• Precisamos de falar sobre as novas bóias que invadiram o país

    Quero aproveitar este dia em que o verão está meio descaracterizado, o sol escondido e uma humidade de pôr, literalmente, os cabelos em pé (as raparigas sabem do que eu estou a falar) para falar de um assunto que me tem deixado apoquentada durante os últimos meses.

    Não sei se se lembram de eu ter feito, há um ano atrás, um post em que falava da falta de diversidade das bóias neste país. Na altura até deixei algumas sugestões de possíveis novos designs que pudessem aumentar a “fauna boial” do mar português, tais como “um polvo, um robalo, uma sardinha tão tipicamente portuguesa? Ou uma gaivota, um linguado ou uma amêijoa, se queremos pensar fora da caixa.”

    Passou-se um ano e puff, do nada apareceram bóias de tudo e mais alguma coisa. Eles são ananases, melâncias, flamingos, unicórnios, dónuts meios trincados, cisnes brancos, cisnes negros… toda uma panóplia de novos insufláveis, que custam os olhos da cara mas que, ainda assim, invadiram os instastories de todo o verdadeiro português.

    A minha questão é: e eu? Eu, que alertei para este problema gravíssimo que estava a deflagrar na nossa costa. Eu, que dei sugestões para mais e melhores bóias, inclusivamente com símbolos tipicamente portugueses. Eu, que divulguei a causa, cheia de compaixão por esses mares sem diversificação. Nem um royalty, nem um obrigado, nem um raio de uma bóia de graça. É triste esta vida, não é?

    Embora na altura em que escrevi o post – e que causei todo este movimento “pró-bóia” – estivesse na praia, de papo para o ar, sem fazer nenhum e a ter ideias graças ao demasiado tempo livre que tinha, por estes dias, ainda que muito atarefados, tenho tido tantas outras ideias passíveis de serem usurpadas por marcas sem coração, que nem uma agradecimento fazem a esta pobre alma. Posto isto, vou só ali ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial registar as minhas ideias – claramente valiosas – e depois falamos, ok? (É que nem uma bóia!)

     

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  • Salvador Sobral: quando a música não vem só da alma, mas do corpo todo

    Passei aí uma fase em que estava maluquinha com o Salvador Sobral. Para dizer a verdade, essa fase ainda não passou – e não sei se passará tão cedo. Tenho para mim que ele é o meu Jamie Cullum português – aliás, há uns tempos comprei o Expresso só para ler uma entrevista que ele deu e ele lá dizia que também passou uma fase em que adorava o Jamie. E eu pensei “ah, eu sabia, somos almas gémeas!”. Só que não. Acho que não conseguia aturar o Salvador durante muito tempo – eu, uma control freak assumida, dava em louca com tanta coisa aleatória que vai naquela cabeça. Mas isso não faz com que goste menos dele, que não adore a sua música ou que não me desse uma alegria enorme conhecê-lo.

    Ontem fui ao primeiro concerto dele na Casa da Música e saí de lá rendida, de coração muito cheio, super inspirada – a sentir que podia conquistar o mundo, escrever livros e aquilo que mais sonho – e feliz por ter testemunhado este momento. Passei aquelas duas horas de música acompanhada por uma dor de cabeça sem fim, que se ia expandindo à medida que os minutos passavam, graças a um dia demasiado longo e cansativo – mas era impossível aquilo não compensar. Aguentei estoicamente – e aguentaria mais duas horas iguais, se ele assim as cantasse. 

    Não é um concerto para todos. E o tempo, quase como a teoria da evolução das espécies, vai-se encarregar de deixar aqueles que gostam mesmo do estilo do Salvador – incluindo as caralhadas que ele vai dizendo – nos seus concertos e os outros vão acabar por ir à vida deles. E porquê que não é para todos? Porque é um concerto de jazz, com a liberdade que lhe é característica. Diria mesmo que essa é a grande diferença entre ele e o (meu) Jamie: há uma grande componente criativa em todos os concertos, as músicas nunca saem iguais, a comunicação entre público e artista é incrível, nunca se sabe o que vem a seguir… mas o Jamie tem uma componente muito mais pop nas suas músicas, enquanto que o Salvador gosta mesmo daquela onda jazz – de ouvir os seus músicos, de lhes dar a luz da ribalta, de lhes proporcionar momentos a solo que eles tão bem merecem, de ele próprio gritar quando quer ou sussurrar longe do microfone quando assim acha apropriado. Aquilo vem-lhe das estranhas, da alma. Na verdade, vem do corpo todo – e é por isso que ele parece um boneco estranho a cantar. E a verdade é que muitas vezes corre bem; outras, nem tanto – ontem, numa das músicas em que ele decidiu improvisar, passou o tempo da entrada e ele disse, ainda que rapidinho: “ups, já fiz merda”. E isso, meus amigos, tem o seu encanto – como tudo o que é puro e verdadeiro.

    No meio das músicas mais conhecidas dele, cantou outras que eu nunca tinha ouvido: uma a que ele chama “Loucura” e outra intitulada “Benjamim”, composta por ele e por André Rosinha (que toca contrabaixo). Para além disso tocou pela primeira vez uma música dos Alexander Search, que ele deu a entender que não estava no alinhamento e que surgiu de forma espontânea que se chama “Justice” – e da qual gostei mesmo muito. Antes do encore houve um momento um tanto ao quanto tétrico, com um poema que ele próprio escreveu (talvez com o título “180 dias”), que retratava um homem que estava em coma, entre o limbo e a dúvida entre acordar ou morrer – aqui, houve uma pequena participação de Júlio Machado Vaz, que entrou em palco para ler um poema de Sophia de Mello Breyner, que também estava na onda da letra do Salvador. Por fim, ele sentou-se ao piano e fez o meu coração derreter. Eu sou, provavelmente, a pessoa mais difícil de se apaixonar na história da humanidade: mas acreditem que um homem ao piano é meio caminho andado para me deixar rendida. Tocou uma cover da música “Ninguém escreve Alice”, escrita por Rui Veloso e Carlos Tê, e também uma música do segundo álbum da irmã. Terminou com a “Case of You”, de Joni Mitchell – talvez, para mim, a melhor interpretação dele (ainda estou a decidir se gosto mais desta ou do “Presságio”, que ele tocou no início do concerto) e que, claro, me levou às lágrimas – e, mesmo para acabar, uns pequenos acordes da “Amar pelos Dois”, que já havíamos todos cantado em conjunto e que foi quase um agradecimento mais silencioso e profundo daquilo que ele está a viver.

    Acima de tudo, no que diz respeito ao Salvador, acho que podem acontecer três coisas distintas: não gostar nem dele nem do seu estilo de música e portanto risca-lo por completo; gostar da música mas não da pessoa; ou então, diria que a mais improvável, gostar dele e dispensar a música que ele faz e canta. Em qualquer uma delas, penso que é essencial admitir uma coisa: ele é um grande músico, com um poder vocal incrível. É quase como o Ronaldo: eu não gosto dele, não gosto da equipa que ele representa – mas não tenho outra hipótese senão admitir que ele é um jogador do caraças. Como em tudo na vida temos de olhar para as coisas e desfocar aquelas que gostamos menos; eu também não gostei daquilo que aconteceu no concerto solidário, mas optei por não escrever sobre isso. E, honestamente, nem foi para não ofuscar a causa: foi para não ofuscar o talento dele com uma saída despropositada e desmedida, de alguém que claramente quer muito fazer música mas não está a saber lidar com tudo o que ter sucesso implica. Eu, como muitos, não achei piada: mas em todo o panorama que é, para mim, o Salvador… optei por desfocar esse momento, em detrimento de tantos outros incríveis que ele já nos proporcionou (e que, no meu caso, sei que continuará a proporcionar – porque não me ficarei por este concerto).

    A “Amar pelos Dois” não é a minha música preferida dele – mas será sempre especial, por aquilo que representa para todos nós. E ontem, enquanto o via e ouvia ali à minha frente a cantar essa música – um rapaz magrinho, com uma camisa super larga que engana os menos observadores, com umas perninhas super fininhas, quase que representando a sua fragilidade – apercebi-me do privilégio que estava a viver. Arrepiei-me e lacrimejei porque, de facto, os dias da Eurovisão foram mesmo felizes e nem ele próprio se apercebeu de tudo o que deu a Portugal. Está, neste momento, a recolher os louros e as consequências disso – até porque, como ele disse ontem, ele não consegue arcar com a felicidade toda de um país. Mas eu estou em crer que o tempo, os meses e os anos lhe vão dar a clarividência do que ele fez em Kiev, das asneiras que fez a seguir, e perceber um pouco da nuvem em que está neste momento a viver. E de, eventualmente, ter orgulho naquilo que conquistou.

    A minha sorte é que tenho paciência – e (espero eu) tempo. Tempo para ver o Salvador crescer, tempo para ouvir mais concertos, tempo para esperar por mais álbuns e tempo para viver a minha vida ao som da música dele. Ah, e memória: porque por mais anos que viva, penso que nunca mais me vou esquecer do momento em que ele nos ganhou a Eurovisão. Ainda ontem ele prometeu dar uns segundos onde toda a gente podia tirar fotos, “o momento em que somos todos do nosso século”; é claro que muita gente sacou dos telemóveis momentos antes, para filmar algumas músicas e captar fotografias, como se fosse aquilo que ficasse marcado no cérebro… Naqueles 20 segundos toda a gente sacou dos smartphones e os virou para os músicos. E eu fiquei ali, a olhar para o palco, com as mãos no bolso e um olhar embevecido. Não quero uma foto deles para nada, não preciso de mais entulho nos meus arquivos. Quero, sim, que aquela imagem fique guardada na melhor memória RAM de todas, um “disco D” sem igual: mais do que no meu cérebro, quero estes momentos no meu coração.

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  • O novo museu na casa Andersen e o Jardim Botânico do Porto

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    É com alguma vergonha que confesso que, aos 22 anos, tripeira de gema, nunca tinha posto os pés no Jardim Botânico. Eu sei, eu sei, é um crime e é vergonhoso mas o quê que querem? Jardins e espaços verdes não são sítios que frequente muito – já o Palácio de Cristal e Serralves são locais que raramente visito – e nunca tinha surgido uma boa oportunidade para ir dar um passeio ao Jardim Botânico e à Casa Andersen. Até ontem.

    Isto porque foi no sábado inaugurado o Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, que tem esta semana entrada gratuita (estão a apontar?) e que prometia o esqueleto de uma baleia no centro da casa, o que só por si me pareceu uma boa razão para lá ir. E assim matava dois coelhos de uma só cajadada: o novo pólo do museu e o jardim. E gostei muito… de ambos.

    O museu é pequeno – e pareceu ainda mais com tantas pessoas lá dentro (acima de tudo porque estava um calor infernal e, como a casa não tem ar condicionado, estava toda a gente a abafar). Só tive 50 minutos para o visitar, já fomos perto da hora de fecho, mas penso que dado o tamanho e a quantidade de coisas que há para ver, já é o bastante; passamos algumas partes mais a correr, mas deu para ver e ler todas as descrições (ainda que algumas por alto). Agora que olho para trás, não vejo um grande fio condutor entre toda a exposição, mas de um ponto de vista individual (de cada sala) é bastante interessante para quem gosta de ciências e para quem, em biologia, ficou encantado com Darwin e a teoria da evolução das espécies. Tem algumas coisas sobre a seleção natural, a evolução dos animais e de alguns vegetais; mostra a diversidade e homogeneidade entre uns e outros, de formas interativas e outras estáticas mas visualmente muito atrativas, que dá vontade de ficar ali a olhar e admirar.

    É tudo claramente pensado ao pormenor e feito com muito brio: porque mais do que transmitir conhecimento, é bonito de se ver. Desde o mais pequeno detalhe às grandes estátuas de animais e do próprio Darwin, que está sentado com uns coelhinhos ao colo mas que, de tão realista, eu não me admirava se se pusesse de pé e andasse dali para fora. 

    Acho que até para crianças pode ser uma exposição interessante e que pode ajudar a que elas entendam alguns princípios básicos da ciência e da vida, assim como coisas mais práticas do dia-a-dia. Pode não ser o museu mais espetacular aqui do pedaço, mas é visualmente muito bem conseguido e está inserido numa casa lindíssima, com uma escadaria e algumas salas de fazer cair o queixo. Ah, e não esquecendo o esqueleto da baleia, que é logo um “baque” mal se entra e nos faz pensar “o que somos nós, pequeninos, comparados com isto?”. É de facto imponente e faz-nos relativizar. E se não gostarem da exposição… bem, podem sempre ir passear nos jardins, que estão cheios de recantos giros para ler ou tirar uma sesta à hora do almoço, enquanto se ouvem os passarinhos e se sente a calmia e o cheiro da natureza.

     

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  • A arte de não saber criticar

    Nos últimos dias tenho andado embrenhada em críticas a parques de campismo. Ando atrás de mais um sítio para ir acampar com a minha família, com todas as exigências que isso implica – que fique, no máximo dos máximos, a duas horas do Porto, que caibamos lá todos e de preferência em forma de clã, que tenha água – mar ou rio – e boas condições de higiene (os mínimos, vá) – e por isso dou grande importância às avaliações e críticas de quem já lá esteve.

    É claro que nem tudo é para levar a sério – já aprendi isso pelo tripadvisor no que aos restaurantes diz respeito. A verdade é que cada um tem os seus gostos mas, acima de tudo, referenciais diferentes. Um restaurante pode ser mediano, mas para alguém que normalmente come em restaurantes fracos, tascos, com diárias e coisas que tais… este é acima da sua média e, por isso, muito bom; já para alguém que frequenta sítios de luxo, um restaurante mediano é abaixo da sua média e por isso é normal que as críticas sejam menos positivas. Podia dizer-se que “há coisas factuais” mas, de facto, tudo depende daquilo que temos como referência. “As casas de banho são muito limpas” – se as pessoas, nas suas próprias casas, só lavam as casas de banho de quinze em quinze dias, é natural que casas de banho que, para mim, são horríveis, sejam para essas pessoas limpas. A questão aqui é que quanto mais limpas são, melhor – e agradam desde os menos exigentes até aos nazis da limpeza. Na comida também se vive o mesmo drama, embora aí entrem também os gostos, o que ainda vem piorar as coisas: “a sopa estava salgada”. Se calhar para mim não, porque uso bastante sal em casa… mas para outros talvez sim. Por isso há muita coisa que, de facto, é difícil avaliar… e um restaurante ou um hotel bom é que aquele que de facto – e quase milagrosamente – consegue agradar a gregos e a troianos.

    Mas uma pessoa tem de saber ultrapassar estas discrepâncias e encontrar um meio termo no meio de todas as críticas que lê. Mesmo que não se concorde com algumas coisas, o essencial é aceitar. Mas isto aplica-se quando as pessoas criticam, de facto, alguma coisa – quer seja de forma positiva ou negativa. Porque a verdade é que na minha exploração por parques de campismo, cruzo-me com inúmeras “críticas” perfeitamente inúteis tipo “dou cinco estrelas porque é aqui que passo sempre as férias com a minha família e amigos”. Ah, muito obrigada, caro comentador! Ajudou-me imenso a perceber as condições do parque com o seu comentário hiper enriquecedor. Ou outros que pretendem deixar o suspense: “nunca ponham os pés nesta espelunca!”. E explicar porquê, não dá? Esgotou o máximo de caracteres que o twitter permite? E já nem falo dos “monopalávricos” (acabei de inventar uma nova palavra, sim) – “bom”, “gostei”, “mau”, “adoro” e coisas que tais – porque comparados com os comentários super argumentativos e explicativos que eu mostrei em cima, ao menos têm uma opinião geral, ainda que não fundamentada e igualmente passível de ser ignorada.

    Eu posso ser suspeita porque escrevo com facilidade e gosto muito de escrever críticas – a rubrica “review da semana” é, para mim, uma das mais fáceis de fazer e dentro daquilo que é (ou não) o meu jeito de escrever, penso que até tenho bastante aptidão para criticar tudo e mais alguma coisa. Mas quer se escreva mal ou bem acho que a partir do momento em que uma pessoa se predispõem para criticar algo… devia saber o que criticar. Dizer o bom e o mau, o que gostou ou deixou de gostar, argumentar a escolha, falar das expectativas que foram ou não superadas. No caso das críticas do Google (leio muitas), são feitas sem qualquer pressão sobre as pessoas (ao contrário do booking, por exemplo, que nos manda emails a pedir para deixar reviews) e portanto acho sempre estranho que existam tantos comentários despropositados quando foram feitos, literalmente, de livre e espontânea vontade.

    Ninguém diz “olha, fui para aquele parque de campismo por recomendação daquele senhor desconhecido que disse que vai lá todos os anos com a família e com os amigos e que por isso é muito feliz”. Ou então sim e eu é que sou muito estranha e não percebo nada de críticas e poder de argumentação. 

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  • Chávena de letras “O Falcão de Malta”

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    Sinopse aqui

     

    Este é um policial clássico, com tudo o que tem direito: um detetive privado que acha que sabe tudo e que tira ilacões incríveis, mulherengo e galã, imprevisível, um filho da mãe mas também respeitador de uma moral que rege as suas ações e forma de atuar; uma cliente mentirosa e enganadora mas ao mesmo tempo coquete e irresistível; os polícias lerdos que nunca conseguem levar a deles avante; os rufias, um como sempre bonacheirão, e toda a envolvência deste tipo de obras dos inícios do século XX, onde não faltavam os cigarros em todos os sítios, o whiskey, a penumbra e etc.

    Para quem gosta de policiais, esta é sem dúvida uma boa forma de passar um par de dias entretido e sem ter vontade de pousar o livro.
    Nota para esta edição de bolso da Livros do Brasil, versão da Porto Editora, que é pequena, leve mas com uma letra boa para se ler, fazendo destas edições os livros perfeitos para se andar de um lado para o outro sempre com companhia sem estar a carregar um autêntico pedregulho na carteira.

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  • Desmistificar a ideia de um cruzeiro

    Estava a passear pelo facebook e dei de caras com um post de um humorista que disse que fez férias à velho: foi viajar num cruzeiro. Nos comentários diziam-se coisas horríveis tipo “cruzeiros nunca, jamais!” e onde, lendo o post na diagonal (já tenho pouco tempo recreativo, não me apetecia gasta-lo a ler bacoradas), só se viam coisas do género “é só velhos e gordos a comer durante o dia todo”. E até podem desvalorizar este meu post por eu ter uma alma velha, alegando que penso tal e qual as pessoas que frequentam este tipo de viagens, mas acreditem que eu adoro viajar e o faço de todas as formas e feitios, sem problemas de criticar o bom e o mau de cada sítio e de cada meio para lá chegar.

    Uma coisa é absolutamente indiscutível: fazer um cruzeiro é a forma mais cómoda de viajar. Queixam-se dos velhos, queixam-se dos gordos, queixam-se das crianças – mas passar dez horas enfiados num avião em classe económica, com uma pessoa obesa a ocupar metade do vosso lugar, um velho com ar bafiento a adormecer em cima do vosso ombro e uma criança a testar o limite dos vossos tímpanos no lugar da frente é muito bom, não é? Vou contar-vos um segredo: no barco, podem quase correr uma meia-maratona lá dentro. Se não quiserem estar parados, não estão. E se quiserem dormir, têm um quarto e uma cama só vossos, sem barulhos, pessoas ou crianças aos guinchos. É uma opção vossa se querem socializar ou querem estar sozinhos, assim como se querem sair ou ficar dentro do barco.

    Esquecem-se que a idade traz sabedoria; os mais velhos escolhem este meio porque já experimentaram todos os outros e sabem qual é o melhor. E vocês dizem: “não é nada, é porque andar de barco não cansa!”. Ai não? Haviam de se ter levantado às cinco da manhã para estar no autocarro às sete, tal como eu fiz na Rússia, para ver se não chegavam à noite com soninho. Em média, na semana que fiz no Báltico, andei dez quilómetros por dia. E se isso não cansa, não sei o que fazem nas vossas viagens. É claro que podem ficar no barco, não fazer nenhum e comer cachorros e cheeseburgers o dia inteiro – mas, mais uma vez, a opção é vossa.

    Outra coisa espetacular: não pagam para comer, não pagam para ir a espetáculos, não pagam para ir ao cinema, não pagam jogar nos trivia, não pagam para ir ao ginásio, não pagam para ir à piscina. E sabem aqueles momentos em que temos de nos meter num avião, para viajar de um sítio para o outro, e lá estamos à espera do check-in, depois à espera que o avião levante, e as horas de viagem sufocantes em que só nos podemos mexer cerca de trinta e sete centímetros e saímos com formigueiros nas pernas e costas suadas e coisas que tais? No barco não existe. Fazem o que querem, vivem a vida, fazem as atividades que mais gostam, dormem confortavelmente – e, sem dar por isso, já estão no sítio seguinte. E se gostarem de ver as vistas, aviso já que em pleno mar se vêem coisas incríveis e pores do sol de cortar a respiração.

    Se passam pouco tempo nos sítios? Passam. Se isso é mau? Nem sempre, há sítios de treta. Para mim, a magia de um cruzeiro é esta: fico a conhecer várias cidades em pouco tempo, passo a ter uma ideia geral do que aquilo é, se faz ou não o meu estilo. E depois, mais tarde – ensardinhada num avião, lá terá de ser – volto para divagar com todo o tempo do mundo na cidade. Dou um exemplo: quero muito voltar à Suécia, voltar a percorrer Estocolmo e não só; já ir à Finlândia, penso que só irei se se proporcionar ir em trabalho ou me oferecerem a viagem, porque simplesmente não ficou o bichinho. Foi fixe, risquei um país da lista, mas não tenciono voltar.

    Agora tudo depende do cruzeiro que fazem, da companhia onde vão e do tipo de quarto que escolherem. Há cruzeiros fracos, companhias más e quartos horríveis sem sequer uma janelinha para ver o céu. Entre ir num cruzeiro fraco e bafiento e ir para um só destino, mesmo que seja num low-cost e ficar num hotel com melhores condições… se calhar prefiro a segunda opção. O cruzeiro que fiz no Báltico foi com a Royal Caribbean e agora o próximo é com a Celebrity – vamos ver o que vai sair dali – e fiquei em quartos com varanda. São companhias boas e os quartos também são de nível superior – mas sei que há quartos com janela, sem varanda, que também são perfeitamente aceitáveis (e os quartos sem janela, ainda que um bocado claustrofóbicos, quando inseridos num cruzeiro bom devem valer a pena). É, como em tudo, uma questão de dinheiro. Mas vale a pena fazer as contas: se virem todos os sítios onde param, se incluírem comida e bebida, mais dormidas e se se atreverem a juntar todos os extras ao nível de comodidades (ginásio, piscina, sauna, solário…) e de entretenimento (espetáculos, cinema, jogos, etc.) acho que a questão nem se coloca.

    No entanto, é como vos digo: fazer um cruzeiro é como ir ao sushi – se começarem num mau, nunca mais põem lá os pés; se começarem num bom, no início estranham e depois não querem outra coisa. A minha experiência foi tão boa que eu vou repetir – e sou uma miúda de 22 anos! Conheci pessoas muito simpáticas, sítios diferentes, falei línguas, convivi e diverti-me imenso enquanto viajava. Fiz um post grande depois do meu primeiro cruzeiro que podem ler aqui, assim como diários de bordo dos sítios onde parei que podem ver aqui.

    E, a sério, tendo possibilidades… deixem-se de preconceitos e experimentem.

     

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  • Chávena de letras – “O Livreiro de Paris”

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    Sinopse e primeiras páginas aqui

     

    A maior crítica que posso fazer a este livro é o facto de ser enganador. Quando me falam em Paris e livros já é meio caminho andado para ler o que quer que seja – mas eu espero que o livro seja, de facto, passado em Paris e fale de livros. O que, neste livro, só acontece parcialmente. É aquilo que dá o mote à história, mas não passa disso.
    A ideia da farmácia literária é muito boa, mas muito mal explorada – e a autora, apercebendo-se disso, dá um “docinho” ao leitor no final da obra para ver se ele se esquece que, durante o livro, pouco se desenvolve esta ideia, que é sem dúvida a melhor que a obra tem. Há partes que são absolutamente dispensáveis, incluindo o diário de Manon – confesso até que passei alguns trechos à frente. A escrita não é má, mas nada de excepcional – há partes do diálogo em que nem sempre se percebe quem é que fala e há falhas ao nível do descodificar das emoções (e consequentes reações); por vezes, parecia que as coisas aconteciam do nada, um ataque de choro ou de raiva caído do céu, meio descontextualizado.
    Para mim, este é um livro sobre perda e sobre reencontro connosco próprios – de um ponto de vista, claro, muito romanceado. Estas três estrelas não são sinónimo do livro ser mau – simplesmente não era o livro que eu queria ler e que eu acreditava ser.

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  • O meu primeiro ano sem férias grandes

    Ir de férias é óptimo. Aquilo que ninguém nos diz é o trabalhão que dá ir laurear a pevide – e não, não falo de escolher destinos, marcar viagens e hotéis; falo de tudo o que se tem de deixar pronto antes de ir passar uns dias longe do trabalho. Ah, e também o que custa voltar: mesmo que a vontade de voltar exista, sentimo-nos a arrastarmo-nos pelos corredores, cheios de sono, com saudades dos nossos livros e dos pés na areia – e trememos só de pensar no trilião de emails que temos por ler. Mas pronto, já passou, já é terça-feira e a rotina está a invadir-me outra vez – até daqui a quinze dias, em que me estrearei em Itália.

    Mas continuando: eu estava cheia de medo de não me conseguir desligar do mundo do trabalho enquanto estivesse de férias. Trabalhei durante dez meses seguidos e o trabalho é, em grande parte, a minha vida; são preocupações e stresses que já estão entranhados em mim e que me movem, uma vez que não tenho muitas mais forças motoras na minha vida. Estar sem internet e com pouquíssima rede ajudou a que me desligasse do mundo laboral, mas sempre que ia ao email e não me caía nada quase que ficava desiludida – passo a vida com “pim”‘s, com emails sempre a chegar e só agora percebi que também faço disso uma companhia. E sim, confesso uma coisa: é estranho ver as coisas funcionarem sem nós estarmos lá dentro; percebermos que coisas que nós criamos ou ajudamos a criar rolam sem nós, aparentemente sem grandes sobressaltos. No fundo, entendermos que somos substituíveis. Ninguém é igual a ninguém, é um facto, mas as coisas fazem-se: e eu tenho um medo incrível de um dia ir ao mar e perder o lugar. Sou muito pouco confiante em tudo o que faço e acho que devido também a feridas antigas estou sempre à espera que me passem a perna, que me digam “olha, já não podes entrar no nosso grupo, já está cheio…” (oh, como eu ouvi isto tantas vezes). Mas enfim, sosseguei-me – na verdade, não tenho outro remédio.

    A verdade é esta (e eu sei que é estranha): cheguei ao fim das férias já com vontade de trabalhar. Adoro sopas e descanso e, como já toda a gente está farta de saber, amo o Algarve. Mas acaba por ser a trabalhar que convivo com as pessoas, que guio os meus dias, que lhes dou algum significado – e numa semana sem nada para fazer já estava a fazer com que perdesse o rumo. Quando falo com amigos que ainda estão na faculdade e entraram agora em época de férias – 3 meses, hoje em dia, parece-me ainda mais tempo! – o primeiro pensamento que tenho é “que sorte!”. E depois abano-me, olho para mim mesma e percebo que a única coisa boa no dessas férias grandes é a possibilidade: o ter tempo para tudo, não ter de fazer contas às semanas, ter mais de 90 dias para fazer tudo o que se quiser.

    Mas isso só importa quando, de facto, aproveitamos os dias: e eu nunca o fiz; a possibilidade ficava sozinha, assim como eu. Ainda no outro dia me cruzei com um post antigo, nos arquivos aqui do blog, onde no fim de Junho me queixava dos meses entediantes e solitários que tinha pela frente; por isso, sempre que penso “que sorte” relativamente aqueles que ainda têm férias grandes… repenso e vejo que gosto muito mais das coisas como elas estão agora. Porque a verdade é que agora conto os dias: mas também os faço valer a pena. Planeio-os com cuidado, anseio por eles, penso e repenso a melhor forma de os aproveitar ao máximo… e não me deambulo por aí, meio deprimida, sem saber o que fazer da vida.

    A única coisa que me falta é mesmo o mar de possibilidades. Não ter de chatear os meus amigos porque tenho de marcar férias… ter apenas de ir. Mas de possibilidades, tal como as boas intenções, está o inferno cheio. E eu quero coisas concretas, quero planos, quero dias cheios – porque caso contrário, é a cabeça que se enche de coisas más, como aconteceu em todos os verões antes deste. Por isso, mesmo que Agosto vá ser passado a trabalhar, mesmo que não tenha três meses pela frente, sei que este ano vai ser melhor.

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