito divertido e o resultado das fotos giríssimo. 

     

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    Nos entretantos fizemos várias paragens – uma delas foi no Umeda Sky Building, onde ponderamos subir, mas o preço não era convidativo. E, verdade seja dita, as vertigens também não. Na foto abaixo não se percebe muito bem, mas as duas “linhas” que cruzam o “círculo” são escadas rolantes. Ao ar livre. A não sei quantos metros do solo. Com as correntes de ar que lá devem correr, deve ser uma boa experiência para cardíacos – pelo que decidimos não arriscar e ficar só lá em baixo, a ver.

    Enquanto apreciávamos o edifício, mais uma história gira para contar: ao ver que falávamos português, um senhor que estava sentado próximo de nós abordou-nos (também muito por culpa do seu cão, a quem comecei a dar festinhas – a ressaca e as saudades dos meus já eram muitas, nesta fase). Perguntou de onde éramos e, surpreendentemente, sabia onde ficava Portugal. Mais: já tinha ido a Espanha, há muitos anos atrás. Arranhava bastante bem o inglês – melhor do que alguns funcionários de hotel – e falou-nos também do edifício que tínhamos à frente. No fim, sacou do bolso uma máquina fotográfica analógica, daquelas descartáveis, e perguntou se podia tirar-me uma fotografia com o seu cão. Perguntei-lhe o nome do bichinho: “Kokurochan, do you remember?”, disse-me, como quem pede para eu não me esquecer. E a verdade é que não esqueci. Já o meu nome ele não sabe, mas ficará para a posteridade com uma fotografia de uma portuguesa com o seu cãozinho. 

     

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    Umeda Sky Building

     

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    O senhor, o Kokurochan e eu, enquanto nos explicava algo sobre o Umeda Sky Building

     

    A paragem seguinte foi America Mura. Todos concordamos que, de todos os sítios que visitamos no Japão, este foi aquele em que nos sentimos mais desconfortáveis. Dizer inseguros é um exagero… mas a sensação que tivemos sobre as pessoas que nos rodeavam não foi, de todo, boa. Este é o sítio dos jovens em Osaka e corresponde bem ao estereótipo dos miúdos com penteados malucos, cabelos coloridos e rádio nos ombros com música hip-hop japonesa; há direito a freaks, graffitis nas paredes e tantas outras coisas “modernas”, que dispensava no Japão que tanto gostei. Existem muitas lojas e restaurantes, numa mistura entre as montras de Dotonbori e a loucura americana, que claramente inspira este bairro. Gostei de conhecer, mas está longe de ter sido um sítio que me conquistou – e há muitos outros que o podem substituir, tanto ao nível das lojas (tem algum anime, mas nada comparado com Akihabara em Tóquio) como de restauração. 

     

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    America Mura

     

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    Uma das ruas de America Mura

     

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    Montras ao estilo de Dotonbori em America Mura

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    America Mura

    Percebemos rapidamente que Osaka não tocou, a nenhum de nós, no coração. Tínhamos, como em toda a viagem, dois dias de roteiro bem delineados, mas improvisamos – optamos por ir a alguns sítios, prescindimos de outros – de forma a deixar o segundo dia livre. Para quê? Para ir à Universal Studios, que tem um dos poucos “Castelos de Hogwarts” de todo o mundo, assim como todo um espaço temático dedicado ao Harry Potter – saga de que todos somos fãs. Eu nunca tinha ido a um parque de diversões, prefiro manter as montanhas russas e esse tipo de divertimentos longe de mim, mas estávamos a falar de Harry Potter. E pronto: cedi.

    Antes irmos para os estúdios – e depois voltar a Tóquio, onde dormiríamos a nossa última noite no Japão – fizemos a nossa última paragem num templo óptimo para portistas, o Namba Yasaka Shrine, cuja arquitetura é em forma de dragão.

     

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    Depois foi entrar no comboio (não na plataforma 9 3/4, mas foi o que se arranjou) e seguir para o mundo encantado de Hogwarts. A entrada no parque rondou os 70 euros – e, claro, tinha muito mais do que Harry Potter. Tinha a vila dos Minions, espaços dedicados ao Homem-Aranha, uma réplica dos bairros americanos dos anos 50, o espaço “interdito” do Jurassic Park e também do Shark, entre tantas outras coisas – muitas que nem sequer vimos, porque íamos com um objetivo muito definido: Hogwarts. 

    E, de facto, a caracterização é só incrível. Tinha desde a estufa das aulas de herbologia (que servia de espaço para as longas filas de espera), passando pelo Sorting Hat e o retrato da mulher gorda, que dá acesso à sala comum dos Griffyndor; tudo isto acaba numa incrível viagem (que é, na verdade, uma pequena montanha russa) que, numa mistura entre imagens projetadas num ecrã gigante e o nosso próprio movimento nos dá a sensação de que estamos mesmo em cima de uma vassoura a voar com o Harry, o Ron e a Hermione. Não faltou a snitch para apanhar nem os dementors para nos assustar. Foi só incrível, algo inexplicável por palavras. Só um senão: toda a narrativa da história desta viagem (que deve ter durado pouco mais de cinco minutos) era toda feita em japonês, pelo que não percebemos nada. O que vale é que as imagens não precisam de tradução – e, como se sabe, valem mais que mil palavras.

    A zona que envolvia o Castelo era igualmente incrível – com particular destaque para o Olivander’s, onde também há uma pequena exibição e onde um sortudo/a pode até ganhar uma varinha. Todos os detalhes são pensados ao pormenor e os espaços são realmente bonitos. Não falta a loja de brincadeiras dos gémeos Weasley, das guloseimas, dos materiais de escola ou sequer a Butter Beer. Diagon Alley está ali em peso, até com direito a “neve” no topo dos edifícios, e é só incrível.

    Como sei que esta parte só interessa a alguns – e, àqueles que interessa, a curiosidade é muita – deixo uma série de fotos que tirei na galeria abaixo, onde só têm de clicar nos botões (direita ou esquerda) para percorrer as fotografias.

     

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    E assim terminou a nossa passagem por Osaka – sem uma paixão desmesurada, mas com muito divertimento à mistura. De todas as cidades que visitei, será certamente a que menos recomendo – mas há locais, como o Castelo de Osaka, que me ficaram no coração e que adoro.

    Não há arrependimentos nesta viagem. Houve coisas que gostamos mais, outras menos – e isto nem sempre foi consensual – mas foi bom conhecer tudo. Fazer tudo. Provar tudo. Tentar tudo – principalmente absorver toda a magnífica cultura japonesa. 

    Só ficam duas coisas: saudade. Mas, acima de tudo, a felicidade por termos ido. 

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  • As tentações do AliExpress

    Há uma fase da nossa vida em que, por uma razão ou por outra, damos por nós a pensar “caraças, sou igualzinho ao meu pai” (ou à minha mãe, é como der jeito). Creio que acontece muito quando já somos pais, numa daquelas inevitáveis alturas em que um filho enraivecido pelas hormonas nos atira à cara exatamente as mesmas coisas que nós atirávamos aos nossos progenitores naquela idade. Eu fui precoce. Não tenho filhos e já penso, muitas vezes: “caraças, estou a ficar igual à minha mãe”.

    Num Natal, para gozar com ela, ofereci-lhe uma caixa de “Coisas Giras mas Inúteis”. Era, basicamente, um compêndio de utensílios culinários – dos mais estranhos, invulgares, estúpidos e inúteis que encontrei no mercado nacional – para brincar com a sua vontade louca de encher as gavetas (e as prateleiras) da cozinha com tudo o que é ferramenta para cozinhar ou para auxiliar esta atividade. O quinto piso do El Corte Inglês ou até o mero corredor da secção Kasa do Continente são locais onde não se deve deixar a minha mãe sozinha. Pelo menos, não com a carteira.

    E sim, agora vou dizer aquilo que estão a pensar:

    Eu sou igual.

    Há meia dúzia de anos gozava com a minha mãe e hoje sou eu que adoro tralhas de todos os géneros. Nesse aspeto até se pode considerar que sou pior: apesar de ter uma pancada particular por items de organização, gosto de tudo aquilo que acho que possa ser uma ideia inovadora – ainda que tenha 99% de hipóteses de ser inútil ou ineficaz naquilo a que se propõe. Há ainda mais uma agravante: eu não preciso de sair de casa para cair em tentação. Nem de um cartão de crédito físico! Abro o AliExpress e ele satisfaz-me todos os desejos-estúpidos-de-coisas-giras-mas-inúteis. Ele sabe o estilo de coisas que eu gosto. Ele sabe que eu sou forreta e não gosto de pagar portes de envio. Ele sabe que as coisas baratinhas devem vir primeiro na lista. E como é que eu posso resistir a um descascador de castanhas a um euro e meio, se tenho sempre medo de cortar castanhas com a faca (e levar um dedo atrás)? E a um cortador de papel de embrulho por meio euro, que nem dá para um café, e é coisa que me chateia tanto (cortar o papel de embrulho é chato, toda a gente sabe)? E aquelas prateleiras extensíveis, que tanto jeitinho davam no meu quarto de banho com tão pouca organização?

    Pronto, não resisto. E se há coisas que, quando abro após chegarem do correio, me dão vontade de devolver para a China de tão embaraçosas – de más – que são, há outras que até são bons achados. Diria até que o AliExpress pode ser o paraíso dos freaks da organização. Mas, por outro lado, é um mundo de tentações sem fim – e, acreditem, há tentações muito parvas. Há que saber escolher – e perceber que a expectativa nem sempre corresponde à realidade. Podia – e vou, em breve – mostrar como tenho transformado muitos espaços da minha “nova casa” com a ajuda deste meu novo melhor amigo. Mas, por hoje, ficamo-nos por um bom choque de realidade – que é como quem diz, de “vergonha alheia”.

     

    “1 par de palmilhas de algodão de apoio para o antepé” (vá, isto trocado por miúdos)

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    (e a beleza daquele mindinho que não encaixa, hun?)

     

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  • Acreditar em mim

    Olhei de relance ao espelho enquanto lavava os dentes e se ouvia no meu telemóvel a “Talvez de Eu Dançasse”, do Miguel Araújo. Estava a pensar numa série de coisas que me tinham acontecido nos últimos dias. E a rever mentalmente conversas que tive. E, do nada, caiu-me a ficha. Percebi o que era “acreditar em mim”.

    O assunto colocou-se devido à minha necessidade de, neste ano, perder peso. Se bem se lembram foi este o primeiro objetivo que escrevi na minha lista para 2020 e estou a levar a questão muito a sério, sem dietas malucas ou princípios infundados. Fui ao nutricionista, pedi ajuda naquilo que acho que são as minhas fraquezas, procurei alternativas – e o resto compete-me a mim. Não sou ignorante na matéria e já sabia o que ia ouvir: faltam-me legumes sólidos na alimentação, em substituição dos hidratos, e fazer exercício. Sobre isto, também sei o que me dizem sempre: “tens de encontrar um desporto que gostes”. E eu encolho os ombros, sabendo bem que não vale a pena responder a algo que do outro lado não querem ouvir ou aceitar. Rematei apenas: “é mais fácil passar a gostar de legumes”. E, acreditem: eu odeio legumes.

    Não há nenhum desporto que eu goste e eu não preciso de os experimentar a todos. Porque isto vai muito para além de uma modalidade ou das suas características e idiossincrasias. Sou eu. Eu e os meus demónios. Cada pessoa tem a sua história e é muito fácil dizer que “toda a gente tem de gostar minimamente de desporto, nem que seja uma só modalidadezinha!” quando não estamos na pele do outro. É muito fácil dizer o que quer que seja (sobre qualquer assunto) quando não sabemos as razões, as vivências, as histórias e os fantasmas de quem está à nossa frente.

    Não se trata de ser natação, ginástica, futebol, basquetebol, corrida ou andebol. Posso saber as regras de todos mas continuarão a ser, para mim, bichos de sete cabeças. Porque cresci a ouvir que não os sabia fazer. Já escrevi várias vezes sobre o impacto que teve sobre mim, e a minha auto-estima, o facto de ter sido sempre – durante a minha vida escolar – a última a ser escolhida para as equipas em educação física. Não esqueço o olhar de tédio – ou, por outro lado, de divertimento – quando os meus colegas me esperavam na meta da pista de atletismo do estádio, quando eu finalmente conseguia completar um quilómetro de corrida, terminando a prova uns dois minutos depois deles. Não se apaga da minha memória um momento em que, algures no quinto ano, uma professora diz “aí vem o desastre” enquanto eu entro para fazer uma prestação individual de uma modalidade qualquer. E também me recordo bem do olhar de “nhé” da minha professora de dança sempre que apreciava as minhas coreografias, encomendadas por ela nessa mesma aula. Nota para quem não me conhece (mas que, por esta altura, já deve estar a desconfiar do que aí vem): eu hoje em dia não danço.

    Há coisas que têm um impacto inigualável e muito pouco expectável na nossa vida. Coisas que às vezes só percebemos mais tarde, quando escavamos até à raiz. Coisas que se disfarçam, com que se vive, mas que não desaparecem. E que vêm ao de cima em momentos de fragilidade. No meu caso apareciam quando ia a aulas de grupo (circuito, GAP ou localizada) e tinha uma vontade tremenda de chorar a meio dos exercícios, que se tornavam em ataques de choro mal punha um pé fora do ginásio; apareciam quando tive a infeliz ideia de contratar um PT e, antes das aulas, tinha vómitos de tão nervosa que ficava. E aparecem agora, quando se toca na ferida, e os outros tratam o assunto como alguém que simplesmente não gosta de exercício. Porque é muito mais que isso.

    Ontem, a este propósito, o meu namorado disse-me que acreditava em mim. E perguntou-me: “porque é que tu não acreditas em ti?”. E eu levei sempre este cliché, o “acreditarmos em nós mesmos”, como um sinónimo de acharmos que somos capazes de algo. Do género: “eu sei perfeitamente que sou capaz de emagrecer, acredito em mim”. Mas hoje, ao lavar os dentes, lembrei-me de outra coisa que ele me disse: “porque é que sempre acreditaste nas coisas que os outros te disseram e hoje não acreditas em mim?”. E eu percebi que fiz da verdade dos outros, a minha verdade. Não se trata de saber que consigo, que sou capaz. Trata-se de saber aquilo que sou. E não, não é a mesma coisa. 

    É saber que tenho duas pernas e dois braços, que não tenho aquela aptidão que muita gente tem para o desporto – que não chuto naturalmente uma bola, que não atiro direito para o cesto e que sou um tanto ao quanto desconchavada a correr – mas que consigo fazer as coisas. É saber que sou chatinha. Que sou organizada. Que cozinho bem. Que não gosto de aspirar. Que devia limpar o carro e não limpo.

    É conhecer-me. E saber que posso fazer as coisas, independentemente de gostar ou não, de ser melhor ou pior. E que as opiniões dos outros não têm de ser as minhas. Que é inevitável ouvi-las, porque não controlamos as ações dos outros, mas que é uma escolha (mesmo que isso implique trabalho, racional e emocional) absorvê-las e fazer com que passem a ser as nossas opiniões.

    Tenho quase 25 anos e, apesar de ser toda independente e nariz arrebitado, não sabia o que era acreditar em mim. Que bela idade para mudar. Talvez se eu dançasse….

     

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  • Game fever: os meus jogos de tabuleiro favoritos

    Sempre fui fanática por jogos de tabuleiro. As tardes em que os meus primos alinhavam em jogar Cluedo eram de longe as mais felizes para mim – de tal forma que eu dava TUDO para ganhar, para desfrutar daquilo ao máximo, para não perder nenhum detalhe. Era uma festa.

    Mas era coisa para acontecer uma vez por ano, se tanto. Se os ajuntamentos não aconteciam com muita frequência, conseguir que jogar fosse vontade de todos era um filme sem fim. Pelo que, na maior parte das vezes, os jogos ficavam a apanhar pó. Os meus irmãos já não alinhavam nessas coisas e só com os meus pais também não dava muito jeito. Restava-me jogar o dominó, as damas e o “Quem é Quem” com o meu pai, que sempre me matavam o bichinho (e que me criaram memórias que guardo com muito carinho).

    Ao longo dos anos fui comprando um ou outro jogo, muitas vezes em conluio com a minha mãe, que também acha graça a estas coisas. Mas a verdade é que pouco os usávamos – ora no Natal, transformando a mesa de jantar num autêntico campo de batalha, ora quando o Rei faz anos.

    Entretanto, quando me apercebi que o meu namorado era fã destes jogos (que foi, basicamente, logo quando começamos a dar-nos, quando ele me convidou para uma sessão de jogos de tabuleiro) agarrei logo a oportunidade. Já tinha, desde há muito tempo, uma série de jogos debaixo de olho – e esta foi a altura ideal para me fazer a eles. Como agora temos vários grupos com quem experimentar, vamos jogando e vendo o que gostamos mais e que dinâmicas funcionam melhor. Até lá em casa está a pegar o bichinho! E a minha mãe já aproveitou para investir num par de outros jogos, que também trago emprestados de vez em quando, só para lhes dar uso. É ao gosto do freguês, basicamente.

    No meio desta game fever também os outros se começaram a aperceber do fenómeno e, neste Natal, uma série de prendas contribuíram para o crescimento da nossa coleção. Posto isto, ainda que não me possa considerar (para já!) uma expert na matéria, achei que podia fazer algumas reviews sobre os jogos que mais temos jogado lá em casa. Para já deixo os nossos três favoritos do momento:

     

    Scattergories

    Este está longe de ser um jogo novo. Foi lançado pela primeira vez em 1988 e já há mais de vinte anos que tem destaque lá em casa. Sempre foi dos que gostei mais, mas sempre achei que ao lado de colossos como o Cluedo ou o Monopólio não tinha grande projeção. Até há um ano atrás não sabia de ninguém que o conhecesse (fora da minha família), mas esta nova edição da Hasbro veio dar-lhe uma nova vida – e em português!, um pormenor que neste jogo acaba por ter alguma importância (a que tinha antes era inglesa).

    Mas vamos à pergunta que se impõe: sobre que é? No fundo, o Scattergories é o jogo do stop mas em bom. Vai muito além das categorias de “nomes”, “animais”, “capitais” ou “vips”. Tem vários conjuntos de categorias (de coisas tão normais como “vegetais” a outras tão parvas como “desculpas para chegar tarde”) que têm de ser preenchidas ao rodar do dado, que contém em cada uma das suas faces cada letra do abecedário. O objetivo é completar o máximo de categorias possível (são 12), num determinado período de tempo, com respostas pertinentes e, se possível, diferentes das dos colegas. Não é jogo para quando está tudo mais para lá que para cá, mas garanto ser muito divertido. Para mim continua a ser o melhor de sempre!

     

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    Tensão

    No Tensão voltam as categorias. Para quem conhece ou já viu o popular concurso de televisão “family feud”, a dinâmica deste jogo vai ser familiar. Aqui ninguém joga por si: formam-se duas equipas e não pode haver batotas, pois é a equipa adversária que controla os avanços da outra. Então é assim: é lançada uma categoria e a equipa que responde tem de adivinhar quais as respostas mais típicas dessa categoria. Exemplos: na categoria “doces regionais”, dizer “pastéis de Belém”, “pampilho” ou “Dom Rodrigo”; quando o tópico é “países frios”, potenciais respostas são a Rússia, a Islândia e outros que tais. Não há limites para aquilo que dizemos nem somos prejudicados por dizer algo que não está listado – mas é preciso manter em mente que o objetivo é conseguir acertar nas respostas que estão no cartão (e que serão, supostamente, as mais respondidas). 

    Como o jogo é composto por duas equipas, não há limite de participantes. No entanto, quando são muitos, torna-se difícil decifrar as respostas no meio de tantos berros (o que torna a vida da outra equipa, que está a monitorizar as respostas certas, um bocadinho difícil). Diria que o limite razoável é de 10, 12 pessoas no total. 

    A pressão (e a dificuldade) acaba por ser bem menor que no Scattergories, mas é um jogo igualmente muito divertido. E tem o lado do jogo de equipa – que, dependendo do perfil de cada um, pode ou não ajudar à festa.

     

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    Dixit

    O Dixit tem, à partida, um entrave: parece difícil de explicar (e, consequentemente, de jogar). Mas a verdade é que não é. Primeiro estranha-se, depois entranha-se – e consegue ser muitíssimo divertido, pois demonstra que a forma como cada um vê as coisas é diferente da do outro ao lado. Dizem que uma imagem vale mais de mil palavras – e aqui se demonstra que vale mesmo!

    O jogo baseia-se em descrever uma imagem (de um conjunto de cartas que são distribuídas à partida por cada jogador) através de uma palavra, uma frase, uma canção, um filme… qualquer coisa. O objetivo é que essa pista não seja nem muito óbvia nem muito difícil – de forma a que, no final, algumas pessoas indiquem que aquela foi a carta descrita, mas outras sejam despistadas por outras cartas colocadas em cima da mesa pelos outros jogadores. Em cada ronda há, em cima da mesa, tantas cartas quantos jogadores (pois todos escolhem, do seu próprio baralho, uma carta que se identifique minimamente com a descrição dada pela primeira pessoa). No final, vota-se: qual é, afinal, a carta “inicial”, que recebeu aquela descrição? Quem acertou ou conseguiu enganar os outros (com a carta que entregou), ganha pontos; quem não o fez, vai ficando para trás.

    Tem a grande vantagem de poder ser jogado com pessoas de todas as idades (algo que não se pode dizer dos dois jogos anteriores, que exigem alguma cultura geral) e de depender apenas da criatividade e imaginação de cada um. Para além de que se podem comprar packs de expansão (mais cartas, com mais imagens), para que o jogo nunca se torne repetitivo. É muito, muito giro ver a interpretação que cada um faz de uma imagem que é, aparentemente, simples. E é surpreendente a quantidade de referências e ideias que uma imagem transmite. 

    Foi o jogo escolhido para a noite de Ano Novo e ficamos de tal forma embrenhados que as 12 badaladas estavam a passar e nós a contar os pontos. E a verdade é que, por vontade de alguns, ainda lá estávamos. É incrível!

     

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    Como é: partilho mais jogos que tenho descoberto nos últimos tempos?

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  • Chávena de Letras: “Os Livros que Devoraram o Meu Pai”

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    Logo no momento da compra deste livro percebi que, aparentemente, eu já não fazia parte do (suposto) target para o qual esta obra teria sido escrita. “Mas este livro é infanto-juvenil”, atirou logo a assistente da Bertrand quando lhe pedi ajuda a encontrar o dito cujo, como se eu não tivesse idade para ler o que bem me apetecesse. “Ou então está incluído no plano Ler+”, rematou, como quem põe água na fervura.

    O tamanho diminuto do livro, inversamente proporcional ao tamanho da fonte, indicam de facto ser um livro para os mais novos. Mas a verdade é que só vejo adultos a lê-lo, talvez por ter associado o nome de Afonso Cruz (a começar pela Inês, que foi quem me aguçou a curiosade sobre este livro). E é indiferente se é lido por miúdos ou graúdos.

    Porque “Os Livros que Devoraram o Meu Pai” é um livro sobre livros; é uma óptima porta de entrada para quem está a (re)entrar neste mundo, independentemente da idade que tenha. É um docinho que nos adoça a curiosidade para alguns coloços da literatura, que nos dá a conhecer algumas das suas personagens e da sua história só para nos deixar espreitar um pouco lá para dentro. A “Divina Comédia”, de Dante, ” O Estranho Caso de Dr. Jekyll e de Mr. Hyde” de Robert Louis Stevenson ou “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury são alguns exemplos das obras mencionadas, usadas por Afonso Cruz como mundos onde a sua própria personagem habita, entrelaçando as histórias com a sua própria história.

    Paralelamente a esta narrativa principal – sobre livros, livros e livros! -, decorre uma secundária que acaba por ganhar projeção no final. Foi esta que me fez gostar menos da obra. Não percebi qual a intenção do autor em levar a história para aquele caminho. Se havia uma lição de moral a retirar ou uma pescadinha de rabo na boca, não as assimilei como deve ser. E, sendo este um livro dedicado aos mais novos, temo que lhes aconteça o mesmo, e que o travo agridoce do final contrarie todo o propósito do livro: que ler é uma aventura paralela à própria vida.

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  • O que é a nossa casa?

    A minha saída de casa foi o elefante na sala de 2019. Mas um assim daqueles mesmo gordos, que não passava na porta por muito que eu o virasse de pernas para o ar. Foi um processo tão natural como doloroso – e eu aprendi, pela primeira vez, que pode haver muita dor na felicidade.

    Nunca tomei a decisão de sair de casa. Nunca fiz as malas e trouxe as minhas coisas para casa do meu namorado. Nunca bati com a porta. 

    Simplesmente aconteceu, foi só um passo num processo que se queria mais oleado no que dizia respeito à convivência com o meu namorado. Ambos trabalhadores, decidimos que o momento do dia para estarmos juntos seria o jantar. Depois era aquele bocadinho de televisão enquanto o estômago fazia o seu trabalho de digestão e, logo a seguir, cama, que o dia seguinte era normalmente de trabalho. E eu, que sempre adorei dormir sozinha, dei por mim a querer ficar aquele bocadinho mais com ele; gostava de o ver adormecer, de o sentir relaxado ao meu lado. De eu própria relaxar de um dia de azáfama e stress com a mão dele em cima da minha. 

    O que acontecia era óbvio. A maior parte das vezes adormecia. Mas no primeiro momento em que acordava para me virar para o outro lado ou pôr mais confortável, abria a pestana, via as horas e ia embora para minha casa. Podiam ser 23h. Mas também podiam ser duas da manhã. E muito embora os meus pais soubessem perfeitamente onde estava (a não mais de cinco minutos de casa), toda esta incerteza de estar ou não estar em casa, de chegar ou não chegar a certa hora, causava-lhes mau estar – até porque nunca fui pessoa de sair ou de chegar tarde. E se para eles era desconfortável, para mim era cansativo. Foram uns meses a acordar após o primeiro sono, vestir e ir para casa; a interromper o momento de descanso, conduzir, e voltar a deitar-me noutra cama fria. 

    Até ao dia em que me disseram que talvez o melhor fosse ficar lá a dormir, para não haver desconforto para nenhum dos lados. E eu assim fiz. Parece simples, não é? Parece que estamos só a discutir meia-dúzia de horas em que nem sequer convivemos com ninguém, horas nulas no nosso dia. Mas que depois, vendo ao detalhe, se transcendem, tanto em questões práticas como psicológicas.

    Diria que na nossa cabeça, e vista a questão de um ponto de vista simplista, a nossa casa é o sítio onde dormimos. Casa pode ser o imóvel que compramos ou alugamos. Ou o que herdamos. Pode ser o sítio onde moramos com os nossos pais. Pode ser o local onde nos sentimos mais confortáveis. Onde passamos mais tempo. Ou pode ser uma pessoa, independentemente de qualquer bem material. O significado de casa é diferente para cada um de nós.

    Mas a partir do momento em que eu vim dormir para outra casa que não a minha (e que será, eternamente, minha), todo um caos se formou dentro de mim. Mais do que afetar a minha vida do dia-a-dia, afetou o meu bem-estar pessoal. 

    Qual é, afinal, a minha casa?

    Aquela onde moram os meus pais, onde eu sempre morei? Que é minha por direito e herança, mas que é minha acima de tudo porque tenho lá toda a minha vida? Aquela onde desejei viver para o resto da minha vida, a minha casa de sonho, com tudo aquilo que nunca me imaginei a viver sem? Ou esta, onde estou a tentar lançar raízes para uma família a dois, mas que de facto não é minha, e nunca será minha, para além do sentimento que tenho por ela? São as minhas coisas que fazem a minha casa? Sou eu? É a minha vontade de cá estar?

    Há uns dias, enquanto batia com a porta da garagem de casa do meu namorado, falava com a minha irmã ao telemóvel. Veio a pergunta tão inocente como típica, do outro lado da linha: “onde estás?”. E eu disse, como digo sempre, aplicando a minha nova nomenclatura no que a habitações diz respeito: “a sair de casa do Miguel para ir para casa dos pais”. Ao que ela respondeu: “quando é que vais começar a chamar a essa a tua casa?”.

    A resposta é que não sei. Nem quero pensar nisso. Mas, engraçado, no meio deste limbo acabei por “perder” a “minha casa”. Agora, independente da casa onde viva, digo sempre que é dos outros. Acho que para evitar dores e choques de realidade. Para não ter de decidir. Para não ter de pôr um ponto final numa e fazer um parágrafo na outra. Porque gostava de saber se dá para viver desta forma, com ponto e vírgula.

    Tudo isto sabendo, claro, qual é o caminho natural das coisas. Sei que, mais dia menos dia, direi ao final da tarde, quando sair do trabalho para ir fazer o jantar, que venho para “minha casa”. Mas também sei que só o vou dizer quando, tanto no meu coração como na minha cabeça, ficar garantido que a minha casa – a casa dos meus pais – será exatamente isso: eternamente minha. Que o meu quarto será eternamente meu, com as coisas que o identifiquem como tal, mesmo que algumas venham comigo para esta nova casa para que, também eu, me possa sentir em casa. E, acima de tudo, sei que só o vou dizer quando estiver de consciência tranquila e fizer as pazes comigo própria, muito em parte por ter deixado os meus pais naquela que lhes disse ser para sempre a minha casa. E que é, e que eu sinto como tal, mesmo não dormindo lá. Porque continua a ser a casa onde passo mais tempo ativo (porque dormir não passa disso, e basta uma cama, independentemente do sítio onde está inserida), a casa com as minhas coisas e a história da minha vida. E a casa onde um dia, se tudo correr bem, gostaria de voltar a viver em pleno, com tudo o que isso inclui.

    Depois de tudo isso sarado, de todas as respostas resolvidas e todos os medos apagados, após os outros perceberem esta dinâmica que quero e que sinto ser a melhor para mim… eu talvez consiga dizer que a minha casa é esta. Até lá, não me perguntem onde vivo. Há definições que, apesar de aparentemente fáceis, são difíceis de definir.

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  • 19 objetivos para 2020

    Depois do sucesso que foi, para mim, fazer uma lista detalhada com os objetivos para 2019 – que, como disse, fui deitando um olho de vez em quando, para ver se a coisa não saía muito do meu controlo – decidi fazer o mesmo para 2020. Queria seguir a mesma lógica e, este ano, escrever 20 objetivos – mas, por um lado, já não me conseguia lembrar de mais nada para escrever; por outro, e pensando já a longo prazo, vi que em 2050 estaria tramada, com 50 objetivos para delinear. Por isso achei melhor quebrar já o ciclo e ficar-me pelos já clássicos 19 objetivos. Já não é mau! Aliás, já é um risco bastante grande! Neste tipo de coisas, quanto mais escrevemos, maior é a possibilidade de insucesso. Mas eu estou esperançosa!

    A verdade é que esta lista não é tão entusiasmante como a do ano passado. 2019 foi um ano de mudanças: algumas que eu sabia que estavam em curso, outras que eu não fazia a mínima ideia de que iriam acontecer e que abalaram todos os meus alicerces. Mais do que ser bom ou mau, foi um buuuum de acontecimentos que tive de interiorizar e cujo impacto tive de amortizar e aprender a gerir. Este ano continuo aberta a surpresas, mas espero acima de tudo que 2020 seja de estabilização: no trabalho (em que a “estranheza” inicial já passou, assim como a fase das “limpezas gerais”), com a família e com os amigos, e com a família que estou a criar (comigo e com o meu namorado – e todas as novas dinâmicas que isso implica). 

    Posto isto, aí vai a minha lista para ter em olho nos próximos 366 dias (mais coisa, menos coisa):

     

    – Perder, pelo menos, 5 kgs;

    – Ler, pelo menos, 12 livros – o equivalente a um por mês;

    – Fazer, pelo menos, seis escape rooms;

    – Continuar o trabalho de apagar más fotos que, nos meus arquivos de anos e anos, ocupam gigas de espaço no meu computador;

    – Não só aprender novas músicas no piano mas também trabalhar as que já sei e que, por não treinar, me esqueci;

    – Fazer um curso sobre malhas no estrangeiro;

    – Riscar, pelo menos, mais um país do meu mapa de locais visitados;

    – Fazer com que a minha empresa volte, tantos anos depois, a ser representada em feiras;

    – Depois da missão de tentar manter a minha caixa de email limpa, este ano auto-proponho-me (e prometo tentar) deixar limpo o ambiente de trabalho, sem todos aqueles items que lá guardo “só porque naquele momento não tenho o tempo para os arrumar e que, mal tenha um tempinho, arrumo” e que se transformam em autênticos monos que habitam o meu ambiente de trabalho durante anos;

    – Não quero voltar ao ginásio. Não sou feliz no ginásio, não gosto do ginásio e é irrealista pôr isso na minha lista. Mas este ano gostava de encontrar alguma coisa de que gostasse – ou, pelo menos, que não fosse um sacrifício de todos os tamanhos. Não tem de ser algo que me deixe como a Carolina Patrocínio – basta algo que me permita não virar lontra e, já agora, não ganhar os 5kgs que pretendo perder em 2020;

    – Escrever, pelo menos, dois posts por semana aqui no blog. Isto seria muito, muito, muito importante para mim, pois sinto uma pressão e um arrependimento enorme quando não escrevo. Duas vezes por semana é o mínimo dos mínimos para quem tinha o objetivo de escrever todos os dias;

    – Alimentar o blog das receitas duas vezes por mês. Com a minha nova faceta de “dona de casa”, cozinhar acabou por ser um escape; escrever novas receitas é sinónimo de que estou a inovar e de que estou na cozinha por gosto, o que é algo que quero que se mantenha;

    – Tornar a vida entre as minhas “duas casas” o mais suave possível, atenuando todas as lombas e solavancos que fui sentindo – e que tanto me martirizaram – ao longo do ano que passou;

    – Fazer o álbum de fotos do best of de 2019 e acabar o da minha viagem do Japão;

    – Manter a minha lista de trackers atualizada – sou um bocadinho baldas no que toca à minha lista de “do’s” e “do not’s”  gostava de conseguir completar tudo durante um mês, sem dias de falha;

    – Assinar a revista Prima e não empilhar edições para as ler de rajada no Verão;

    – Voltar a fazer uma viagem a dois com o meu namorado, mesmo que seja só uma escapadinha de fim-de-semana;

    – Continuar a conhecer terras deste nosso maravilhoso e lindo Portugal;

    – E, mais uma vez, ser constantemente mais positiva. Tentar ser feliz todos os dias. Fazer um balanço diário do meu dia e perceber a sorte que tenho, mesmo nos dias piores. 

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  • Em 2018 eu…

    – Mudei de vida, despedi-me e agarrei no desafio de embarcar nas empresas da família;

    Voltei à universidade;

    – Viajei sozinha pela primeira vez – o destino foi os Açores, e foi uma paixão que será eterna;

    – Fui ao Brasil, à Áustria, à Eslováquia, à Hungria e à República Checa;

    – Fui muito de força contra o vidro de uma janela;

    Voltei a ouvir o Salvador Sobral ao vivo – mas não pus os pés em nenhum festival;

    – Estive ao lado da Molly o dia todo, enquanto esperei que nascessem os seus 8 bebés lindos;

    – Fiz repas e adorei;

    Comprei um piano de cauda;

    – Visitei Palmela, Serra da Arrábida, Sesimbra, Setúbal, Óbidos e Caldas da Rainha;

    – Perdi-me no Gerês e fui praticamente ameaçada por uma daquelas vacas gigantes que lá andam;

    – Fiz férias no Algarve – as piores dos últimos anos – e acampei em Oleiros;

    – Fui a Baião comer um anho incrível com o pessoal do piano;

    – Também foi com eles que fui ver o Yann Tiersen;

    – Perdi o meu último avô;

    – Comecei a dar aulas de piano;

    – Deixei cair o meu telemóvel na sanita e estive mais de uma semana desligada dos eletrónicos;

    – Decidi abandonar a Apple e comprar um Xiaomi;

    Comecei a usar óculos;

    – Escrevi pouco e li ainda menos;

    – No último terço do ano consegui retomar as minhas idas ao cinema;

    – Ri-me imenso à custa da telenovela do Bruno de Carvalho;

    – Fiz três Escape Rooms – só não saí de um;

    Comecei a fazer pó de imersão nas unhas;

    – Vi a Casa de Papel e Narcos; continuei a ver a Anatomia de Grey, This is Us e The Good Doctor;

    – Ri-me a bandeiras despregadas com o Casados à Primeira Vista;

    – Vi mais um familiar nascer no meu dia de anos;

    – Organizei todas as fotos dos meus avôs paternos e aprendi muito sobre a sua história;

    – Só comi um pão com chouriço e não fui às festas da cidade;

    – Fui à terra onde nasceu o meu avô e até conheci uma prima;

    Fui duas vezes ver a Avenida Q;

    – Inscrevi-me num concurso de escrita criativa.

     

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