• Voltar ao sítio onde temos de estar

    Vamos entrar na 36ª semana do ano – aquela que, para muitos de nós, dá o pontapé de saída o início real de um novo ano. Isso quer dizer que já lá vão 35 segundas-feiras ultrapassadas – cerca de 30 delas em esforço pleno. Podia dizer-se que a de amanhã será a mais dura de todas, tendo em conta que as últimas três semanas foram de férias, mas a verdade é que acho que não. São todas difíceis. Foram todas difíceis, este ano. 

    Se eu fechar os olhos e pensar a curto prazo, sinto que o meu cérebro me leva para o dia de Natal do ano passado. E, numa perninha, passamos para o dia de hoje – nove meses passados num ápice, num daqueles paradoxos de tempo, falácias de memória e erros de percepção que nos acontecem tipicamente nos momentos muito bons ou muito maus, em que os dias parecem não passar enquanto os estamos a viver, mas quando fazemos deles passado parecem ter andado em modo fast-forward ao ponto de quase não nos lembrarmos de nada para além do inicio e da meta.

    Fui à fábrica na passada sexta-feira ultimar um par de coisas antes do regresso oficial e o “baque” que senti foi grande. Uma das coisas que não nos contam sobre a indústria é que há sempre alguma coisa que não está bem – coisas muito graves que exigem mudanças imediatas porque estão de alguma forma a criar entraves no processo, coisas graves que pomos na lista de afazeres a curto-prazo e todas as outras, onde incorporamos o espírito de “vai-se fazendo”. Isto agudiza-se quando herdamos uma empresa velha em infraestruturas, em cultura e recursos-humanos: o “vai-se fazendo” cresce em nós, porque não há outra maneira de fazer as coisas. Porque não há dinheiro para pôr tudo direito de uma só vez, porque não podemos correr o risco de fazer mudanças tão bruscas que assustem as pessoas que trabalham naqueles postos há décadas, porque as formas de estar e de trabalhar talvez nunca venham a mudar. 

    Quando entrei nos salões vi lixo, que sei que já lá estava antes, mas cujo os meus olhos já se tinham habituado até há pouco menos de um mês; senti o cheiro a óleo que para mim é normalmente tão natural como o odor ao shampô que ponho no cabelo; vi coisas desarrumadas, desalinhamentos desnecessários – tudo pormenores que, ainda há dias, me tinham passado despercebidos porque a visão já está viciada e a alma cansada de tentar alterar coisas cuja inércia é, aparentemente, maior do que a minha força da mudança.

    Acho que a paciência e a resiliência são, talvez, as ferramentas mais úteis e preciosas no meu trabalho – mas estas são também características de alto desgaste, principalmente quando os tempos são duros de se viver, como foi esta primeira metade do ano. Este é o meu quinto ano à frente da fábrica e eu já conheço esta sensação de início de Setembro: um misto de tristeza pelo fim das férias mas de pujança para fazer as coisas acontecerem, mudar o que tem de ser mudado, como quem vai meter a primeira mudança depois de uns dias sem ter de fazer trabalho de embraiagem. Mas o que a experiência me conta é que, infelizmente, há qualquer coisa no caminho (normalmente logo nos primeiros quilómetros) que nos faz imediatamente abrandar e todos aqueles planos iniciais caem por terra. As próximas duas semanas já me darão, certamente, água pela barba: aguardam-me sessões de esclarecimento com todos os funcionários, uma auditoria e dois dias de feira. E depois? Depois só queria sossego e normalidade.

    A questão é que eu não sei se sossego e normalidade são sinónimos ou, no mínimo, coabitantes nesta vida que eu escolhi. Será que sou só eu que estou eternamente à espera de períodos mais sossegados na minha vida, que acabam por nunca acontecer? Estou cheia de planos para esses dias: nessa altura vou finalmente arrumar as peças soltas de uma das urdideiras, vou finalmente organizar o escritório contíguo ao meu que foi acidentalmente transformado em sala de arrumos, vou finalmente enumerar todas as chaves que me faltam; vou finalmente colar o relógio partido que tenho aqui em casa, vou finalmente elaborar o álbum de fotos sobre o verão passado, vou finalmente pôr todos os emails em dia. Aguardo o dia em que não tenha coisas urgentes para tratar para poder pôr estes “finalmentes” em prática – mas o dia nunca chega, pois não?

    Eu gostava que chegasse. E, como tal, é esse o meu desejo para este novo recomeço. Nesta altura do ano as contas já estão quase todas feitas e não vale a pena gastarmos os nossos desejos em esperanças infundadas. Já sei que não vale a pena pedir um ano de trabalho bem sucedido, calmo ou extraordinário – porque não será. Daqui a uns meses, quando estivermos a fechar mais um Natal, a análise a fazer será expectavelmente de que este foi um ano de superação e de sobrevivência – mais um, neste meu percurso de industrial. Como extra, gostava apenas que fosse um ano de “finalmentes”. Finalmente arrumei aquilo! Finalmente fui ao cinema! Finalmente fiz o álbum! Caraças, finalmente respirei enquanto trabalhava. Que bom que isso deve ser.

    Um bom regresso para todos. Há que voltar ao sítio onde temos de estar.

     

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  • Doze anos depois, uma carta

    Querido blog,

    Passaram-se doze anos. Quando te criei ainda andava às turras com a matemática e não sabia que curso escolher; o meu sobrinho mais novo ainda não tinha nascido e eu descobriria nesse verão um problema crónico no pé; o Falcão ainda jogava no Porto, a Kate e o William acabavam de casar e o Bin Ladden tinha sido morto há pouco tempo; a saga Twilight ainda não tinha chegado ao fim, o Salvador Sobral ainda não tinha ganho a Eurovisão e Portugal ainda não tinha vencido o Europeu. Não adivinhávamos que ia haver uma pandemia. E eu não sabia que ia encontrar o amor da minha vida ou que me ia casar; da fábrica, nessa altura, era capaz de recordar o cheiro a óleo e pouco mais, não pensando que um dia pudesse chamar de “meus” todos aqueles teares e máquinas bonitas.

    Passaram-se doze anos. Ia escrever que tinham sido anos basilares da minha vida, onde tanta coisa aconteceu – mas a verdade é que são mais de quatro mil e trezendos dias e, independentemente da fase da vida em que nos encontremos, muita coisa pode acontecer nesse período de tempo.

    Passaram-se doze anos. Acabei o secundário, tirei um curso, comecei a trabalhar num jornal, tirei uma pós-graduação, dei aulas de piano, fiquei com a fábrica, conheci o Miguel, comecei a namorar, fiquei noiva, casei-me, aprendi a não odiar desporto. Viajei muito. E, pelo meio, escrevi alguma coisa. Devia ter escrito mais, não devia?

    Passaram-se doze anos – tempo suficiente para eu me esquecer do dia em concreto em que nasceste. Por isso, desculpa: a verdade é que, ao longo deste período, a memória não tem vindo a melhorar. Achei que o teu aniversário era dia 11 de Agosto – mas, quando fui aos registos, reparei que afinal era dia 6 e que havia deixado escapar a data especial. Já não tenho 16 anos como antigamente. Sabes que já tenho muitos cabelos brancos, querido blog?

    A vida passa, mas tu ficas. Os amigos vão e vêm, mas tu ficas. A casa muda-se, as pessoas entram e saem, os empregos trocam-se, mas tu ficas. As recordações desvanecem-se, mas como tu ficas, elas vêem-se na obrigação de ficar retidas também. És o meu livro de memórias, o meu caderno de apontamentos, o meu álbum fotográfico, o meu guia de viagens. És o espelho do que fui – e do que vou sendo todos os dias. Tens o aroma do mar nos posts sobre os cruzeiros, o cheiro a livros nas minhas críticas literárias e a bafio nos dias em que escrevo chateada. Guardas em ti as lágrimas de saudade quando recordo alguém e a dor que me sai do peito quando finalmente consigo passar para palavras aquilo que me ferra a alma. És a minha vida em meia dúzia de palavras – que, parecendo muitas quando olhamos somente aos números, são poucas para tudo aquilo que penso e reflito ao longo dos dias.

    Registam-se em ti 4059 entradas e quase 16 mil comentários. Este ano vai a pouco mais de meio e já escrevi mais do que em 2022 – uma promessa que fiz e que, apesar de dura, me está a dar muito gozo cumprir. Quero muito continuar. Tinha saudades tuas e do relatar da minha vida. Tenho saudades do tempo e da disponibilidade mental que antes tinha para escrever – passaram doze anos e nada é como dantes. Mas a vida continua, e tu com ela. Que seja por muitos mais anos.

    Parabéns atrasados, Entre Parêntesis!

    Sempre tua,

    Carolina (versão 2023)

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  • Chávena de Letras: “A Sombra do que fomos”

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    Ainda não tenho a certeza se gosto ou não de Sepúlveda. Por um lado sinto-me atraída pela sua escrita, por outro não me agradam nunca os temas sobre a qual escreve – ou, pelo menos, a forma como os aborda. Esta leitura foi impulsionada pelo tamanho do livro – pequeno, perdido numa estante, ideal para pôr na mochila e levar para ler onde fosse necessário.

    Este livro tem uma perspectiva interessante sobre o comunismo – um olhar sobre passado, saudosista, mas já manchado pela realidade dos acontecimentos que toldaram o sonho de tantos. Mas dirá muito mais aos sul americanos do que a nós, com muitas referências que nos passam ao lado por não fazerem parte da nossa história (a menos que sejamos especialistas no tema). Isto faz com que a capacidade de nos relacionarmos seja mais pequena, fazendo-nos perder aos poucos o interesse pela história, pois todos os relatos daqueles homens implicam um contexto que nos passa ao lado.

    Vale por um par de histórias engraçadas que ilustram bem o comunismo e pela escrita do Sepúlveda. Não gostei da narrativa.

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  • Shanghai: uma surpresa em forma de cidade

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    Shanghai foi uma das surpresas da minha vida – surpresa pela forma em como a viagem surgiu mas, acima de tudo, pela cidade em si. Decidi ir à China por impulso, quando percebi que o Miguel teria de lá ir em trabalho; não me apetecia ficar sozinha em terras lusas e pensei: “porque não?”. Todas as desculpas são boas para viajar, mas para ir à China todas as desculpas são óptimas, tendo em conta que não se arranjam muitas.  Nunca pensei fazer deste um destino turístico e nunca lá iria se não fosse por questões de trabalho (minhas ou de outros, como se percebeu!). No entanto dou à mão à palmatória e aqui me confesso: Shanghai pode e deve estar num roteiro turístico pela Ásia. Porque merece.

    Tivemos pouco mais de um mês para tratar da viagem o que, no meio de tudo o que já havia para fazer, foi claramente precipitado e em cima do joelho. Só dois dias antes de partir é que fiz um semi-roteiro e fui-me adaptando in loco, consoante a meteorologia. Acho que vou deixar para outro post as dicas úteis da viagem – que, tendo em conta o destino, são muitas. Entre a obtenção de vistos, a entrada na China, conseguir ter internet e aceder às apps proibidas pela firewall… acho que tenho pano para mangas, num texto mais prático e que provavelmente só será útil para quem de facto quiser lá ir no futuro.

    Eu ia com zero expectativas. O objetivo era acompanhar o Miguel na feira um dia e aproveitar os restantes para conhecer a cidade, quer sozinha, quer acompanhada, dependendo do tempo que o meu marido conseguisse dispensar do trabalho. Confesso que, interiormente, estava apreensiva: a minha faceta de loner praticamente desapareceu desde que o Miguel entrou na minha vida. São poucas as coisas que hoje em dia faço sem companhia e aprendi a gostar de partilhar com alguém os lugares, as experiências e as emoções – e tinha medo de já não saber usufruir da minha própria companhia como fazia dantes (algo que sinto muito quando a casa está vazia ou ele está entretido com algum dos seus hobbies). Mas aquilo que se provou é que este era um medo sem razão de ser – estar sozinha, não ter de mediar situações nem fazer cedências são coisas que ainda têm um sabor especial para mim. Acho, na verdade, que é aquilo que me é mais natural. E talvez por isso tenha sentido em Shanghai uma leveza que não sentia há muito, muito tempo. Afinal ainda sei ser eu. E isso talvez tenha tornado esta viagem ainda mais especial.

    Shanghai é enorme (tem 25 milhões de habitantes, duas vezes e meia mais do que o nosso país) e é uma cidade quase “dilarecerada” pela água – há muitos rios, afluentes e pequenas cidades cheias de canais. A parte principal e mais central é dividida pelo rio Huangpu – de um lado temos Pudong, do outro o Bund. Nós ficamos hospedados em Pudong – que fica do lado mais litoral, mais conhecida por ser a parte dos arranha-céus, dedicada às áreas económicas e financeiras da cidade. No entanto diria que não é o ideal para quem está em turismo, uma vez que quase todos os locais de interesse estão do outro lado do rio, o que implica estar constantemente a arranjar forma de passar as margens de um lado para o outro. Há três formas de fazer a travessia: de ferry, de carro e pelo Bund Sightseeing Tunnel (uma espécie de teleférico interior, que atravessa um túnel que une os dois lados da cidade, e que em vez de ser um mero meio de transporte – que são normalmente chatos, aborrecidos e algo demorados – foi transformado numa atração turística… embora sem grande sentido). Fi-lo das três formas – de carro é mais rápido, de ferry é mais genuíno, de túnel é mais turístico (e caro).

    Curiosamente, tudo o que tinha para fazer do “meu” lado da cidade, não fiz – o plano consistia basicamente em visitar o topo de um ou dois arranha-céus, que são as estrelas de Pudong. No entanto, os primeiros dois dias foram de tempestade, em que as nuvens eram tão baixas que nem se conseguia ver o topo dos edifícios – portanto estaria a pagar para ver nevoeiro em vez da vista. Para além do nublado destes dias, Shanghai nunca tem um céu limpo – está sempre pintada a cinzento, o “smog”, devido à poluição. Diria que não são muitos os dias ideais para subir às torres – nós só apanhamos um e, por ser o dia mais limpo e sem risco de chuva, optamos por tentar aproveitar da melhor forma e visitar outras coisas.

     

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    Pudong visto do The Bund (North)

     

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    O Bund visto do lado de Pudong, à noite – uma das minhas vistas preferidas, pois desse lado as luzes tinham um tom amarelado e quente

     

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    O centro de Pudong, com vários edifícios de escritórios, um museu do lado esquerdo e vários centros comercias espalhados pelo meio

     

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    A Torre da Pérola, um dos ex-libris da cidade

     

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    Pouco depois do pôr-do-sol, do lado de Pudong, uma das minhas vistas preferidas

     

    No primeiro dia, apesar da tempestade, fiz o The Bund todo. Tenho a noção de que, apesar do sacrifício de andar sob chuva torrencial e um calor e humidade insuportáveis, tive acesso a um luxo incrível: Shanghai estava deserta. Não havia gente nas ruas – éramos meia dúzia de gatos pingados (literalmente) e eu achei que a cidade era assim, pacífica. Só nos dias seguintes, quando o sol espreitou e principalmente no feriado do Dragon Boat Festival, é que eu tive a noção da massa populacional de Shanghai. E que massa!

    Nesse primeiro dia apanhei o ferry junto ao hotel (a travessia custa o equivalente a 25 cêntimos e eu não tinha trocos para pagar – e a polícia viu-me tão aflita a tentar configurar as aplicações para fazer o pagamento que me deixou passar à borla), percorri todo o terminal de cruzeiros, passei a ponte Waibaidu (a mais antiga ponte de aço da China) e fiz todo o The Bund até chegar à rua Nanjing. O lado popular do The Bund é o lado sul, onde “desagua” a rua que mencionei – é a maior rua de lojas de que tenho memória, com mais de 5km. Apesar de indubitavelmente bonita, esta vista rio está normalmente apinhada de gente (principalmente às 19h, hora em que ligam as luzes e projeções de todos os edifícios) – e talvez por isso eu tenha gostado mais do lado norte, por ter uma vista semelhante e ser um local muito mais sossegado, com sítios para nos sentarmos e absorvermos a energia de Shanghai. Foi um dia muito cansativo – cheguei ao hotel a parecer uma sem-abrigo, com os cabelos em pé, com a roupa manchada por causa da comida que deixei cair em cima de mim à hora de almoço, com a roupa ensopada até às cuecas – mas eu estava de coração cheio. Foi o meu primeiro contacto com as pessoas da cidade, com o estilo das lojas, com a comida… tudo. E eu estava verdadeiramente encantada e espantada – porque a verdade é que fui sem qualquer expectativa e adivinhava, só por aquele primeiro dia, que afinal ia levar a mala carregada de histórias giras para contar.

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    Dentro do ferry

     

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    Em North Bund, num dia em que as nuvens cobriam a maior parte das torres

     

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    Na ponte Waibaidu

     

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    À entrada da rua Nanjing, que fica mesmo em frente ao principal miradouro do The Bund

     

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    De lá, a vista era esta: bonita mas encoberta… e neste caso com muito pouca gente

     

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    Do lado oposto era esta a vista: uma rua gigante e muito pouca gente a atravessá-la

     

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    Rua Nanjing

     

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    Na Rua Nanjing pequenos comboios faziam a travessia pela rua. É um transporte cujo público-alvo são os mais pequenos, mas é uma boa oportunidade para quem tiver mais cansado das pernas, uma vez que são os únicos veículos que percorrem esta rua pedonal

     

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    Há várias estátuas espalhadas pela rua Nanjing. Esta foi a que mais gostei.

     

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    São muitas as ruas perpendiculares a Nanjing. Apesar de haver semáforos, a maioria delas tem polícias sinaleiros para facilitar a travessia. O que mais se vê são motas e bicicletas – todas meio desgovernadas, conferindo claramente um perigo para todos os peões mais distraídos

     

    Mas se o primeiro dia tinha sido bom, o segundo foi o que me fez apaixonar pela cidade. Fui para um bairro residencial, meio labiríntico, chamado Tianzifang – e aí é que eu soube que estava no Oriente. Motas a bicicletas em permanente rota de colisão com os peões (e carros de uma forma geral), comércio de rua muito pouco virado para os turistas… uma maravilha! O interior do labirinto é claramente mais turístico mas, ainda assim, muito genuíno – poucas pessoas a falar inglês, edifícios baixos e em tijolo, muitas roupas típicas, comida de rua. Daí segui para outro bairro, Xintiandi, que já ostentava outro nível de vida – tudo mais polido, mais ocidental, já com uma traça mais moderna e lojas internacionais e de luxo – não me apaixonou. O caminho entre estes dois pontos foi muito giro, pois conseguimos imiscuir-nos naquilo que será uma Shanghai mais realista (embora, suspeito, ainda bastante cara e com um nível de vida acima da média). Passei por centros de massagens (eles têm uma pancada por “foot massages”, sabiam?), por cabeleireiros, cuecas e boxers pendurados em estendais no meio da rua, supermercados e farmácias – vi, no fundo, a vida normal a acontecer.

     

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    Capturas de Tianzifang (clicar para a esquerda e para a direita para ver mais fotos)

     

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    Fragmentos de Xintiandi (clicar para a esquerda e para a direita para ver mais fotos)

     

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    Pelas ruas de Shanghai (clicar para a esquerda e para a direita para ver mais fotos)

     

    Tinha selecionado vários templos para ir, mas acabei por só visitar o Templo Taoísta Bayun, que ficava no encalço do caminho que tinha traçado para este dia – por acaso era o único não-budista (sendo que é também o maior em Shanghai, desta religião), o que acabou por calhar bem, mas a verdade é que me acrescentou muito pouco uma vez que as informações disponíveis em inglês são muitíssimo escassas. Gostava de ter feito uma visita guiada por lá ou ter tido mais tempo para me inteirar sobre a história daquele local e religião – mas tempo, nesta viagem, foi algo que não sobrou. A verdade é que entrei acanhada, com medo de estar a incumprir alguma regra que desconhecia; havia uma sala onde várias pessoas estavam numa espécie de cântico, com flautas transversais e murmúrios, mas mal me atrevi a espreitar, pois não sabia se era suposto ou respeitoso da minha parte. Senti-me perdida e sem contexto, o que fez com que a experiência não valesse muito a pena para mim, embora goste muito da vertente arquitetónica destes edifícios.

     

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    Templo Taoísta Bayun (clicar para a esquerda e para a direita para ver mais fotos)

     

    Daqui segui para o sítio mais confuso onde estive em Shanghai: o Yu Yuan Market. É a loucura das comidas de rua, das lojas de brinquedos e dos souvenirs de uma forma geral. E daqui parto para a maior reflexão que fiz sobre esta cidade e sobre o país em geral: aquilo que nós classificamos como “chinesices” – coisas baratas, fracas, sem qualidade e produzidas em massa – não é aquilo que de facto há na China. Deparei-me com esta realidade no primeiro dia, quando queria comprar uma capa de chuva e não sabia onde. Se estivesse em Portugal, sabia que o sítio a ir era a uma loja dos chineses. E ali? Por um lado são tudo lojas de chineses (porque são chinesas)… e por outro não há lojas de tralhas como há aqui. E eu achei este paradoxo incrível, do estilo: “vamos lá levar as tralhas todas para os outros países, mas nós aqui ficamos com o que é realmente bom”. Aqueles souvenirs básicos das torres em prata/cobre, as bolinhas de neve, os pratinhos e até os típicos ímans… eram raros de se encontrar. 

    E este aparente contrassenso foi aquilo que me encantou na China e nos chineses. Eles são porcos – escarram na rua sem qualquer pudor, atiram coisas para o chão independentemente se alguém está ou não a ver – mas a cidade é das mais limpas que já conheci. Vivem num país comunista e supostamente com a economia controlada, mas aquilo que experienciei foi uma plena economia de mercado, com concorrência, diferenças nos preços e com marketing a trabalhar (algo que não senti na Rússia, em 2016, quando lá fui). É uma ditadura mas o medo e a coibição não se sente no ar – e não há, pelo menos em Shanghai, nenhum culto à imagem do líder (também nada parecido com o que vivi na antiga União Soviética). Eles estão espalhados por todo o globo, tornaram-se indispensáveis para todo o mundo… mas só deixam entrar quem querem, a dedo, num dos processos de imigração mais complicados e extensos que tive de fazer até hoje. Eles espalharam o “made in China” como uma pandemia, mas dentro de portas só vendem o que é deles. Eles são magros, mas a sua comida típica é repleta de fritos, hidratos e molhos doces (e também são muito gulosos – com uma pancada particular por palmieres). Os chineses não são simpáticos, nem sequer particularmente gentis – mas são eficazes, respondem ao que lhes é pedido e têm atos singelos de boa conduta. Parece-me ser um país de contrastes, de antíteses, de paradoxos – e isso fascinou-me. 

    Mas voltando àquilo que visitei: no Yu Yuan Market, na altura já com o Miguel, demos por nós a ser “raptados” por uma vendedora que nos levou até a um mercado nas redondezas (e catacumbas) do mercado principal. Não sei ao certo o nome nem o lugar, mas batizamo-lo carinhosamente como “A Fonte do AliExpress” – pois, aí sim, havia tralha. Todo o tipo de roupas, capas de telefone, crocs falsas, caixas para souvenirs, sacos, colares, molas de cabelo, botões, facas e utensílios de cozinha… you name it. É uma espécie de feira, mas fechada e apertada, com cubículos mínimos onde o objetivo é conseguir pôr o maior número de objetos numa “loja” de três metros quadrados. Vimos, literalmente, a embalarem as encomendas que tipicamente recebemos em casa através do AliExpress – daí o nome que lhe demos. Creio que mais do que um mercado para os locais, este é quase um sítio para retalhistas. Se estivesse sozinha tinha abortado imediatamente aquela missão – é uma das minhas regras de ouro não seguir estranhos para qualquer tipo de beco – mas como estava acompanhada decidimos ir. Não encontramos aquilo que queríamos e saímos de lá rapidinho, com medo de sermos vendidos aos pedaços. A verdade é que acabamos por lá voltar dois dias depois, no feriado nacional, altura em que havia por lá muito mais gente e acabou por ser uma experiência divertida.

     

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    Um dos cantos do Yu Yuan Market

     

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    Completamente ensopada depois de um dia que já ia longo. Aqui dentro do Yu Yuan Market, com um pequeno admirador chinês a olhar para mim – algo comum, uma vez que os mais novo não estão nada habituados a ver ocidentais

     

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    Uma das vistas do Yu Yuan Market, naquilo que já será parte do jardim

     

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    Numa das ruas exteriores do Yu Yuan Market

     

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    “A Fonte do Ali-Express” (clicar para a esquerda e para a direita para ver mais fotos)

     

    O último dia completo em Shanghai acabou por ser aquele em que apanhámos melhor tempo e que conseguimos passar juntos, na totalidade. Com a meteorologia a ajudar e com os pontos principais já visitados (principalmente por mim), decidimos ir fazer uma tour privada a Zhujiajiao, uma cidade a cerca de 60 km do centro. Shanghai é composta por inúmeras cidades que estão rodeadas por canais, estilo Veneza, e mais do que tirar partido disso como um chamariz turistico, eles usufruem internamente – é lá que vão aos fins-de-semana e que passeiam ao ar livre, longe de grandes urbanizações ou do centro movimentado. A tour ocupou toda a manhã, incluiu transfer do hotel até à cidadezinha, entradas num templo (Yuanjin Temple), casa e jardins, almoço, um passeio incrível de barco pela ria e até gelados e bebidas – tudo isto acompanhados de uma guia, que foi das coisas que mais valor acrescentado trouxe à nossa viagem.

     

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    Dentro de uma casa típica e rica de Zhujiajiao, com a estátua em forma de cavalo – um símbolo de sorte

     

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    Os adornos de toda a espécie – pontes, escadas, pequenos recantos – eram normais nestas casas, uma vez que as mulheres e as crianças passavam praticamente toda as suas vidas dentro deste perímetro, sem grande liberdade. Tinham de existir, por isso, muitos hobbies e sítios para estar, de forma a irem-se entretendo

     

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    Um jardim de bambu dentro do jardim

     

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    Os lagos são um dos princípais componentes arquitetónicos das casas ricas na China. Estar à volta de rios (ou água) e montanhas era crucial para se sentirem protegidos

     

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    Rodeada de desejos e pedidos

     

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    Não sei se visitamos a cidade numa altura especial, mas muitas das gôndolas estavam adornadas com flores, principalmente hidrângeas

     

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    O nosso gondoleiro

     

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    À falta de Veneza, “gondolamos” em Zhujiajiao

     

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    As vistas de um dos canais em Zhujiajiao

     

    Isto porque os chineses não falam inglês – ou, se o fazem, são parcos em palavras. A grande maioria das interações que tive foram por gestos – eu apontava para a comida, eles apontavam para o valor na máquina de calcular…e os negócios faziam-se. No limite usava o tradutor para conseguir fazer-me entender quando o assunto não era passível de ser gesticulado. E desenganem-se: nem mesmo no hotel falavam inglês fluentemente. Nas lojas mais turísticas também não – só o básico. Por isso eu agarrei a oportunidade para falar com a Queen, a nossa guia, com unhas e dentes. Apesar de ter adorado a experiência de visitar Shanghai sozinha, senti falta de ter alguém com quem trocar impressões ou opiniões. Então tinha muitos pensamentos e dúvidas guardados em mim, oriundos daquele par de dias solitários, e decidi questionar a guia sobre tudo aquilo que tinha ficado por resolver na minha cabeça – desde coisas mundanas até às mais inusitadas (que me valeram até reprimendas do Miguel – foi só uma, na verdade, quando perguntei que tipos de carnes é que os chineses comiam… e quando sugeri se ratos não estariam no menu ). Quis perceber como era a vida, se saíam de casa dos pais cedo, se o custo de vida era elevado, se tinham livre acesso às escolas e universidades, como é que neste momento se posicionavam em relação aos filhos (depois de tantos anos com a política do filho único) e afins. Foi uma conversa muito interessante e enriquecedora. É difícil ter acesso a um chinês que esteja disponível e aberto para responder às nossas questões, por mais parvas que pareçam – não só pela barreira linguística mas também porque não são um povo dado ou disponível para grandes conversas.

    Nós marcamos este tour através do Viator. Também foi nesta plataforma que marcamos o transfer que nos levou do aeroporto até ao hotel, quando chegamos. Nunca tínhamos utilizado mas ficamos clientes – e, na China, é sem dúvida um bom investimento. Não só porque os preços não são exorbitantes (principalmente tendo em conta tudo aquilo que oferecem), mas porque fazer viagens mais longas em táxi é terrível. Foi aquilo que menos gostamos lá. Os chineses conduzem, na sua generalidade, como uns loucos – mas os taxistas são, claramente, a pior espécie. Estão sempre à conquista de um segundo extra na viagem, como se estivessem permanentemente a ser perseguidos por uma polícia invisível. Os carros estão todos sujos, cheiram mal (na China fuma-se imenso e só há pouco tempo é que impuseram algumas regras, nomeadamente nos quartos de hotel, que proíbem o fumo em certos sítios), a comunicação é muito difícil (é preciso ter sempre o nome do hotel escrito em chinês e, de preferência, o táxi deve ser marcado por alguém que fale mandarim, para não haver dúvidas) e o sentimento de insegurança é generalizado. Perdi a conta à quantidade de acidentes que achei que íamos ter nos vários táxis que tivemos de apanhar – era viajar com o coração nas mãos. Marcando transfers a parte da comunicação – pelo menos o essencial, como os sítios de recolha e de poiso – fica automaticamente tratada e as condições são muito melhores; andamos sempre em vans, com autênticas poltronas atrás, em pele e com todas as comodidades (incluindo ar condicionado, que é coisa que eles não usam muito lá, apesar de fazer um calor dos ananáses).

    Mas voltando à tour: todo aquele contexto que me faltou quando visitei o primeiro templo, aqui tive em barda. Foi óptimo! O povo chinês é cheio de superstições e tradições, atribuindo significados a tudo – penso que era algo a que ligavam mais no passado, mas ainda hoje mantêm alguns costumes e ideias. As portas têm um formato específico para atrair a sorte; normalmente há sempre uma trave no fundo das portas, não só por questões práticas como prevenir inundações, mas também para não entrarem maus espíritos; os anos do dragão e do touro são aqueles em que há mais natalidade, pois são aqueles em que os rebentos têm melhores características (eu sou do ano do porco, o que a Queen diz que também não é mau, “pois não tenho de fazer nada pela vida, é só comer a comida que me atiram”), e o ano do coelho é bom para nascerem meninas; têm quatro flores que significam as quatro estações do ano (a orquídea na primavera, a flôr de lotus no verão, o crisântemo no outono e o “plum” – creio que uma espécie de flôr de cerejeira – no inverno); têm uma série de símbolos que é conveniente ter em casa – nomeadamente os três homens sábios (Fu, Lu, Shou), que devem estar estrategicamente posicionados para trazerem sorte, prosperidade e longevidade à família que lá viva. São inúmeras as tradições e superstições que têm, todas elas giras e enriquecedoras, que nos permitem olhar para os edifícios e até para o povo de uma forma diferente.

     

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    Pelas ruas de Zhujiajiao

     

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    Zhujiajiao está repleto de pequenas pontes onde conseguimos ter vislumbres das casas “reais” chinesas

     

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    Varandas, ar condicionados, roupas estendidas e muitas plantas – em tudo semelhantes a nós 😉

     

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    Dentro do Yuanjin Temple, num dos vários locais de oferendas

     

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    Os canais vistos de dentro do templo

     

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    Happy girl!

     

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    Dentro de outra das casas que visitamos. Os chineses são loucos por pedras e as suas formas, colocando-as a adornar espaços tanto interiores como exteriores (aqui, na margem do lago). As janelas sao muitas vezes redondas de forma a enquadrar a vista e torná-la ainda mais bonita

     

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    Fu, Lu, Shou – os três homens sábios que trazem sorte, prosperidade e longevidade para dentro de uma casa. Comprei uns em ponto pequeno e foram o souvenir que trouxe para mim, de lá 

     

    No dia da viagem ainda deu para mostrar ao Miguel o bairro de Tianzifang e de passar na rua Fangbang, a parte mais antiga de Shanghai, que acaba por nos levar de novo ao mercado de Yu Yuan. 

     

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    O arco de Fangbang

     

    O que ficou por visitar e fazer:

    – Templos: Jing’an, Jade Budha (dizem ser o mais bonito), Confucio, Longhua Temple (que tem uma pagoda).;

    – Visitar o Yu Yuan Garden, o maior e mais famoso de Shanghai, que fica no mesmo quarteirão do mercado;

    – Subir a uma das torres em Pudong (a Oriental Pearl Tower, o Shanghai World Financial Center, a Jinmao Tower e a Shanghai Tower);

    – Fazer um cruzeiro no rio Huangpu;

    – Ir ao Fake Market e ao Outlet (Shanghai Village);

    – Visitar outras pequenas cidades, como Qibao, Suzhou e Hangzhou.

     

    Eu, no fundo, passei quatro dias inteiros na cidade – três deles em passeio. Diria que o essencial ficou visto, mas gostava de ter ido ao jardim Yu Yuan, subir a uma torre e visitar Suzhou (que dizem ser a Veneza Chinesa, por também ser rica em canais) e Hangzhou (que é supostamente uma das pequenas cidades mais bonitas ao redor de Shanghai). Tendo em conta que passei algum tempo a repetir locais para mostrar ao Miguel, diria que cinco dias bem batidos – daqueles em que se aterra diretamente na cama depois de muitas horas de passeio – chegam para ver a cidade e arredores. Seis dias é, talvez, o ideal para se poder vivenciar tudo com calma – e, já agora, para poder controlar um bocadinho o jet lag. Nunca na vida tinha feito uma viagem tão longa em tão curto espaço de tempo (saímos de Portugal numa sexta-feira e voltamos na sexta seguinte) – e uma maluquice destas é só mesmo para quem estiver com vontade e espírito, porque o corpo ressente-se (independentemente da idade). Acho que, viajando com tempo, o ideal é fazer uma paragenzinha no Dubai ou, depois da China, ir descansar uma semana para a Tailândia, que é literalmente ali ao lado (e os voos são baratos!).

    Se eu voltava a repetir uma façanha destas em apenas uma semana? Voltava. Se valeu a pena? Valeu. Gostei muito! Vim com mais força e mais inspirada para trabalhar – e, na verdade, para viver a vida.

    Sinto que falar bem da China está quase ao nível de falar bem da Rússia ou da Coreia do Norte – talvez seja o exemplo mais brando, em que as opiniões não são tão fortes, mas não diria que o Ocidente tem uma visão positiva dos chineses. E, acima de tudo, hoje apercebo-me mais do que nunca que estamos carregados de preconceitos. E por isso é que desde que cheguei que, quando demonstro o meu entusiasmo e a minha opinião, sinto que estou a ir contra a corrente e a dizer coisas que as pessoas não querem ouvir. Mas a verdade é uma: se criticamos a repressão nestes países, sendo nós (neste caso, eu) livre, posso expressar aquilo que senti e vivi. E a verdade é que foi um país onde me senti sempre segura (vá, tirando nos táxis) e onde tudo era ordenado, bem sinalizado e civilizado – com todas as atenuantes óbvias e por vezes desconfortáveis que existem por ser uma cultura muito diferente da nossa. Se eu acho correto estar a ser vigiada por vinte câmaras num poste de eletricidade a cada cruzamento onde passo? Se me perturba o controlo que há sobre tudo o que se visita na internet? Se me chateia a ideia de ser vigiada, física e virtualmente? Se pensar muito no assunto a fundo, sim. Mas, na realidade, é-me honestamente indiferente – porque tenho a plena consciência de que também acontece cá, mas de forma dissimulada. Mal por mal, prefiro que as instituições tenham os tomates para tomar as suas posições e que deixem de ser  uns diabos em forma de anjo… até nisso gostei da China! Ao menos assumem o que são. 

    Por isso, fica a dica: podendo, visitem Shanghai, porque muito do que ouvimos em relação a este país é ruído – há muito por onde criticar, desde decisões políticas, económicas e ambientais. Mas o melhor é mesmo tirarem as vossas próprias conclusões tentando conhecer melhor a realidade de perto. Não tenho dúvida que, para mim, foi a surpresa do meu ano – e um rebuçado dado meio que à pressa mas que soube muito, muito bem.

    Em breve trago outro post com dicas úteis e curiosidades.

     

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    Num dia bem mais concorrido e de céu mais limpo, na parte mais concorrida do The Bund

     

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    Na Torre do Memorial dos Heróis do Povo de Shanghai, que fica no início do The Bund South, após a ponte. É uma estrutura grande mas semelhante a tantas outras que celebram feitos bélicos

     

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    Provavelmente uma das passadeiras mais movimentadas de Shanghai: a que liga a Rua Nanjing ao The Bund. Isto foi no feriado, dia em que aparentemente todos os chineses saíram à rua

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  • Desistir não é para fracos

    Há uns dias a minha cunhada, com a melhor das intenções, disse-me: “mas tu não és de desistir, vais ver que vais conseguir!“. Na altura encolhi os ombros e torci o nariz, retorquindo: “não é bem assim, mas…”. Não me quis alongar na explicação – a ocasião não era propícia e o tempo era escasso. Mas a verdade é que aquela frase me voltou a trazer uma reflexão que eu já tinha tido há uns largos meses, a propósito de um outro assunto. Mas se da primeira vez guardei as reflexões para mim, achei que à segunda tinha de ser de vez. Hoje venho escrever-vos sobre desistir. Desculpa, Ana, por estar a usar o teu positivismo e força para um propósito completamente diferente – mas dar-nos um mote para pensar a fundo sobre os assuntos também é algo de que nos devemos orgulhar. 😉

    Vamos, por isso, pôr as cartas em cima da mesa: eu não acho que desistir seja necessariamente uma coisa má. A palavra está conotada muito negativamente, como se fosse sempre uma derrota; como se tivéssemos de atingir um limite (in)visível em que de facto já não há mais nenhum percurso, atalho ou caminho de cabras por percorrer; como se não acreditássemos à partida nas nossas capacidades. Mas e se for, na verdade, uma assunção muito consciente das nossas limitações? E se fôr uma desistência consciente, para bem de nós próprios e da nossa saúde mental? 

    Faz-me aflição de que só nos deixem desistir quando chegamos ao fundo do poço – quando, se calhar, a meio do caminho já sabíamos que não iríamos ter forças para escalar as paredes pelas quais estávamos a descer. Faz-me confusão que, perante a crença de que um negócio não tenha pernas para andar, não seja permitido a um empresário fechar uma empresa mesmo que esta tenha liquidez financeira e que seja, ainda, economicamente viável. Faz-me uma impressão imensa ouvir os PT’s a gritarem aos seus alunos para não desistirem, que só falta mais um minuto de prancha, porque de certeza absoluta que aguentam uma vez que os limites estão só nas suas cabeças. 

    Se é verdade que às vezes temos força para ultrapassar aquilo que achamos que são as nossas limitações, outras também há em que desistir é mesmo a opção certa. Qual é a linha que separa? Qual é o limite do positivismo tóxico e da esperança que se transforma em fé desmedida? Acho que só cada um de nós, no seu interior, consegue descobrir. E nunca é linear – vai haver situações em que de facto seríamos capazes de ir mais além e noutras em que teremos de perceber e respeitar os nossos limites.

    De um ponto de vista externo, eu sou capaz de detetar algumas situações em que a linha é ultrapassada: lembro-me de ver, nos últimos jogos olímpicos, o vencedor de um triatlo a atirar-se para lá da meta e a vomitar-se todo, caindo praticamente desmaiado logo após a fita ter sido traçada – para mim, aí, foi ultrapassado o limite do razoável. Recordo-me de ver na televisão milhares de trabalhadores da fileira têxtil a reclamarem por salários em atraso de empresas que abriram falência – e eu sei que se as decisões tivessem sido tomadas antes, com a frieza e antecedência devida, muito daquilo podia ter sido evitado. Porque “desistir” faz parte deste caminho que é a vida, da mesma forma que “começar”, “recomeçar” e “tentar” também. Porquê atribuir-lhes conotações tão diferentes? Se não desistíssemos de nada não havia ciclos fechados e outros tantos não poderiam ser criados ou recomeçados.

    A conversa com a minha cunhada vinha a propósito de uma fase complicada que atravesso ao nível de trabalho. Como desistir está, de facto, no meu vocabulário, esta foi uma opção que equacionei – mas que, depois de ponderar, pus de parte. Enquanto fizer sentido para mim, continuarei neste papel em que me imiscui e que acarreta responsabilidades que nem sempre são fáceis de gerir, muito menos em períodos de crise. Mas, curiosamente, aquele comentário bateu mais forte pois veio dois dias após uma desistência pública que me custou particularmente: no último recital de piano, das dezenas em que já participei, foi a primeira vez em que desisti de tocar a peça. Desisti a meio. Já a tinha recomeçado, depois dos atropelos iniciais (normais, devido ao nervosismo que uma apresentação pública destas implica); mas na segunda vez, após perceber que me estava a perder completamente, parei de tocar e soltei o pedal. As cordas do piano pararam de vibrar e só se ouviu silêncio. Respirei fundo de forma a ganhar coragem para defrontar a pequena plateia que ali estava, saí por detrás da pauta e expliquei que já tinha experiência suficiente para perceber que aquele não era o dia certo para tocar aquela peça, que não me ia sair. Provavelmente teria sido mais fácil continuar a tocar, melhor ou pior, e chegar ao fim – mas eu não queria apresentar algo que não era o reflexo do meu estudo e do meu esforço. Eu toco bem – e não queria tocar mal só para dizer que não desisti. Fi-lo com dor, esforço e uma ponderação de micro-segundos – mas foi a decisão certa a tomar. O meu sistema nervoso é uma limitação real, que me afeta não só naquela situação mas em tantas outras na minha vida, e eu sabia que não era por tentar dez vezes que a situação iria melhorar. 

    Por muito que não gostemos de admitir, nós temos limites. Adoramos esticar a corda, celebramos de cada vez que os ultrapassamos… mas tendemos a esquecer a dor do estiramento, de todas as vezes que correu mal por não (n)os termos respeitado. Porque aquilo que fica na memória acerca do campeão de triatlo é a medalha que trouxe ao peito e não as (prováveis) inúmeras vezes que acabou a vomitar nos treinos. Mas será que esta balança está equilibrada? Será que vale tudo?

    A primeira vez que quis escrever este texto foi a propósito de uma aventura no Gerês, da última vez que lá fui acampar com o meu irmão e companhia. Numa das nossas saídas decidimos ir à barragem e alugar uma mota de água; eu pus-me logo de parte, disse que preferia ver de longe, que dispensava andar. Eu tenho um problema claro com a falta de controlo – e, neste caso, embora até pudesse ser eu a conduzir a mota, não me sinto segura em aparelhos que acho por si só inseguros e que atingem velocidades que, na minha cabeça, são desproporcionais e arriscadas. (O facto de ter ficado traumatizada com veículos aquáticos motorizados, na minha viagem aos Açores, não ajuda à causa). Nunca tinha experimentado a mota, mas não era algo que compensasse sequer o risco de tentar. Mas a verdade é que me chatearam tanto para eu ir dar uma volta de três minutos que eu cedi e fui ao pendura, agarrada ao Miguel.

    A verdade é que, quase um ano depois, me recordo de pouco: lembro-me de o agarrar como se a minha vida dependesse disso, de ir quase sempre de olhos fechados e a gritar-lhe aos ouvidos para ele abrandar (sendo a resposta dele: “mas eu não posso ir mais devagar…!“, o que era provavelmente verdade). A volta foi muito curta, mas quando saí da mota as pernas não se aguentavam sozinhas. Tremia por todos os lados, sentia o desmaio ao virar da esquina e um mal-estar generalizado. E, lá no fundo, ainda a parte física não tinha sequer estabilizado, e já se começava a cozinhar uma sensação profunda de fúria para comigo mesma: porque raio é que eu fui? Porque é que, por pressão externa, cedi a algo que sabia que não ia ser positivo para mim? Porque é que estraguei as próximas horas – que se passaram com todas as consequências de uma descarga de adrenalina e uma quebra de tensão – se já sabia que não ia gostar? Para fazer a vontade aos outros? Para dizer que fui?

    Na altura, como faço sempre, “escrevi” vários trechos mentalmente sobre este tópico – mas nunca os passei para aqui. Mas hoje achei que seria pertinente. Porque a desistência está altamente relacionada com os nossos limites – tanto os que imaginamos como aqueles que realmente temos. E não há problema em conhecermos os nossos limites, respeitá-los, aceitá-los e impormo-nos em prol deles. Não há problema se os conhecermos de raiz e não subirmos, pura e simplesmente, para cima da mota de água – assim como não há problema em perceber as coisas a meio do caminho, descobrirmos limites que até então desconhecíamos, e desistir a meio de um projeto se acharmos que ele não tem viabilidade futura. 

    Para mim, a capacidade de erguermos a cabeça e de assumirmos que desistimos é tão legítima e poderosa como a de continuarmos a andar em frente, indiferentes ao medo, às más línguas e a contextos infelizes. Os dois caminhos são válidos, ambos têm valor. Só nós é que podemos ver qual é a linha que separa – e só nós, em cada um dos nossos trilhos individuais, é que temos o poder de deixar de atribuir de forma literal uma desistência a uma derrota. Porque não são sinónimos. Porque uma desistência pode valer mais do que muitas medalhas; pode valer mais do que uma salva de palmas. Na verdade, pode valer-nos muita saúde mental e qualidade de vida – tal e qual como ir à luta. 

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  • Chávena de Letras: “All Aboard Family”

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    Comprei este livro online, sem nunca o ter folheado; sigo há relativamente pouco tempo esta família e achei que o livro “viajaria” por alguns destinos que tinha na minha lista a curto prazo, pelo que achei que seria uma boa ajuda e que poderia seguir de guia. Não aconteceu.

    A qualidade física da edição é evidente, entre papel e capa. Mas mal abri o livro e olhei para a fonte escolhida (e o tamanho e o espaçamento), não gostei do que vi; o meu primeiro pensamento, ainda que um pouco exagerado, foi que se parecia a um livro de crianças.

    Não costumo ler livros sobre viagens (sejam crónicas ou relatos simples) – embora seja um estilo que aprecie e que tendo a fazer muito -, mas infelizmente não acho que este seja um bom exemplo. Primeiro porque, sendo um livro, esperava relatos extensos, descritivos, que acrescentassem algo; percebo que nas redes sociais não haja espaço para grandes escritos (nem paciência dos leitores) mas, com um livro, a predisposição é diferente – e, na minha perspectiva, era exigido mais. Nesta obra tudo fica pela rama. Faltam coisas simples – em que hotel ficaram, qual é o nome do santuário de elefantes a que foram, qual é a moeda usada em cada país, etc. Tanta coisa…

    Para além disso, falta edição. É gritante a ausência da mão de um editor. Apontei uma frase como exemplo: ” Numa pausa rápida para almoço, tínhamos um buffet com banana assado, vários tipos de arroz, vários tipos de carnes e peixes e vários tipos de molhos”. Vários de vários de vários. Repetições constantes. Escrita muito pouco coloquial (com o uso excessivo da palavra “coisas”, por exemplo – uma muleta que é muito usada na oralidade, mas que num livro devia ser poupada) e falhas ao nível da pontuação.

    Acredito que esta família tenha muito para contar – e é óbvio que, com filhos às costas e um doente renal, são uma fonte de inspiração para muita gente, que faz de pequenos pormenores autênticos obstáculos, quando não tem de ser assim. Mas um livro não é um post no Instagram ou num blog; um livro pede mais. Ou, pelo menos, devia.

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  • Viver em dieta é duro

    No início do ano passado eu e o Miguel começamos, juntos, uma jornada para emagrecer – ambos perdemos quase uma dezena de quilos cada (ele um bocadinho mais, eu um bocadinho menos). Na altura eu já estava a tentar perder peso recorrendo à prática regular de exercício físico (falei disso aqui) mas os resultados só vieram depois um corte drástico na alimentação. E foi duríssimo. Eu chorava a pensar em croissaints, pastéis de nata e pizzas. O pior não é o não comer – é saber que não podemos comer; é mais a proibição do que a privação. As primeiras duas semanas foram um autêntico pesadelo, mas o corpo acabou por se habituar à ausência de açúcares e a um corte muito substancial nos hidratos. Quando cheguei aos 60kg senti que conseguiria conquistar o mundo; foi das sensações mais poderosas que tive, uma das maiores vitórias que já havia sentido. Perder quase dez quilos foi sinónimo de remar contra a maré, de superar vontades, desejos e compensações; foi trabalho de muita cabeça e determinação, muito suor e muitas lágrimas – tudo trabalho meu, orgulho meu, louros meus.

    Mas eu sabia que a manutenção ia ser o problema. Após a dieta a nossa alimentação do dia-a-dia nunca voltou para trás; nunca regressamos ao Uber Eats e raramente cheirava a pizza lá em casa, nunca mais voltei a pôr batatas nos assados ou a fazer arroz de acompanhamento. Mas, para bem de um cardápio mais diversificado, voltei a introduzir pratos que, por si só, não são assim tão light: a lasanha, a massada de peixe, o arroz de pato e as almôndegas com massa (ainda que sempre pesada na balança, para não ultrapassar a quantidade de hidratos desejada). Pelo meio, uma metade de pão ao almoço e ocasionalmente um pedaço de sobremesa. E é lógico que, entrando o verão, houve gelados à mistura e muito mais saídas fora, onde todos os fatores pró-calóricos são mais difíceis de controlar. E, num ápice, chega o Natal. Quando vou à balança depois das festas, tinham-se passado praticamente nove meses do meu pico de forma, o meu peso tinha praticamente voltado ao anterior à dieta. Durante esse período de tempo mantive sempre o exercício físico, com uma média de quatro a cinco treinos por semana, mas mesmo assim aquilo voltava a acontecer-me.

    Dei com a cabeça nas paredes. Tentei, durante os primeiros meses do ano, fazer um meio termo – reforçar o exercício e controlar a comida, mas sem cortes drásticos. Não funcionou. Tive de tomar uma decisão: ou continuava naquele caminho, que provavelmente continuaria numa linha ascendente independentemente dos meus esforços, ou punha outra vez um ponto final nesta história – e desta vez sozinha, pois o meu marido só precisa de uma dieta se o seu objetivo for desaparecer.

    Foi uma decisão complicada que tive de ponderar com cuidado; tive de escolher entre encarar um corpo que não estava conforme o que eu queria e uma gestão emocional ainda mais precária do que a que já tinha. Este ano tem sido difícil e duro desde o seu início, sem dar folgas. Quando olho para trás não consigo ter capacidade de recordar muitos momentos bons. A maioria dos que tive foram construídos com cuidado e de propósito, não foram simples ocasiões da vida. Aquilo que me lembro é de ir a Viana do Castelo de manhã e de comer uma bolinha de berlim no Natário, quentinha, acabada de sair do forno; aquilo que me ficou foi o ritual que eu e o Miguel construímos para nos obrigarmos a sair de casa, da nossa bolha, e ir dar um passeio ao Porto, comer um cachorrinho no Gazela e depois uma natinha quente em Santa Catarina. No fundo, o pouco conforto que senti neste ano ríspido foi proporcionado por momentos que envolveram comida – e era disso que eu me ia privar, daquele que às vezes era o único aconchego do meu dia.

    Eu não diria que tenho uma relação complicada com a comida. Há, sequer, relações boas? Normais? Eu acho que cometo os mesmos erros dos outros – se estou triste como para compensar o facto de estar assim, se há algo para festejar como porque o evento tem de ser comemorado com algo bom. A diferença é que não tenho a capacidade para abater aquilo que como, mesmo fazendo exercício diariamente. Mesmo não bebendo refrigerantes, mesmo não bebendo álcool, mesmo não comendo nada após o jantar. O meu organismo é o meu principal inimigo e é algo com que vou ter de lidar a vida inteira.

    O problema aqui é que a comida é mais do que isso; não serve só para nos alimentar o corpo e, quiçá, a alma. A comida faz parte de diversos ecossistemas, nomeadamente o social. Ir a uma festa de anos e não comer uma fatia de bolo de aniversário é quase rude. Ir a um restaurante de francesinhas e pedir um bife de peru é quase ridículo – já para não falar de doloroso. Ir à praia e não comer um gelado quase faz parecer que não estamos a usufruir do pacote completo. Muitos dos nossos planos sociais, quer envolvam muitos amigos ou só o nosso marido, envolvem comida de alguma forma – e desconstruir isso é, por si só, difícil e doloroso. É mais fácil construir planos novos, limpos de açúcar e tentações, do que tentar alterar coisas que já estão enraizadas em nós como sendo dados adquiridos. 

    Numa fase em que os problemas de trabalho tomaram conta da minha vida quase por inteiro e com a tendência que tenho de me fechar na minha própria bolha, isto é um problema. Eu sei que preciso de sair e espairecer, mas só em casa é que eu tenho o controlo do conteúdo das prateleiras e do frigorífico, onde sei que nenhuma tentação me poderá fazer sair fora do caminho. Eu não quero ir ao Porto porque sei que não posso comer natas ou cachorrinhos. Eu não quero ir dar um passeio à praia porque sei que não tenho direito a gelado. Eu nem sequer quero ir ao restaurante, onde já antecipo a ideia de ter pessoas à minha volta a comerem sobremesas que eu não posso comer. 

    Estar em dieta é mais do que a simples privação de comida. É, inevitavelmente, a escassez do conforto interior que a comida nos traz – mas também o corte de muitos planos de fuga que utilizávamos para nos fazer sentir melhor, que por uma razão ou outra incluíam algum tipo de comida. É um estreitar de opções. É a necessidade de usar umas palas, como as dos cavalos, para não podermos olhar para o lado e evitar morrermos um bocadinho por dentro. Fazer dieta é saber que a relação com o espelho melhora mas que o preço a pagar é alto, porque a alma dói.

    Há pouco mais de um mês decidi voltar a enveredar por este caminho porque achei que, mesmo estando mentalmente debilitada, seria o melhor para mim. É curioso ver as diferenças entre este ano e o anterior; a relação com a privação está a ser muito mais pacífica e a determinação e a capacidade de dizer que não também; o que me tem custado mais é mesmo a erradicação de determinados planos e passeios que me nutriam a alma e me faziam esparecer a cabeça. Na maioria dos fins-de-semana dou por mim a não sair para não comer – mas já dias houve em que, em prol da minha saúde mental, dei um aval para uma asneira ou outra.

    O esforço tem sido recompensado e tenho vindo a emagrecer progressivamente. O plano é ter, pelo menos, mais um mês de restrições pela frente – que não vai ser fácil, tendo em conta que o Sr. de Matosinhos está aí ao virar da esquina. Sendo esta a minha romaria preferida do ano, não é algo fácil de prescindir – nem eu tenho grandes intenções disso; terá de ser troca por troca – um churro por mais 15 minutos de bicicleta. 

    Com calma sei que isto vai lá – mas “calma” não pode ser sinal nem de lentidão nem de facilitismos, porque já sei que ao mínimo deslize o plano pode ir por água abaixo. Sei que chegarei ao meu objetivo, mas o meu medo é sempre o mesmo: o futuro. Eu ainda não sei qual é o meu ponto médio, o equilíbrio que me permite comer algumas das coisas de que gosto, compensando com exercício, e culminar sem aumentar de peso – e, até aprender, temo muito por este yo-yo em que vivo nos últimos anos. 

    Quem me rodeia diz-me sempre que estou bem, que o peso não se nota, que nunca diriam que tenho o s quilos que a balança indica. Mas a verdade é uma: eu, sem me aperceber, vou aumentando. É aquilo que me é natural – e eu conheci alguém exatamente assim, com o mesmo estilo de corpo que eu, com um metabolismo que a levava a engordar com facilidade. Era a minha avó, que sempre foi gordinha desde que tenho memória, e cuja mobilidade foi sempre muito reduzida devido ao peso que tinha de carregar nas pernas. Esse não é o futuro que eu quero para mim – e sei que se chega a este estado de uma maneira mais rápida do que parece. No que toca ao peso, andar para a frente é sempre fácil; mas quando queremos engrenar a marcha-atrás… só aí é que se vê de quantos cavalos é que somos feitos. Por isso o plano é continuar a andar para a retaguarda, mas tendo sempre em vista o futuro; é saber que o sacrifício de hoje é a vitória de amanhã. Mas a verdade é uma: os minutos de sacrifício são intermináveis e o amanhã parece a anos de distância. A privação é dura. Mas eu também.

     

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    (imagem daqui)

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  • E tu, já reclamaste do IVA hoje?

    Não me considero reacionária ou contestatária por natureza; sou participativa e acho muito importante sê-lo, politicamente, para a saúde de qualquer país – mas também percebo quem não o faz, porque às vezes não há tempo e muito menos paciência para os joguinhos de que somos alvo (enquanto povo), não tendo outra alternativa senão estar constantemente a pensar mais além para perceber segundas (e terceiras e quartas e quintas) intenções e ler por entrelinhas as artimanhas em que aparentemente todos os políticos estão metidos. Não estou satisfeita com o estado em que vivemos mas não me queixo muito porque, honestamente, não tenho nenhuma sugestão melhor para dar; as eleições nunca caem para o lado que eu quero, mas tendo em conta que o respeito pela escolha do povo de uma nação é a base da democracia, deixo-me seguir e ir lidando com aquilo que, no meu ponto de vista, os outros mal escolheram. Isto para dizer que nunca fui a uma manifestação, nunca fiz greve (esta tinha graça!) nem parte de um protesto coletivo, mas que sempre fui votar e que em meios mais privados não deixo de dar a minha opinião (às vezes de uma forma demasiado aguerrida).

    Mas passemos ao tema em concreto: confesso que quando Espanha baixou o IVA em alguns produtos eu achei uma boa ideia. E é, se fôssemos todos pessoas decentes e com boas bases, como aquelas que descrevi num texto que aqui deixei há dias. Mal se começou a aprofundar a ideia em Portugal eu vi logo que ia dar asneira e dei a mão à palmatória sobre as vezes em que, em algumas discussões, achei que esta seria uma boa medida. 

    Entretanto a lei entrou em vigor. E eu repito que disse: não sou contestatária, mas sou participativa. E, acima de tudo, gosto muito de ser coerente – e de ver coerência. E transparência. E se eu tento sempre apoiar os pequenos negócios – porque eu própria tenho um -, esta medida veio mostrar a podridão em que a sociedade se encontra, dos grandes aos pequenos negociantes. Acho que os supermercados têm uma margem menor para trafulhices neste campo, porque o seu peso obriga a que as instituições responsáveis estejam de olho bem aberto para apregoar que aquilo que o governo decreta está a ser bem feito; mas nos pequenos negócios – padarias, mercearias e etc., o cheiro a podre sente-se de longe. 

    Numa semana fiz duas reclamações – numa delas, ainda dei uma aula de matemática para explicar como se deviam fazer as contas ao preço de uma regueifa. Se caiu em saco roto? Certamente. Se eu senti que tinha de o fazer? Também. Porque comigo as cantigas que tenho ouvido não me enchem os ouvidos: “veja aqui no talão como diz «produto com isenção de IVA» “, “ah, mas o preço das coisas é que aumentou, isto não fica nada é para mim” e “o patrão disse que não valia a pena baixar o preço das carcaças, também é só um cêntimo…”. 

    Quando às vezes dizem que Portugal devia ser como a França, que sai em peso para a rua, causa motins e se faz ouvir a toda a força, eu não concordo. A pasmaceira deste cantinho à beira-mar plantado faz parte da nossa beleza e, acima de tudo, da segurança que sentimos quando pomos um pé fora de casa. E eu acredito que há ferramentas para nos fazermos ouvir – tanto aquelas previstas pela lei como algo tão simples como chamar o gerente da loja e explicar, educadamente, que não temos a palavra “burro” escrita na testa. Mas sei que não as usamos porque sentimos sempre que não vai valer a pena. Não vale a pena o tempo que perdemos, não vale a pena a revolta que sentimos no peito e aquela sensação que nos acompanha e potencialmente nos estraga o resto do dia.

    E é por isso que eu, com 28 anos e à frente de uma empresa (e, por isso, obrigação de saber como funciona o IVA e de fazer as contas), sinto-me na obrigação moral de reclamar. Primeiro por ser nova, ter sangue na guelra e paciência, tempo e disposição para me chatear caso chegue a esse ponto; segundo por saber do que falo e poder fazer as contas à frente de quem me contestar. Este post serve como incentivo e pedido para fazerem o mesmo – para que, com 25, 50 ou 70 anos, se predisporem também a deixar um recado verbal ou uma nota no livro de reclamações; a informarem-se sobre o funcionamento basilar da nossa economia, porque vai certamente afetar o vosso bolso. Eu acredito que se formos muitos a sermos vocais sobre a nossa insatisfação e a demonstrar que sabemos do que falamos, alguma coisa há-de mudar. A união faz a força – mas não tem de ser na rua, nem tem de ser à força.

    Acima de tudo, aquilo que eu sinto neste caso em particular não é só a nossa típica inércia às injustiças de que somos alvo, mas também falta de capacidade para perceber que estamos a ser enganados. Falta-nos literacia económica e financeira que possa alavancar bons e válidos argumentos. O IVA, o IRS e o funcionamento do estado em geral deviam ser algo ensinado nas escolas básicas – e como não o é, a maioria das pessoas fica-se pelo mero conhecimento da sigla. Acho que tudo isto é uma boa desculpa para pesquisarmos e percebermos o funcionamento das coisas – e, depois, predispormo-nos a ajudar na aplicação da lei. Porque isto, como quase tudo, sai do nosso bolso – e, como diz o ditado, “grão a grão enche a galinha o papo”; mas à mesma velocidade o nosso se esvazia. (E acreditem que o patrão da cadeia “O Molete”, que diz que “não vale a pena baixar o preço da carcaça porque é só um cêntimo”, está com o papo bem recheado).

    Acho que o slogan do Compal Essencial, quando surgiu na televisão, atravessou gerações: “e tu, já comeste fruta hoje?”. Apliquem-no ao IVA também. Façam as contas. Reclamem. No limite, se não o fizerem com a esperança de mudar alguma coisa, façam-no para demonstrar que neste jogo do Quem é Quem, não somos nós que temos “burro” escrito na testa, mas que facilmente damos a pista para que os outros descubram a sua: “ladrões”.

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