• Chávena de Letras: “A Gorda”

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    Decidi ler este livro depois de ter ouvido Isabela Figueiredo no podcast da Mariana Alvim, o “Vale a Pena”. Simpatizei com a voz da escritora, gostei da forma como falou; já conhecia o livro, mas tinha medo de ter uma escrita demasiado intrincada. Ouvir aquele episódio foi a força que precisava para me arriscar na aventura de conhecer mais uma autora portuguesa.

    Confesso que foi difícil avaliar “A Gorda”; a avaliação que será mais fidedigna são provavelmente umas 3.5 estrelas. Queria ter gostado mais deste livro, mas achei a história algo confusa, com uma narrativa caótica do ponto de vista de organização. Na verdade também não adorei a linguagem em alguns pontos, embora Isabela Figueiredo tenha no geral uma óptima escrita, algo poética até – mas, de vez em quando, dá-lhe umas “facadas” de calão que me apanharam desprevenida e que eu não achei particular graça.

    O mote do livro é bom – ser gorda não é só uma questão de balança. Molda a vida, a forma de estar e de ser, muitas vezes de forma profunda; as inseguranças estão profundamente enraizadas, a ideia de não merecer mais. Esse retrato é bem feito pela autora, nomeadamente na relação (para mim, tóxica) que Maria Luísa tem com o seu namorado de longa data (e aparentemente amor para a vida toda) assim como uma dependência algo excessiva dos pais. Isto não é retratado como uma coisa má – fica encarregue ao leitor fazer esta interpretação. E eu vou mais longe: não gostei nada da leviandade com que foi retratada aquilo que para mim é uma violação.

    Também não compreendi a divisão dos capítulos nem a relação com as divisões da casa – por mais que me esforce não chego lá.

    Há, por isso, demasiadas pontas soltas e muitos detalhes que se tornam “pormaiores” quando vistos num todo. Foi um livro que ficou aquém das minhas expectativas.

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  • Cinco anos e um beijo depois

    Hoje é um dia importante para mim. É, talvez, o aniversário mais significativo do ano (não desdenhando todos os outros) – acima de tudo porque fui eu que tive de fazer por ele acontecer. Porque foi dos passos mais difíceis da minha vida – mas também aquele que mais retorno me deu. Faço hoje cinco anos de namoro com o Miguel e esta é uma data que não posso deixar passar. Posso ignorar as bodas de casamento e até fingir que os anos não passam por mim – mas a grandiosidade que daquele passo tem de ser de alguma forma celebrado. Porque mudou – MESMO – a minha vida.

    Eu e o Miguel começamos a namorar quando o mundo estava a gastar os seus últimos cartuxos de paz dos tempos modernos. Pouco depois… Covid. Não tivemos direito a grandes saídas, idas ao cinema ou passeios: os shoppings estavam fechados, os bancos de jardim interditos e a passagem entre concelhos proibída. Ficamos em casa, a conhecermo-nos um ao outro, em conversas infinitas; demos passeio pela nossa história, sobre o nosso passado e as ideias de futuro; os filmes eram aqueles que fazíamos em conjunto sobre aquilo que faríamos quando o mundo voltasse ao normal. Quando voltou, foi sol de pouca dura: guerra na Europa e depois no médio-oriente. Sabe-se lá o que mais virá por aí… O clima é de instabilidade constante. Entretanto, recentemente, foi o meu mundo que ficou virado do avesso.

    E o que é que todos estes eventos têm em comum? É que o Miguel está lá, sempre a meu lado. É a minha pedra, o meu porto seguro. A forma como se mantém comigo nestes últimos meses, como me mantém de pé – e, na verdade, como me apoia em tudo na vida – é digno de um herói. É a pessoa mais empática que conheço, calçando os meus sapatos como nunca vi ninguém fazer – muito embora calcemos números diferentes, portanto imagine-se o esforço! Tem uma capacidade única para me acalmar. É gentil, trabalhador, honesto – e é a minha pessoa preferida no mundo. O momento em que chega a casa é o mais alegre do meu dia, e o que sai o mais triste. Anseio diariamente pelo momento em que me encosto no seu ombro e que sei que estou em casa.

    O facto de hoje estarmos a festejar o nosso quinto aniversário é a prova de que só são precisos 20 segundos de coragem para mudar o mundo – nem que seja o nosso mundo. O beijinho que lhe dei nesta data, há cinco anos, foi pequenino mas inversamente proporcional ao esforço que tive de ter para fazer para conseguir agir. Foi, provavelmete, o momento mais corajoso da minha vida. E sem dúvida aquele que teve mais impacto.

    Hoje, pelas circunstâncias atípicas que em que vivemos, não lhe consegui comprar uma prenda. Mas quis que ele soubesse que é, todos os dias, o maior presente que alguma vez recebi. Digo-o muitas vezes: não faz sentido jogar no euromilhões, pois era sorte a mais ele sair-me duas vezes. O melhor prémio andará sempre de mãos dadas comigo. 

     

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  • Quero sair da montanha russa

    Estou viva. Estamos todos vivos – e é assim que planeio que estejamos por muitos mais anos. 

    De todas as parecenças que não me importaria de ter com a família real, está é a última que colocaria na lista: dois casos de cancro em dois meses, dentro do meu núcleo familiar.

    Sem sabermos, em Dezembro, entramos numa montanha russa que ainda não teve fim – e a luz não aparece sequer ao fundo do túnel. Sempre que achamos que o pior loop já passou, vem outra descida abrupta que nos leva o estômago para uma outra parte do corpo onde este não devia estar. A pior parte? É que nem sempre temos cinto de segurança. Já perdi a conta às vezes em que senti que estava a sair da cadeira, a perna já meia de fora e o rabo a escorregar – ou, num cenário ainda mais negro, que estávamos mesmo todos a descarrilar. Não chegamos ainda à parte do vale, em que podemos respirar de alívio porque acabou, sabendo que estamos prestes a sair daquele suplício, daquele banco desconfortável, daqueles sustos consecutivos. Eu já não peço para sair da montanha, porque sei que nalgum dos casos não vamos ter alternativa – só desejo que o caminho esteja limpo e com a manutenção em dia, que a montanha russa seja daqueles de nível baixinho e sem grande adrenalina. Já estou farta de paragens abruptas a olhar para o abismo; não quero ficar de cabeça para o ar nem com o cinto mal posto. Não podendo sair deste parque de diversões do mal, que a viagem seja no equipamento mais calmo.

    Porque a verdade é que uma parte de nós parte-se neste processo e eu acredito que não a recuperamos. É como as Horcroxes do Voldemort: pedacinhos da nossa alma que, neste caso, repartimos sem querer e que ficam algures, em alguém ou presos a momentos-chave onde não temos sequer força ou vontade de regressar. Não há nada neste processe que nos acrescente – só nos retira. Não contam os conhecimentos que adquirimos ao longo do processo, a resiliência que construímos ou a força que percebemos que temos. Pondo na balança, não há forma de sairmos a ganhar, porque a memoria não se apaga, a alma não se reconstrói e a dor dificilmente se transforma em alegria. É um caminho de uma só via em que a balança está viciada.

    Podia dizer que, com isto tudo, ganhamos perspectiva. Que percebemos que a vida é para ser vivida – e rapidamente, porque porra!, ela muda num estalar de dedos. Mas para além desta filosofia de vida colidir com tantas perspetivas mais cautelosas e conservadoras (com as quais, ainda por cima, eu me identifico), a questão maior que eu coloco é: como é que se vive e se aprecia a vida quando os nossos estão num sofrimento atroz? Como é que se enche a alma com coisas boas quando esta está partida, furada, em alguns dias feita em cacos? Como é que se criam objetivos quando a estrutura base da nossa vida está constantemente a ser abanada, qual sismo intenso e cheio de réplicas? A conciliação da urgência de viver com a inevitabilidade de sofrer é muito dura. Mais uma das coisas duríssimas com que temos de lidar quando entramos neste caminho com as pessoas que amamos.

    Enfim. Quem me dera que chegasse ao fim, esta montanha russa. Quem me dera aprender a gozar a paisagem, ainda que a carruagem siga a grande velocidade. Aliás, mais: quem me dera que pudéssemos todos sair e incendiar o parque todo. No final de contas, sempre disse que não gostava de parques de diversões.

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  • Chávena de Letras: “As Coisas Que Faltam”

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    Eu gostava muito de ter gostado mais deste livro – mas não consegui. Queria gostar porque sendo uma autora recente, queria muito apoiar este pontapé de saída; queria porque sinto que “conheço” a Rita dos podcasts e, de certa forma, desenvolvemos uma relação emocional e queremos fechar um círculo perfeito. E continuo a apreciar a força que é preciso ter para se publicar em Portugal e a capacidade que é preciso para se escrever um livro. Acima de tudo, acredito que a prática conduz à perfeição – e que este é um início para algo ainda melhor.

    Não que este tenha sido mau, que não foi. Mas, primeiro, talvez este não seja o meu tipo de livro – isto não é um romance, é uma narrativa de personagem (?), uma história centrada na vida da Ana Luís, em que é ela o objeto principal da história; mas, acima de tudo, sinto que não me consegui relacionar com a história nem ambicionar continuar a ler. Não me é fácil encontrar adjetivos que classifiquem a esta personagem principal, mas talvez “desenxabida” sirva o propósito; ou amorfa, talvez. O que não tem nada de mal, mas não é um tipo de pessoa que me puxe – e, talvez por isso, também a obra não me tenha agarrado. Sinto que a vida passava por ela e que, apesar de haver ambição, não havia a iniciativa nem a garra para fazer mudar o rumo da sua própria história.

    Percebo o moto da narrativa e, quer seja intencional ou não, acho que o vazio que a personagem principal sente é de facto refletido no livro. Falta algo. Há, de facto, “Coisas que Faltam” neste livro – mas para mim são detalhes importantes, que deixam mais que o dissabor da personagem na boca. Acho que é possível não adorar uma personagem mas gostar do livro – e não foi bem o caso.

    A escrita da Rita da Nova é corrida, simples e sem grandes floreados, com alguns detalhes de que gostei e outros que nem tanto; às vezes era corriqueira demais, outras meio poética (exemplo: “Engraçado como o vazio pode ser tão pesado. Achar-se-ia que não, já que o vazio é só ar, e o ar é só nada, e o nada não existe, logo não pesa – mas só quem se habituou a esperar sabe reconhecer essa pressão, que nos impede de respirar como deve ser”). Isto na voz da mesma personagem, que no meio disto tudo era pintalgada por uma voz um pouco infantil, uma mistura que me pareceu mal envolvida e trabalhada (exemplo: “Seria incapaz de imaginar o meu pai com a minha mãe, a ideia deixava-me ligeiramente enojada, como se eles fossem feitos de ingredientes diferentes, daqueles que não se deve misturar porque dão dores de barriga”) . A parte final, das cartas, sofre o mesmo problema – aquela linguagem não me pareceu nada “casar” com aquilo que conhecíamos da mãe até então.

     

    Destaque muitíssimo positivo para a capa, que está muito bonita e trabalhada até em relevo – mas que, na minha opinião, não casa com o interior.

    De qualquer das formas, é uma autora que quero manter debaixo de olho.

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  • Crónicas do SNS 1#

    Assisti sempre de longe aos dramas da saúde pública. Saudável, felizmente, tenho passado pelos pingos da chuva sem ter problemas de maior. Uma dor aqui, um mau estar ali, duas operações pelo meio, mas nada de tão sério que me obrigasse a recorrer aos hospitais de peso do nosso país. Para além disso, tenho a sorte de poucos: de ter acesso ao SNS mas de, até agora, não precisar dele. Desde que me lembro de ser eu que fujo de médicos e hospitais como o diabo foge da cruz, interagindo o mínimo e indispensável com esta classe e com estes lugares, a bem da minha saúde mental. Mentiria se dissesse que esta minha fobia – que em tempos teve direito a muitos ataques de pânico – não tem vindo a suavizar com o tempo. Hoje escrevo na sala de espera de um hospital – e ainda que não seja de ânimo de leve que o faço, as mãos não tremem, a garganta não custa a engolir e não tomei nenhum ansiolítico antes de vir. Em parte por não ser eu a visada de tantas vindas ao hospital – mas também porque, se não havia crescido até aqui, agora é hora de crescer.

    Sendo novata nos corredores do hospital de São João, faço muitas perguntas, questiono tudo, olho com atenção para os detalhes na esperança de obter respostas, reparo nas pessoas e nos pormenores. E percebo que um hospital não é só um sítio triste por ter pessoas doentes, mas acima de tudo por ter pessoas desamparadas. Sozinhas. Porque se eu tenho algumas questões, elas têm muitas mais: não percebem o sistema de senhas, não sabem para onde ir, têm dificuldade em deslocar-se sozinhas até ao fundo do corredor fazer uma pergunta ao balcão onde, provavelmente, nem sequer terão resposta. A solidão, a velhice e a atrapalhação inerentes à idade misturadas com a tentativa meio frustrada de implementação das novas tecnologias é muito triste de se testemunhar. Faltam respostas – e exaspera-se por quem as dê.

    As novas tecnologias vieram agilizar processos: é suposto serem mais fáceis, mais ágeis, mais rápidas. Mas isto parte do pressuposto de que 1) se sabe funcionar com elas e de que 2) elas trabalham convenientemente.

    O sistema de admissão é feito, hoje em dia, em máquinas. Das seis que lá estão, julgo que só duas funcionam. Das duas que trabalham, poucos sabem mexer com elas – ou então poucos são aqueles com quem elas gostam de trabalhar. Às oito da manhã, dois voluntários vestem a bata amarela que os caracteriza e tentam ajudar quem chega; escrevi “tentam” pois, apesar da hora madrugadora, já exasperam com a falta de resposta das máquinas, que não permitem os doentes fazerem a admissão, mandando-os para o balcão onde estão zero funcionários e oitenta pessoas para serem atendidas. Quando questionado sobre a hora de abertura do balcão, um funcionário returque: “acho que é às oito, mas vá lá perguntar”. Só faltava tirar senha. Seria a número 81, mas sem saber a que horas o balcão iria abrir. 

    No ecrã das chamadas às consultas aparece uma mensagem de erro. Em dúvida, quando perguntamos se o ecrã está a atualizar devidamente, dada a mensagem que aparece, dizem-nos que “é assim”. Na verdade, o facto de não estar pintado de negro – como tantos outros espalhados por todo o hospital – já é uma sorte.

    No meio disto tudo, os pedidos de ajuda são sucessivos. Acredito que ao fim de umas horas de trabalho, de tão repetidas as questões, as respostas já não saiam com um sorriso de bónus. Mas a verdade é que as pessoas com consultas às 17h não têm de ser mais aptas ou informadas para as tecnologias do que aquelas que as têm às 8h da manhã, em que a paciência do pessoal do balcão ainda está renovada após umas horas de sono. O resultado disto são respostas ásperas, rudes, muitas vezes a roçar o mal-educado – e assistir a isso é duro, vendo as pessoas a sair guichê ainda mais trôpegas do que lá chegaram. 

    Sinto que falta o básico nos nossos hospitais. É como se tivessemos uma pirâmide em que a base está assente em alicerces de palhota. Não falta eficácia, não falta pessoal qualificado, não faltam máquinas, não falta competência nas pessoas de quem está é realmente necessária: isso, apesar de essencial e eventualmente desfalcado e com muitas falhas, está lá e funciona. Connosco tem funcionado. Mas falta a parte simples: faltam placas informativas atualizadas, faltam cartas que elucidem mais e confundam menos, falta calor nos corredores, falta cimento em alguns tetos, faltam monitores e máquinas funcionais, faltam mapas do hospital, falta… tanta coisa. 

    Diria que no SNS falta tudo, menos aquilo que é realmente importante. O que podia ser o suficiente, se o menos importante não fosse aquilo que faz um hospital – e um sistema nacional de saúde – andar para a frente.

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  • Chávena de Letras: “Ontem à noite no Telegraph Club”

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    Este foi um livro em que me custou um bocadinho a entrar – não mergulhei imediatamente na narrativa nem o livro me agarrou de início. Foi pouco a pouco que comecei a perceber a Lilly e onde a obra me levava – e no fim já seguia com a onda, emocionada e a vibrar com a história como se fosse minha.

    A meio do livro fui ler sobre a autora, porque pensei: “é impossível que quem tenha escrito isto não tenha estado na pele da personagem principal”. Acertei. A dor presente no livro, a incerteza, a confusão, o sentimento de que algo está certo mas que para os outros está errado… É um livro que ensina a ter empatia por todos os que nascem a gostar do sexo “errado”; porque se hoje não é um caminho fácil, antes era um caminho dificílimo, que implicava escolhas terríveis. Neste “Ontem à noite no Telegraph Club”, para além da questão da sexualidade, há ainda o factor da raça: Lilly é chinesa e vive numa América dos anos 50, cada vez mais hostil para com os asiáticos, numa época em que a China de transformava numa potência comunista e oposta à visão americana. Juntar “lésbica” ao rol de entraves que um chinês tinha na altura era uma escolha que só os mais arrojados se atreveriam a tentar – mas Lilly era uma “chinesa bem-comportada”. Será que as duas coisas são de convivência possível? Será que não é redutor sermos só uma coisa, termos uma faceta?

    Sobre a obra: adorei o facto do romance ser linear, não ter triângulos ou outros fatores típicos de entraves neste tipo de narrativas mais jovem. Aqui, o grande obstáculo era o contexto – e esse já é mais do que dissuador para todos os envolvidos – a autora foi inteligente por perceber isso. Não percebi a necessidade de determinados flashbacks da família de Lilly, a não ser a oportunidade de entrarmos num contexto mais completo. E Shirley… É uma red-flag desde o início! Que vontade tinha de a esganar a ela e a Lilly por se deixar levar… Mas enfim, tudo encontra o seu caminho.

    Gostei muito. Acima de tudo pela empatia que cria com todas as pessoas que, por gostarem de alguém que não era suposto, têm de sair de um armário cuja porta tem definitivamente muitos espinhos.

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  • As minhas leituras em 2023

    Passou-se um ano desde que defini os meus objetivos de leitura para 2023. Quando escrevi este post tinha acabado de receber o Kobo e de perceber as suas maravilhas, mas nunca imaginara o impacto que este teria na reimplementação dos meus hábitos de leitura. Por muito que me custe relegar o papel para segundo plano (aliás, diria que este ano foi quase para terceiro, depois dos audio-livros), são inegáveis as vantagens que há em ler em e-readers: é a capacidade de ler em todos os lugares sem ter a necessidade de carregar o peso de centenas de folhas; é a poupança; é a flexibilidade que nos proporciona no que diz respeito a posições de leitura e locais. É a oitava maravilha do mundo!

    Mas foquemo-nos na revisão dos meus objetivos: em 2023 tinha-me proposto a ler 18 livros. Li 30 – o meu recorde pessoal, que estava fixado nos 25. Queria ler todas as noites – e assim o fiz, com muito raras excepções, claramente compensadas pelas noitadas em que li obras inteiras graças às dezenas de insónias que tive o ano passado. Queria experimentar livros num outro formato (audio-livros) e ler não-ficção: e por isso juntei o útil ao agradável e ouvi vários audio-livros, todos eles não-ficção, num combo que para mim é vencedor, principalmente quando quem os narra é o próprio escritor. Mas como isto não é tudo um mar de rosas, falhei redondamente nos três livros específicos que tinha listado para ler: não foi em 2023 que li “A Breve Vida das Flores”, “Uma Educação” e “A Lista de Leitura” (embora, este último, tenha começado). Ainda assim, o balanço é muito positivo. O regresso aos livros é uma das grandes vitórias do meu ano e uma alegria imensa para mim. 

    Dos 30 livros que li, apenas cinco foram em formato físico – o que comprova que o Kobo roubou mesmo o meu coração. Mas, para além disso, deu alegrias à minha carteira. Isto porque subscrevi o serviço do Kobo Plus – o que quer dizer que, por sete euros por mês, tenho acesso a uma vasta biblioteca de livros, nacionais e internacionais, sem ter necessidade de os comprar. É como adquirir um passe para uma biblioteca, em que posso “requisitar” todos os livros lá presentes desde que pague a mensalidade. Isto fez com que poupasse em duas vertentes: primeiro porque com sete euros dificilmente compro um só livro em português, portanto há garantia de poupança mesmo que só leia um livro a cada dois meses no Kobo Plus; segundo porque ao saber que tenho lá muitos livros para ler, opto por não comprar e ir gerindo os que lá estão disponíveis. Por saber que as minhas leituras em formato analógico também diminuíram muito, e apesar de continuar a adorar visitar livrarias, aprendi a conter-me e a ser racional – como sei que leio muito mais facilmente o Kobo, opto por comprar o e-book caso queira mesmo ler aquela obra. Só compro o livro físico se souber que o quero ter na minha biblioteca ou caso este não exista em formato digital.

    Para tornar tudo isto mais claro, aqui vai uma dose de matemática: no final do ano havia lido 17 livros no âmbito do programa Kobo Plus. A primeira subscrição foi grátis, por isso paguei onze mensalidades – ou seja, 77 euros. Fiz um apanhado dos preços desses livros na sua versão física (a maioria das vezes até com descontos de 10%) e obtive o valor de 242 euros – ou seja, mais do triplo do que gastei com a subscrição. Por isso, para mim, é indubitável… doloroso para o coração, mas muito bom para a carteira.

    No entanto, devo também dizer que o Kobo compensa se de facto aderirmos a este plano ou se tivermos facilidade em ler em inglês, língua onde as obras são muitíssimo mais baratas. Porque a verdade é uma: comprar e-books em português não é assim tão compensatório. Vejamos três exemplos práticos de livros que estão na moda: “A Criada” – 13,99€ em formato digital, 17,51€ na Wook. “Olá Linda”, 13,99€ em e-book, 18,86€ na Wook. “Leme”, 9,99€ no Kobo, 13,91€ na Wook. 

    Nenhum destes, por exemplo, está disponível no Kobo Plus. Se eu gostava de os ler? Gostava. Se os vou comprar? Provavelmente não, pelo menos enquanto houver outros que me entretêm na subscrição, enquanto espero que os preços baixem quando estes livros deixarem de estar em voga. No ano passado comprei apenas três e-books, porque me apetecia mesmo lê-los no momento – de resto, faço uma gestão de expectativas e vontades, ligando ao racional e tentando tirar o maior proveito possível da imensidão de livros que tenho disponíveis para ler. De qualquer das formas, não entendo muito bem o porquê dos preços dos e-books nacionais – não havendo os encargos de impressão e distribuição, que diria que são aquilo que tem mais peso no mercado editorial, os valores deviam ser muito mais baixos. Existe, de facto, alguma diferença de valores entre a versão em papel e a versão digital – mas é muito pequena para ser compensatória, principalmente tendo em conta que de um lado trazemos para casa um bem (que podemos oferecer ou até vender à posteriori) e do outro só temos um ficheiro digital, inócuo. Não nos podemos depois queixar e admirar que os jovens leiam cada vez mais em inglês – a necessidade aguça o engenho e, neste caso, o saber outra língua apela à poupança.

    Por fim, destacar que li sete autores portugueses, o que muito me alegrou!

    Este ano fixei o meu objetivo em 25 livros – fui razoável, até porque espero não ter tantas noites de insónia como em 2023. Entre livros físicos e Kobo, audio-books e virar de páginas ou romances e bandas-desenhadas… o que importa é ler. Fica, apenas, um pedido para mim própria: não ter medo de arriscar. Há obras que, pelas opiniões que já ouvi, pela base da própria história ou por não querer beber da tristeza que está lá dentro, vou sempre a medo, com receio de não gostar. Mas sei que nem sempre faço bem em adiar ou pôr de parte. Porque este ano, quando arrisquei, tive as minhas leituras mais saborosas.

     

    O melhor livro de 2023: Terra Americana, de Jeanine Cummins

    A maior desilusão de 2023: Pessoas Que Conhecemos nas Férias, Emily Henry

    Melhor surpresa de 2023: Onde Cantam is Grilos, de Maria Isaac

    Melhor audio-book de 2023: Maybe You Should Talk With Someone, Lori Gottlieb

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  • Em 2023 eu…

    – Fui pela primeira vez a um festival com o Miguel;

    – Percebi o impacto que o silêncio pode ter numa fábrica… e achei que ia fechar portas;

    – Fui à China e a Cabo Verde;

    – Vi o meu sobrinho mais velho tornar-se maior de idade;

    – Fui a Fão comer Clarinhas e a Viana do Castelo comer bolas de berlim;

    – Fui conhecer o Bolhão renovado e levei lá os meus sobrinhos;

    – Vi partir a minha cadela mais velhinha, a Ziva;

    – Fui à Madeira – e fiquei lá retida dois dias depois de terem cancelado o meu vôo;

    – Continuei a treinar, numa média de três a quatro vezes por semana;

    – Ouvi um concerto dos Candlelight e vi também um concerto do Miguel Araújo com o António Zambujo;

    – Comi demasiados churros no Sr. de Matosinhos – e não me arrependo;

    – No capítulo teatros: fui ver o “Cats” ao Rosa Mota, a “Estudante e o Sr. Henrique” e “Nem a Ponta do Mindinho” ao Sá da Bandeira;

    – Eu e o Miguel estreamos um novo ritual: ir, de vez em quando, jantar (ou almoçar) cachorrinhos ao Gazela – e depois ir comer uma natinha quentinha à Rua de Santa Catarina;

    – Comprei novos móveis e tapetes e redecoramos ligeiramente a nossa sala – e também fizemos um extreme makeover na nossa lavandaria e escritório;

    – Fui com a minha mãe ouvir a Orquesta Strauss ao Coliseu, numa espécie de concerto de ano novo;

    – Acho que só fui uma vez ao cinema, para ver o Avatar – e, apesar de ter gostado, já não aguentava mais tempo sentada;

    – Andei de bicicleta elétrica – e já não me punha em cima de uma bicileta há pelo menos uma década – e achei que ia cair a cada segundo dos dez minutos que andei;

    – Num recital de piano desisti, a meio, de tocar uma peça – foi a primeira vez que me aconteceu;

    – Fui passar um fim-de-semana em Alvares e passeei por várias aldeias de Xisto (Talasnal, Piódão);

    – Fui com o Miguel fazer um workshop de cerâmica – não nasci para aquilo, mas foi divertido;

    – Voltei a ter Covid e, suspeito, Gripe A;

    – Festejei, pela primeira vez, o Halloween;

    – Semi-adotei um gato, na fábrica;

    – Nadei no rio Vez;

    – Voltei a tocar piano com mais consistência;

    – Bati o meu recorde de homens nus avistados – dei por mim em vários areais de nudistas e não apreciei;

    – Uma das minhas orquídeas deu, finalmente, flor – a primeira vez desde que me foram oferecidas;

    – Tive notícias muito más sobre pessoas próximas;

    – Não fui ver as luzes de Natal nem corri todos os mercados natalícios à minha volta;

    – Nasceu a primeira orquídea desta casa!;

    – Fui a Évora, à Guarda, ao Algarve, à Serra da Estrela e a Sanxenxo, onde andei de kayak;

    – Comecei a ver ciclismo e fui, pela primeira vez, assistir a parte de uma etapa na Volta a Portugal e à chegada de outra etapa no Grande Prémio do JN;

    – Tentei começar a aprender a tocar guitarra;

    – Cortei o cabelo… e arrependi-me;

    – Vi, pela primeira vez, as malhas da fábrica num desfile de moda;

    – No capítulo séries: vi, claro, tudo o que era possível de “Love is Blind” na bicicleta. Foi lá que vi também “As Leis de Lydia Poet”, “Squid Game: The Challenge”,  “Break Point”, “Down for Love”, “Soy Georgina” e “Rabo de Peixe”. Fora da bicicleta vi  “Volta à França – no coração do pelotão”, “Mark Cavendish – pedalar até ao fim”, “Queen Charllote”, “The Crown”, “Physical 100”, “The Gilded Age”, “Welcome to Wrexam”, “Only Murders in the Building”, “Stutz” e “XO Kitty” e “The Boy Who Lived”.

    – Comecei a vender coisas na Vinted;

    – Eu, os meus irmãos e alguns sobrinhos formamos uma banda à última da hora e demos um mini-concerto de 4 músicas no Natal;

    – Comecei a ler no kobo e a ouvir audiolivros – o que resultou em 30 livros lidos este ano!!!

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