• Feliz Natal!

    Nos últimos tempos tenho pensado muito em como são curiosas as parecenças entre organizar um Natal e um casamento – têm sido tantos os mini-dramas familiares por conta desta edição-2023-natalícia que tenho recuado muito a 2021 e aos seis meses de organização do meu casório. Ora: são ambos são eventos que envolvem família – e tudo o que isso implica, se é que me faço entender…-, ambos exigem cedências, ambos requerem regras e critérios e, acima de tudo, ambos passam num fósforo tendo em conta todo o tempo que demoram a ser preparados.

    E eu dei conta desta “pormaior” porque, em conversa, me apercebi de que, curiosamente, me recordo muito pouco das noites ou dos dias de Natal – são parcas as memórias que tenho da azáfama das refeições, da abertura de presentes ou do convívio. Mas lembro-me perfeitamente de determinadas prendas que ofereci e onde é que as comprei; recordo a ida anual a Santa Catarina para fazer as compras com a minha mãe; lembro-me de ir levar pencas à mãe do meu ex-patrão; recordo-me de me levantar cedo para ir fazer os doces com a minha mãe e a Dona Joaquina; lembro-me dos sacos de linho, cor de lavanda, que embrulhavam os presentes que a minha avó me oferecia e dos envelopes azuis em que o meu avô me dava algum dinheiro; lembro-me do caminho até casa do meu tio, onde festejamos alguns Natais, onde passávamos pela margem do rio Douro, com as luzes da cidade reflectidas nas suas margens; recordo as poucas vezes em que me aventurei em patins no gelo e da senhora muito velhinha que, todos os invernos, vendia castanhas na Praça dos Poveiros – e que me dava sempre uma castanha extra; lembro-me de arrastar a árvore na Natal escada acima, mesmo sem o consentimento da minha mãe, pois todos os anos teimava em montá-la antes do dia 1 de Dezembro.

    O Natal é a minha quadra preferida do ano inteiro, mas não é pelo dia em si; é pelo caminho até lá. Há poucas coisas que me deixam mais feliz do que uma casa decorada com luzes amarelas e quentes, uma árvore recheada de bolinhas e muitos presentes a seus pés. Amo andar ao final do dia na cidade, apreciando as suas luzes; adoro dedicar tempo a pensar nas prendas para as pessoas que me são mais próximas e sentir que aquele objeto tem mesmo a cara da pessoa em que questão; delicio-me com músicas de Natal, com as feirinhas e com a ideia de ter de embrulhar um montão de presentes. Gosto muito de planear as mesas, de pensar na disposição da sala e de ir provando as sobremesas na véspera de manhã. Depois a noite chega e o dia evapora-se – e tudo o que parece ficar é o que veio antes.

    Compreendo que haja pessoas que não gostem do Natal – principalmente por ser uma quadra altamente emocional, em que faz ainda mais falta quem cá não está e onde se recordam facilmente traumas que preferimos esquecer. Também tolero todas as outras razões (o facto de ser uma época consumista, por dar muito trabalho, por ser só mais uma obrigação ou mais um foco de intrigas e chatices familiares), mas estaria a mentir se dissesse que lhes dou crédito ou que as perceba. É mais ao menos como me dizerem que não gostam de chocolate: não entendo, recuso-me, alguma coisa não está bem ali. Porque o Natal é um caminho de ansiedade para algo bom, com um cheirinho quente e característico – é, na verdade, a única altura do ano em que fazemos uma contagem universal decrescente, em forma de calendários do advento docinhos. E isso não é por acaso, certo?

    Hoje percebo o porquê de, durante muitos anos, os dias de Natal serem um bocadinho agridoces. Sempre que chegava a casa com o saco cheio – e mesmo durante o decorrer do caótico dia – sentia-me sempre algo triste. E acho, agora, que já entendo a razão por detrás disso: porque a parte que eu mais gostava tinha, infelizmente, chegado ao fim. Porque aquilo que eu sempre apreciei foi o caminho – um, que hoje acaba, pelo menos por este ano.

    Hoje é só o epíteto de um mês de expectativa, trabalho, esperança e reflexão. É mais um que posso passar com os meus… E é, claro, a oportunidade perfeita para começar a contar os dias para o ano que vem.

    Que este ano o saco do Pai Natal me traga, em forma de prenda, a sabedoria que, aparentemente, eu sempre tive em relação a esta época: a aprender a saborear o percurso, em vez de ter sempre o olho num qualquer fim. A dar valor aos dias bons, ainda que o caminho não seja sempre asfaltado. E tempo. E, acima de tudo, saúde.

    A vós, desejo-vos o mesmo.

    Um Feliz Natal! 

     

    DiaNatal2022-14.jpg

    (o ano passado, com os meus pais)

    3 comentários em Feliz Natal!

  • Chávena de Letras: “No Início eram Dez”

    noinicio.jpg

    Creio que este foi o segundo livro de li de Agatha Christie – mas o primeiro não me deixou marcas. Este, que não tem nenhuma das suas personagens mais icónicas, talvez deixe – li-o num ápice, como há muito tempo não me lembrava de ler um livro. É viciante, praticamente impossível de o deixar a meio. Óptimo para alguém que esteja a passar por um “reading slump” porque é daquelas obras que nos agarra do início ao fim, com personagens que nos despertam emoções diversas e uma escrita coloquial mas de tão fácil leitura que até parece ser uma coisa fácil de se fazer.

    Há, de facto, várias razões para lermos Agatha Christie passado todos estes anos: porque mentes como a dele há muito poucas. É um génio do thriller, ainda que os seus livros consigam não ser pesados nem macabros como os thrillers contemporâneos que agora se vêem nas mostras das livrarias.

    Aconselho muito.

    1 comentário em Chávena de Letras: “No Início eram Dez”

  • Amigos, amigos – redes sociais à parte?

    Eu devia coibir-me de escrever estas coisas, pois, tendo em conta o curso que tirei, era suposto a gestão de redes sociais ser uma das minhas valências. E é, se tivesse mais paciência para elas – coisa que, na verdade, não tenho, a par de muita falta de gosto pela área. Faço o mínimo indispensável para poder promover os meus textos e tudo o que seja necessário e pertinente a nível profissional. De resto, confesso-me preguiçosa.

    E isto também acontece porque há algumas dinâmicas nas redes sociais que me passam ao lado. O LinkedIn, por exemplo: é suposto eu aceitar toda a gente, fazer uma pré-seleção tendo em conta o ramo de trabalho ou “estar em rede” só com pessoas que eu conheço? E o Goodreads – qual a política que devemos seguir? Cingimo-nos aos nossos amigos ou alargamos o círculo? É que, de tanto aceitar pessoas que desconheço totalmente, tenho uma mistura de estilos e de gostos infindável, que em muitos casos não corresponde ao meu gosto pessoal no que a livros diz respeito, e que até tem feito com que eu tenha perdido o interesse naquela rede social. É tanta tralha livresca em frente dos meus olhos – coisas que amigos de amigos lêem, e gostam, e comentam, e atualizam, e criticam – que eu acabo por me perder, desligar a aplicação e centrar-me na minha prateleira de livros por ler, em vez de andar à procura de mais papel onde gastar o meu dinheiro.

    Sinto que, provavelmente, não há uma resposta certa para estas questões – cada um adopta a sua política, aquela que acredita fazer mais sentido para si, passando ao lado de tudo o resto. No Facebook e no Instagram também tivemos de o fazer – há quem aceite amigos, conhecidos e desconhecidos, assim como há quem tenha contas totalmente privadas que nem a lista de amigos deixa aceder. Eu, curiosamente, tenho políticas diferentes nas duas redes (sim, eu ainda uso Facebook – não se esqueçam que lá no fundo eu sou uma velhinha de 82 anos): no Facebook só tenho gente, no mínimo, conhecida, enquanto que no Instagram tenho a conta aberta (também porque a adotei como sendo uma plataforma de divulgação do blog), de modo a que qualquer um me possa seguir. Tenho linhas que separam o publicável do não-publicável e uma série de códigos de conduta internos que nem sei bem descrever mas que sei que estão lá.

    Mas no LinkedIn e o Goodreads não. Não são sites novos, já têm o seu estatuto e vários anos de implementação – mas eu continuo a navegar um bocadinho na maionese. Na rede-social-do-emprego a única coisa que tenho bem definida é que não aceito pessoal do Zimbabué, Suriname e arredores, assim como pessoas cuja escolaridade se resume à “faculdade da vida”; de resto, vou pelo tato. Aceito uns, deixo outros a marinar durante tempo indeterminado enquanto penso indefinidamente sobre aquela conexão-cibernética e outros… bem, se for um astronauta, calculo que não deva ter muito em comum comigo, por isso opto por não aceitar. O que me leva à seguinte questão: faz então sentido aceitar um amigo que seja médico ou jardineiro, se não há nada em comum nas nossas áreas de trabalho? Isso não é equiparável àquela ideia do astronauta, cujos pontos de ligação profissional são parcos (quiçá nulos)? Porque afinal aquilo tem como finalidade criar uma rede de trabalho, com alguma estrutura e que faça sentido, ou é tudo ao molho e fé em Deus? É tudo muito ambíguo na minha cabeça.

    Já no Goodreads, muito por culpa da pandemia de livros que estava a tomar de assalto a minha homepage, decidi tomar medidas, apagando mais de metade das minhas amizades. Sei que muitas das pessoas que me enviavam pedidos (que fui sempre aceitando) surgiam a partir daqui, do blog –  e, por isso, deixo já as minhas desculpas antecipadas caso tenham feito parte da minha eliminação colectiva. Poque neste caso defini bem as regras: ficaram pessoas que conheço (as que interessam e que cumprem os requisitos que a seguir menciono), com quem tenho gostos em comum ou que elaboram as suas reviews, não deixando apenas classificações com estrelas ou marcando só os livros que lêem. Foi uma limpeza.

    Gosto muito de saber que as minhas críticas ajudam os outros a perceber se um livro será ou não interessante para juntar à sua lista de livros – mas, para garantirem que as vêem, sigam-me em vez de pedirem amizade (porque, como já se viu, sou uma esquisitinha da pior espécie).

     E vós? Como fazem a vossa gestão de redes sociais e que critérios têm? Ajudem esta alma perdida!

    5 comentários em Amigos, amigos – redes sociais à parte?

  • Chávena de Letras: “Talvez Devesses Falar com Alguém”

    talvez.jpg

    Este livro levantou-me, de novo, um problema com os audiobooks: há partes que eu gosto tanto, tanto que tenho pena de não conseguir sublinhar, apontar, rabiscar e levar comigo para a vida.

    Para alguém que, como eu, é seguido há dois anos por um terapeuta e conhece os métodos e os meandros deste mundo, acho que este livro consegue ser ainda melhor do que para as outras pessoas que nunca tiveram esta experiência. Como é que o terapeuta nos vê, a nós, enquanto pacientes? Como é que se depuram as tantas coisas más que eles ouvem, como é que se lida com tamanha tristeza dos outros? É algo que me questiono com frequência e que Lori Gottlieb descreve um pouquinho ao longo destes capítulos.

    No livro ela retrata alguns pacientes com quem lidou mas, acima de tudo, fala sobre si própria – como lidar com os outros quando nós próprios temos problemas. E não somos todos assim – mesmo quando a nossa profissão não implica ouvir nem tentar ajudar a resolver problemas alheios?

    Ver o ponto de vista de um terapeuta a fazer terapia é muito interessante. Gostei imenso deste livro e aconselho-o a todos – quer sejam ou não novos neste mundo, quer achem que precisam de ajuda, quer não.

    3 comentários em Chávena de Letras: “Talvez Devesses Falar com Alguém”

  • Porque é que as bolas vêm sempre aos pares?

    Calma, suas mentes depravadas. Estou a falar das bolas de berlim.

    O verão acabou há um mês, mas eu já estava em modo-luto de bolas de berlim há muito tempo. Isto porque podem fazer o que quiserem, mas não há nada que saiba igual a uma bola de berlim na praia. Podem inventar todo o tipo de marmitas (são, no entanto, automaticamente elegíveis para uma picada de peixe-aranha se levarem coisas saudáveis para a praia – sabiam disso, certo?) ou até comprarem a bolinha na pastelaria mais próxima e levá-la na mochila térmica – está cientificamente comprovado pelas minhas papilas gustativas que não é igual. A bola de berlim a sério compra-se (e come-se!) na praia, aos vendedores que gritam “bolinhaaaaa” e que, preferencialmente, fazem rimas e trocadilhos como ladainha para a sua venda; tem de sair de uma arca em forma de mala de picnic e ter como vizinhas muitas outras bolas, ainda que de sabores e recheios diferentes. Só o preenchimento de todos estes requisitos é que determina a compra da verdadeira bolinha de berlim. Isto faz com que só no verão é que tenhamos hipótese de degustar esta iguaria que, apesar de nome de capital alemã, é bem portuguesa.

    Dados os meros três a quatros meses de vida, por ano, da real bola de berlim, somos muitas vezes obrigados a recorrer à contrafação. É mais ao menos como as Louis Vuitton – quando não há dinheiro para uma verdadeira, compram-se na feira, parecidas, mas com um preço mais simpático. Aqui é semelhante: à falta de berlineiros de serviço, pode-se sempre ir a uma pastelaria ou supermercado. Ainda há dias vi um vídeo da La Dolce Rita (pasteleira cujas receitas eu adoro) a comparar as bolas de berlim de supermercado. Como boa pasteleira que é, não conseguiu eleger nenhuma como a melhor (pois essa, a real, e se leram bem os parágrafos acima, só pode ser encontrada num certo e determinado local, com areia e água à volta) – mas provou-as e apontou os pontos fortes e fracos de cada uma delas. 

    E eu não consegui ficar como mera espectadora – a saliva crescia-me na boca à medida que os minutos do seu vídeo iam passando. E eu, que não punha o dente em nenhuma bola desde Julho, fraquejei e tive de recorrer à contrafação de supermercado. Vi as várias opções disponíveis nos estabelecimentos mais próximos e foi no Lidl que descobri a que mais me agradou (e que, por acaso, a Rita não provou): a bola de berlim de alfarroba, com creme. Não me posso queixar – era boa, tendo em conta que é uma bola pré-congelada e que eu não estava de férias a apanhar sol na praia.

    Há, no entanto, um problema generalizado: em todos os supermercados as bolas são sempre vendidas aos pares. E eu, que tenho um marido pouco dado a doces, deparo-me com uma constatação difícil: se quiser uma bola, terei de comer duas. É um verdadeiro problema de primeiro mundo – principalmente para as minhas ancas, que gritam de horror só com a perspetiva. Mas agora a sério: depreende-se que as bolas de berlim são para ser partilhadas? Ou que são tão boas que nunca se consegue comer só uma? Ou que as bolas… vêm sempre aos pares? São muitas dúvidas. Preciso de esclarecimentos. 

     

    PXL_20230722_162153304.jpg

    (esta é das reais, com certificado de qualidade)

    3 comentários em Porque é que as bolas vêm sempre aos pares?

  • Chávena de Letras: “Onde cantam os grilos”

    grilos.jpg

    Estou muito, muito contente por ter encontrado uma autora portuguesa cuja escrita eu tenha realmente gostado. Maria Isaac não escreve só bem; tem uma escrita desempoeirada, comum mas bonita; é uma escrita com os pés assentes na terra, humilde sem ser vulgar. Sinto que é raro conseguir envolver-me e relacionar-me com autores nativos de Portugal por acharem (quase) sempre que têm de redigir de forma pomposa e palavras caras para provarem o seu valor e conhecimentos. Adorei que a história decorresse numa família portuguesa, numa vila portuguesa, com personagens com nomes portugueses; gostei imenso do retratar das várias personagens, desde a forma de falar das pessoas com menos instrução, passando pela clara distinção de classes, tão típica na nossa sociedade mas retratada de uma forma muito real e não-destrutiva ou crítica (o que é raro, tão raro!). Sinto que tudo faz sentido, que é de uma fluidez tal que parece impossível aquilo não ser uma história real. E isso, penso eu, é dos maiores elogios que se podem dar a um autor.

    Porquê as quatro estrelas? Porque a narrativa foi a única coisa que não adorei. Já sabíamos, através de vários avisos que se vai lendo ao longo do livro, que alguma coisa não vai correr muito bem na história dos Vaz; mas depois de tanta tensão e de construir todo um mundo à volta da herdade e seus protagonistas, senti que o final foi apressado e abrupto. O fim, que para mim foi surpreendente, podia até ser o mesmo – mas faltou-lhe uma rampa de lançamento final para ser perfeito. O que, ainda assim, não tira o mérito a Maria Isaac, cujos próximos livros irei ler com toda a certeza.

    Ah, não esquecendo: bonito título, linda capa!

    5 comentários em Chávena de Letras: “Onde cantam os grilos”

  • Na Boavista a vida é boa

    A viagem para Cabo Verde foi marcada em desespero de causa – estávamos já no final de Abril, sem férias marcadas, com os preços a disparar em flecha e nós sem saber para onde ir. Foi quase uma decisão de último recurso que, honestamente, não era aquilo que eu realmente queria – mas, no fundo, era o que precisava. 

     

    CaboVerdeAgosto23-166.jpg

     

    Acho que estou na fase da vida ideal para viajar para longe; fazer daquelas estopadas que nos levam um dia inteiro a chegar ao destino, uma vez que ainda tenho (alguma) tolerância às dores nas costas e ao jet lag e uma vontade de conhecer novos sítios superior à inércia que tais viagens proporcionam. Queria ir até à América, para a Costa Rica ou para o Chile; ou então para o lado oposto, para Singapura ou Austrália. Mas a verdade é que precisava de parar – depois da primeira metade do ano ter sido de um desgaste emocional tremendo, eu tinha de descansar a cabeça e o corpo para voltar com força à fábrica. Por outro lado, a viagem à China (marcada também em cima da hora) ajudou; acabou por colmatar a quota de países longínquos e culturas diferentes que gosto de “riscar” a cada ano que passa. Por isso, ainda que a algum contragosto, decidimos ir para a ilha da Boavista, em Cabo Verde, passar as nossas “férias grandes”. Optamos por “fugir” do Sal por ser a ilha mais turística e pelo mau feedback que recebemos de pessoas conhecidas. Normalmente marcamos todas as viagens, vôos, transferes e passseios sozinhos mas, desta vez, optamos por fazê-lo com a Agência Abreu – porque estavam com um pacote imbatível ao nível de preço, que nunca conseguíamos replicar se marcássemos tudo separada e independentemente, mesmo tendo evitado o charter. 

    Talvez por não ter sido a viagem que idealizei para as minhas férias e também por termos ouvido relatos menos felizes sobre Cabo Verde, as minhas expectativas não eram altas – e foram todas elas, sem excepção, ultrapassadas. Ficamos hospedados no hotel Riu Karamboa, que foi recentemente renovado e está absolutamente lindíssimo. É provavelmente a recepção mais bonita que vi na vida – se pudesse tinha trazido tudo para Portugal e decorado a casa dos meus sonhos. Foi a primeira vez que estivemos na cadeia Riu, por isso não tenho termo de comparação, mas ficamos fãs. 

    Normalmente os meus textos incidem muito mais sobre a vertente cultural das cidades do que propriamente sobre o local onde fico – mas a verdade é que, neste caso, o hotel foi aquilo que mais vivenciamos e o espaço que mais usufruímos, tendo em conta o estilo de férias que este ano escolhemos para nós (pulseirinha no pulso e papo para o ar). Por isso, desta vez, considerei mais importante debruçar-me sobre o alojamento que escolhemos, porque foi isso que fez, para nós, a diferença.

    O hotel fica a 1km do aeroporto – demora mais tempo a agilizar o transfer de todos os passageiros do que a viagem em si. Dois hotéis com a chancela Riu ficam lado a lado – o Karamboa, exclusivamente para adultos, e o Palace, com uma vertente mais familiar (ambos de cinco estrelas). Partilham apenas a mesma praia e o parque aquático, que fica literalmente no meio de ambos. Há ainda outro hotel da cadeia espanhola do outro lado da ilha, o Touareg, mas fica muito mais longe do aeroporto e não tem uma praia que compense a diferença. Há mais hotéis na ilha e também a opção de ficar num alojamento local, mas diria que o Riu é para quem procura o máximo conforto, comodidade e atualidade num hotel.

    O Riu Karamboa é um hotel tipicamente tropical – recordou-me os dois sítios onde fiquei no Brasil – com corredores compridos e quartos forrados a tijoleira, com ventoinhas no teto e despudorado de grandes luxos. É colossal, com quase mil quartos, e o único regime em que opera é tudo incluído – e quando dizem tudo, é mesmo tudo. Desde os refrigerantes do mini-bar, passando pelo leque de bebidas espirituosas de que todos os quartos dispõem em garrafas de litro e meio, até bares abertos 24 horas por dia, caiaques disponíveis para os hóspedes e comida às toneladas a praticamente qualquer hora do dia. O buffet de pequeno-almoço e de jantar vão para o meu top 5 no que diz respeito à quantidade e diversidade de comida – e, provavelmente, de maior qualidade também. Nunca vi tantos tipos de ovos diferentes num só local – desde ovo-estrelado-cru, ovo-estrelado-meio-cru-, ovo-estrelado-cozido, ovos Benedict, ovo cozido, omelete simples, omelete com fiambre e queijo, omelete com salsicha, omelete com camarão, ovos mexidos. Eu sei lá que mais! Pela manhã o que eu gostava mais de comer eram os churros quentinhos e das panquecas e, à noite, atirava-me à secção das pizzas e das massas, sempre diferentes todos os dias. Destaque também para o peixe – é raro, neste tipo de sítios, haver bom peixe ao dispor; aqui foram mais as vezes que comi peixe do que carne, nomeadamente um peixe de que nunca tinha ouvido falar – Tilápia. A verdade é uma: há tanta diversidade que uma pessoa não chega a provar metade. O leque de sumos naturais de que dispunham, por exemplo, era uma loucura – certamente para cima de 25 espécies diferentes. Nós? Bebemos zero.

     

    [slideshow]https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B6018266f/22547478_SDDjt.jpeg,https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B37173126/22547479_GwOKV.jpeg,https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bce18431b/22547480_3QjK8.jpeg,https://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B8a187290/22547481_OQBAZ.jpeg,https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B8f18dd83/22547482_Hl8WJ.jpeg,https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bb3171fb6/22547483_MTVSI.jpeg,https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B38189cff/22547484_tHoOD.jpeg,https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bbe174105/22547485_9RLn7.jpeg,https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B0b18f5a1/22547486_Eu56D.jpeg,https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bd217354e/22547487_my6q5.jpeg[/slideshow]

    As iguarias dos buffets (clicar para esquerda e direita para ver mais)

     

    Talvez por isso tenhamos feito a proeza de não ter tido qualquer tipo de desarranjo intestinal durante a semana que lá estivemos – bebíamos exclusivamente água engarrafada (que nos deixavam no quarto) e, às refeições, optávamos por refrigerante, uma vez que a água disponível era de máquina (e, por isso, dessalinizada). Não bebemos sumos naturais ou qualquer coisa que levasse gelo – e só abrimos a excepção à regra da água engarrafada para o café da manhã. A verdade é uma: os ingleses, americanos, italianos e tantos outros portugueses bebiam água e sumos naturais à barda, carregados com gelo, e nunca vimos ninguém a passar por nós aflitinho. Dispenso saber o que se passa no quarto de banho dos outros mas estranhei o facto de, aparentemente, sermos dos poucos a cumprir uma regra que foi, provavelmente, a coisa mais mencionada de cada vez que dizíamos que íamos visitar Cabo Verde. Este era, na verdade, o nosso único receio. Vá, isso e os mosquitos – fui prevenida com três frascos de repelente, uma vez que faço reações ferozes às suas picadas, mas a verdade é que não passei muito mal. Havia bastantes sugadores de sangue – e 90% deles pareciam estar à porta da nossa habitação à espera que entrássemos. À noite parecíamos dois inspetores do FBI a entrar no quarto o mais rapidamente possível (com direito a contagem decrescente para passar a porta, tal e qual como nos filmes) e, mal entrávamos, seguiam-se dez minutos de vistoria profunda, por entre as profundeza das cortinas, guarda-roupas e cabines da casa de banho, para garantir que tínhamos uma noite minimamente descansada – no entanto, das picadas os bichos que conseguiram dar, poucas foram as que me afetaram (e nada comparado com o resultado das mordidas de que fui alvo este ano no Algarve, que me deram direito a um mês de anti-histamínicos, tal o estado em que me deixaram).

    O hotel tinha cinco piscinas – duas com mais de 25 metros, outras duas com acesso ao bar (com banquinhos sub-aquáticos e todas aquelas coisas em que pensamos quando pensamos em países tropicais) e uma outra, central, mais destinada às atividades do hotel (como pólo aquático, vólei, mata e outros jogos dinamizados pela equipa animadora). Mais uma vez o Karamboa é batedor de recordes, não pelo número de piscinas, mas pelas espreguiçadeiras – não me lembro de ver tanta cadeira na minha vida em nenhum outro hotel. O pior é que ficavam todas – TODAS – ocupadas! Às 11h da manhã já era difícil encontrar um par de cadeiras vago. O que, felizmente, não era um problema para nós – porque o mesmo não acontecia na praia, onde outras tantas centenas de cadeiras estão gratuitamente ao dispor dos hóspedes… e mais de metade delas estão sempre vazias. Não sei porque é que, num destino destes, a maioria das pessoas prefere a piscina – mas a verdade é que há uma clara preferência. Para nós era ouro sobre azul – seguíamos sempre para a praia e ficávamos frequentemente na linha da frente, a olhar o mar, a poucos metros da água e ainda com alguma sombra proporcionada por uma fileira de palmeiras que estão plantadas ao longo de toda a concessão. Só fomos à piscina uma vez, ao final de um dia, para tirar o excesso de sal que tínhamos na pele.

     

    [slideshow]https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B23181384/22547493_l0TRe.jpeg,https://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B52184f86/22547492_KzUwr.jpeg,https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bd818af22/22547491_ytmmC.jpeg,https://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B7f18fee6/22547490_eZNuV.jpeg,https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bc917f934/22547489_sJD1L.jpeg[/slideshow]

    Algumas áreas do hotel

     

    A areia da praia de Chaves, onde se situa o hotel, é fininha e maravilhosa, numa mistura de cores, entre o claro das nossas praias e o escuro-vulcânico. Não há conchas – mas há pedras, e esse é o único senão. Quando a maré vazava tornava-se muito difícil entrar e sair do mar porque o chão era um autêntico tapete de godos, de todos os tipos e tamanhos – desde redondas, pequenas e inofensivas, a calhaus rogosos e cheios de arestas que eram um potencial risco à saúde dos nossos pés. O mar, apesar de ter uma temperatura deliciosa, não era translúcido nem calmo – tinha correntes fortes e uma rebentação algo violenta. A força da água e as pedras formam uma combinação algo perigosa para quem não estiver totalmente confortável a entrar na água ou que não esteja em razoável condição física – vimos muitos tombos e, suponho, muito pirulitos a serem engolidos durante a semana em que lá estivemos. Embora a praia seja, supostamente, vigiada, os nadadores-salvadores não são de fiar – nunca os vimos a ajudar ninguém, até porque a maior parte das vezes estavam fora do nosso alcance de visão (vulgo: desaparecidos). A bandeira está sempre amarela durante o horário de trabalho deles e, quando chega a hora de saída, é prontamente substituída por uma vermelha – não que o mar esteja, naquele dia, particularmente violento, mas só por descargo de consciência. Por isso, se este for um fator decisivo para vós, diria que é melhor pensarem noutro destino.

     

    CaboVerdeAgosto23-73.jpg

    Panorâmica da Praia de Chaves 

     

    CaboVerdeAgosto23-156.jpg

    Pôr-do-sol 

     

    CaboVerdeAgosto23-161.jpg

    Na hora do pôr-do-sol o hotel vinha em peso para a praia para ver o sol descer

     

    Para fechar o tema “hotel”, apenas mais algumas notas. Fomos uma vez ao spa e não achamos nem o serviço nem o espaço extraordinários; o ginásio é muito pequeno e limitado tendo com conta o tamanho do hotel; existem três restaurante temáticos que são grátis mas implicam marcação prévia (algo nem sempre fácil, uma vez estarem sempre lotados) – e na nossa opinião não compensam a visita, a não ser por uma quebra na rotina; a animação noturna não é brilhante, mas para uma ilha com recursos limitados (nomeadamente ao nível das pessoas), fazem o melhor que podem e entretêm na medida do possível.

    Mas passemos para o capítulo mais interessante (ainda que não muito extenso): a ilha. Saímos do hotel três vezes: uma para ir ver a desova das tartarugas, no sul da ilha; uns dias mais tarde para ver a praia de Santa Mónica, também a sul; e ainda outra para conhecer as partes povoadas da ilha, como a capital, Sal Rei, e Rabil, com passagens por Povoação Velha e o Cabo de Santa Maria. Fizemos tudo isto com a Barracuda Tours, a empresa com quem a Agência Abreu trabalha; no entanto, se forem à Boavista, guardei o contacto do Edy, o rapaz que nos fez as visitas guiadas e que tem o melhor carro da ilha (fechado, com ar-condicionado e sem caixas abertas, algo muito popular por lá) – se precisarem, deixo-o nos comentários para marcarem diretamente com ele e evitarem custos com intermediários. Isto é também uma forma de dar dinheiro a quem é da ilha visto que a Tui, empresa turística alemã, está a tomar tudo de assalto (entre aviões, camionetas e jipes próprios), dificultando a vida aos cabo-verdianos que vivem dos turistas. Por isso juntem o útil ao agradável: ajudam os locais e têm uma experiência óptima com alguém de confiança!

    A desova das tartarugas é um must nesta altura do ano; faz-se sempre ao cair da noite, altura em que a maioria das tartarugas chega à praia para deixar os seus ovos. A viagem do hotel até à Praia de João Barrosa é de praticamente uma hora – fizemo-la na parte de trás de uma pick-up de caixa aberta (nesta altura ainda não conhecíamos o Edy) e rogamos pragas pela nossa decisão. A ilha tem algumas estradas alcatroadas mas, na sua maioria, são caminhos de terra batida ou, simplesmente, calhaus. Não são viagens agradáveis – principalmente para se fazer ao cair da noite, quando parte do percurso inclui viajar pelas dunas e apanhar com muita areia nas ventas. Não sei, honestamente, como é que o meu estômago aguentou (mas nos passeios seguintes já tomei um comprimido para o enjoo… porque à primeira todos caem, mas à segunda só cai quem quer). A desova das tartarugas tem tudo para ser um momento bonito e mágico, mas convém ser feito com pouca gente – e nós não tivemos essa sorte. Antes de fazer esta excursão perguntem sobre as condições, tanto ao nível da viagem como do número de pessoas que a fazem convosco, porque é algo que fará a diferença. Apesar disso tivemos muita sorte na noite que apanhamos e, por não haver qualquer fonte de luz (a não ser as luzes vermelhas que os guias usam para iluminar o caminho e não ofuscar as tartarugas), o céu estrelado que vimos foi dos mais bonitos das nossas vidas. Sobre as tartarugas: é incrível a sua agilidade, para um animal que consideramos algo lento no seu dia-a-dia. A forma como utilizam as patas como pás e a rapidez com que põem os ovos, de uma forma simultaneamente tão mecânica mas suave e delicada, faz-nos pensar que a natureza é mesmo fascinante. Outra coisa incrível é como conseguem esconder tão bem o sítio onde desovaram, encobrindo o buraco como autênticas profissionais. É uma experiência bonita que, tendo hipótese de vivenciar, se deve fazer.

    CaboVerdeAgosto23-16.jpg

    A tartaruga e os seus ovinhos

     

    CaboVerdeAgosto23-14.jpg

    O maravilhoso céu estrelado visto da Praia de João Barrosa

     

    Nos outros dois passeios tivemos oportunidade de ver as partes povoadas da ilha e de interagir um pouco com as pessoas. Acho que foi a primeira vez, de todas as viagens que já fiz, em que me deparei com uma cidade praticamente vazia – de pessoas, de monumentos, de sítios para estar, de cultura. A Boavista não é uma ilha em desenvolvimento – é uma ilha por desenvolver. As pessoas não são pobres no sentido de passarem fome – mas nota-se que têm mesmo muito pouco.

    O ponto mais turístico da ilha é o barco encalhado, no Cabo de Santa Maria. É ponto obrigatório – mas, para mim, vale mais pela praia lindíssima (onde não se pode nadar a não ser para fazer mergulho nos destroços, o que é uma pena) do que propriamente pelo barco. Diria que, daqui a uma década (duas, no máximo) pouco vai sobrar do cargueiro que por ali encalhou nos anos sessenta – o estado de degradação é visível, principalmente quando conseguimos comparar com fotos do passado, pelo que a estrutura não terá muito mais anos de vida assim intacta.

    CaboVerdeAgosto23-103.jpg

    Com o barco encalhado, a imagem de marca da Boavista

     

    Quem se dedica ao turismo na Boavista são, maioritariamente, os senegales. Para nós, portugueses, é fácil distingui-los – para além do tom de pele diferente e da maneira de agir ser também distinta, é na língua que percebemos logo de onde eles são. Os cabo-verdianos estão a trabalhar nos serviços, principalmente nos hotéis; os senegaleses tomaram conta dos negócios de rua, das lojas e mercados. Têm uma forma de estar mais tipicamente árabe – são chatos e teimosos no que a compras diz respeito, tentam obrigar-nos a visitar os seus espaços e não nos deixam sair de mãos a abanar. É preciso ter paciência e algum jogo de cintura para sair a bem de algumas situações. 

    Não tenho, obviamente, nada contra quem é do Senegal – mas estava em Cabo Verde e queria trazer souvenirs de quem era da terra. Disseram-nos que um dos poucos sítios onde encontraríamos algo autêntico era na Olaria do Rabil – a única da ilha. É tudo feito à mão, com recurso a pouca ou nenhuma maquinaria (nem com a roda trabalham!), e as peças são na sua maioria assinadas, o que as torna um pouquinho mais especiais. Não se pode esperar nada de muito trabalhado – é cru, como a ilha. As minhas peças favoritas eram as maiores – jarras e vasos majestosos – mas essas eu não podia trazer para casa. Trouxemos umas tartarugas em barro – mais para apoiar o projeto do que propriamente pela beleza das peças. No final das férias, as contas eram estas: para além das peças da olaria comprámos um boneco cheio de missangas (pela qual me apaixonei mal pus os pés na ilha) a uma senegalesa e uns ímans a um rapaz da ilha de Santiago, ambos com barracas na praia do nosso hotel. São mimos e recordações – nada muito trabalhado, mas que tenho a esperança que ajudem algumas famílias a manterem-se a pôr mais alguma comida na mesa (que, lá, é quase tudo importado – e, por isso muitíssimo caro).

    CaboVerdeAgosto23-98.jpgCaboVerdeAgosto23-96.jpgCaboVerdeAgosto23-94.jpg

     

    Rabil, onde fica a olaria, está praticamente deserta. É em Sal Rei que há mais gente nas ruas, um mercado de fruta e de peixe e uma pequena rua de comércio para os turistas, ainda que totalmente explorada por senegaleses. Há dois ou três bares e restaurantes, um museu e… mar. É uma cidade despida, onde o que interessa é a sobrevivência e as coisas boas da vida: a comida, as pessoas e um ou outro divertimento. As casas são conjuntos de tijolos, o almoço é uma peça de fruta e o brinquedo preferido é o paredão de acesso ao mar. 

    CaboVerdeAgosto23-19.jpg

    CaboVerdeAgosto23-25.jpg

    CaboVerdeAgosto23-121.jpg

    CaboVerdeAgosto23-113.jpg

    CaboVerdeAgosto23-120.jpg

     

    A ilha, como quase todos os sítios pobres, é suja e as zonas habitadas não são bonitas – é um caos organizado, entre casas inacabadas e barracas improvisadas. Aqui nem a flora safa a situação – a Boavista é extraordinariamente seca, nem os coqueiros se aguentam com tamanha falta de água. Sobrevivem as acácias, que servem de casa a uns gafanhotos voadores do tamanho de pássaros, que enganam qualquer pessoa cuja visão não esteja bem apurada; têm também tamareiras, mas até essas começam a acusar a falta de água. É na areia e nas águas que a Boavista tem a sua beleza. Sendo a ilha de África mais próxima do Saara, tem conjuntos de dunas lindíssimos que lembram um deserto (como o deserto de Viana ou o Morro de Areia), não esquecendo nunca o mar que a rodeia, lindo tanto nas zonas portuárias como nas praias mais famosas da ilha (e do mundo, como é o caso da de Santa Mónica, com um areal com 18km de extensão). Tem, para além disso, aquilo que para mim é a oitava maravilha do mundo: burros! São dos poucos animais, a par das cabras, que se lá se aguentam devido à parca vegetação e água presentes na ilha – e não têm dono. São totalmente selvagens e constituem a causa da maior parte dos acidentes de viação na ilha, uma vez que se atravessam nas estradas sem qualquer tipo de pudor. Até nós tivemos quase a atropelar um, quando íamos ver as tartarugas (valha-me Deus!). Se pudesse, trazia-os comigo na mala – mas creio que nem eles nem os meus pais achariam muita graça (eles devido à viagem apertada, os meus pais por terem de lhes dar albergue).

     

    CaboVerdeAgosto23-23.jpg

    Deserto de Viana

     

    CaboVerdeAgosto23-119.jpg

    Cais piscatório

     

    CaboVerdeAgosto23-40.jpg

    Praia de Santa Mónica vista do antigo farol

     

    CaboVerdeAgosto23-34.jpg

    Os meus amigos burros

     

    Passamos uma semana na ilha mas eu aguentaria uns dez dias sem qualquer tipo de esforço. A inexperiência em viagens para destinos paradisíacos fez com que não levasse umas cartas e uns jogos para fazer com o Miguel, de forma a passar melhor alguns momentos mortos em que não me apetecia ler nem dormir. Mas isso foi, literalmente, a única coisa que faltou. De resto houve muito descanso, sol para dar e vender, muitos mergulhos, alguns passeios e, quiçá, demasiadas horas de barriga cheia.

    Fui feliz em Cabo Verde. Cheguei sem expectativas – diria até que com pouca vontade – mas gostei muito das pessoas, adorei o hotel e apaixonei-me pela simplicidade das coisas. Na nossa opinião é um destino com uma óptima relação qualidade-preço-distância. Fica a apenas quatro horas de distância, sem necessidade de grandes escalas ou vôos transatlânticos; os valores que se pagam são competitivos quando comparados com outros destinos de praia-e-palmeira-tudo-incluído e a qualidade que experiênciamos faz jus aos bons comentários e ao valor que se gasta. É bom para quem tem barreiras linguísticas (uma vez que se fala português) e também para casais mais velhos (vimos alguns!), que têm todos os luxos num raio relativamente curto. 

    Ouvi muito más opiniões sobre Cabo Verde antes de ir, mas não me junto ao coro. A Bovista já integra a minha lista de “sítios para descansar” quando o corpo voltar a pedir. Por mim era já amanhã.

     

    CaboVerdeAgosto23-44.jpg

    No meu cantinho favorito do Riu Karaboa

    3 comentários em Na Boavista a vida é boa

  • Chávena de Letras: “O que procuras está na biblioteca”

    500_9789892355184_o_que_procuras_esta_na_bibliotec

    Confesso que não consigo perceber a classificação média de 4 estrelas a este livro no Goodreads. Atenção: o livro não é péssimo. Seria óptimo se fosse para crianças ou pré-adolescestes. Sendo para adultos, acho-o com uma linguagem extremamente básica, com estruturas frásicas dignas de primeiro ciclo e com lições de moral simples. São frases e parágrafos curtos, ideias básicas, onde há pouco por onde puxar da concentração ou pelo vocabulário – não sei até que ponto a tradução do japonês poderá ter culpa, mas a verdade é que achei um livro superficial em todos os níveis.

    Tratam-se de cinco short-stories cuja premissa é sempre a mesma: alguém, num determinado contexto, precisa de ajuda – e, de uma forma ou de outra, acabam na biblioteca municipal, nas mãos da bibliotecária e sua assistente, que de uma forma quase milagrosa lhes dão a conhecer livros que lhes abrem horizontes e permitem uma mudança de vida ou mentalidade. A ideia é gira, mas repetitiva – não era necessário que, em todos os contos, fossem sempre mencionadas as características físicas das personagens ou a descrição dos espaços. O local principal de todas as narrativas assim como as suas personagens são comuns a todas as histórias, sendo que alguns dos sujeitos principais das histórias se ligam de uns contos para os outros, o que é giro, mas não é suficiente.

    A capa é muito gira e a ideia de se passar no Japão atraiu-me (quero sempre voltar aos sítios onde fui feliz), mas as expectativas não foram correspondidas.

    3 comentários em Chávena de Letras: “O que procuras está na biblioteca”