• Review da semana #20

    A review da semana costuma sair à quarta-feira mas, com a falta de tempo, não consegui escrever. Vamos, por isso, fingir que ainda estamos a meio da semana e que este post é publicado no dia certo.

     

    Porto Exit Games / Escape Games

     

    Eu já queria fazer isto há muito, muito tempo! Mas a falta de oportunidade, conjugada com a preguiça de combinar com as pessoas e todas as logísticas que envolvem juntar grupos, gastar dinheiro e coisas que tais… fui sempre deixando para depois. Mas há coisa de um mês uma das minhas primas decidiu lançar o desafio à família e, finalmente, lá fui eu fazer um escape game!

    Cá no Porto há vários, mas nós decidimo-nos pelo Porto Exit Games – em primeiro lugar porque é a mais conhecida, em segundo porque tem versões alargadas para grupos maiores. A adesão da família foi maior do que o esperado – dos que foram, nunca ninguém tinha feito, alguns já tinham ouvido falar e outros iam completamente às cegas. No total fomos 16, por isso tivemos de nos dividir por duas salas e tiramos à sorte quem ficava em qual. O primeiro grupo ficou na Porto Wine Sabotag” (com dificuldade de 60%) e o segundo (onde eu me incluía) ficou no “The Sacrifice” (com uma dificuldade de 80%). Quando me saiu o papelzinho com um 2 – ou seja, indicando que ia para a segunda sala – fiquei logo com o rabinho entre as pernas; não gosto nada de coisas que metem muito suspense ou terror e, pela descrição que eu tinha lido, esta sala era baseada nisso. Aliás, não fui só eu que, quando nos trancaram naquela sala praticamente às escuras, fiquei um bocado apreensiva. Mas correu tudo hiper bem!

    Sobre a sala mais fácil não posso dizer muito, porque não sei – neste caso, o segredo está literalmente na alma do negócio e eles têm de confiar na boa fé das pessoas para não estragarem toda a piada e os enigmas do jogo. Nesse aspeto, é um negócio volátil e arriscado – mas eu acho que as pessoas se divertem tanto que tentam não matar a sua essência. Mas enfim, na minha família toda a gente se portou muito bem e não contou nada às pessoas do outro grupo – embora nos apetecesse muito falar sobre as charadas, os enigmas e tudo o que passamos naquela hora (que voou!!), nunca abrimos o bico, até porque um dia destes queremos trocar de salas e ver quem sai mais depressa.

    Sobre a sala que eu fiz, posso dizer que adorei. Como éramos oito fizemos a versão extended, que eu depreendo que seja mais longa e difícil ainda, mas a verdade é que conseguimos sair a 14 segundos do fim!!! (Ai a adrenalina!!) Os outros conseguiram sair com um quarto de hora de avanço, mas a sala deles também era mais fácil. A organização aconselha a que se comece precisamente pelo nível mais baixo mas, no nosso caso, como éramos um grupo grande, tivemos de dividir. A senhora que nos recebeu e guiou durante todo o jogo foi muito simpática e divertida e confessou-nos, no fim, que achava que nós não íamos sair – porque a verdade é que para se conseguir sair é preciso desvendar um número de charadas muito elevado, não é mesmo fácil. Quando eu achava que já estavávamos no fim, pumba, mais uma nova surpresa – era sempre assim, parecia que nunca mais acabava!

    Apesar do tema ser sombrio e de haver uns barulhos um bocado sinistros, assim como alguns objetos mais creepy, não há que ter dramas em fazer esta sala. Não mete medo nem há nada muito assustador, vive-se perfeitamente. E se vos estiver a dar um fanico têm sempre o botão de pânico, que abre a porta imediatamente. 

    Os desafios são de todos os tipos: sensoriais, lógicos, de equipa… enfim, é óptimo para dinâmica de grupo e passa-se uma hora num abrir e piscar de olhos! Eu adorei e voltava a repetir sem dizer um “ai” e gostava mesmo muito de, num futuro próximo, fazer as outras duas salas – a mais fácil e a mais difícil, que dizem que é mesmo tramada. Aconselho vivamente a que experimentem esses escape rooms pelo país fora!

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  • Que mundo estranho este [sobre os pseudo-famosos desta vida]

    Há dois fins-de-semana deu-me na realgana ir ao Summer Market Stylista, que acontecia no Estoril. Já tinha pensado ir, não por uma questão de compras, mas para conhecer novas lojas – algo que me é útil também por questões de trabalho. Mas entre o vai-não-vai, o fim-de-semana que passa a correr e dá tanto jeito para se fazer tudo o que não se fez ao longo da semana e uma preguiça do demónio que se apodera sobre nós… no sábado acabei por andar a arrumar umas tralhas e dar metade do roupeiro e no domingo tencionava jiboiar por aí (mais especificamente no meu sofá, sejamos sinceros). 

    Mas mudei de ideias, levantei o rabo e já era quase domingo quando comprei os bilhetes de comboio para baixo – e lá fui eu, às nove da matina, no intercidades para Lisboa. Estive com o pessoal do costume e, à tarde, lá fomos à feirinha. Tivemos algum azar, porque a chuva decidiu dar de si e em alguns momentos foi mais do que uma “molha tolos” – aliás, no final, foi mais “molha todos”, porque saí de lá encharcadinha. Não esperava que a feira fosse tão grande, que tivesse tantas marcas e espaço (embora achasse as barracas em si um bocado apertadas). Não comprei nada, fui só ver e fazer “sourcing”, para depois espreitar as marcas que posso potencialmente “atacar” no futuro.

    Mas não era sobre isso que vinha falar aqui. Como alguns de vós devem saber, aquele evento é organizado por uma blogger conhecida da praça e, naturalmente, há muitos outros que por lá andam – ora a expor, ora a visitar. Eu vi muitos e, talvez porque sou do Porto e não estou habituada a ver famosos (ou, neste caso, pseudo-famosos – não sei bem qual é a linha que separa uma coisa de outra), fez-me pensar muito sobre o assunto. Vi bloggers e vloggers e, naquele voyerismo um bocado estúpido mas praticamente impossível de evitar, pus-me a ver as diferenças entre as fotos e a realidade e a partilhar as minhas conclusões. E depois pensei: eu sei o nome dos filhos desta, o nome dos cães daquela, lembro-me de quando esta casou, “olha esta teve uma filha há pouco tempo, está em óptima forma”, “ah, mas não sabia que o namorado dela fumava”, “será que o marido dela veio para ajudar?”. No fundo, estava dentro daquelas vidas sem estar, na realidade, dentro delas. E isso foi estranho.

    Nós estamos habituados a estar a par da vida dos famosos – que são, normalmente, pessoas da televisão, do cinema ou da música, que se expõem devido a uma profissão artística (em alguns casos) que escolheram. Mas estas pessoas – lá está, “pseudo-famosas” – escolheram expor-se, estar naquela situação. E talvez a mim me faça mais confusão porque eu acho que deve ser horrível ser famoso, ter os media em cima de nós e ter toda a gente a exigir-nos simpatia constante – mas por outro lado também percebo que faz parte de algumas profissões, que umas coisas não são independentes de outras e que temos de as aceitar se queremos levar avante certos projetos. Tenho pensado muito nisso até por causa do Salvador Sobral – a minha crush do momento, não sei se já deu para entender. Percebe-se que ele quer fazer música, que quer sucesso – mas que lida muito mal com todas as suas implicações, selfies e explorações dos media.

    E transito isso para mim própria, porque acho que seria igual. O meu derradeiro sonho é escrever – e embora um escritor não tenha de ter metade da exposição de um ator ou de um cantor, nos dias de hoje tem de se saber mostrar para a máquina funcionar (porque ser só o menino dos olhos da crítica não basta – e, a meu ver, até vale pouco). E isso assusta-me – assim como me assusta este blog, que apesar de eu gostar que seja lido, comentado e partilhado, também gosto que seja tímido, sem grandes alvoroços. Assusta-me a fama, que hoje em dia aparece tão depressa como desaparece, por razões que às vezes nem sequer controlamos.  

    Enquanto via ali alguns dos blogger e vloggers que sigo, pensei nisto tudo. Pensei que, tal como eu sabia o nome dos cães de uma rapariga que por lá passava, vocês também podem saber o nome dos meus – assim como quantos irmãos eu tenho, as cidades que visito e o tipo de trabalho que faço. Simplesmente, como não sou conhecida, não tenho de me confrontar com esse tipo de situações. Ainda assim, na viagem para casa, vim sempre a divagar em como estou e não estou dentro da vida daquelas pessoas, que gosto mas não sei quem são, que sinto que conheço mas nunca vi. No fundo, em como este mundo que vivemos é estranho.

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  • Auto-retratista

    Sou uma chata em muitas coisas, perfecionista em tantas outras. Um dos casos em que sou ambas é na fotografia. Desde que tirei o curso que muita gente aqui por casa me acha verdadeiramente insuportável no que diz respeito a tirar-me fotografias – porque todas as outras (a pessoas e a lugares) são tiradas por mim, repetidas trinta e duas vezes até saírem como eu quero. Mas eu tenho de fazer pressão para ficar, pelo menos, numa única fotografia no meio de um álbum de centenas delas – porque, enfim, também faço parte da família!

    A verdade é que as pessoas não têm de saber tirar fotografias e muito menos ter jeito para a coisa. Quando não tinha o curso, aquilo que eu me limitava a fazer era clicar no botão do disparador e esperar que a luz estivesse bem e que as pessoas não se tivessem mexido – e é aquilo que a maioria faz, porque não sabe, e isso é normal. Mas eu subi os meus standarts e tal como ando à procura da fotografia perfeita dos outros, também quero a minha fotografia o mais perfeita possível. E, dependendo da situação, há todo um enquadramento perfeito da minha pessoa, as coisas que quero ou não quero apanhar na foto assim como a posição em que me encontro. Ponho a máquina nas mãos de alguém, ouço alguns disparos e, quando vou ver, está tudo ao contrário do que idealizei. E a culpa não é das pessoas – é minha, porque imagino tudo aquilo que quero! E mais do que as pessoas não saberem como o fazer, não me conseguem ler a mente. E, convenhamos, não as posso culpar por isso. (E ainda bem, seria chato ter alguém a ler-me os pensamentos).

    Isto já causou algumas zaragatas aqui por casa, porque eu fico hiper frustrada. A minha mãe, a minha fotografa oficial nas viagens, recusou-se a tirar-me mais fotografias aquando do cruzeiro – tanto barafustei com ela porque um poste horrível aparecia, ou porque tinha muito céu em cima da cabeça e bla bla bla que ela se passou e me atirou com a máquina para a mão, quase como quem diz “queres fotos, tira selfies”! O meu irmão, no meu último aniversário, também estava a embirrar com a minha objetiva preferida – a 50 mm fixa – e a dizer que não conseguia tirar fotos sem flash; e eu, em pleno “parabéns a você”, saí da frente do bolo, pus as definições direitinhas, coloquei-o na posição que queria e disse “agora tira”. E sim, soprei várias vezes as velas só para ter uma foto. (É, eu sei, sou verdadeiramente insuportável.)

    Por outro lado, como sou uma control freak e tenho muito pouco à vontade com outras pessoas (mesmo com a minha mãe não gosto de lhe estar a pedir para tirar vinte e sete vezes a mesma foto só porque tenho três fios de cabelo que não estão no sítio certo), tenho vindo a especializar-me na arte do auto-retrato. Monto o tripé, ponho a máquina no sítio certo, preparo o comando para tirar as fotos com controlo remoto e pronto, está feito. Não chateio ninguém, tiro as fotos que quiser, a quantidade de vezes que me apetecer e faço as figurinhas tristes que me derem na realgana. Assim, até passo por menos insuportável. E, convenhamos: já faço tanta coisa sozinha que juntar os auto-retratos à lista só dá um toque artistico à coisa.

     

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  • As ambiguidades das estratégias de vendas

    Há uns dias recebi uma newsletter da Salsa que tinha umas calças que eu achei graça. Fui ao site e acabei por explorar mais um bocadinho – é uma marca portuguesa e, podendo, acho bem que compremos aquilo que é nosso. Nunca fiz muitas compras na Salsa e só uma vez fiz uma compra online, sobre a qual escrevi aqui, uma vez que fiquei tão surpreendida – pela positiva – pelo serviço que prestaram.

    Mas bom, andava eu a ver as calças e as camisas e reparei que eles (como outros, provavelmente) têm lá uma indicação de “top seller”. E eu pus-me a pensar naquilo e em como essa indicação, que tem de certeza como objectivo vender mais (não há nada nos sites que seja feito para “não comprar”), a mim não me atrai minimamente: se há coisa que eu detesto é ver pessoas com roupas iguais às minhas – e se um artigo é dos mais vendidos, a probabilidade de ver alguém na rua com uma peça igualzinha à minha é maior, certo?

    Gosto de pensar como, muitas vezes, as coisas são tão ambíguas – e a parte do marketing e de vendas é algo que, honestamente, me desperta interesse e acarreta muitos riscos, porque a mensagem pode ser interpretada de mil e uma maneiras. Suponho que quem pensou nesta medida a fez com o objectivo dos consumidores perceberem que esta é uma peça que, por exemplo, veste bem, ou tem bons materiais ou é gira e está na moda – por isso as pessoas têm ainda mais razões para a comprar. Mas, em mim, tem o efeito contrário. Não é que eu seja a amostra mais fidedigna, mas enfim. A verdade é que as estratégias de comunicação e de vendas estão por todo o lado – mesmo onde nós achamos que são coisas “naturais” e frutos do acaso – por isso é sempre interessante pensar no efeito que este tipo de técnicas surte em nós. No fundo, virar o feitiço contra o feiticeiro.

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  • O medo de me tornar numa pessoa desinteressante

    O “Up in the Air” (não é o da Disney, mas sim o do George Clooney e da Anna Kendrick) estreou quando eu tinha 14 anos e marcou-me muito. Lembro-me de o ter ido ver ao cinema, de vir para casa e chorar – e depois de escrever um post estilo este, naqueles que foram os meus primeiros tempos de escrita. Tinha só 14 anos, mas revi-me totalmente no que ali via – e na altura disse-o, sem vergonhas: “acho que isto vou ser eu no futuro”. Não me referia ao trabalho horrível que a personagem principal tinha – que era, no fundo, despedir pessoas (era contratado por empresas para fazer despedimentos coletivos em todo o mundo e por isso passava a vida a viajar, nunca estava em casa, não tinha amigos, mulher ou filhos – apenas uma família que ignorava); falava – já nessa altura! – de de viver para o trabalho, ser “casado” com ele (embora, ao contrário do filme, a minha família vá estar sempre em primeiro lugar).

    Ou seja, o facto de eu achar que nunca me vou casar ou ter filhos não é de todo uma ideia nova para mim – simplesmente sinto que esteve sempre comigo. Não quer dizer que não mude, não quer dizer que seja uma opinião para a vida ou muito menos uma decisão: é apenas um feeling, algo que tenho há muitos anos e que acho que não me reduz enquanto pessoa ou mulher – simplesmente sou como sou e posso ter outros milhões de gostos e afazeres para além da vida de casada e de mãe. Mas, em contraposiçãom tenho o trabalho, algo recente para mim mas que sempre soube que ia ser a minha praia, o meu porto seguro (independentemente de até poder não ser seguro, de eu ter dúvidas ou de existirem dias maus – é simplesmente terreno onde eu sempre soube que me ia conseguir levar avante, porque é o que sei fazer bem) – e que, para o bem e para o mal, ocupa uma grande fatia da minha vida.

    Mas ultimamente, nos poucos encontros que tenho com pessoas amigas ou família, dou por mim a falar de trabalho. Das minhas viagens de trabalho, dos meus colegas de trabalho, das minhas tarefas no trabalho, nas minhas complicações no trabalho, nas peripécias do trabalho. E tenho medo de me estar a tornar só nisto, quando – apesar de todos os defeitos que sei que tenho -sempre me achei uma pessoa interessante, que tem uma resposta minimamente correta e coerente para tudo, que não sabe muito de nada mas que com aquilo que vai ouvindo, lendo e falando consegue ter uma opinião sobre algo e manter uma conversa interessante. E agora: trabalho. A muleta de sempre: o meu porto seguro quando todos os outros portos parecem despovoados e inseguros, mas que é provavelmente uma seca para quem está à minha volta. E quando rebobino mentalmente as conversas que tive, e se a minha percepção for a correta, quase tenho vergonha de mim própria por aquilo que hoje em dia faço.

    Tenho medo de só me tornar nisto, quando acho que sou muito mais que isto. Tenho medo de ser aquela pessoa chata num grupo de amigos que (já) mal conhece que só fala do escritório, do patrão e dos dramas da vida laborar. Tenho medo de estar a crescer e de, ao mesmo tempo, estar a ficar mais pequenina.

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  • As lágrimas têm um peso incalculável

    Quando somos pequeninos os nossos pais e avós fazem-nos uma pergunta com rasteira, só para nos mostrarem que nem tudo o que parece óbvio assim o é. “O que pesa mais: um quilo de ferro ou um quilo de algodão?”, questionam, com ar despercebido. E nós, a achar que somos muito entendidos na matéria e como, com sorte, já apanhamos com um pedaço de ferro num pé e sabemos o que dói (principalmente comparado com a suavidade do algodão) respondemos, sabidolas: “o ferro, é claro!”.

    E aí vem toda a risota e a explicação, dizendo que um quilo de ferro e um quilo de algodão pesam exatamente a mesma coisa… porque têm precisamente um quilo. Mas eu acho que há coisas que são muito mais pesadas do que aparentemente parecem e independentemente do seu peso real. Comecei a escrever este post quando me sentei aqui no computador, pensei “preciso de escrever” e, ao descomprimir e ao ver-me sozinha, chorei durante trinta segundos – o que equivale, talvez, a um trio de lágrimas. Apesar de não encher nem um bocadinho de um frasco, de provavelmente terem um peso impercetível para as balanças mais comuns, foi um peso que me saiu de cima. Podiam ser só três, mas “pesavam pra’ burro”.

    Acontece-me muito recolher mágoas durante o dia… coisas que me pesam. São momentos, a maior parte das vezes impercetíveis aos outros, em que se dá um clique na minha cabeça e eu passo a perceber alguma coisa sobre mim, sobre os outros, sobre a minha vida ou forma de ser que, até àquele momento, ainda não tinha descodificado; em que me lembro de algo que me dói ou magoa; em que, instintivamente e sem eu dar ordem, se abrem gavetas que não queria abrir. E eu fico a remoer aquilo o dia inteiro, a pôr mais pedrinhas no saco (e na gaveta – como se algumas já não estivessem cheias de entulho) e a carregar aquilo às costas o dia inteiro. 

    E, no entanto, quando há pouco me sentei, metade desse peso foi-se embora. Foram aí umas três lágrimas, capazes de me livrar – em parte – daquele sentimento de solidão que andou agarrado a mim o dia todo depois de uma conversa ligeira mas uma série de pensamentos pesados. Foram três – e bastaram. Porque as dores, para o bem e para o mal, não se põem na balança – assim como as lágrimas que as movem, rosto abaixo, enquanto esvaziam a alma.

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  • Pensamentos dispersos na charcutaria de um supermercado

    Eu gosto muito de ir ao supermercado – eu sei que isto é estranho, a maioria das pessoas detesta, mas é coisa para me relaxar; gosto de ver produtos novos, as informações nutricionais e, por isso, não gosto de ir à pressa (até porque nesses dias é quando apanhamos mais filas).

    Mas é precisamente de filas que eu quero falar: não são as das caixas que mais me incomodam, mas sim a da charcutaria. Por aqui se vê o quanto os portugueses comem queijos, fiambres, chourições, salpicões e mortadelas – com e sem azeitona – aos molhos. Para além de serem muitas vezes quantidades alucinantes (meio quilo de queijo, por amor de Deus!), parece que muitas vezes têm um gosto particular em levar todo o tipo de produtos existentes nesta secção do supermercado. É que nem precisam de sair daqui para irem com o cesto cheio, carregado com coisas suficientes para fazer francesinhas para um batalhão!

    Eu, que já sei que para ir à charcutaria é preciso uma vida, já tenho as minhas técnicas: mal chego ao super vou logo tirar senha e vou deitando um olho, de quando em vez, à tabuleta com os números para não perder a lugar – o que, no fundo, são esperanças infundadas porque eu posso praticamente correr a meia maratona por entre os corredores da loja e, quando acabar, ainda faltam três senhas para me atenderem. Mas enfim, uma pessoa pode sonhar.

    Como sou organizada, faço um plano de ataque ao supermercado antes de começar a fazer as compras, de forma a demorar o menos tempo possível e não passar vinte vezes no mesmo corredor – e isto faz com que seja sempre (sempre!) mais rápida nas minhas compras (mesmo que sejam muitas) do que a velocidade com que se despacham senhas na charcutaria. Tudo isto piora quando há clientes que exigem que as máquinas sejam limpas porque antes do fiambre de peru que exigiram estava um de porco que pode ter contaminado a dita máquina com carne vermelha; ou que pedem uma fatia para entreter o filho, enquanto encomendam quase um quilo de queijo para a família inteira.

    E sim, eu sei disto tudo porque depois de ter o carro cheio, de ter verificado a lista mais de uma dúzia de vezes e de ter pensado em qualquer coisa que me falte na dispensa ou no frigorífico, não tenho outra hipótese senão ficar pacífica e pacientemente à espera que gritem “quarenta-e-dois!”, enquanto olho para uma variedade espantosa de enchidos, queijos e coisas que tais é penso na quantidade infindável deste tipo de coisas que invadem diariamente (ou horariamente?) os estômagos dos portugueses. 

    Entretanto já está no 41 (yupiiiiiii!). Vou parar de escrever e esperar que gritem por mim. Obrigada pela companhia.

    [escrito no supermercado, à espera de 250 gramas de fiambre]

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  • O mapa mundo-raspadinha

    Há duas coisas na vida que eu sinto que me alimentam a alma. É algo difícil de descrever, mas é uma sensação de inspiração pura; saio daqueles momentos com vontade – e a acreditar – que consigo conquistar o mundo. A primeira é viajar, a segunda é ir a concertos. Ainda há tempos não sabia o que havia de fazer com a minha vida, sentia-me mesmo perdida, começava a questionar todas as minhas escolhas – e pensei o quanto me fazia falta ir dar uma volta a um país alheio ou sair profundamente tocada de um concerto.

    Mas bom, isto foi só um parágrafo introdutório sobre o quanto eu gosto de viajar, porque na verdade venho aqui mostrar-vos uma coisa que comprei e mostrei ontem no meu instagram e que fez furor, pelo que prometi partilhar tudo e não esconder nada. E o que é? É um mapa mundo ao estilo de uma raspadinha – cada país que já tenhamos visitado, raspamos, e assim ficamos com uma visão global de todos os países onde já pusemos os pés. 

    Eu vi isto algures – não sei bem onde – e comecei a pesquisar. É muito raro comprar coisinhas deste género logo à primeira: corro os sites todos (normalmente o ebay é logo a primeira opção e quase sempre a mais barata), comparo preços e só depois é que tomo a minha decisão. Custa-me dizer isto, mas às vezes até as vejo em sites e lojas online portuguesas, que vendem estas coisas giras (e que as pessoas não sabem onde encontrar) por preços exorbitantes, mas contorno o ciclo e vou diretamente à fonte (ou quase), ficando-me tudo muito mais barato.

    Comprei este mapa por pouco mais de cinco euros, aqui. Tem 43cm por 30cm, cabe bem numa moldura caso seja esse o efeito que querem dar, mas vem bem acondicionado num tubinho (estilo pintura) para quem preferir guardar e ir fazendo updates de forma mais fácil (uma vez que, depois de emoldurado, é mais chato andar a tirar e pôr de cada vez que se vai a um sítio novo). É em papel resistente e um pouco lustroso, pelo que não tive qualquer dificuldade em raspar. O efeito final é muito giro e tudo o que eu quero agora é raspar mais e mais e mais – é sinal de que estou a fazer aquilo de que gosto e que tenho inspiração para dar e vender. Para já, o efeito é um bocadinho enganar: apesar de me sentir uma sortuda por, aos 22 anos, ter viajado o que viajei, a verdade é que só o verde da Rússia faz parecer que já corri metade do mundo – o que (para já!) ainda não é bem verdade 😉

     

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