• Meu querido mês de Agosto

    Este Agosto foi estranho e muito atípico para mim que, pela primeira vez na vida, tive de fazer alguma coisa durante um mês onde sempre tive férias. Foi estranho, confuso, mas bom, até porque percebi as maravilhas de trabalhar enquanto tudo está de férias.

    Trabalhar em Agosto é não apanhar trânsito na comum hora de ponta, mesmo nas piores estradas; é ter lugar à porta do prédio onde trabalhas e ainda escolher qual a melhor sombra; é não receber vinte emails por hora, mas receber de volta muitas mensagens com o assunto “Férias / Vacations / Vacances”; é teres silêncio no escritório porque está tudo de férias; é ter metade das coisas para fazer e deixar a vida correr.

    Mas trabalhar em Agosto, principalmente quando tens 22 anos e os teus amigos ainda estudam, é ver o pessoal todo de papo para o ar enquanto tu tens de ir para o escritório; é ter muito sono quando vamos tomar café a um dia da semana e começar a olhar para o relógio quando batem as 23h; é ver as agendas deles vazias, prontas para umas férias improvisadas, e tu teres de fazer contas à vida; é acordar para ir trabalhar, ver os instastories, e perceber que a maioria das pessoas que segues está, àquela mesma hora, a sair do Lick ou do Bliss, algures em Vilamoura. Mas tudo isto só seria mau se eu fizesse muitas destas coisas nos meus tempos de estudante – e não fazia.

    Tudo o que queria fazer este mês, fiz – com mais ou menos stress, adiantando mais ou menos trabalho, a correr ou devagarinho, com mais ou menos tempo do que queria… fiz tudo. Provei o sabor a férias enquanto trabalhava, num mês de Agosto sossegado – e descobri que a cidade é maravilhosa de se viver nestes meses onde todos se retiram para outros pontos do país e do mundo.

    Ontem, quando cheguei ao trabalho, já não tinha os lugares de estacionamento todos só para mim e soube que, apesar de Agosto ainda não ter chegado ao fim no calendário, já se finou. Acabou a calma, começa a vida, a agitação, a correria do costume. E a mim está a custar-me a acordar desta calmia, desta desorganização organizada, deste arrastar bom, deste misto de trabalho com cheiro a férias – ainda que mais dos outros do que minhas.

    Meu querido mês de Agosto… não sabia o quanto eras bom. Até para o ano.

     

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    (Gerês, Agosto 2017)

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  • Este trabalho não é para mim

    Durante este ano de trabalho nunca acordei e pensei “este é o trabalho perfeito para mim”. Apesar disso, considero que foi um ano do caraças, onde aprendi até à ponta dos cabelos – e, confiem, eles estão enormes! – e em que foram muitos raros os dias em que não me apetecia ir trabalhar, conviver com os meus colegas e fazer as tarefas que, com o tempo e o hábito, me foram sendo destinadas. No meio dos dias atarefados, de todas as novidades – o salário, o IRS, os recibos, o médico do trabalho, as viagens, o chefe, os colegas, o patrão, as quezílias, as histórias, as férias, as folgas e as faltas -, sempre tive dias de recaídas, em que me perguntava “porquê que aceitei isto?” ou ia mais a fundo e questionava o raio do curso que tirei. Comunicação. Eu, de facto, precisava de um curso intensivo de comunicação com os outros: mas não era para o exercer exaustivamente para o resto da vida!

    Este trabalho não é para mim. Eu não nasci para ser jornalista, porque isso implica ir muitas vezes contra aquilo que eu sou. E isso faz-me sofrer. Sofro porque não quero falar com as pessoas, ligar às pessoas, chatear as pessoas. Mas depois também sofro porque tenho prazos de entrega, porque tenho de mostrar trabalho, porque as coisas têm de sair feitas – e bem feitas – independentemente dos dramas pessoais de cada um. E eu não sou de falar, mas também não sou de falhar. E dentro de mim vive-se constantemente este confronto de titãs, entre o não-quero-fazer e o tens-de-fazer

    E sim, na vida vamos ter eventualmente de ultrapassar estas questões – quer em termos profissionais como pessoais. Mas eu estou a faze-lo todos os dias, e isso desgasta-me. Todos os dias estas metades de mim lutam, de espadachim em punho, até o tens-de-fazer ganhar, já com a ponta afiada apontada à garganta do não-quero-fazer. Ele, já sem ar, com as lágrimas nos olhos, o nó na garganta e o desespero no âmago lá faz o que tem a fazer, a muito custo. E quem vê de fora diz que os resultados são bons, que as conversas fluem, que eu sou simpática e natural – nem desconfiando que parte de mim está com uma lâmina encostada à jugular.

    Quando alguém me diz “tem de falar com”, o meu coração pára por um milissegundo. Lá vamos nós: mais uma moedinha, mais uma voltinha. Principalmente nas férias o “ter de falar com” é ainda pior: eu sei que estou a ligar para pessoas que estão de férias sobre matérias relacionadas com o seu trabalho – e isso chateia-me, porque eu não quero falar de trabalho quando tenho os meus dias de descanso. Eu tenho esta mente “antiquada”: não gosto de ligar para ninguém depois das 22h a menos que seja uma emergência, evito ligar à hora das refeições porque para mim são horas sagradas, assim como tento não ligar fora das horas de expediente. Sei que hoje em dia isso significa muito pouco, mas eu tenho esses valores enraizados em mim e de cada vez que clico no botão verde para ligar a alguém, sabendo que essa pessoa está no seu tempo de folga, para mim é matar-me um bocadinho. É ir contra aquilo que acredito. É fazer aos outros aquilo que não gosto que me façam a mim – e eu sempre levei este ditado muito a sério.

    Este trabalho não é para mim. Eu não tenho língua de perguntador, eu tenho pânico de falar com os outros ao telemóvel, eu detesto a sensação de estar a chatear alguém, eu evito contactos físicos a todo o custo. Lutei durante muitos meses com o termo “jornalista”; no meu cartão não tem qualquer identificação do meu trabalho, quando me apresentava era simplesmente como colaboradora do jornal. Mas o bloco na mão, os meus textos e as perguntas tiram a dúvida à maioria. Começaram a apresentar-me como jornalista, a identificar-me como jornalista e eu, há um par de meses, tive de me render. “Olá, o meu nome é Carolina Guimarães e sou jornalista”, digo, enquanto me dói a alma. Faço-o porque facilita a vida aos outros, não porque sinta que seja verdade. Eu, na realidade, sou tudo menos jornalista. Sou apenas uma miúda que gosta de escrever e que tem pânico de não cumprir com a sua palavra e com aquilo que é para ela mais sagrado: o trabalho. Ainda que este não seja para ela. Porque o tempo é um pau de dois bicos: habitua-nos a fazer coisas que inicialmente tínhamos mais dificuldades (e eu já melhorei muito!), mas também nos dá mais certezas sobre aquilo para o qual fomos ou não feitos para fazer ou ser. E eu sei que este trabalho não é para mim – embora o continue a fazer, eu própria de espada na mão, lutando contra as minhas duas metades. 

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  • Malta, o país das varandas bonitas [La Valleta e Mdina]

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    A paragem em Malta ficou marcada por uma série de peripécias. Foi um país de que gostei bastante – honestamente não esperava – mas, infelizmente, para além da beleza do local, há toda uma série de coisas que me vêem à cabeça quando penso neste destino, onde passamos dois dias.

    Começou com o facto de perdermos a excursão onde íamos, que passaria por Valleta e Mdina, a atual e antiga capital do país, respetivamente. Fizemos a visita toda por Valleta, com um guia óptimo e com piada, que tornava aqueles caminhos ao sol e os locais abafados em algo muito tolerável. Quando já íamos para o autocarro para nos dirigirmos para Mdina vejo a minha mãe a vasculhar a carteira – de segundo para segundo com um ar de pânico crescente – e a perceber que não tinha o porta-moedas com ela. Moral da história: o resto da visita guiada foi para as urtigas. O mais importante? Sim, a minha mãe encontrou a dita, mas depois daquilo ficamos os três completamente desgovernados. Não tínhamos um mapa, não sabíamos o que fazer ou para onde ir, e estávamos todos nervosos e irritados – ora por a minha mãe quase ter perdido a carteira, ora por termos perdido a visita por causa de uma distração.  Precisamos de mais de uma hora para alinhar os chakras e definir um plano de ataque próprio – que passou por conhecer melhor ambas as capitais. É lógico que em La Valleta, onde tínhamos estado com o guia, já tínhamos todo um enquadramento sobre a história da cidade que valorizou muito mais o passeio: e em Mdina fomos sem rede, simplesmente admirando a beleza e a pureza da antiga capital. 

    A verdade é que para perceber o que vemos em Malta precisamos de saber um bocadinho de história (prometo não vos maçar). Aquilo que vemos mal aportamos é, para além de uma cidade toda em tons de areia, um grande muro. Uma muralha alta e gigante que, aparentemente, circunda a ilha (na verdade é só uma pequena parte). E ela existe porque durante 250 anos a ilha foi habitada por cavaleiros, que contra todas as expectativas conseguiram travar a entrada de inimigos – incluindo os otomanos, que na altura da invasão a malta tinham quatro vezes mais homens que os malteses. Um tanto ao quanto obcecados com a questão da segurança, os cavaleiros construíram não uma, não duas… mas dezoito muralhas, o que tornava o acesso à cidade totalmente impossível. E é parte dessas construções (que não foram destruídas na Segunda Guerra Mundial – Malta foi o país mais bombardeado a partir do momento em que Itália anunciou guerra à Inglaterra – que deteve malta até 1964) que ainda hoje vemos e que fazem de Valetta parecer algo grandioso quando, na realidade, não o é. 

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    Vista do barco, à chegada

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    Do outro lado de La Valleta

     

    Há uma coisa que é impossível não notar em todo o país, que é coerente em cada recanto: a cor das paredes de todos os edifícios é em tons de areia, feitos de uma mármore não polida que, com a erosão do tempo, dá a ideia de todo o país ser mais antigo do que aquilo que parece. A mim, faz-me lembrar aqueles filmes romanos ou estilo Príncipe da Pérsia – não por estarmos no meio do deserto, mas precisamente por a cor principal ser este castanho muito pálido. Só uma coisa contrasta: as varandas. Aí os malteses capricham e escolhem as cores que querem: e há desde o verde tropa, passando pelo amarelo e pelo vermelho. Nunca vi um país com tantas varandas estilo marquise – assim uns paralelepípedos a sair para fora do edifício. Mas, por favor, quando eu digo “marquise” não pensem naquelas coisas horrorosas e metálicas que temos em Portugal: estas são bonitas e primam sempre pelos detalhes. Em Malta vale a pena olhar para cima e apreciar as paredes.

     

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    Varandas, varandas e mais varandas em La Valleta

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    Varandas, varandas e mais varandas em Mdina

     

    Mas falando de sítios em concreto: em Valleta visitamos o Palácio, que é ainda hoje a residência oficial do Presidente da República e a St. John’s Co-Cathedral, que é uma das catedrais mais bonitas que vi na vida. Mais do que a grandiosidade, aquilo que impressiona acima de tudo é quantidade de detalhes e de altares lá presentes (ao estilo barroco). Esta era a igreja de todos os Cavaleiros da Ordem de Malta e há muitas referências às várias nacionalidades que compunham esse grupo. Para além disso estão também presentes várias pinturas de Caravaggio – um pintor mas também cavaleiro que morreu cedo, por ser um assassino, mas que pintava com um realismo quase assustador. A visita a esta igreja é, para mim, obrigatória. 

     

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    No Palácio

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    O altar principal em St. John’s Co-Cathedral

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    St. John’s Co-Cathedral (a falta de luz não ajudou à foto…)

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    Teto em St. John’s Co-Cathedral

     

    Olhando de longe, La Valleta parece muito maior do que Dubrovnik, mas a nível prático o tempo que se despende numa, passa-se noutra. Aqui as ruas são incomparavelmente mais largas e com muito comércio e marcas clássicas, tipo Pandora ou Pull&Bear – ao estilo Rua de Santa Catarina ou Rua Augusta. Mas fugindo do centro, aquilo que há é casas: e quando nos fartamos de ver cor de areia e varandas bonitas… é sempre mais do mesmo. O que até bom, porque significa que moram de facto pessoas lá dentro, ao contrário daquilo que vi na Croácia. Porque apesar de se verem muitos turistas – principalmente quando chega um navio – as pessoas acabam por se diluir melhor nas ruas mais largas da capital ou estar enfiadas em autocarros de tours.

     

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    Nas arcadas em frente ao Palácio

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    No centro de La Valleta

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    La Valleta

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    Teatro em La Valleta, que foi completamente destruído na guerra. Optaram por o manter assim, para memória futura, e transformaram-no num teatro ao ar livre

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    La Valleta

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    A entrada em La Valleta, com o parlamento à direita

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    La Valleta

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    La Valleta

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    La Valleta fica muito elevada em relação ao porto e o resto do país, por isso construíram um elevador que em alguns segundos sobe e desce, evitando muitos quilómetros a pé ou escadas. O preço para subir é de dois euros, para descer não existe controlo. Compensa e as pernas agradecem, principalmente quando não há muito tempo

     

    O mesmo se sente na Mdina, para onde fomos de autocarro (público) – foi a solução mais imediata que encontramos para dar a volta à excursão perdida e até foi giro para ver uma Malta que não se vê tanto nas tours: as pessoas, os trabalhadores, as ruas com comércio local e pouco turístico, casas, descampados. Esta é uma vila medieval, com menos de uma dezena de restaurantes e lojas de souvenirs. Não sei se fui eu que tive sorte ou se é mesmo assim, mas a pouca confusão que apanhei deveu-se a uma visita de estudo que por lá havia – de resto, as poucas ruas da vila estavam praticamente desertas e podia-se desfrutar do silêncio, tirar fotos e apreciar o local sem dramas. De Valleta até lá, de autocarro, é cerca de meia hora – também é possível ir através dos Hop On, Hop Off, que demoram um pouco menos que isso.

     

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    À entrada de Mdina, com os típicos coches

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    No centro de Mdina

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    Mdina

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    Noivos em Mdina

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    Mdina

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    Detalhe nas paredes de Mdina. Este é um símbolo religioso que se vê à porta de muitas casas – gostamos tanto que compramos um como souvenir

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    Nas ruas estreitas da Mdina

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    Nas ruas estreitas da Mdina

     

    E eu sei-o porque no dia seguinte foi num destes autocarros que andamos. A minha ideia inicial era ir numa excursão à Blue Grotto, a gruta azul, mas infelizmente quis comprar muito em cima da hora e já não arranjei bilhetes. Portanto o meu plano era ir até lá pelos meus próprios meios, pelo que compramos bilhetes para esses autocarros. A ilha tem apenas 300 metros quadrados (mais pequena que a Madeira), por isso este tipo de tours cobrem praticamente o território todo. Há apenas três linhas e, como estava em Malta e as coisas estavam para correr mal… entrei na linha errada, o que acabou por ditar a não-ida à gruta. 

    O erro acabou por correr bem pois passamos por um museu de aviões – o meu pai adora tudo o que envolve guerras e aviação, por isso decidimos que desta vez esta paragem seria para seu bel-prazer e fomos ver o museu que, apesar de pequeno, está bem conservado. Para quem é interessado nesta matéria, Malta tem muita escolha: como foi altamente bombardeada e se aguentou histoicamente – os ingleses davam a ilha como perdida mas o povo lutou e aguentou, ao ponto de serem o único que, de forma coletiva, foram agraciados com uma medalha de honra pelo Reino Unido – há muitas memórias, objetos, fotos e destroços partilháveis, que fazem parte da história do país e deste povo. A entrada neste museu em particular custou 7 euros por pessoa. 

     

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    No museu de aviação

     

    Voltamos a apanhar o autocarro, com a intenção de voltar ao porto e apanhar a linha certa, mas a viagem foi tão caótica e cansativa que decidimos voltar ao barco e descansar (até porque as visitas à gruta acabavam às 16:30, assim como as voltas no autocarro, pelo que ficava apertado). O trânsito em Malta é um tanto ao quanto caótico, o estacionamento é uma balda e a ligação entre cidades não me pareceu ser irrigada com vias de grande qualidade – ah, e anda-se pela esquerda! Há muitos coches, o que para além de fazer as ruas cheirarem mal, conseguem atrapalhar bastante o trânsito nos sítios mais concorridos – até porque são precisamente estes que têm mais turistas. Só para vos dar uma imagem mental, o motorista do hop on, hop off falava ao telemóvel com o ombro a segurar o telemóvel, uma sprite na mão direita e um dedo esquerdo segurava ao volante – isto com mais de quarenta pessoas a seu cargo, várias (como era o meu caso) sem lugar sentado. E a porta do autocarro ia aberta, caso nos quiséssemos atirar de desespero (foi quase…).
    Não achei os malteses particularmente simpáticos. São uma mistura de italianos com turcos, têm na sua maioria uma tês escura e tudo o que era motorista, taxista, coxeiro e etc. tinha um ar muito rude. A língua deles é perfeitamente impercetível – 80% árabe com 20% italiano – o que também não ajuda à convivência (embora a maioria fale inglês).

    De todos os países por onde passei, Malta é sem dúvida o mais barato a todos os níveis – as tours, os souvenirs, os bilhetes para museus e a comida eram muito baratos. Um dos ex-libris do país é o vidro – têm peças lindíssimas,  algumas ao estilo Bordalo Pinheiro, que fazem boas recordações. Foi daqui que, sem dúvida, trouxe mais “tralhas” para casa!

    Já o disse, mas uma das coisas boas deste cruzeiro foi ter visitado países que se calhar nunca visitaria num passeio isolado. Vale a pena visitar Malta, principalmente se gostam de castelos, muralhas e histórias reais que envolvem tudo isso – assim como quem gosta do assunto “Segunda Guerra Mundial”. Apesar da rede de autocarros não me ter parecido má, acho que pode ser uma boa ideia alugar um carro e fazer a ilha de lés a lés, sem a rigidez de horários que os autocarros e outros transportes implicam. Acho que dois dias bem preenchidos chegam para ver muito do que interessante este país tem para ver. E aconselho um guia! A história de Malta merece ser ouvida e, quando bem contada, parece uma série de episódios sem fim.

    E eu, apesar de ter gostado muito, fiquei feliz por zarpar. Malta foi sem dúvida a paragem mais atribulada desta viagem e eu só queria ir para o próximo destino – a Sicília.

     

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    Num “miradouro” em La Valleta

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    O verdadeiro gato maltês – e era gigante!!

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    O nosso barco atracado – à esquerda podem ver La Valleta, bem alta relativamente à linha do mar

     

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  • Os filhos são só dos pais?

    A maior parte dos textos aqui do blog surgem por causa de situações que vivenciei e sobre as quais relato coisas ou pensamentos que me surgiram depois ou na altura, que por vezes nem sequer têm muito que ver com o assunto em si. Às vezes, por uma razão ou por outra, não os publico – mas normalmente deixo-os no rascunho até ganharem bolor e eu me fartar deles. Raramente faço o que estou a fazer aqui: publicar um desses textos. Este foi escrito há mais de um ano e na altura não o publiquei para não ferir suscetibilidades. Mas a vida não se faz só de consensos ou paninhos quentes e, por estes dias, lembrei-me muitas vezes daquilo que escrevi.

    E onde é que eu vou meter o nariz desta vez? Nos nascimentos e na maternidade. Uhhh, já sinto a minha pele quase a ser esfolada e ainda nem pus a boca no trombone. Na minha opinião, hoje em dia fala-se tanto da liberdade de escolha que tem de ser dada à mãe (do tipo de parto, de amamentar, de trabalhar ou não, de dividir a licença com o pai) que só esconde a enorme pressão que se está a construir à volta destes assuntos. Vejamos a amamentação: toda a gente diz que cada mãe é como é, que podem escolher (“embora o vosso leite seja melhor para o vosso filho!!!”), mas se alguém não amamenta por escolha cai o carmo e a trindade. Para mim essa liberdade é tão grande como aquela que eu tive quando me tentaram praxar, fechada num anfiteatro que não conhecia, às escuras, e com gente a gritar-me por todos os lados. Podemos dizer não, mas estamos sempre condicionadas e com uma clara pressão para dizer “sim”. Ou seja: não é liberdade.

    Eu sou pouco sensível a todas estas questões porque a cada dia que passa tenho mais a ideia de que não quero ter filhos e que todos esses dramas me vão, felizmente, passar ao lado. Mas há coisas que me tocam (também tenho sentimentos, sim?) e há dias estava a ver uns vídeos antigos, enviados por uma das minhas tias, do nascimento de um dos seus filhos. São coisas filmadas há 25 anos, numa altura em que acho que não havia esta moda de “não visitar pais nem criança mal ela nasce”, mas de qualquer das formas a minha família sempre foi (ou costumava ser…) unida o suficiente para querer partilhar estes momentos uns com os outros. E, enquanto via aqueles vídeos passados na maternidade, com a minha tia a olhar enternecida para o seu bebé acabado de nascer, com a cama cheia de gente à volta a soltar “oh”‘s, tornei a lembrar-me deste texto que escrevi. Não chorei enquanto via os vídeos, mas a minha garganta estava num aperto sem fim; emocionou-me ver a alegria de todos, num momento partilhado e claramente tão feliz para quem lá estava. Adorava-se o menino, cuidava-se da mãe, mimavam-se ambos e nos corações, ainda que não se vissem a olho nu, transbordava amor por todo o lado. O nascimento é, de facto, um momento incrivelmente feliz para a família do novo rebento. E talvez esteja aqui a questão, no vocábulo “família”. Para mim, família, não são só os meus pais e irmãos; são os irmãos dos meus pais, os filhos dos meus pais, os filhos deles, os filhos dos meus irmãos, os respetivos conjuges e, se quiserem, a família que escolhemos: os amigos.

    Para mim é inconcebível pensar ter um filho e não o mostrar a todos aqueles que me amaram ao longo da vida, que me aturaram em todos os momentos maus e bons, que partilharam momentos das suas vidas comigo. Não significa que todos tenham que o ver no primeiro, segundo ou terceiro dia ou que encher o quarto de visitas – mas estar um mês sem mostrar a criança ao mundo?! Sei que isso está na moda mas, quando me deparei com uma situação semelhante, fiquei honestamente magoada. Aprendi a lição, respeito, mas não compreendo. E escrevi este texto:

     

    “Lembro-me de ter lido num blog qualquer, há uns anos, que depois de uma família ter tido o primeiro filho, decidiu que só um mês depois iria ter a visita dos amigos e familiares e dar a conhecer a nova cria (calculo que avós e pessoas mais próximas tenham sido excepção à regra, “but you never know”). Fiquei parva com o que li – e o sentimento mantém-se até hoje, porque sei que me sentiria magoada se mo fizessem. Sentir-me-ia posta de parte por aqueles pais, que se calhar conheço há uma vida e com quem partilhei tantas coisas, se me privassem de partilhar aquele que seria um dos maiores momentos das suas vidas.

    Eu sei que os pais ficam super cansados com a história do parto, sei que habituarem-se aos horários da criança é extenuante, sei que querem ter tempo para “namorar” a sua nova cria – mas, no fim de contas, o que não falta é tempo para isso. Não são as visitas que dão de mamar, não são as visitas que ficam a adorar a criança pela noite dentro, não são as visitas que dão o primeiro banho. Os pais têm uma vida inteira pela frente com aquela criança, vão mima-la e conhece-la melhor que ninguém – enquanto que a família e os amigos, numa fase inicial, só querem dar as boas-vindas do bebé ao mundo e partilhar um momento de felicidade com alguém de quem gostam. Porque, para mim, os bebés não são só dos pais, mas também daqueles que já o amavam enquanto ele estava dentro da barriga – e, antes disso, aqueles que já amavam os pais antes mesmo de eles se juntarem ou decidirem ter um filho em conjunto.

    Porque a verdade, pura e dura, é que família e os amigos já lá estavam antes do bebé – e, muitas vezes, antes do companheiro. Estiverem lá nos momentos bons, nos maus, nos fantásticos, nos péssimos e nos menos bons – e, no entanto, naquele que será o momento mais feliz da vida daquela pessoa, são impedidos de o partilhar com ela. É uma escolha e, sendo eles os pais, não há outra opção a não ser respeitar. Mas quem está do outro lado da barricada também tem o direito de não se sentir respeitado, por não ver o seu “amor” correspondido; por se sentir privado de felicitar e conhecer alguém que, automaticamente, já é um bocadinho amado, por ser filho de quem gostamos – de alguém que é sangue do nosso sangue ou, simplesmente, faz parte da “família que escolhemos”. 

    Não percebo o medo de partilhar um bocadinho da felicidade com os outros; de mostrar o bebé, de terem receio de não ter tempo para estarem sozinhos com a criança, quando têm uma vida juntos pela frente. Não se trata de pôr uma mensagem no facebook, mandar um email estilo “circular” com o tamanho e peso da criança. Trata-se só de a partilhar um bocadinho para quem esteve lá sempre, para quem – quer se goste ou não – já faz parte e quer partilhar a felicidade. Para mim, tudo o que disse acima não são medos. É uma forma pura de egoísmo.”

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  • As incríveis paisagens naturais do Montenegro [Kotor e Budva]

     

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    Continuemos pela nossa viagem no Adriático! Depois de sairmos da Croácia foi um tirinho até pararmos em Kotor, no Montenegro. Lá está: este era um país onde nunca iria “do nada”, sem estar integrado num plano que me levasse até lá; não acordo e penso “quero tanto ir ao Montenegro!”. Mas isso não quer dizer que, depois de pensar no assunto, não tivesse vontade de lá ir – e acabou por ser uma paragem um tanto ao quanto sui generis.

    E porquê? Porque Kotor não tem um porto capaz de albergar um navio de cruzeiro. O barco parou numa baía e nós saímos, em tranches, por barquinhos ou nos próprios barcos salva-vidas, o que tornou tudo muito mais engraçado. O meu primeiro pensamento foi “óptimo, assim tenho a certeza de os barcos salva-vidas funcionam!” – a verdade é que eles parecem tão arrumadinhos e fechadinhos que até nos questionamos há quanto tempo é que ninguém lhes liga o motor. Mas enfim, essa parte foi muito divertida e a viagem – de sensivelmente vinte minutos até ao porto – correu muito bem. Os barcos salva-vidas têm uma parte de cima, ao relento, e uma parte coberta em baixo – e tanto na ida como na vinda eu vim em cima, a apreciar as incríveis fiordes montenegrinas, com uma paisagem de cortar a respiração. O espaço para tirar fotos não era muito e, nessas situações, nem sabemos bem o que havemos de fazer: se tirar fotos e recordar aquela paisagem para sempre, ou olhar tudo durante o máximo tempo possível para absorver toda aquela beleza que quase nos parece sobrenatural. É uma dualidade que se põem muitas vezes nestas viagens e sobre a qual penso muito, pelo que tento arranjar um meio termo que nem sempre é fácil de gerir.

     

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    Foi, aliás, por causa dessas fiordes e das paisagens que sabia que iam ser lindas que me levantei às cinco da manhã (só “atracamos” às sete). Pus o despertador, abri a pestana e fui logo para a varanda ver tudo o que tinha à minha frente. Esta tinha sido das poucas dicas que me tinham dado sobre este país e eu, que a cada dia que passa gosto mais de beleza natural, não podia perde-lo só para dormir mais um par de horas. Vale mesmo a pena ver. O céu estava nublado, o que por um lado ajudou às fotografias, mas por outro deu, ao longo do dia, alguma falta de nitidez aos locais mais longínquos.

     

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    No Montenegro, para além do Kotor, visitamos Budva – uma estância balnear a meia hora de distância, que também tem uma muralha. No caminho para lá deu para perceber um bocadinho de como era o país, ver a parte “real” para além do turismo. Mais uma vez é importante termos em conta que este é um país recentíssimo – nós não temos essa noção porque vivemos num sítio antiquíssimo e pacífico, mas a grande maioria dos países lutou até há bem pouco tempo pelas suas fronteiras e independência (e continuam a lutar…) e isso é muito marcante para a sua cultura. Em 1910 o Montenegro foi considerado um país mas integrou, durante muitos anos, a união Juguslava. Depois desta se ter desfeito, o Montenegro permaneceu “junto” com a Sérvia, de quem só se separou há onze anos (!!!) através de um referendo. Ou seja: estamos a falar de um país que só foi independente já neste século. 

    Aquilo que eu notei é que há uma grande falta de desenvolvimento, quase como se navegássemos atrás no tempo. O que tem coisas más, mas também coisas boas: tudo parece mais genuíno. Quando íamos para Budva passamos por estradas com imensos campos, de ambos os lados, pintalgados com casitas muito afastadas umas das outras e por imensos edifícios inacabados, só com as estruturas fundamentais para se manterem de pé. A minha tia (que já lá tinha dito) disse, e bem, que aquilo lhe fazia lembrar a Heidi: algo antigo, com campos e verdes a perder de vista. E sempre com montes a toda a volta, daí o nome: os italianos, quando viram as paisagens, chamaram aquela terra de Monte Negro. Mas depois chega-se a zonas completamente construídas, com casas e prédios e gruas e praia e tudo mais, numa confusão ordenada mas muito pouco simpática à vista. Pareceu-me tudo pouco equilibrado e feito com pouco gosto, de forma completamente arbitrária. Sinceramente, lembrou-me muitas vezes a ideia que tenho da União Soviética, ainda que obviamente mais avançados.

     

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    Um dos muitos edifícios meio construídos à face da estrada

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    Uma casinha no meio do campo

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    O complexo de luxo

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    Uma cidade construída à volta de uma praia, considerada uma das melhores do mundo (P.S.: quem fez essa lista nunca visitou o Algarve)

     

    Acho que para além da beleza natural óbvia que este país tem, tudo o que é cultural é posto um pouco em segundo plano. Talvez por isso, quando agora me falam em Montenegro, a primeira coisa de que me lembro são as fiordes – mais do que as muralhas ou os edifícios. E, como eles não têm muito para mostrar, tudo o que é digno de referência é-nos dito: como os sítios onde foram feitas algumas das filmagens do 007 Casino Royal ou os apartamentos onde algumas celebridades compraram casa (e dizem-nos os valores e tudo mais).

    À ida para Budva fizemos um photo-stop num desses sítios: a Aman Sveti Stefan, uma ilha pequenina e muito bonita ligada à terra por uma pequena passagem. É tão bonita e pitoresca que foi comprada por uma cadeia de hóteis, cujos clientes são por vezes algumas personalidades (tipo Madonna) que alugam o hotel todo para terem privacidade. Ali à volta há muitas praia, cujas águas são obviamente lindas como as da Croácia, mas a qualidade da areia e o espaço nunca são grande coisa.

     

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    A ilha Aman Sveti Stefan

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    Praia em Budva

     

    Budva é uma mistura estranha entre uma estância balnear e muralhas históricas. Fora da muralha vêem-se palmeiras, hotéis e mais hotéis, pessoas de chinelos e toalha ao ombro; dentro da muralha são lojinhas pequeninas, ruas apertadas e feitas em pedra (mais recentes do que querem parecer, uma vez que muito foi abaixo em tremores de terra). Infelizmente não tivemos muito tempo para passear por lá – não consegui correr as ruazitas todas tal como queria – uma vez que estávamos numa visita e de seguida íamos para Kotor.

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    Dentro da Citadela, em Budva, com vista para o Adriático

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    Dentro da Citadela, em Budva

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    Budva

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    Budva

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    Dentro das muralhas de Budva

     

    Dentro das muralhas de Kotor sim, já andei por todas as vielas – também cheias de lojas e muitos restaurantes com esplanadas, recheadas de pratos muito bonitos e com óptimo aspeto. Honestamente, olhando para trás, já fico confusa: muralhas e muralhinhas, igrejas e capelinhas, pedra em cima de pedra com séculos ou milénios de história foi tudo o que mais vi neste cruzeiro. Vi muita coisa com história e, dentro do diferente, tudo acaba por ser semelhante. Neste caso há muito menos turistas do que por exemplo em Dubrovnik, apesar da dimensão ser muito menor: encontram-se recantos sem gente, consegue-se apreciar tudo com menos pressa e sem avalanches de gente, o que é bom. Numa hora calcorreiam-se as ruas e vielas todas.

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    A Catedral de St. Tryphon, o ponto central da cidade de Kotor

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    O típico bolo de amêndoa, aconselhado pela nossa guia

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    Em frente à Igreja de São Lucas, uma das poucas que resistiu aos terramotos

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    Recanto em Kotor

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    Ruela em Kotor

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    Uma das coisas que ficou por fazer foi subir as muralhas, para chegar ao topo do Monte de St Ivan. São 1200 metros de altura, o que se traduz em mais de 1300 degraus – é, por isso, algo para ser feito com tempo, com uma mochila recheada com snacks e bebida e muita força de vontade para aguentar as dores nas pernas. Não tinha nada dessas coisas, acrescentando ainda o facto e estar com os meus pais (que, apesar de tudo, já não vão para novos) e de não ter tempo. Tive pena, porque a vista para a baía deve ser arrebatadora, mas não deu para tudo.

     

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    Ínfima parte da grande muralha de Kotor, que dá acesso ao topo do Monte de St Ivan

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    Fora da cidade medieval (com as palmeiras – a tal mistura estranha que falei)

     

    Apesar de nunca ter alinhavado ir ao Montenegro, acho que vai ser uma visita gira de relembrar daqui a alguns anos, porque penso que daqui a duas décadas vai ser um país irreconhecível. Eles estimam que daqui a cinco anos já vão estar integrados na União Europeia e eu estou em crer que, a partir dessa altura, este país vai sofrer um boost enorme a todos os níveis. O turismo – que representa, atualmente, 22% do PIB – vai de certeza aumentar, porque para além destas cidades medievais eles têm um potencial enorme no que diz respeito a turismo relacionado com a natureza. Têm lá o maior desfiladeiro da Europa, têm as montanhas, têm águas lindas. Enfim, tudo para cortar a respiração. Estou a imaginar uma viagem de comboio por toda a linha junto à baía e até suspiro. Sei que se um dia voltar – e gostava, em particular de percorrer a costa da Croácia até chegar lá – vou notar diferenças. E nessa altura já poderei contar aos sobrinhos que “quando cá vim pela primeira vez não era nada disto, até pareciam os campos da Heidi!”. E eles vão perguntar-me: “Quem é a Heidi?”. E aí eu vou perceber que estou velha. Mas ao menos – espero – serei viajada.

    Sem comentários em As incríveis paisagens naturais do Montenegro [Kotor e Budva]

  • Às vezes não sabemos bem quem somos

    No dia do meet&greet do Jamie Cullum éramos uns oito, numa proporção ligeiramente desequilibrada entre homens e mulheres. Quando nos mandaram entrar para o backstage informaram-nos de que ele ainda estava atrasado e íamos ter de esperar. Só havia uma forma de ir matando tempo: conversando.
    Não fui eu que lancei a conversa – não tenho grande à vontade para isso. Mas a partir do momento em que a “bola” saltou entre todos, tenho para mim que fui a que mais falou – tinha ido ao concerto anterior, era do Porto, já era o quinto espetáculo que via do Jamie… acabou por ser tópico de conversa. E fluiu tudo tão bem, as pessoas eram (no seu geral) tão simpáticas e eu – apesar de estar prestes a fazer algo que até podia ser potencialmente stressante – estava na boa, como se fizesse aquilo todos os dias. Estive a falar com várias pessoas sobre a minha cidade, a trocar impressões sobre música e foi sinceramente bom.

    E depois de sair de lá, de ter falado tão bem com tanta gente diferente, pensei: “como é que eu me tornei nisto, como é que eu vim parar a este ponto?”. Acabo por não saber quem é que eu sou realmente – aquela que fala tão bem com toda a gente, de conversa fácil e sorriso ligeiro, ou aquela que não tem ninguém para ir com ela a um concerto ou ao cinema numa noite qualquer. Aquela que, de cada vez que diz que é anti-social, toda a gente revira os olhos por achar que é impossível ou aquela que faz scroll down no facebook e só vê gente cujas relações falharam. Aquela que às vezes sente saudades de companhia ou aquela que já se resignou a ficar sozinha. Aquela que tanta gente diz que é tão simpática no primeiro contacto, de conversa fiada e fácil, ou aquela que é intransigente, que não aceita as diferenças, menina do seu nariz, que acha que tem sempre razão, ocasionalmente rude e demasiadas vezes mal-disposta.

    Não sei quem mostro ser, mas na minha cabeça sou quase sempre “aquela” miúda da segunda opção. Quando debato este assunto com quem me é próximo, e tendo em conta a que não se chega a nenhuma conclusão, só uma coisa é certa: ou eu tenho uma ideia muito errada de mim ou os outros não me vêem como realmente sou. Porque não me parece que as duas versões possam ser compatíveis.

    Ainda assim, há algo indiscutível: acho que cada vez estou mais sozinha. Sim, conheci mais pessoas desde que fui trabalhar, mas perdi outras tantas de antigos círculos de amigos que tinha. Não creio que o balanço seja positivo. E, para além disso, sinto-me preenchida por uma avalanche de críticas, “dicas” e indiretas que não sei digerir – e não sei se sou eu que, num período mais sensível, tenho mais aptência para as ouvir ou se estão simplesmente a acontecer com cada vez mais frequência. Porque eu mudei ou porque eu tenho de mudar, porque trato mal as pessoas, porque não ligo, porque não respondo, porque não vou, porque não faço, porque não avanço, porque não saio da zona de conforto, porque sou chata, porque sou quadrada, porque sou mentalmente velha, porque quero tratar de tudo, porque sou pouco democrática, porque sou uma control freak.

    E, no final do dia, quando tudo mói cá dentro, só há espaço para perguntar: sou assim tão má pessoa?

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  • O dia em que conheci o Jamie Cullum (ou o fim-de-semana em que vi dois concertos dele)

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    Eu sei o que estão a pensar: “lá vai esta maluca começar a falar do Jamie Cullum – como se nós já não soubéssemos tudoooo o que ela pensa sobre ele”. Têm razão, eu sei que sou uma chata. Mas este fim-de-semana foi especial: não só porque foi em dose dupla, como teve a cereja em cima do bolo – tive, basicamente, um encontro de 37 segundos com ele. 

    Mas voltemos atrás, porque eu não quero que pensem – levianamente – que eu fui a dois concertos dele, em dois dias seguidos, assim do nada. Eu comprei os bilhetes para o EDP Cool Jazz mal eles foram postos à venda, porque tento sempre nunca faltar aos concertos que ele dá cá em Portugal e não se sabia que ele viria cá ao Porto. Quando anunciaram o concerto nos Jardins de Serralves eu pensei “não posso faltar a um concerto do Jamie aqui tão perto de casa!” – e, por isso, comprei bilhetes. Confesso: a partir do momento em que me vi com dois bilhetes na mão a minha intenção era, e sempre foi, ir aos dois. Eu sei que é amalucado, mas o dinheiro já me tinha saído da conta e, para mim, não existe a expressão “demasiado Jamie”. De qualquer das formas, depois de ouvir tanta gente a chatear-me o juízo por ir a dois concertos, supostamente iguais, em dois dias seguidos (e ainda por cima ter de comportar os custos da ida e estada em Lisboa) comecei mesmo a ponderar vender os bilhetes do CoolJazz.

    No entanto, e como no fundo sempre quis ir aos dois, fui adiando e adiando a questão, até que na quarta-feira vi no instagram da Rádio Comercial que iam oferecer a entrada para um Meet&Greet. Dizia qualquer coisa como “esteja atento à emissão” e, meus amigos, o meu coração parou. Depois de ter andado a navegar na emissão, de ter ouvido durante todos os segundos possíveis a rádio e de não ter passado nada… fui obrigada a desistir. Mas no dia seguinte vi um instastorie dizendo que dali a nada iriam oferecer as entradas para o conhecer! Para se ganhar tinha de se ligar para lá e eu percebi que as minhas hipóteses eram poucas: as linhas estão sempre, sempre cheias. Mas eu fui teimosa, liguei e tornei a ligar. Aquilo nem chamava, era só ir clicando e desligando – já quase o fazia automaticamente. Até que, do outro lado, dizem “bom dia”. E, como era algo demasiado bom para ser verdade, eu já só esperava um “desculpe, já oferecemos os meet&greets todos”. Mas não. A última entrada era para mim. WHAT? Nem me queria acreditar que tinha conseguido! Sou uma azarenta neste tipo de coisas e há muito que me deixei de jogos de sorte, mas o Jamie estava em jogo e tinha, pelo menos, de tentar.

    E é só essa a razão pela qual fiz isto. Quem me conhece sabe que sou a miúda mais tímida para falar com alguém conhecido, que sou praticamente incapaz de pedir um autógrafo e muito menos uma fotografia. Sinto sempre que estou a perturbar as pessoas, nunca me sinto à vontade para as abordar. E, por outro lado, acho que quando conhecemos alguém que admiramos lhes passamos a dar uma componente humana que antes, na nossa cabeça, não existia; isso implica que as pessoas possam estar a ter um dia mau e serem antipáticas connosco (ou simplesmente serem assim no resto dos dias), que transmitam uma energia negativa em vez de algo bom. Sei lá! Há tanta coisa que não conhecemos sobre os famosos e que nos podem desiludir que, quando nos chegamos perto deles, temos de ter em conta esse risco. Mas, independentemente de tudo isso, era o Jamie. O meu Jamie, que já ouvi centenas de horas e sobre o qual já tanto escrevi. Que me acompanha desde o básico, passando pelo secundário, pela faculdade até aos dias de hoje, enquanto escrevo para o jornal; aquele que, sem saber, me dá a mão em momentos tão felizes e tão tristes. E esta era uma oportunidade que eu não podia perder.

    O concerto no Porto foi fenomenal e, arrisco a dizer, melhor do que o de Lisboa. Foi giro poder comparar os dois públicos e os dois concertos porque há uma ideia pré-concebida de que o público no Porto é mais caloroso que o lisboeta – e, para além do mais, sei que ele não faz dois concertos iguais, mas não sabia o quão diferentes poderiam ser. Quanto à primeira afirmação, penso que se confirma: acho que aqui no Porto há uma entrega maior e, pareceu-me, o público era ligeiramente mais jovem, o que ajudava à festa. Ele parecia mesmo comovido – as pessoas foram incríveis, sempre muito entregues, a mãe dele fazia anos e estava lá, e cantamos-lhe todos os parabéns; ele fez dois encores, cantou a Blackbird dos Beatles (que lhe estavam a pedir, no público) e ainda inventou uma canção estilo “Porto, I love you”, que fez com que saíssemos dos jardins todos derretidos. Uma pessoa nunca sabe se aquilo que eles transparecem é real ou não, se é só um docinho para nos adoçar a boca e pensarmos “ai que ele estava tão emocionado” –  porque, tal como os encores, muito daquilo que vemos hoje (as piadas e os “improvisos”) é muitas vezes planeado. O alinhamento foi muito semelhante, com excepção das músicas finais. Em Lisboa ele terminou com o Grand Torino – um pedido de um fã, que levava um cartaz a dizer “If you play Grand Torino, I’ll buy a beer to everyone”. E é esta uma das coisas que eu adoro nele: ele repara, ouve e toca as músicas que lhe pedem. Fala com os fãs, tira fotos a meio do concerto, está atento. Vive aquilo, fá-lo com gosto e não vê isto só como “mais um chaché”, como muitos. Cada concerto do Jamie é único – e por isso eu não me importo de ir a vários seguidos, porque sei que o alinhamento pode ser semelhante mas terá sempre as suas nuances.

    Em ambos os concertos aconteceu algo engraçado: a meio do espétaculo ele salta do palco, vai até à plateia em pé (em frente estavam lugares sentados) e abre as barreiras de proteção, deixando as pessoas ir para a frente do palco. Confesso que aquilo mexeu com o meu sentido de justiça – eu estava na segunda fila, paguei uma pipa de massa para lá estar e, no entanto, quem pagou menos estava agora ali, à minha frente, impedindo-me até de ver o concerto sentada. Isto sou eu a fazer advogada do diabo, porque eu não tenho problema nenhum em ir para a frente do palco e saltar como uma louca – se há momento em que me sinto feliz e disponível para dançar e cantar como nunca faço, é quando o Jamie canta. Mas, ainda assim, fiquei retraída. Aqui no Porto não me levantei logo, fiquei a ver até onde é que aquilo ia – mas quando percebi que o pessoal não ia arredar pé e que estava a curtir muito mais do que eu, fui para o meio da confusão divertir-me como eles; já em Lisboa, mal ele saltou do palco, já estava eu a ir para a frente, pelo que acabei por ficar mesmo encostada às colunas e ver o resto do espetáculo em primeiro plano. Acho que isto também acontece porque muito do pessoal que está à frente é uma verdadeira seca – são pessoas mais velhas, que muitas vezes nem conhecem as músicas e que dão pouca dinâmica ao concerto, enquanto que o pessoal lá atrás está a divertir-se à grande. Foi uma forma que ele arranjou de trazer a festa até ele e divertir-se tanto ou mais do que as pessoas que estão lá aos pinchos e aos berros enquanto desfrutam.

    Mas foi antes do concerto (em Lisboa) que eu estive com ele. Não estava stressada nem preocupada – contei a muito pouca gente que o ia conhecer, para não criarem expectativas por mim e sabia ao que ia, não esperava muita coisa. Éramos um grupo de oito pessoas, mais mulheres que homens, e elas em particular estavam todas super bem arranjadas, maquilhadas, algumas com vestidinho e salto alto. E depois havia eu: acaba de chegar do Porto, meio desgrenhada devido aos ventos quase ciclónicos do Parque dos Poetas, sem qualquer maquilhagem porque sabia que me ia borratar toda e que a humidade não ia ajudar à festa e com o meu uniforme de festival: as sapatilhas-brancas-sujas, calças de ganga, t-shirt e um enorme blusão para quando o frio chegasse. Sabia que ele não se ia apaixonar por mim de uma maneira ou outra, por isso optei pela via confortável. Só foi pena ter sido apanhada nas rédeas da Rádio Comercial para fazer uma entrevista e ter sido apanhada naquele estado meio caótico – mas enfim, ao menos estava feliz! (E fiquei com o momento registado para a posteridade <3)

    Nestes meet&greets há um ponto assente: aquela não é uma situação confortável para nenhum dos lados. É estranho para nós conhecermos alguém que tanto admiramos mas também é estranho para ele ver mais de meia dúzia de pessoas que nunca viu mais gordas a entrar num sítio só para o cumprimentar – e ter de ser simpático, sorrir para as fotos, ter de fazer conversa. Toda a situação é muito pouco natural. E, na minha visão, muito fútil. 

    É lógico que eu gostava de ter uma foto com ele – acho que a vou imprimir e pôr algures, porque é uma recordação importante. Mas eu queria mais do que isso – e se me dessem a oportunidade de escolher, eu preferia mais um minuto de conversa. Porque eu gosto dele como um todo, não o vejo como um trunfo para as minhas redes sociais; acho-o intelectualmente interessante e gostava de o ouvir dizer algo que ficasse para além do “thank you”. E, acima de tudo, queria poder agradecer; poder dizer-lhe que o conheço há oito anos, que me lembro como se fosse ontem da primeira vez que o ouvi, que ele é a banda sonora da minha vida; que, apesar de ele não saber, esteve comigo em todos os momentos importantes ao longo dos anos. E isto pode parecer cheesy, mas eu acho que a música é isto e muitas vezes – no meio do reboliço que é a vida deles, a correria, as entrevistas, estes encontros impostos – eles se esquecem de que tocam mesmo a vida de alguém. E lembrar isso, acho eu, nunca é demais.

    Claro que, no nosso encontro de sensivelmente 37 segundos, não consegui fazer nada disso. Fomos postos em fila, em frente ao placard das entrevistas, e fomos, um a um, tirar uma foto com ele. Percebi que aquilo era muito pior que um pitch – não era sequer um minuto! O esperado era que o cumprimentássemos, tirássemos uma foto e déssemos o lugar ao próximo – e se falássemos mais do que o suposto sentiamos que já estavam a olhar para nós como quem diz “demoras muito? Há todooooo um line-up que precisa de ser cumprido, amiga!”. Se calhar fui eu que, no stress do momento, senti isto tudo – mas foi, de facto, a sensação com que fiquei. Só tive tempo de lhe dizer que tinha ido ver o concerto dele no dia anterior e que tinha sido incrível – e ele agradeceu (daquilo que me lembro… sinto que tudo foi tão rápido e poderoso que se eclipsou da minha memória). Sorrimos para a foto, click, click, adeus. Foi isto.

    Se saí um bocadinho desiludida? Sim. Se voltava a repetir? CLARO! Não se pode ter tudo nesta vida e acho que este tipo de contactos com celebridades, principalmente quando são “forçados”, nunca dão em muito mais do que isto. Disse-lhe um thank you rápido, entalei-me toda quando lhe disse “it’s such a pleasure” e calculo que, para ele, tenha sido uma situação igual a tantas outras. A diferença é que para ele foi igual, para mim foi especial. Aqueles treze segundos de conversa (o que restou entre o cumprimento e a pose para a foto) foram mais do que alguma vez sonhei.

    Sei que nos veremos em breve. Muito provavelmente sem o beijinho e os segundinhos de conversa, mas num palco aí algures. Desde que o conheço que tento não faltar a nenhum concerto. E, porque me conheço, sei que vai continuar a ser assim. Espero que por muitos e bons anos. 

     

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  • Dubrovnik e as delícias do mar Adriático

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    Uma das muitas ilhas da Croácia

     

    A Croácia é bem capaz de ser o sítio por onde passei sobre o qual as pessoas mais me perguntam. Acho que depreendem que a Itália é um sítio lindo, o Montenegro é simplesmente desconhecido, a Malta é uma “ilhota” e a Croácia está nesse meio termo, a ganhar fama de dia para dia (com uma quota parte de culpa do Game of Thrones).

    A verdade é que este cruzeiro foi escolhido, em primeiro lugar (claro!), porque tinha sítios que achamos que podiam ser interessantes; em segundo lugar, por haver vagas; e em terceiro porque estava inserido nas poucas semanas que tínhamos disponíveis para tirar férias. Ou seja, ao contrário do outro – onde eu tinha sítios que queria muito, muito ir, em grande parte por culpa dos policiais nórdicos – neste houve uma série de fatores positivos que o proporcionaram e não foi tanto por eu querer muitooo ir aqui ou ali e achar que ir de barco seria a melhor forma. Iria, mais dia menos dia, a Veneza e a Roma – os clássicos. Mas, se calhar, nunca passaria pelo Montenegro ou Malta, por exemplo. E a Croácia está num limbo entre estas duas situações – não era um país prioritário na minha lista, mas dada a crescente fama e os enormes elogios, sabia que não tardaria a ir lá. Mas, ao contrário da viagem do ano passado, as expectativas não estavam bem formadas, não foi algo pelo qual ansiei e sonhei enquanto estava com os livros nas mãos – foi algo mais despreocupado, fui de alma aberta para receber tudo o que visse. Mas, curiosamente, sinto que as pessoas têm imensas expectativas em relação a este destino e fazem-me imensas perguntas – e, honestamente, perante tanto entusiasmo dos outros… eu sinto que não saí de lá assim tão apaixonada.

    E porquê, perguntais vós? Uma palavra: turistas. Dubrovnik, onde parei durante um dia e meio (pernoitamos lá), está pejado de turistas. O difícil mesmo é ver croatas naquela terra – e a oferta de tours é tanta (para andar de barco, de kayak, nas muralhas, ir à praia, ver locais de filmagens de Game of Thrones… enfim) que vêem-se pessoas aos magotes, em grupos gigantes, autocarros e autocarros a chegar constantemente, sem nunca dar um alívio à cidade. É impressionante e extenuante.

    Se isto quer dizer que não gostei? De todo. Acima de tudo não há como não gostar daquelas águas – o Adriático é lindo, limpo, de um azul como eu nunca vi na vida. Mal começamos a aproximar-nos e eu vi aquelas águas da minha varanda soube que ia ter de lá ir nadar, nem que fosse por um par de minutos. E a parte velha de Dubrovik é uma cidadezinha muito pequenina, pitoresca, mais bonita ao longe do que propriamente lá dentro (uma opinião pessoal, logicamente) – mas lembra-nos claramente alguns cenários da Guerra dos Tronos, principalmente aquelas muralhas com a água como pano de fundo.

    Mas bom, nós atracamos na Croácia ao início da tarde e aquilo que fizemos, para ter uma ideia ao que íamos, foi ir numa excursão que incluía não só Dubrovnik como também uma cidadezinha a meia hora de lá chamada Cavtat (pronunciam Savtat). De todas as visitas que fizemos, esta é capaz de ter sido das mais fracas, com um guia pouco entusiasta. Cavtat é uma estância balnear, uma cidade muito pequenina com um porto para barquinhos e iates – a cor do mar é, logicamente, o ex-libris lá do sítio. Tem apenas duas igrejas que, comparadas com as nossas, são paupérrimas, apenas com algumas pinturas mas sem quaisquer detalhes de riqueza. O caminho para lá, com as suas paisagens, é que vale a pena – passa-se pelas últimas duas ilhas da Croácia (do seu “espólio” de mais de 1200, a grande maioria inabitadas) e vê-se a cidade velha ao longe, que vale muito a pena.

     

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    Dubrovnik em baixo, no caminho para Cavtat

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    Cavtat

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    O portinho de Cavtat e a torre de uma das igrejas

     

    É importante dizer que a Croácia (e toda aquela zona) é vítima de muitos tremores de terra, sendo que um dos últimos foi nos anos 70, pelo que há muita coisa que caiu e foi reconstruida nos últimos séculos. No que diz respeito a igrejas e torres há pouca coisa antiga, porque tudo ruiu, o que tira um pouco da história e do poder daqueles edifícios (historicamente falando). Para além disso há um “pormenor” que também não devemos ignorar: a Croácia, que pertencia à antiga Jugoslávia, lutou durante 4 anos pela sua independência (de 1991 a 1995) contra os sérvios e os montenegrinos, e é algo que claramente ainda está muito presente no país – o nosso guia, por exemplo, não se referia a isso como uma guerra, mas sim como uma “agressão” dos países vizinhos, que não respeitaram a vontade daquele povo ser independente. Para todos os efeitos, 1991 é a data da independência da Croácia, o que faz deste país praticamente um “teenager” – muitos dos que lá vivem (basta terem mais de 26 anos) ainda se lembram pelas tormentas por que passaram.

    Dubrovnik é uma cidade simples de compreender: tem uma rua principal, bastante grande e larga, que é o ponto mais baixo da cidade – tudo o que está para os lados sobe muito, com centenas de escadas impróprias para cardíacos, divididas por ruelas muito estreitas e pitorescas (mas um tanto ao quanto arruinadas com a quantidade absurda de restaurantes e lojas de souvenirs, muitas vezes pobres e sem grande cuidado com a decoração – algo que contrasta com o exterior). A cidade foi pensada e construída assim com um objetivo: quando houvesse cheias, escoava tudo para o centro. Tem um porto – onde atualmente só param barquinhos de pesca e barcos para turistas (muitos estilo submarino, para se poder ver o fundo incrível do Adriático) – e muitas lojas, ora com merchandising de Guerra dos Tronos (com preços alucinantes), ora souvenirs, ora com gomas enormes (não entrei, por respeito às minhas ancas, mas aparentemente é uma coisa típica). É giro passear por lá, mas vê-se rápido: depois de se passar no centro, no porto, de se ver a torre e a igreja e de se percorrer um par de ruelas só com restaurantes… acaba por perder a piada. Só há uma coisa que resta fazer: subir as muralhas. 

     

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    A rua central de Dubrovnik, com a torre e o sino

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    O porto 

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    Uma das lojas de gomas – tinham sempre papagaios à porta e pinturas alusivas aos mares, estilo piratas

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    A igreja

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    No centro de Dubrovnik

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    Numa das muitos ruelas – esta plana, ao contrário da maioria

     

    O preço para entrar na muralha é caro – 150 kunas (cerca de vinte euros) por pessoa. Mas vale a pena. É preciso ter vontade, fôlego e pernas para subir centenas de escadas, mas as vistas são arrebatadoras – tanto da cidade como do mar. No dia em que nós fomos estava um calor dos ananáses, a minha roupa estava ensopada, tivemos de parar para beber e comer um gelado (nas torres há uns barzinhos), mas é uma vista privilegiada da cidade. Outra forma de a ver é subindo o teleférico que eles lá têm, mas pelos vistos as filas são demoradas – só anda um para cima e outro para baixo (não é como em Lisboa ou em Gaia), por isso, no pico do verão, pode ser preciso uma boa dose de paciência – e entre uma coisa e outra, eu apostava as minhas fichas na muralha. Não sei o preço do teleférico – de qualquer das formas, fica a nota: a moeda oficial croata é a kuna, mas em praticamente todos os sítios (com excepção de locais públicos, pertencentes ao estado e etc., como a muralha) os euros são bem aceites.

     

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    A subida para a muralha

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    A cidade, vista lá de cima

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    Faz ou não faz lembrar Game of Thrones? Esta é uma das minhas vistas favoritas!

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    E do outro lado também havia uma espécie de castelinho…

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    Na muralha

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    Os kayaks, a única pedra no sapato que trouxe de lá… havia inclusivamente alguns (como se vê na foto) com o fundo transparente, onde se podia ver tudo o que se passava em baixo. Muita inveja!!!

     

    Uma das coisas que eu queria fazer e não fiz foi andar de kayak. Nunca tinha visto tantos barquinhos daqueles na vida, havia visitas guiadas com uns trinta kayaks, mas o tempo não dava para tudo e tinha de passar grande parte do dia sem os meus pais – e como as férias eram conjuntas, achei que não fazia muito sentido. Mas isso não nos impediu de ir dar um mergulho àquelas águas lindas. Fiz umas pesquisas, andei a inspecionar no maps e percebi que uma das praias mais populares da zona ficava a 15 minutos a pé do centro da cidade (onde nos deixavam de autocarro – havia constantemente transferes do barco até lá e vice-versa).

    Chama-se Banje Beach e, para além da água, a praia é uma absoluta desgraça (pelo menos para os meus standarts). A “areia” é, na verdade, um conjunto de pedras; a praia é minúscula e apinhada até ao tutano com espreguiçadeiras, pergulas de madeira e guarda-sóis. Não há um metro quadrado de praia livre! Os meus alertas de “intromissão de espaço pessoal” começaram logo a piscar, com demasiada gente em roupa de banho muito próxima de mim e a sentir-me sem espaço para respirar. Acabamos por nos instalar num pequeno paredão que lá existe, onde há também imensas pessoas com as toalhas estendidas, mas onde conseguíamos ao menos pousar as coisas sem ter algo a 30 centímetros de distância. Estava visto que não íamos “fazer praia” – era ir à água, tirar fotos, secar, vestir e ir embora. É também por este tio de coisas que gosto de viajar – para além de conhecer sítios novos, aprecio os “meus” sítios; relativizo. Para além do tom do mar, o Algarve dá só 265 a zero a este lugar – mesmo quando está cheio, em pleno Agosto! Por isso pensem! Temos, de facto, praias magníficas e não precisamos de ir para muito longe para passar bons momentos.

     

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    A água tinha uma temperatura muito agradável, nem demasiado fria nem quente. Mesmo com uns três metros de profundidade, viam-se todos os detalhes do fundo – era uma tentação não nadar de olhos abertos!

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    A praia, bem pequenina como podem ver, e com demasiadas pessoas por metro quadrado.

     

    Mas bom, foi aqui que aconteceu algo muito engraçado: estava eu a tirar umas fotografias à minha mãe quando ouço falar português. Nesta altura pensávamos que éramos os únicos portugueses no barco (no fim descobrimos que havia mais quatro) e já estavamos habituados a estar descontraidíssimos a falar português, sem esperar que houvesse sangue luso nas redondezas. E portanto ouvir português foi estranho mas, dado o acaso, pedi a uma menina que me tirasse uma foto a mim e à minha mãe: sempre me pareceu mais de confiança do que dar a câmara a algum estrangeiro. E depois de ela passar a máquina a outra amiga, alegadamente com mais jeito para a fotografia do que ela, perguntam-se se eu por acaso não tenho um blog que se chama Entre Parêntesis. Atrapalhada não é a expressão certa para descrever o meu estado naquele momento, mas sim surpreendida. Eu não estou habituada a ser reconhecida em parte nenhuma – é raríssimo acontecer sequer em Portugal, portanto a última coisa que eu esperava que acontecesse na Croácia é que alguém soubesse quem eu era! As meninas foram muito simpáticas, tiraram-me a fotografia, mas eu, olhando para trás, não sei bem se a minha reação foi simpática, amistosa ou sequer amigável – e peço desculpa se fui desagradável ou menos simpática do que o suposto. Nem sequer lhes perguntei os nomes! Fiquei completamente desnorteada, não esperava encontrar portugueses ali e muito menos alguém que soubesse o meu nome! Por isso, se me estiverem a ler, gostava de mandar um beijinho às duas meninas com quem tive esse encontro furtivo (e estranho) na Croácia – espero que não pensem que sou uma mal encarada 🙂

    Não tenho dúvida que se não tivesse passado um dia e meio na Croácia não teria feito isto tudo – sinto que foi dos destinos que mais aproveitei, não estive tempo praticamente nenhum no barco para além da noite. Cheguei ao fim destes dois dias esgotada e era só a primeira paragem – porque o calor, nestas situações, é um inimigo poderoso. Cheguei sempre ao barco muito moída, cheia de calor e fisicamente cansada devido às temperaturas demasiado altas. Mas foi bom. Tenho pena de só ter visto Dubrovnik – a Croácia é um bom país para uma road trip por toda a costa, por causa das suas paisagens e água maravilhosas. Acredito que em sítios com menos turistas (e menos cruzeiros…) as praias sejam bem mais toleráveis e que este possa ser um destino um tanto ao quanto paradisíaco. Aconselho, no entanto, meses como Junho ou Setembro – em Julho e Agosto, a quantidade de pessoas que lá está é um bom potenciador para nos fartarmos daquilo, das filas e dos magotes que nos atravessam à frente. Talvez um dia consiga voltar. Espero que sim.

     

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    Uma das pontes da muralha

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    Uma das ruas bem a pique – a minha mãe amaldiçoou-me quando a fiz subir uma destas!

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     E, por fim, para todos os fãs de Game of Thrones: sim, lembrei-me de vós! 😉

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